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O dia da metadona

por Paulo Sousa, em 24.09.19

A entrada do estado na esfera individual no nosso país é uma tendência ainda em crescimento mas que um dia terá de ser travada.

A invasão começou sem esse propósito e era então justificada pela vontade de limitar as assimetrias sociais que existiam em proporções diferentes entre as regiões do país. O aumento dos impostos foi vestido com um fatinho domingueiro de forma a acrescentar ao estado a responsabilidade de tratar dos pobres e desvalidos. Quem é que de boa consciência humanista poderia questionar tal propósito?

A esquerda, à falta de operários, adoptou os pobres e fez-se dona da assistência social, e passou a classificar as ajudas organizadas pela Igreja como caridadezinha, como se quem recebesse ajuda se preocupasse de onde ela vem.

Até um certo ponto tudo funcionou dentro do benevolente espírito inicial, mas ano após ano as garantias dadas a todos e a cada um foram sendo alargadas. Era preciso ser-se criativo e fazia sentido alargar a caridade pública ao ritmo da frequência das eleições. Pouco a pouco chegou-se a pontos em que os encargos (e regulamentos) a quem cria riqueza e a quem cumpre horários, e dessa maneira alimenta financeiramente o sistema, eram tais que deixou de compensar correr riscos e a ser a pontual, e passou a ser mais racional mudar da coluna dos que contribuem para a dos que recebem. Alguns passaram a ser exclusivamente contribuintes e outros exclusivamente beneficiários.

Ao longo dos anos os exclusivamente beneficiários tem aumentado significativamente. No nosso país mais de 50% da população aufere de transferências directas do estado.

À minha volta isso demorou a ser notório, ou então fui eu que demorei a reparar. Sabia que no interior do país, num mundo social e economicamente deprimido, era o estado que ia mantendo a permanência de pessoas. Sabía que no interior havia menos empresas e negócios e por isso o peso do estado era superior ao das zonas mais dinâmicas. Câmaras e Juntas eram ali os principais empregadores. Aqui no centro do país e perto da costa, graças às cerâmicas, fábricas de moldes e outras industrias, tudo era diferente.

Ano após ano a relação de dependência ao estado foi-se aprofundando. Os políticos para sobreviver precisam de se mostrar agradáveis e os cidadãos reagem positivamente a estímulos positivos. Esta simbiose manteve-se mesmo quando o ponto de equilíbrio foi ultrapassado, e no caso português já foi ultrapassado tantas quantas vezes falimos nos últimos 40 anos.

Tudo isto já era para mim um facto, mas no passado dia 10 voltei a aperceber-me da dimensão da coisa. E é nesse dia que são pagas as pensões e, por isso, é também nesse dia que a economia local acelera com a nova injeção de liquidez. No dia 10 os balcões bancários estão apinhados de gente desde a abertura até ao final do expediente. O quadro de pessoal não pode tolerar folgas e, mesmo assim, as filas chegam à porta. Neste dia, por mim batizado pelo dia da metadona, não se pode ir ao banco por outro motivo que não seja ir levantar a reforma. De inverno chegam a tremer de frio, tal como tremem os drogados na fila da metadona.

Numa segunda linha de efeito é o comércio local que acelera para fornecer os bens essenciais a um ritmo que só voltará a fornecer no mês seguinte. Talvez em Lisboa e nos grandes meios urbanos seja menos notório mas não será muito diferente.

Isto é real, silencioso e é uma forma de pobreza. Nos telejornais despejam-se baldadas de alegria pelo crescimento PIB mas o país continua refém de um estado omnipresente que tudo quer controlar e taxar, para poder engordar e as sobras distribuir. Quem recebe, tal como antigamente, sabe que não pode morder a mão de quem o alimenta e, sem dar conta, continua a trocar dignidade por côdeas. Ao fim e ao cabo os vizinhos, primos e enteados também recebem e isso alivia o eventual ónus da desconsideração social. Soube há dias que ter um filho com astigmatismo visual dá direito a subsídio. Mas recebê-lo não dá estigma social aos seus pais. Se o filho da vizinha recebe, porque é que eu não tenho direito?

