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O declínio do pensamento

por Pedro Correia, em 09.02.17

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“Fui professor e garanto-lhe que os meus primeiros alunos podiam agora ser catedráticos. Saber pensar e raciocinar está em declínio.” Palavras do escritor espanhol Félix de Azúa, em recente entrevista ao jornal El Mundo. Palavras certeiras, que ilustram a erosão cultural a que vamos assistindo nos mais variados domínios. Erosão que começa no vocabulário, cada vez mais comprimido: a cada década que passa, milhares de palavras vão morrendo por falta de utilizadores. A capacidade de decifração de textos escritos há meio século, para não recuar mais no tempo, vai-se reduzindo. Vocabulário exíguo gera pensamento estreito e dicotómico, que pretende expurgar toda a complexidade e só busca respostas simplistas, potenciadas pelo maniqueísmo da chamada democracia digital, pronta a colocar o ignorante no pedestal antes reservado ao sábio.

O erudito está hoje condenado ao ostracismo pela ululante multidão de “utilizadores” das chamadas redes sociais, dispostos a substituir o pensamento racional por emoções avulsas, inflamadas com muitos likes.

 

Voltei a reflectir em tudo isto ao ver ontem uma cena de uma série televisiva, aliás excelente, rodada em Paris por alturas do Natal. Um americano encontra-se com uma francesa numa brasserie e ela pede ao empregado: “Mon ami voudrait bien un verre de vin.” Tradução, na legendagem: “O meu amigo gostaria de um vinho verde.”

O copo de vinho [verre de vin] transforma-se num inverosímil vinho verde [sem tradução, mas que à letra seria vin vert]­, por obra e graça sabe-se lá de quê, transportando a frescura das adegas de Penafiel ou Mondim de Basto para o aconchego natalício de uma brasserie parisiense.

O contexto, a circunstância, o enquadramento cultural – tudo isto importa tanto como a carpintaria da língua quando se traduz seja o que for. Mas raciocinar é uma velharia em declínio. Para quê desgastar os neurónios se não tarda muito teremos um qualquer robot multilingue a desempenhar tão cansativa função por nós?


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