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O Discurso do 10 de Junho

por jpt, em 11.06.19

dia-10-de-junho-1-728.jpg

As comemorações oficiais do 10 de Junho não são um acontecimento popular - uma "festa popular". Mas são um ritual - e a palavra não é pejorativa, como muitos a utilizam - de reafirmação identitária. Vivido pela população na placidez do quotidiano. O fundamental da sua coreografia actual - uma cerimónia até simples, no país, acoplada a uma outra, a realizar onde haja uma comunidade de emigrantes portugueses - é o modo como explicitamente denota a democracia como constitutiva do país, da sua identidade, assim afirmando-a. Pois o seu conteúdo central são os discursos: os presidenciais, que são esperados como relativamente protocolares, "cinzentos". E os de um convidado, oriundo da sociedade civil e assim algo autónomo, ao qual é entregue a responsabilidade de dizer algo relevante sobre o devir do país. 

É isto o actual 10 de Junho, dia do Portugal democrático. Não é o dia em que o Chefe de Estado fala ao país - e muito menos ao "seu" "povo" - reafirmando a sua visão e o seu programa. É o dia em que o Estado dá o palanque a alguém, assim ao país, para que este critique e desvende o presente e até, porventura, aponte alguns rumos. Que  alumie o que lhe for possível. Na sua relativa autonomia de intelectual.  Ao longo dos anos alguns dos convidados têm sido mais interessantes, outros menos, mas isso é normal - e julgo que muitos não se vêm conseguindo libertar o suficiente do "peso do simbólico" do dia. Mas também isso é normal, humano. Mas o realmente fundamental é este molde cerimonial, assim significando e celebrando a democracia. (E seria bom que alguns "democratas" que menorizam o cerimonial, e a data, por não corresponder a ajuntamentos populares pudessem perceber algo do real antes de perorarem).

Ontem o convidado reclamou-se, explicitamente, filho da democracia. Do que disse algumas coisas não gosto - não se pede aos políticos "deem-nos alguma coisa em que acreditar". Esse é um assunto que nos compete a nós, cidadãos, disseminar entre os ... políticos. Mas, de facto, o convidado fez o que lhe incumbia: proferiu o que considera relevante sobre o país, criticamente. A reacção do poder foi imediata: membros do governo, actuais deputados, antigos membros do governo, jornalistas e opinadores, uniram-se em invectivas, considerando as palavras proferidas como de "extrema-direita", arauto do populismo anti-democrático e, até, próprias de quem não gosta do país (ainda não li invectivas de "anti-patriotismo" mas lá chegarão). E colhem imenso apoio nessas proclamações - as quais procuram não só elidir o efeito do discurso como também demarcar o "quem" pode falar na data, estipular um perfil futuro. Entretanto os que não estão no poder celebram as suas palavras, anunciam-nas pertinentes.

Que disse o convidado que tanto abespinha o poder actual (PS)? E que tanto encanta o não-poder actual (à direita do PS)? Disse

"Portugal conseguiu sair de um longo ciclo de pobreza, marcado pelo atraso e pela sobrevivência. Quando pensávamos que este passado não voltaria mais, eis que a pobreza regressa (...) Começa a haver demasiados “portugais” dentro de Portugal. Começa a haver demasiadas desigualdades. E uma sociedade fragmentada é facilmente vencida pelo medo e pela radicalização. (...) não façamos, uma vez mais, o erro de pensar que a tempestade é passageira e que logo virá a bonança. Não virá. Tudo está a mudar à nossa volta. E nós também.
Afinal, a História ainda não tinha acabado. Precisamos de ideias novas que nos deem um horizonte de futuro. Precisamos de alternativas. Há sempre alternativas. (...) A democracia funda-se em coisas básicas e simples: igualdade de oportunidades; emprego para os que podem trabalhar; segurança para os que dela necessitam; fim dos privilégios para poucos; preservação das liberdades para todos. (...)  os sacrifícios têm de basear-se numa forte consciência do social, do interesse coletivo, uma consciência que fomos perdendo na vertigem do económico; pior ainda, que fomos perdendo para interesses e grupos, sem controlo, que concentram a riqueza no mundo e tomam decisões à margem de qualquer princípio ético ou democrático. É uma “realidade inaceitável”. (...)