Será possível interromper este ciclo?

As mudanças que resultaram do dinheiro descarregado na economia após adesão à UE não alteraram a relação do cidadão com o estado. Antes não se podia afrontar porque fazia doer, e agora porque dá de comer. A subserviência mantém-se.

A liberdade é uma música que põem a tocar no 25 de Abril, mas se antes não existia, agora está refém dos donos do regime.

A liberdade de escolha não está interiorizada no modo de agir dos portugueses. Tal como a sobrecarga que se colocava nos selos quando se mudava de regime, e ainda não se tinha tido tempo de fazer uma nova emissão, a liberdade ainda se esgota num carimbo da Constituição.

Quando é a maioria que decide, mais de 50% dos eleitores escolherá sempre de forma a que as transferências directas de que aufere não sejam interrompidas. O benefício imediato é um apelo lógico de quem quer maximizar o seu bem-estar. Arriscar as formulas que criaram riqueza noutras paragens é demasiado diferente, e os portugueses arrojados partiram de caravela há muito e nunca mais regressaram.

De que forma se poderá interromper esta trajectória? Será mesmo este o nosso fado?

Nas próximas eleições só não votarei Iniciativa Liberal porque o nosso sistema eleitoral foi feito para complicar a vida às ideias diferentes. Espero sinceramente que consigam eleger pelo menos um deputado num dos círculos eleitorais mais populosos onde há mais opções eleitorais. O nosso sistema eleitoral precisa de ser revisto. Portalegre, por exemplo, elege dois deputados. Que opções têm os seus eleitores? A nossa democracia é diferente por isso em Portalegre, em Leiria e em Lisboa. Não duvido que se aos actuais círculos eleitorais fosse acrescentado um circulo nacional a abstenção diminuiria.

Independentemente dos resultados que venha a conseguir, a Iniciativa Liberal tem o mérito de apresentar um alternativa ideológica ao marasmo do socialismo que nos governa desde 1974. Sem o dinheiro da UE seríamos hoje uma Venezuela sem petróleo.

No dia em que deixar de haver dinheiro, favores, cargos e prebendas para distribuir regime cairá. Será possível reforma-lo antes disso?


68 comentários

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De jo a 24.09.2019 às 12:15

"No nosso país mais de 50% da população aufere de transferências directas do estado."
Um post baseado numa afirmação de treta. São 50% porque dá jeito, não é preciso demonstrar.
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De V. a 24.09.2019 às 13:18

Caríssimo, vá ver ao Pordata (o INE é do PS):

Pop Activa 2018: 5,232.000

Funcionários Admin Central + Local + Fundos SS em 2018: 683.469

Basta somar os Inactivos Reformados/Pensionistas aos Func Pubs activos e dá bastante mais de 50% de eleitores a receber benefícios do Estado, não contanto com activos de sectores de gestão participada que recebem do FSE e etc
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De Miguel Madeira a 24.09.2019 às 14:47

E quantos são os inativos/reformados/pensionistas? São mais que 3.865.062?

Ok, tinhamos que contar ainda todos os trabalhadores de empresas que são fornecedoras do Estado, mas duvido que seja fácil achar esses dados.
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De V. a 24.09.2019 às 17:53

A pop inactiva são 3,619.200 — só as pensões da Seg Soc são 1.571.887, fora os outros sistemas, sobrevivência, etc.

Era necessário ir a cada um destes sectores e somar mas não tenho pachorra para trabalhinhos à borla: vão lá ver, olha que gaita.

E nem sequer chegámos ainda a esses "indirectos" — há centenas se não milhares de empresas que prestam serviços ao Estado e às autarquias fora os famosos ajustes directos a empresas que o primo do sub-secretário disto e daquilo criou ontem, mais as ipss's, as associações, as fundações, os partidos políticos, etc. — toda essa canalhada de gente é DESPESA, não fazem nada que possa ser transaccionado. Pelo contrário, quando se mexem, criam mais despesa.
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De jo a 25.09.2019 às 11:48

Terá de dizer qual o valor dos bens e serviços que o Estado produz. Está a dizer que todos os funcionários públicos são colocados por compadrio e não produzem nada.

