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O debate sobre a Grécia

por Luís Naves, em 30.06.15

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É difícil escrever contra a corrente dominante e contra mitos instalados. Nos últimos dias, triunfou no discurso público uma interpretação da crise grega que torna quase impossível apresentar um ponto de vista alternativo: venceu a ideia falsa de que a Europa é um espaço anti-democrático em colapso, onde Portugal já não cabe; a crise em Atenas tem a ver com imposições tecnocráticas e ignorância política. Embora a teoria não resista a cinco segundos de análise, ela é hoje dominante nos meios de comunicação.

Em textos anteriores, tentei explicar que esta crise é política. A União Económica e Monetária (UEM) nasceu com uma falha de concepção e os resgates foram mal desenhados, num contexto de pânico financeiro que os tornou inflexíveis. Qual é a falha da UEM? A ausência de união política, o que se traduz no seguinte: o eleitor do país A não se pronuncia sobre o governo do país B e, no entanto, o governo do país B pode tomar decisões que prejudicam a prosperidade do eleitor do país A.

É este o caso da Grécia, onde o governo populista de esquerda quer sair da zona euro, mas culpando os europeus pelo resultado. Com a saída, o Syriza podia nacionalizar a banca e imprimir dinheiro, libertando-se de medidas impopulares que não tem condições para aplicar, como cortes nas pensões. As poupanças dos gregos serão destruídas, mas o Syriza é um partido da esquerda radical e não está interessado na classe média. Tsipras mentiu ao seu eleitorado sobre a saída da zona euro e precisa de um bode expiatório. O verdadeiro jogo é sobre a culpa.

Na Europa há também a intenção de tirar a Grécia da zona euro, embora não a de arcar com a responsabilidade. O incumprimento e a desvalorização da nova moeda permitiriam reestruturar a dívida grega e recuperar a economia, sobretudo se houver uma ajuda em larga escala. Em vez de uma agonia lenta e de um terceiro resgate que talvez não passe nos parlamentos, a Grécia podia ser colocada num programa temporário de recuperação, suspendendo a sua participação na UEM. Há outra vantagem: a saída (ou meia-saída) permite resolver de vez a falta de união política, pois quem fica sabe que a falta de disciplina orçamental terá a punição grave do eventual afastamento da UEM.

O debate nacional ignora tudo isto. Os mesmos que fazem previsões catastróficas sobre o futuro de Portugal na moeda única criticam de forma ácida qualquer declaração sobre as dificuldades de Atenas, como se Portugal não fosse uma democracia. Cada vez que o governo português se pronuncia sobre um assunto com potencial para nos afectar, surge logo um coro de indignação, que deviam estar calados ou que deviam apoiar Tsipras. E, no entanto, quanto mais conseguir destruir as minhas poupanças, melhor negócio terá a Grécia, embora o meu protesto seja visto como um atentado à democracia e àquela Europa mítica que nunca existiu e não existe.


12 comentários

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De Luís Lavoura a 30.06.2015 às 11:54

"o governo populista de esquerda quer sair da zona euro, mas culpando os europeus pelo resultado"

Isso é uma afirmação do Luís Naves que não tem qualquer sustentação factual. É uma mera opinião do Luís Naves que não tem qualquer sustentação.

"o Syriza é um partido da esquerda radical e não está interessado na classe média"

Mais uma opinião insustentada. O Syriza é uma coligação de forças políticas, umas mais à esquerda do que outras. Nada permite afirmar que o Syriza, como um todo, se está nas tintas para a classe média.

"Na Europa há também a intenção de tirar a Grécia da zona euro, embora não a de arcar com a responsabilidade."

Mais outra afirmação que se apoia no ar.
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De Luís Naves a 30.06.2015 às 13:14

Baseio a minha opinião nas notícias que vou lendo. Na Finlândia, Holanda, Áustria e Alemanha numerosos responsáveis governamentais não esconderam ao longo dos últimos cinco meses que desejavam a saída controlada da Grécia da zona euro. Basta ouvir durante dois minutos o actual ministro das finanças finlandês, que era primeiro-ministro no início da crise. O ministro das Finanças alemão também é acusado de pensar exactamente isso e foi comparado hoje na rádio portuguesa ao Dr. Strangelove por uma eurodeputada socialista (comparação de um mau gosto invulgar). Neste momento, Alexis Tsipras apela ao voto 'não' no referendo, o que levará certamente à saída da Grécia. E basta ouvir os militantes e simpatizantes do Syriza entrevistados em Atenas, que defendem a nacionalização imediata da banca e a introdução do dracma ou de uma moeda paralela, algo que vai destruir as poupanças, prejudicando a classe média, que não é propriamente a preocupação habitual dos partidos de extrema-esquerda. E basta ler economistas como Paul Krugman para se perceber a lógica do Grexit, para mais quando não se avistam sinais do colapso dos mercados que os nossos especialistas esperavam.
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De Luís Lavoura a 30.06.2015 às 13:42

basta ouvir os militantes e simpatizantes do Syriza entrevistados em Atenas, que defendem a nacionalização imediata da banca e a introdução do dracma ou de uma moeda paralela, algo que vai destruir as poupanças, prejudicando a classe média

Sem dúvida que o Syriza tem alguns militantes e simpatizantes de extrema-esquerda que se marimbam para a classe média. Como eu referi, o Syriza é uma coligação de forças políticas, algumas das quais estão sem dúvida bastante à esquerda. Mas os dirigentes máximos do Syriza nunca deram mostras de se estarem nas tintas para a classe média, de quererem nacionalizar a banca ou abandonar o euro. Muito pelo contrário, têm afirmado repetidamente que querem que a Grécia permaneça na Zona Euro. Não vejo razão para o Luís Naves prestar tanta atenção àquilo que dizem os ministros finlandeses e alemães e holandeses, e lhes dar crédito, mas não dar crédito ao que dizem os ministros gregos.

