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O Discurso do 10 de Junho (2)

por jpt, em 11.06.19

antónio nóvoa 120610-PR-1174.jpg

Acordo antes das 3 da manhã. Insone, mas estremunhado. Tanto que não consigo ler - nem o Integral 1 de Gil Jourdan com que me estou a deliciar. Coisas da idade, pois, como todas as manhãs, acordo de olhar embaciado, precisarei de trocar de óculos, está ... visto. E por isso, até porque a noite ainda será longa, trago o computador para a cama, coisa rara. E percorro o FB, passatempo que sonho soporífero. Nisso noto que lá longe, na Pátria Amada, imensa gente comenta o discurso de João Miguel Tavares nas cerimónias do 10 de Junho. Muitos encómios, dextros. E muitos apupos, canhotos. Tantos são estes que procuro o que também diz aquela gente que não está nas minhas ligações, os veros sinistros canhotos - os "conhecidos", administradores não executivos, bloguistas jugulares, deputados filósofos, esse malvado cerne nunca-ex-socratista. Estes pateiam, em uníssono e com vigor, o discurso do colega de Ricardo Araújo Pereira. Como tal vou ouvir o que o homem disse. E reconheço-lhe a argumentação, lembra-me outro discurso de 10 de Junho, um que fez época, e há bem pouco tempo. 

Na alvorada blogo sobre o assunto, o postal O Discurso do 10 de Junho. Aludo ao discurso de João Miguel Tavares e ao repúdio socialista que gerou. Um discurso que foi muito lido: o "Observador" anuncia que foi um texto imensamente partilhado (a esta hora que escrevo o sítio desse jornal anuncia 41 mil partilhas do texto). No discurso de Tavares reconheço o que há poucos anos outro convidado disse. Quase sem tirar nem por. E cito-o, deixando ligação para o seu texto, identificado na origem, mas deixando entender que se tratam das palavras de João Miguel Tavares - de facto são ... quase. Trata-se do discurso de 2012, de António Sampaio da Nóvoa. Que então foi apupado pelos apoiantes do governo em exercício - diga-se, com honestidade, que Nóvoa fez uma crítica ao "estado da arte" mas elidiu o processo que conduziu à penosa situação de então, um caso típico do "com a verdade me enganas". E deu-lhe também um tom corporativo, defendo a universidade, coisa legítima mas apoucando a abrangência da análise.

Mas o relevante é que então foi completamente sufragado, aplaudido, pela oposição, pelos socialistas em particular - tanto que o então reitor acabou por ser o efectivo candidato presidencial do Partido Socialista, aquele discurso foi-lhe trampolim para uma (efémera) participação política mais explícita. Repito, hoje de madrugada citei-o sem referir o autor, e deixando entender que eram as palavras de Tavares, mas com ligação para o texto original, que tem no cabeçalho a identificação do autor:

"Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa (...) Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização. (...) não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.
Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas. (...) A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos. (...)  os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”. (...)

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si: - Num sistema político cada vez mais bloqueado; - Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício; - Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial. (...) Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade. ( ...) não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego."

Estas palavras, a reflexão sobre os problemas estruturais portugueses, são, de outra forma, com outra ênfase porventura, aquilo que agora Tavares anunciou. A parecença é tão grande que durante o dia - tendo eu publicado no meu blog "O Flávio" e no colectivo Delito de Opinião, assim abarcando cerca de 2000 visitas - ninguém apontou ou protestou a disparidade autoral. Mesmo tendo o texto de Tavares sido tão partilhado. Mesmo tendo eu posto adenda ao postal (e também no facebook), apelando a que se lesse o texto original - assim percebendo a diferença autoral. Só agora, já noite longa, um comentador anónimo surge, irónico, num "vai-se ver foi o do outro. Boa partida". Mas não é uma partida ...

Na época, há sete anos, no olho do furacão da crise, o diagnóstico de Sampaio da Nóvoa sobre a situação estrutural portuguesa foi  aplaudida pelos socialistas, com enorme empenho. E agora, declarações tão similares, tão confundíveis - prova-o o meu postal -, são vituperadas, pelos videirinhos e seus apoiantes. Isto apenas mostra uma coisa. Há gente, imensa gente, que só está interessada nos seus cromos, na sua colecção. Apoiar o "nosso" Sampaio da Nóvoa, apupar o Tavares "deles" (e também o contrário). O país?, a tal "Pátria Amada"? Que  se lixe.

 

É óbvio que temos que dançar, nus. Para crescermos. Para transitar de etapa. E é ainda mais óbvio: os videirinhos não servem para essa dança.

 


9 comentários

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De Vento a 11.06.2019 às 22:37

Apontei, sim, jpt. V. é que não publicou. Veja hora do meu comentário
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De jpt a 12.06.2019 às 10:43

Obrigado pelo comentário. Claro que publiquei, quando nele atentei. Até breve
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De Vento a 12.06.2019 às 11:28

Para pensar Portugal e o mundo também é necessário pensar o Homem. Neste sentido - presumindo que seja área de seu interesse -, deixo aqui o documentado publicado pelo Vaticano em 10 de Junho de 2019. Um estudo que envolveu as mais diferentes áreas da investigação científica e que também tem, como não podia deixar de ser, a perspectiva cristã:

http://www.educatio.va/content/dam/cec/Documenti/19_1000_PORTOGHESE.pdf

O género, ou gender, tem estado aí somente como ideologia (ideologia não é ciência), e é necessário começar a abordar a questão nas perspectivas que se lhe exige. Espero que este documento ajude também os legisladores, juristas, magistrados, juízes, professores e sociedade em geral.