Com esse raciocínio são 100% os cidadãos que recebem do estado. De certeza que há um polícia a guardar a sua terra a quem não paga diretamente, e soldados a vigiarem o seu país, um juiz a que pode recorrer, um serviço de bombeiros e de emergência médica pronto a acudir-lhe sem pagamento etc.

Com toda a sua liberalidade vive muito mais à custa do estado do que gostaria de confessar. Claro que manter os serviços e não pagar a nossa parte é melhor, mas por isso é que lhe chamam impostos.
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De Miguel a 25.09.2019 às 14:08

Words, words, words...

Se o Estado não garantir o fornecimento dos combustíveis, as máquinas param, e os privados deixam de produzir riqueza em menos de um piscar de olhos. Podem sempre ir cavar batatas.

Já para não falar da electrónica. Se os deps. de estado e da defesa americanos não tivessem financiado a investigação durante décadas a fundo perdido ainda andavam agarrados à máquina de escrever com papel e tinta.
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De Paulo Sousa a 25.09.2019 às 17:21

Já aqui respondi que de 0 a 100 onde 0 é um estado absolutamente liberal e 100 um estado absolutamente controlador e exclusivo motor da economia a nossa situação andará acima do 75. Votar IL não é desejar ir para o 0, mas apenas ir numa direção oposta à que se tem verificado nas últimas décadas.
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De Miguel a 26.09.2019 às 09:50

Pois, mas o período de maior crescimento económico e tecnológico (grosso modo, 1945-1975) coincide com aquele em que maior foi o peso dos estados ocidentais na sociedade e na economia. Recordo que, durante esse período, o escalão mais alto para a taxa de imposição aos rendimentos atingiu os 90% nos EUA e no Reino Unido. Explique-me porquê.
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De Paulo Sousa a 26.09.2019 às 17:22

90% nos EUA?
Acha que num período de pós-guerra, de reconstrução, e por isso grande crescimento, a economia precisa do estado para crescer?
Momentos como os actuais, de estagnação económica, resolviam-se no passado com uma ou duas guerras por isso mesmo. Esperemos encontrar outra solução...
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De Miguel a 26.09.2019 às 19:17

Sim, nos EUA e no RU.

92%. Fonte: Thomas Piketty "Le Capital au XXI siècle" , página 805, Figura 14.1

Pode encontrar esta figura 14.1 em linha aqui:

http://piketty.pse.ens.fr/files/capital21c/pdf/G14.1.pdf

O escalão superior do imposto sobre as sucessões: 78-80% nos EUA e no RU, mesma fonte, pagina 811, FIgura 14.2

Figura 14.2 em linha aqui:

http://piketty.pse.ens.fr/files/capital21c/pdf/G14.2.pdf

Precisou do Estado, e não foi pouco.

É caso para dizer: O mundo é um lugar estranho.
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De Paulo Sousa a 26.09.2019 às 19:32

O mundo onde as sucessões são consideradas rendimento... é um lugar estranho.
E porque é que mais tarde terão baixado esse imposto sucessório? Talvez para corrigir o exagero?
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De Miguel a 26.09.2019 às 20:08

Não desconverse. Se se der ao trabalho de consultar a figura 14.1 verá que se refere ao imposto sobre o rendimento (Le taux supérieur de l'impôt sur le revenu, no original). Escalão superior: 92% está lá.

O gráfico da figura 14.2 com o imposto sucessório apenas acrescentei no último comentário como brinde .