Tsipras apela ao voto 'não' no referendo, o que levará certamente à saída da Grécia

Não necessariamente. Aquilo que ele pretende é reforçar a sua posição nas negociações, tanto perante os seus adversários internos como perante os outros europeus. Se os gregos votarem "não", o restante da Europa poderá decidir negociar noutros termos. Tsipras diz que quer negociar, não diz que quer sair do euro.
Se o "não" no referendo levar à saída do euro, isso será por vontade dos outros europeus, não por vontade de Tsipras. Ou, pelo menos, eu não vejo quaisquer indicações de que seja por vontade de Tsipras.
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De rmg a 30.06.2015 às 18:01


Como é que um partido que é eleito para acabar com a austeridade (que é o que toda a gente lá quer) mas continuar no euro (que é o que quase toda a gente por lá quer) pode alguma vez dizer as mesmas coisas todos os dias?

Porque é que os ministros gregos, que estão já a fazer contas à própria segurança física, hão-de ter mais credibilidade do que outros quaisquer que nem sequer estão postos perante a opção de ter que pôr a polícia na rua um dia destes (isto no caso da aliança "polícia-povo" não se tornar uma realidade e só vermos helicópteros a levantar dos ministérios, como por cá esteve sempre previsto quando V. ainda andava de calções)?

É curioso vê-lo aqui todos os dias a defender as evidências que todos imaginamos sobre o que Tsipras quer ou não quer com o referendo.
Se Tsipras dissesse que queria saír do euro só tinha o apoio dos 17 mil que ontem saíram à rua, o homem não é maluco.

Nacionalizar os bancos? Na Grécia?
Um dia destes acabamos aqui a falar dos Porsches de Larissa (que não são todos Cayenne, é um facto)...

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De Rui Herbon a 30.06.2015 às 12:32

Excelente, Luís.
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De Anónimo a 30.06.2015 às 13:39

Era para o Luís mas Lavoura.
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De lucklucky a 30.06.2015 às 12:54

Qual a surpresa!? Não existem meios de comunicação social, existem meios de comunicação políticos e não existem jornalistas existem políticos disfarçados de. E como a maioria dos jornalistas são de Extrema Esquerda tem o resultado.


O Syriza é um partido Neo-Marxista, obviamente quer sair da União ou transformar a União numa Republica Popular.

Eu continuo a não perceber esta "racismo" político que não leva a sério as palavras que as pessoas da extrema esquerda dizem.
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De José António Abreu a 30.06.2015 às 13:36

Muito bom. Mas creio que «a corrente dominante» domina apenas os meios de comunicação e, em menor grau, a blogosfera. É esta circunstância, aliás, que enfurece os admiradores locais do Syriza, do PC à facção que controla o PS, passando pelo Bloco, pelo Livre e por esse ser estonteante (em mais do que um sentido) chamado Joana Amaral Dias (“Entre honrar compromissos com credores ou idosos, escolhemos os idosos").
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De am a 30.06.2015 às 14:25

Sinceramente, há jornalistas e políticos comentadores que precisavam de levar com um pano encharcado na foça!

Exemplo: Manuela F. Leite, muito indignada diz que o Governo deve ser totalmente solidário com o pobrezinhos gregos... Muito bem! Então, quando aquele moço de entre os milhares de estudantes lhe mostrou o traseiro ( Manif, na A.da Republica) que gritavam "NÃO PAGAMOS" ... ela foi solidária?
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De cristof a 30.06.2015 às 21:39

Apoiado. A maneira como certos tudologos se expressam sobre o que diz quer o Cavaco quer os menos amantes de caviar, lembra quem antes de o outro terminar o raciocínio já está discordar; por vezes são tão ansiosos que nem deixam os outros falar(ver os Pros Contra de ontem ou Castilho sobre educação); claro que a maioria do raciocínio baseia-se em sofismas que não resistem a mais leve comparação com os factos; em geral têm uma audiência adepta dos lugares comuns, e que o gato ou é preto ou branco, ponto final.
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De Vento a 30.06.2015 às 23:41

Na realidade agora compreendi que o problema radica-se numa falta de união, que a seu ver é política.
Eu corroboro a falta de União e também que qualquer programa de assistência seja ratificado pelo parlamento alemão e nenhum outro parlamento tem direito a ratificar o que quer que seja. Este mesmo país gozou de extraordinárias solidariedades e fez uma reintegração com o apoio daqueles que não reconhece actualmente como comuns.

Na realidade o Syriza, juntamente com a coligação, tornaram-se num partido popular, o que não acontece em Portugal e noutros países europeus. Chamar populista a um partido tem como que uma conotação de ser suportado por mentes destituídas de razão, crítica e pensamento.
Mas a realidade revela que os grandes pensadores da "União" e na "União" afinal defendem um clube com estatuto blindado em termos de decisão, mas que obriga os demais a pagar quotas e a aceitar cotas para não se pronunciarem. O recente caso da Maria Luís revela isto mesmo. Vai à reunião e marca presença, mas fica de fora sem saber o que por lá vai.
É este exemplo pouco popular de determina os governos não populistas e não populares.

Passos agora pronuncia-se para pedir batatinhas. Compreendeu tardiamente que tendo transformado este governo num dos participantes da actual crise só lhe resta tentar recuperar terreno. Mas meteu-se num caminho de lama como beneplácito do PR. Basta olhar para as declarações deste último desde a visita à Bulgária.

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