Se lhe interessar, jpt, tem matéria para um post, qualquer que seja sua perspectiva.
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De Manuel Gonçalves Pereira Barros a 11.06.2019 às 23:44

Em situações política diferentes um mesmo discurso tem sentidos diferentes.
Ou não?
Um grito de *Morte ao tirano!* com outrem já no poder, não quer matar o de outrora...
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De jpt a 12.06.2019 às 10:56

V. tem razão Manuel Barros: o contexto da locução é relevante. E a identidade do locutor também (até porque indicia hipotéticos sub-textos conscientes ou até mesmo inconscientes). Mais, a própria arquitectura do texto tem significado - e refiro-o no meu postal, as diversas ênfases que se dão às componentes, bem como as hipotéticas relações causais que se colocam.

Mas V. não tem a razão, Manuel Barros: eu não digo que os textos são iguais. O que digo é que têm componentes fundamentais que são semelhantes. Imensamente semelhantes. Depois há outra coisa que minora a sua razão: os sentidos dos textos dependem, como concordamos do contexto e do locutor. Os contextos são assim tão diferentes? Não estamos a falar da "espuma dos dias", ambos falaram do rumo do país, de condições estruturais (ou, se numa outra abordagem, sob uma análise histórica, de conjuntura longa). Em sete anos elas mudaram assim tanto? Não. O que poderá ter mudado, em alguma medida, mas muito conjuntural, é a pressão económico-financeira sobre a qual nenhum se alonga. As condições fundamentais da sociedade portuguesa, as que ambos criticam, não mudaram significativamente.

E são eles, os locutores, muito diversos? Estamos diante de um plumitivo de Videla face a Cortazar? De um epígono de Rolão Preto face a António Sérgio? Nada disso, estamos diante de dois cidadãos vinculados à democracia, um mais centrado nos valores e práticas sociais-democratas (que nós chamamos socialismo democrático) e outro talvez (digo porque não lhe conheço grandes textos) mais liberal, ambos mais do que inseríveis no padrão democrático que nos é constitutivo. Tanto nacionalmente como no contexto internacional a que aderimos, institucional e culturalmente. Nenhum deles está a clamar "morte ao tirano" assumindo como tirano uma "cor diferente". Ambos estão a dizer "viva a democracia" criticando de forma muito similar os problemas da sociedade. Por isso a tentativa de tantos escribas - como no postal anterior sobre a matéria uma comentadora deixou uma ligação a um blog onde isso é exemplar - empurrrarem Tavares para uma qualquer extrema-direita, populista. Para assim extremarem o locutor, retirá-lo do eixo democrático, conversacional. Ilegitimá-lo.
Porque de facto o que ele disse é que a corrupção grassou, e campeia a cleptocracia. E é isso que não lhe perdoam. Porque é a verdade.
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De Cristina Filipe Nogueira a 12.06.2019 às 08:50

Brilhante, jpt.
Em minha defesa, só posso dizer que não tinha tido, ainda, tempo para ler o post e seguir as ligações, como habitualmente faço.
Não deixam, porém, de serem particularmente interessantes (e reveladores) os comentários que se seguiram às repetidas chamadas de atenção para o discurso “ “linkado”, discurso esse que em tempos serviu o regime e que agora, o fere de morte porque as posições se inverteram.
Com Nóvoa, serviu de bandeira. Agora, foi silenciado pela eficiente máquina socialista, numa quase “morte ao mensageiro”.
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De jpt a 12.06.2019 às 11:01

Nem tu nem nenhum dos prezados leitores precisam de uma qualquer "defesa". Nem eu fiz qualquer armadilha ou malandragem aos leitores. O que quis mostrar e depois realçar é tamanha similitude no conteúdo das mensagens, tanta que mesmo sendo o texto de jmt amplamente partilhado e ouvido na tv (e nas redes sociais) o trecho que botei, longo até, parecia dele. E é um trecho muiito substantivo, muito denotativo do que Nóvoa afirmou então. É só isso que quero mostrar, nada de cutucar os companheiros leitores.
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De José da Xã a 12.06.2019 às 10:34

Caríssimo,

quase me obriguei a ouvir o discurso de JMT (difere do seu nome numa consoante!!!).
E lembrei-me de um outro, o de António Barreto de 2011. Não me lembrei do Sampaio da Nóvoa. Que já escutei.
Mas todos eles pautaram as suas palavras, mais ou menos, pelo mesmo diapasão.
O curioso é que o estado de coisas (e pessoas) em Portugal não muda, digam o que disserem.
E depois o surdo sou eu...
Abraço leonino.
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De jpt a 12.06.2019 às 11:04

Obrigado. Não me lembrei do de Barreto, não senhor. Mas a comparação não seria tão forte, pois Barreto, apesar do seu passado de intervenção política mais directa (e do prestígio intelectual) na actualidade não é reclamável pelos socialistas, muito menos com o empenho com que Nóvoa, apesar de independente, o foi.

Mas tem muita razão: fui ler o texto http://domirante.blogspot.com/2009/06/discurso-de-antonio-barreto-no-dia-10.html

Não fosse perigar tornar-me repetitivo e copiaria alguns trechos para fazer um O Discurso do 10 de Junho (3) e meteria lá António Barreto. Será que viriam dizer que ele é populista, extrema-direita, liberal, e que não gosta do país?

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