I rest my case.
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De Paulo Sousa a 26.09.2019 às 21:46

Talvez eu esteja mesmo enganado e 92% seja a taxa ideal de imposto de rendimento para o país avançar.
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 17:22

Aos funcionários públicos, forças armadas e de segurança, beneficiários de subsídios de desemprego, RSI, pensionistas, some os seus dependentes. Depois veja as empresas dos primos e amigos que conseguem os ajustes directos que mais ninguém consegue, seus sócios e dependentes. Aqui na minha terra, os desempregados vão rodando ao serviço ora da Junta de Freguesia, ora do Lar de Idosos, ora como auxiliares de ensino, ora novamente como beneficiários de subsídios, e às vezes ficam de baixa. Alguns também têm dependentes.
Outra forma de ver a dimensão da realidade que tentei descrever é comparar o valor do orçamento de estado com a dimensão do PIB. É fazer as contas.
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De Vento a 24.09.2019 às 19:30

Quer o Paulo dizer que afinal o problema de Portugal é não ter massa crítica. Não, não é uma pergunta: é uma constatação face a seu comentário.
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 23:36

O que relato é um modo de vida que só existe porque o estado o sustenta e o mantém porque os donos do regime sabem que ali vão buscar votos.
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De Vento a 25.09.2019 às 10:16

Se existisse massa crítica na nação o modo de vida seria outro.
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De Anónimo a 25.09.2019 às 08:58

Caro Paulo

Partilho do seu mal estar com o Estado. Incomoda-me mesmo muito a interferência que tem na vivência dos cidadãos, os seus tentáculos asfixiantes no dia a dia e pior, as sanguessugas que o orbitam diariamente desde os políticos de carreira até aos "rsianos".
Só falta organização aos descontentes.

E eu trabalho no Estado, portanto sei o que digo e o que vejo.

CarlosC.
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De Paulo Sousa a 25.09.2019 às 19:45

Espero que não vote em Portalegre
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De Anonimus a 24.09.2019 às 12:50

Estado da Nação:

Há uma lei escrita há anos, em que proíbe familiares de governantes de fazer negócios com o Estado. Literalmente. O "espírito" é simples, impedir o Ministro de fazer negociatas através da empresa do sobrinho, do primo ou do periquito.
Como todos e mais alguns se marimbaram, e entretanto foram descobertos, alterou-se a interpretação da mesma.
E é isto.
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 17:36

Também podíamos usar esse argumento da interpretação literal ser absurda nas disputas com a Autoridade Tributária.
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De V. a 24.09.2019 às 13:02

Ora nem mais.
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De Vento a 24.09.2019 às 13:09

Também quero entrar nesta dança.
À semelhança do governo colaboracionista de Vichy, a fórmula que os alemães encontraram para administrar parte da França ocupada, a geringonça, para salvaguarda de seus ordenados, pensões, bem como de seus clãs politico-eleitorais, é o modelo que o diktat de Bruxelas usa para oprimir Portugal e os portugueses.
Para contrariar este contexto ditatorial, reaccionário e revisionista, um grande partido e um grande líder surgiu: o ALIANÇA e Pedro Santana Lopes.

Pedro Santana Lopes faz das causas a verdadeira política. Durante os 3 anos em que esteve à frente da Santa Casa de Misericórdia renunciou a euro 200.000,00, demonstrando, assim, que a sua causa são causas e não estatutos ou massa.
Simbolicamente, fez um afago ao Ricardo Araújo Pereira para demonstrar que a acção do Aliança centra-se nas pessoas e não nos rebéubéubéus pardais ao ninho que andam a cagar as avenidas e ruas das cidades, num acto de demonstração da incivilidade de seus donos e que, para eles, o carbono é conversa fiada e uma autentica cagada.

O ALIANÇA, entre outras grandes virtudes, é um partido macho friendly e aposta na virilidade dos machos lusos, ao contrário das políticas reaccionárias e revisionista, lgbtistas e feministas do governo colaboracionista denominado por geringonça; e conta também com as mulheres femininas e maravilhosas desta nação para contrariar o domínio neo-estalinista-nazista que rege Portugal e a Europa.

VIVA o ALIANÇA! Viva Portugal! Viva o Macho Luso! Um Viva para as mulheres femininas e Maravilhosas da Nação Lusitana!
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 17:40

Quem quer agora fazer da masculinidade e feminilidade argumento políticos já chega tarde. É chão que já tem dono.
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De Vento a 24.09.2019 às 19:03

Pois é, mas querem que não haja dono(a) para essas particularidades. Portugal, cobardemente, a começar no parlamento, deixou-se intimidar por leis estalinistas no que respeita ao assunto.
Nesta temática, não vi muitos mostrarem serem donos de sua consciência. Mas o meu comentário vai para além disto.
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De Anónimo a 24.09.2019 às 13:37

É por textos como este, que falam do País real, que vale a pena ler o DO. Obrigada.

