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O dia em que não nos rimos

por Bandeira, em 30.12.16

Um dos meus aforismos predilectos (tanto assim que serviu de epígrafe ao meu primeiro blogue, em 2005) é do humorista e escritor setecentista Nicolas Chamfort: “O dia em que não nos rimos foi o dia que desperdiçámos”. Não acredito que não ache isso belo. Vale toda uma estante da mais empedernida filosofia, uma biblioteca apinhada de volumes de “auto-ajuda” e até um cherne na grelha com batatinha a murro que certa vez comi num restaurante da Praia da Tocha.

 

Chamfort deixou-se arrebatar pelos ideais da Revolução Francesa, mas acabaria escrevendo contra os excessos que via surgindo. Detido e torturado no período do Terror, foi libertado apenas para ser de novo ameaçado com a prisão. Preferindo “morrer livre a ser reconduzido como escravo”, quis matar-se; mas o tiro inábil despedaçou-lhe caprichosamente o nariz e parte substancial da mandíbula, deixando-o com vida e lucidez. Então Nicolas lançou mão de uma faca de cortar papel e procurou uma artéria vital. Sem sucesso. Os repetidos golpes no peito com o literário instrumento, notoriamente incapaz da violência que lhe era exigida, não puseram termo ao tormento de Nicolas. Desfigurado e sofrendo horrores, aquele que foi um dos mais incompetentes suicidas da História veria passar ainda um ciclo de quatro estações antes de soltar o suspiro final.

 

Não posso saber se aconteceu, mas eu gosto de imaginar que Chamfort foi capaz de rir disso (para que nem tudo tivesse sido desperdiçado) no dia em que ele morreu.

 

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4 comentários

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De Salazar Marxista a 30.12.2016 às 17:30

Lembra - me Danton que junto à guilhotina lembrou ao seu carrasco para mostrar a todo o povo de Paris a sua cabeça decepada. Nas palavras de Danton: Será um espectáculo memorável. Ou que dizer da morte de Marat, morto num banho de pétalas, por uma tal Charlotte, saída da província, em busca de vingança.
Ou Sade preso na Bastilha e solto pela Revolução (o que se deve ter rido; o mesmo Sade eleito como deputado). Ninguém supera os franceses
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De lucklucky a 30.12.2016 às 21:00

Nada tem que ver com Franceses, temos aqui no Delito as contas dos Khemer Vermelhos no Cambodja, tudo isto aconteceu na China que muitos gostam de chamar civilização milenar mas que num ápice caiu num culto europeu de estrela vermelha...poderia ter acontecido em Portugal, aconteceu em Angola, aconteceu na Rússia, na União Soviética, em Cuba, na Jugoslavia, acontece no mundo Muçulmano.

Tem que ver com ideologias românticas, purificadoras . Comunismo, Nazismo, Islamismo. Onde há humanos que querem controlar outros humanos em todos os aspectos da vida deles.
Che Guevara foi um dos que poderia ter estado na Revolução Francesa a controlar a guilhotina. Para acabar nela. Tal como Yezhov e muitos outros.
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De Bandeira a 31.12.2016 às 12:16

Ainda assim, acho que eles - os franceses, mas os parisienses em particular - podiam ser um nadinha mais simpáticos. Hélas, não se pode ter tudo, fica o cancan. Bom ano! :)
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De Salazar Marxista a 31.12.2016 às 15:12

Engana-se Lucklucky. Os ocidentais tem na natureza a luta contra o tempo, daí serem revolucionários por natureza. Os chineses e a cultura asiática fazem da espera a sua filosofia e do tempo o seu aliado. Daí provém a sua famigerada paciência. A cultura revolucionária e os grandes ideólogos revolucionários orientais sempre tiveram como modelo o Ocidente. Os africanos idem aspas. Grande parte dos seus revolucionários são produtos europeus (estudaram por cá, influenciados por cá).

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