Porque Portugal tem um problema de organização dentro de si: - Num sistema político cada vez mais bloqueado; - Numa sociedade com instituições enfraquecidas, sem independência, tomadas por uma burocracia e por uma promiscuidade que são fonte de corrupção e desperdício; - Numa economia frágil e sem uma verdadeira cultura empresarial. (...) Precisamos de transformar estes movimentos numa ação sobre o país, numa ação de reinvenção e de reforço da sociedade. ( ...) não estamos a conseguir aproveitar este potencial para reorganizar a nossa estrutura social e produtiva, para transformar as nossas instituições e empresas, para integrar uma geração qualificada que, assim, se vê empurrada para a precariedade e para o desemprego."

Grosso modo, é este o resumo do que João Miguel Tavares disse ontem. Na cerimónia que consagra a crítica democrática como constitutiva da identidade nacional. Ao ler as reacções dos agentes do poder (militantes, simpatizantes e os sempre avençados) não só percebo, mais uma vez, o quão distantes estão da mentalidade democrática que se quer celebrar. Mas, ainda mais, percebo o quão intelectualmente desonestos são, ao refutarem estas palavras. Que tão elogiáveis, e até candidatáveis, seriam. Se proferidas por outrem.

Adenda: Convido os pacientes leitores a "clicarem" no trecho que cito, que tem a ligação para o texto completo, para que não se diga que o trunquei, adulterando-lhe o sentido. Pois essa consulta, mesmo que muito breve, permitirá perceber - bem mais do que o meu pobre texto - o quão visceral é a desonestidade dos apparatchiki socialistas, e seus correligionários, que logo encheram as redes sociais - e talvez a imprensa - vituperando o locutor de ontem.

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23 comentários

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De Vorph Valknut a 11.06.2019 às 09:41

Tem razão. Ontem após o discurso, de JMT, ouvi, enquanto comia um sandocha de presunto, uma jornalista, da rtp, resumi-lo a um discurso pessimista...e "prontos" mais fiquei a saber porque raramente ligo aquilo.

Quanto a :

"não se pede aos políticos "deem-nos alguma coisa em que acreditar. Esse é um assunto que nos compete a nós, cidadãos, disseminar entre os ... políticos."

Discordo do jpt. A maioria não nasce lider, necessitando de capitães de destino. Portugal necessita de um projecto nacional. O problema é que para o levar adiante o Estado teria que entrar pela economia adentro (planificação central da Economia), não deixando às leis do mercado a possibilidade de serem elas a traçar a rota, pois pelo percurso, até aqui trazidos, pouco mais rendeu que umas empresas dedicadas à venda a retalho de chouriças e roupa barata....

Os Projectos Nacionais não são compativeis com Democracias Parlamentares.

Vejamos, quem senão o Estado pode e tem a capacidade de apostar em i/d nas faculdades/empresas, nas mais diversas áreas de alto valor acrescentado? - semicondutores, robótica, etc? É a SONAE, ou a JM que o irão fazer? A estas só lhes interessa o lucro a curto prazo para satisafação dos accionistas. Falta em Portugal, mas não só, capitalistas nacionalistas, uma banca virada para o investimento industrial/empresarial (só o Estado teria essa possibilidade) com Espirito de Corpo e de Missão.....mas, que digo, disperso, divago e boto disparates....