Isabel
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 17:40

Obrigado Isabel
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De Miguel Madeira a 24.09.2019 às 14:42

Até parece que o Estado (e massivamente: mouros, judeus, jesuítas, a Igreja Católica como um todo, mações, etc, etc. - perseguidos ao longo da história por governos de sinal contrário - que o digam) não intervinha na esfera individual muito antes de haver preocupações significativas com "vontade de limitar as assimetrias sociais que existiam em proporções diferentes entre as regiões do país" ou "responsabilidade de tratar dos pobres e desvalidos".

Nós provavelmente vivemos na época histórica em que o Estado menos intervém na esfera individual.
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De Isabel 2 a 24.09.2019 às 15:21

Que idade tem? Quem lhe contou essa?
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De Miguel Madeira a 24.09.2019 às 15:52

1) 46 anos
2) É o que qualquer pessoa vê (mesmo no momento presente comparado com umas décadas atrás, o Estado intervém muito menos tanto na economia como nos "costumes" - a banca está quase toda privatizada, temos televisão privada, já não há preços tabelados, o aborto é legal, o consumo de drogas leves está descriminalizado, o SMO acabou, não precisas de mostrar o BI nem a cédula militar para ir a Espanha, etc. etc. Assim à primeira só me lembro de duas áreas onde a liberdade individual tem vindo a diminuir - o aumento da escolaridade obrigatória e as restrições ao tabaco).
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De Luís Lavoura a 24.09.2019 às 17:59

Miguel Madeira, você escreveu "vivemos na época histórica em que" e agora, para provar a sua afirmação, compara o Portugal atual com o Portugal de há duas ou três décadas atrás. Ora, há duas ou três décadas atrás estávamos na mesma época histórica que na atual!
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De Miguel Madeira a 24.09.2019 às 23:44

Então antes (seja no corporativismo salazarista, no mercantilismo do marquês de Pombal, na escravatura* ou no tempo das portagens internas para se levar um produto de uma cidade para outra*) se calhar ainda era menos liberal (bem, não tão iliberal como nos anos 70/80, mas provavelmente mais liberal que agora).

*Vão me dizer que os donos de escravos e muitos senhores locais eram "privados", mas eram privados cujo poder derivava do Estado.
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De Isabel 2 a 24.09.2019 às 18:30

Se isso que diz “é o que qualquer pessoa vê”, concluo que, para si, não sou “pessoa”.
Aconselho-o a rever um pouco da história dos séc.XVIII e XIX, sobretudo no que respeita aos direitos humanos, suas várias gerações e evolução do papel do Estado.
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De Isabel 2 a 24.09.2019 às 18:52

Onde se encontra direito à liberdade da vida privada quando cada cidadão tem um número único de identidade, físcal e de segurança social, permitindo aos operadores públicos ( e até privados, no caso da segurança social ) ter acesso a todas as escolhas dos cidadãos. Situação esta agravada com o acesso directo do fisco à contabilidade de empresas e a contas bancárias.
Por outro lado, em n sectores de actividade económica temos a interferência conjunta de um número impensável de organismos administrativos que são outros tantos obstáculos à entrada e ao livre desenvolvimento de novas empresas.
Como tudo, a liberdade só se aprende usando a liberdade e, em Portugal nós passámos de um regime autoritário para um regime comunista e, depois, socialista.
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De Vento a 24.09.2019 às 19:24

«Estado intervém muito menos tanto na economia como nos "costumes"» "a banca está quase toda privatizada, temos televisão privada, já não há preços tabelados, o aborto é legal, o consumo de drogas leves está descriminalizado, o SMO acabou, não precisas de mostrar o BI nem a cédula militar para ir a Espanha, etc. etc."
Quem foi que lhe disse, Miguel, que isso não é a maneira do estado intervir? E quem foi que lhe disse que depois dessas intervenções do estado os que intervieram nas leis não se passaram para o outro lado como administradores disto e daquilo, e que outros se mantiveram e mantêm na assembleia a fazer leis com tal propósito?
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De V. a 25.09.2019 às 11:27

Que idade tem? Quem lhe contou essa?

Deve ter sido a prof de História formada na FCSH
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De Vorph Valknut a 25.09.2019 às 14:31

V, só uma adenda. O Rosas é da Nova
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De V. a 26.09.2019 às 10:47

Exacto. A imparcialidade nunca foi uma preocupação relevante para cronistas e historiógrafos. ;)
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De Luís Lavoura a 24.09.2019 às 16:10

Nós provavelmente vivemos na época histórica em que o Estado menos intervém na esfera individual.

Se por "esfera individual" se entender somente coisas como namorar (com uma mulher ou um homem) e casar, e praticar uma religião, isso é verdade.

Já se na "esfera individual" se incluir também todas as atividades económicas - as quais ocupam grande parte da nossa vida e do nosso esforço -, e também o ter filhos, isso é rotundamente falso.
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De Miguel Madeira a 24.09.2019 às 18:16

A banca e os cimentos estiveram nacionalizados, não havia TV privada, os CTT, PT, EDP e mais uma carrada de empresas estavam nacionalizadas, e mesmo depois de privatizadas continuaram com golden shares, etc, etc.; mesmo na economia há muito menos intervenção do Estado do que nos anos 80 ou mesmo nos anos 00, p.ex.
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De Vento a 24.09.2019 às 19:40

É mesmo, Miguel? Então você paga a crise de boa vontade e não por falta de capacidade de gestão daqueles que constituiu como gestores da coisa pública.

Entreguem o estado aos privados e Portugal vira paraíso, né? Privatizem a assembleia.
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De Miguel Madeira a 24.09.2019 às 23:48

Eu até nem sou a favor do liberalismo económico, mas não é isso que se está a discutir - goste-se ou não, parece-me que Portugal tem uma economia mais liberal que há umas décadas atrás (ainda que com muito capitalismo crony, é verdade, mas isso é em todo o mundo).
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 17:41

A si não sei, mas a mim já pediram o NIF para comprar um café.
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De Vorph Valknut a 25.09.2019 às 14:07

Não querendo, entrar em detalhes demorados, demolhados já por outros, digo-lhe que os Totalitarismos surgem quando o Estado toma o Individuo para a sua protecção. Protegendo-nos, assegura-se que cada um de nós nada faça que o ponha em causa. Seja em nome da malhada, porque antiga, Segurança, ou da moderna e viçosa Saúde.

O Estado tem como Estratégia a sua Segurança, invocando hipocritamente o nome da comunidade. O Estado cria (ex:pela ameaça de nova crise económica), usa (ex:terrorismo, pandemia) a ameaça, para fazer passar uma protecção que em pouco se distingue de intromissão.
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De Bea a 24.09.2019 às 16:12

Terá as suas razões que aqui não vou discutir por me faltar tempo e disposição. E, se entendi a comparação entre reformados e drogados, digo-lhe que são necessidades de teor diferente o que me coloca desde logo do lado dos reformados. É notório que a sua necessidade é muita, sim, porque as reformas são baixas e o custo de vida elevado. Mas que diferença entre quem treme por precisar alimentar o vício e quem treme porque está frio e é velho, trabalhou a vida toda, já deu o seu contributo ao país. Para muitos levantar a reforma quase sempre curta, é urgência. É muito triste ter de esticar tão pouco dinheiro para tantos dias. Nem sabe como, para alguns, custam a passar os meses.
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 17:46

Sei perfeitamente do que fala e não queria desvalorizar os reformados que vivem com dificuldades. Se houvesse liberdade de escolha entre um sistema de reforma público que garantiria apenas a subsistência complementado com uma poupança que cada um deveria escolher muitos desses reformados teriam outras condições de vida. E isto aplica-se especialmente à geração que nasceu depois de 74, cujos descontos destinam-se financiar reformas, algumas de valor superior aos seus ordenados. Se nada for feito a vida dos reformados ainda vai ser mais difícil no futuro.
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De Bea a 24.09.2019 às 22:35