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De jpt a 11.06.2019 às 09:56

A democracia parlamentar é, em si mesma, um projecto nacional. Pouco exaltante (excitante), nada orgástico, não totalmente suficiente. Mas magnífico. Propôr modelos, planos, rumos, projectos, discuti-los, não é "ser líder" como V. diz. É ser cidadão. Depois há quem possa - por ter possibilidades e talentos - sintetizar alguns e "capitaneá-los" (sigo a sua retórica). E podem ser políticos, claro. Mas a expressão de jmt, ainda que compreensível, o "deem-nos que pensar, que sonhar", é por demais passiva para eu a apreciar. Foi isso que eu quis dizer.

Entretanto deixei uma adenda ao texto, pode ser que lhe interesse. Obrigado pelo comentário
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De Vorph Valknut a 11.06.2019 às 10:20

Obrigado pela resposta.
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De V. a 11.06.2019 às 15:27

"Portugal necessita de um projecto nacional. O problema é que para o levar adiante o Estado teria que entrar pela economia adentro (planificação central da Economia), não deixando às leis do mercado a possibilidade de serem elas a traçar a rota, pois pelo percurso, até aqui trazidos, pouco mais rendeu que umas empresas dedicadas à venda a retalho de chouriças e roupa barata...."

Mon dieu, Pedro.. Não há já demasiadas evidências de que este é precisamente o tipo de "projecto" que acaba em tragédia? Posso entender que uma economia livre provoque alguns medos a quem é periférico (como nós somos em geral) mas nunca perceber como é que um estado controlador e "economias planificadas" são a solução para problemas de que espécie for.
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De Vorph Valknut a 11.06.2019 às 18:19

Concordo. Mas sem algum tipo de planificação/ projecto politico ( vá lá, um acordo de regime) não sairemos daqui. Como não saímos desde....desde a descoberta do colorau.

Falta acender o país. Puxar-lhe fogo....o Vento percebe. Falo na faísca irracional dum sentimento nacional....redescobrir Vieira, exumar o V Império.

E se tivermos perdido o jeito, então sejamos melhores na miséria. Caiemos a casa de Santa Comba....qualquer coisa velha servirá.
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De V. a 11.06.2019 às 22:49

Acho que estamos presos a demasiados atavismos e a referências ideológicas que já não operativas — sobretudo na era do individualismo, na era em que as pessoas crescem a acreditar nas suas capacidades pessoais. As coisas demasiado colectivas adquirem uma qualidade algo anacrónica. É um pouco disso que fala JMT, no desfasamento entre um projecto colectivo que não tem espaço para os indivíduos enquanto tal.
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De Vorph Valknut a 11.06.2019 às 23:32

V, os portugueses são já de um individualismo excessivo. Vê-se isso no local de trabalho, etc (tirando a familia, o resto pouco, ou nada conta). Não temos um sentido de comunidade como os norte-europeus.

Mas sei lá. Até parece que descobri a pólvora....basta conhecer um pouco da história nacional....talvez Pessoa estivesse certo e o nosso país tivesse nascido sob uma conjugação astral funesta....Peixes!?

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De Vorph Valknut a 11.06.2019 às 21:13

O V percebe….
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De António a 11.06.2019 às 12:58

Realmente...
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De Anónimo a 11.06.2019 às 14:26

Se dúvidas houvesse ficaram, para mim, dissipadas ao assistir o jornal da noite da SIC, em que sobre o discurso do JMT não passou uma linha na altura, enquanto o do sr Presidente passaram vários trechos.

A nossa democracia está gravemente doente muito por culpa da nossa comunicação social, principalmente da televisão.

Os partidos do sistema garantem que os tachos não faltem.

Carlos C.

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De Vorph Valknut a 11.06.2019 às 18:23

Na RTP 3 foi igual. Com o Honório Novo a falar na necessidade de lavar a cara do regime (não foi este senhor deputado uma carrada de anos?!!), e o Jaime Nogueira Pinto a falar na tonta 1'República, saltando, por cima do Estado Novo.