Disse bem, "algumas reformas" são maiores que os seus ordenados. A maioria é bem inferior. Um problema que me toca e preocupa. Os nossos filhos formam-se e tiram mestrados, mas não ganham mais que 1000€. E ninguém cumpre horário de saída, não são 8h de trabalho diário, são quase ou mesmo dez. Acresce que não têm qualquer certeza acerca do futuro nas empresas e menos ainda acerca da reforma. São os pais que, podendo fazê-lo, dão uma ajuda.Felizmente são jobvens e pensam menos nestas questões que nós. Ou pensam-nas com menos drama.
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De Miguel a 24.09.2019 às 20:40

Já deu o seu contributo? Ainda dá!, os reformados também produzem valor e a reforma é (ou devia ser encarada como) um salário. Há muitas actividades produtivas que não passam pelo mercado . O pressuposto aqui é que não produzem riqueza, que apenas aquilo que tem uma contrapartida no mercado prosuz riqueza. Mas isso é falso. A demonstração é simples: quem realiza uma tarefa doméstica sem ser remunerado é tão produtivo como quem o faz a troco de um salário. O mesmo se aplica à educação das crianças e dos jovens, do acompanhamento das pessoas de idade, etc etc. A teoria do valor implícita neste postal é uma aproximação muito má da realidade. E ainda se diz que acabaram as ideologias! Olhe, aqui está uma e não é pequenina.
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De Bea a 24.09.2019 às 22:46

Gostei de ler. Haja alguém que puxe pelo trabalho dos reformados que são pau para toda a obra. É que tem mesmo razão, há muito trabalho não remunerado que se executa e continua a ser trabalho e a produzir riqueza ou pelo menos bem estar a quem os rodeia.
Mas nenhum post está isento de ser apenas um ponto de vista sobre a realidade. Para se analisar completamente um problema seria necessário escrever muito mais, julgo eu. As postagens são isso mesmo, opiniões que não esgotam o assunto, né?
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 22:53

Não retiro valor pessoal a quem o faz mas nessa base o Burundi (exemplo aleatório) onde a estrutura produtiva será pouco mais que tradicional, seria a nossa referência a seguir e não é. Se queremos melhorar o nosso rendimento e não perder mais lugares no ranking europeu o enfoque tem de ser em actividades que produzam bens transacionáveis.
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De Miguel a 26.09.2019 às 09:52

Não se trata de valor pessoal. Trata-se de valor social e correspondente remuneração/salário.
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De Anónimo a 24.09.2019 às 16:15

Concordo com quase tudo o que foi escrito e sei que a realidade é essa infelizmente.
No entanto discordo que os pensionistas / reformados (quem trabalhou 40 ou mais anos) sejam englobados nos dependentes do Estado. No tempo da troika que ainda vivemos embora muitos não o reconheçam e outros queiram "esquecer" fui contra qualquer de cortes para esta faixa da população pois eram os que menos se podiam / podem defender.
Infelizmente a teia está bem urdida e começa no poder local (ao nível das freguesias) e sobe até ao mais alto grau do poder central englobando muitas vezes os três poderes como aliás se comprova amiúde.
Obviamente que não concordo também com muitas empresas que vivem na corda bamba mantidas artificialmente por subsídios do Estado ou UE mas não esqueço a vilania de quem roubou bancos e o Estado (todos nós) entrou com o carcanhol para tentar tapar buracos sem fundo como facilmente se comprova hoje e que "muitos" já sabiam que assim iria ser...
Em absoluto concordaria com a renacionalização da EDP , da ANA, da REN, dos CTT, da PT (a nossa ex-melhor empresa) mas sei que isso é impossível, 1º porque não temos dinheiro e 2º porque faria de Portugal um estado que não honra os seus compromissos (dividas).
A culpa de quase tudo isto é de um gangue que existe sob a forma de partido e que com o ultimo chefe inaugurou uma nova e muito nojenta forma de estar na vida "quem perde, ganha, quem ganha, perde"...

WW
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 17:50

Há um acordo tácito entre os partidos do arco da governação, ou lá o que é, em que existe interesse em haver um banco público. Eu concordo que deva ser privatizado. veja só o que pouparíamos se não tivéssemos de o recapitalizar.
Porquê intervir para salvar bancos? O colapso da banca dos últimos anos equivaleu a mais de 10% do nosso PIB. Um liberal acha que as folhas secas das árvores devem cair para dar lugar a outras. Veja só quantos SNS que teríamos poupado...
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De Anónimo a 24.09.2019 às 20:05

Pois mas o que "vocês" defendem é que o capitalismo se regula a si próprio mas isso é uma ilusão... para não dizer mais.
Defendo que o Estado deve ter um papel regulador na economia mas participando nela como player como no caso da CGD e não com autoridades disto e daquilo.
Só para ter uma noção a ultima vez que entrei num banco "privado" (deve uma enorme pipa de massa ao Estado) estive 45 minutos á espera de ser atendido (foi este ano).
Sabemos que os cartéis existem, as provas estão aí, seja na banca, na distribuição, na energia, nas telecomunicações... para mim a melhor forma de regular o mercado é intervir nele com uma empresa do Estado mas a jogar pelas regras de mercado. Só referir que todos os monopólios naturais devem estar na mão do Estado.
Agora que o "estado" está obeso, isso é uma realidade e faz parte da natureza do estado manter-se assim pois só assim consegue sobreviver um gangue que dele necessita para justificar a sua própria existência e sobretudo a vidinha.
Um ultimo exemplo, como é possível que continuem a ser ministrados cursos superiores de via ensino quando o que há mais é professores, ou cursos de enfermagem quando todos sabemos que os enfermeiros têm de emigrar, estamos neste caso a formar quadros altamente qualificados a um custo exorbitante que não poderão dar nada ao país...

WW
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De Paulo Sousa a 24.09.2019 às 22:26

Imagine que de 0 a 100 onde 0 é um estado absolutamente liberal e 100 um estado absolutamente controlador e exclusivo motor da economia. Actualmente a nossa situação estará acima do 75. Votar IL não é desejar ir para o 0, mas apenas ir numa direção oposta à que se tem verificado nas últimas décadas. Lucas Pires foi o último a atrever-se a assumir-se como liberal.
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De Vítor Pereira a 24.09.2019 às 23:23

Grande texto. Este é o problema óbvio de Portugal. Só Medina Carreira teve coragem de falar nele na comunicação social. Só discordo no voto. Mesmo que não sirva para nada, dá força ao partido para continuar a lutar contra a seita do marasmo.
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De Paulo Sousa a 25.09.2019 às 08:19

Vou mais uma vez votar contra e não votar por. O tal ciclo nacional seria clarificador.
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De Anónimo a 25.09.2019 às 10:05

Percebo. Mas há sempre o efeito anímico, e para esse, cada voto conta. Não faço parte do partido, mas percebo que para um pequeno partido, ter lá 100 votos ou 101 faz toda a diferença. E se queremos malta animada a expor a hipocrisia, estupidez e maldade destes centenos da vida,
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De Anónimo a 25.09.2019 às 10:09

Acho que carreguei sem querer e o comentário foi incompleto.

Como estava a dizer, se queremos malta a animada para expor o trafulha do Centeno que mais não fez do que usar a informação que o BCE ia usar o QE para se promover a ele próprio à custa do país, devemos votar nesse partido, mesmo que não vá eleger ninguém. Porque se no PSD/CDS começaram a trazer os temas da carga fiscal para a praça publica, foi só e apenas por causa do IL.
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De Aurélio Buarcos a 25.09.2019 às 06:53

As pensões são pagas no dia 8.
Só são pagas a 10 se o dia 8 calhar a um sábado, nesse (e só nesse caso específico) são pagas no dia útil seguinte; 10.
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De Paulo Sousa a 25.09.2019 às 08:20

Reparei no fenómeno num dia 10, mas obrigado pelo reparo.

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