Já agora, o meu voto de pesar por Ruben de Carvalho, que tinha com Nogueira Pinto, na A1, os Radicais Livres.
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De V. a 11.06.2019 às 14:39

Eu li o discurso de JMT e gostei bastante do que li. Não me parece populista: são sentimentos reais que oiço todos os dias há muito tempo. O que é extraordinário é que hoje já tem as matilhas dos senhores feudais dos ministérios todas à perna. O que mostra que não ouviram nada, mais uma vez.

Mas nós estamos com ele.
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De jpt a 11.06.2019 às 17:39

Que discurso do JMT leu?
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De Anónimo a 11.06.2019 às 20:11

Vai-se a ver foi o do outro. Boa partida.
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De jpt a 11.06.2019 às 20:39

Obrigado, muito obrigado, mesmo muito obrigado, anónimo ... deixa-me, apesar de não saber quem é, uma esperança no meu país.
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De António a 12.06.2019 às 21:41

Era eu, o António. Tenho para aqui um cookie monster que de vez em quando me põe anónimo. Eu pensava que desse lado aparecia o IP. Não é que ser o António adiante muito, mas pronto, sou eu quem amolou com o pesado fardo de dar esperança a alguém. Já me resta tão pouca, JPT.
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De V. a 11.06.2019 às 22:50

Li a transcrição completa no Observador algures a meio da página aqui:

https://observador.pt/2019/06/10/joao-miguel-tavares-apela-a-classe-politica-deem-nos-qualquer-coisa-em-que-acreditar/
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De jpt a 12.06.2019 às 04:45

Muito partilhado na internet, como refiro no postal subsequente. E ainda bem que o foi.
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De Anónimo a 11.06.2019 às 18:38

Foi um mau discurso, tem muita razão. Por isso não passou em lado nenhum. Se fosse bom, tornava-se enfadonho a ouvi-lo tantas vezes e a qualquer hora.
Foi benfeito. Na próxima o próximo tem de tecer loas ao ARTISTA Costa, senão leva na corneta também.
Cumps.
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De Vento a 11.06.2019 às 22:18

Está muito bem parida esta sua posta com o anexo do discurso de Sampaio da Nóvoa no 10 de Junho de 2012.

Em resumo, meu caro jpt, eu deixei a saída ali no post de Sérgio de Almeida. Para se ser líder em Portugal é necessário fazer da vida uma missão, e aceitar um presente sem pão.
Significa esta afirmação que se alguém quiser oferecer algo ao futuro deste Portugal tem de aceitar viver de estômago vazio. Infelizmente os pançudos do presente também se alimentam destes.
Muitos virão comer-lhes as palavras e as obras - como fazem com Camões -, mas poucos terão coragem para viver e fazer como ele fez. A única forma de pensar Portugal é fora de portas, porque dentro estão todas trancadas e truncadas.
Quem parte em manhã de nevoeiro são os que já estão fora. Quem faz a fumaça para fingir que Sebastião virá, fala de palanque.
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De jpt a 12.06.2019 às 04:44

Obrigado pelo comentário, mesmo.
Eu não concordo consigo nessa ideia de que as lideranças devam ser ... "espartanas". Bastará que sejam democráticas. Pessoas com ambições, desejos, falhas, volúpias até. Mas com apreço pelas instituições democráticas e pelas práticas democráticas. E chegará.
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De marta a 11.06.2019 às 22:24

Uma das reacções mais aziadas:

https://duas-ou-tres.blogspot.com/2019/06/o-ar-do-tempo.html

É não conhecer, nem querer conhecer o país em que se vive...
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De jpt a 12.06.2019 às 04:41

Obrigado pela ligação. É um bom exemplo das reacções a que aludi. E lá está, só lhe falta usar o termo "antipatriota", de resto está lá tudo. Ou seja, quem não aprecia o estado das coisas padece de défice de patriotismo: é, sem tirar nem por, o discurso do "tempo da velha senhora". E sem qualquer pudor.

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