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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 04.03.18

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«Um dia se fará, talvez, a quantificação da verdadeira culpa que o automóvel tem. Sem mais nem menos do que essa, sem demagogias, sem ódios ao carro particular e ao automobilista. Sem rendições incondicionais ao politicamente correcto.

Um dia, por exemplo, talvez se quantifique o peso, entre nós, de uma fiscalidade criminosa, insaciável e eterna, impedindo a renovação, a modernização em tempo devido, do parque automóvel.

Um dia, por exemplo, talvez se revelem os efeitos - e as razões decerto menos confessáveis - que levaram ao massivo desinvestimento, por cá, na ferrovia, tornando o generalizado encerramento de linhas um principal desígnio do operador ferroviário e deixando-nos à mercê de uma verdadeira tirania do autocarro e do camião, altamente poluentes (e tanto mais quanto mais envelhecidos), para o transporte de pessoas e bens. A ferrovia e os restantes transportes públicos (desde logo os "eléctricos", em meio urbano).

Um dia, por exemplo, talvez se apresente o que está por trás da maravilha do automóvel eléctrico, essa súbita e universal panaceia. Talvez se fale do altamente poluente processo de produção de bateriais.

Talvez haja, quem sabe, um dia, algum interesse em saber de onde vem a electricidade com que essas bateriais se carregam. Algum interesse em investigar os interesses envolvidos no desinteressado milagre de, por cá, encher de torres eólicas a mais pequena colina e de barragens qualquer regato (o Tua não é um regato, é certo, mas, mero exemplo, o extraordinário crime ambiental e paisagístico passou impune e, com ele, a absoluta inutilidade daquela barragem; mas há que alimentar o obeso ser das obras públicas).

Um dia, quem sabe, talvez ocorra a alguém suscitar a questão da poluição (do efeito de estufa, de todos esses demónios) originada na actividade industrial vista como um todo. Bem para lá dos transportes.

Como quem sabe, um dia, talvez se aponte o dedo mais que devido ao caos urbanístico em que se permitiu - se incentivou - se tornassem os subúrbios e os fluxos diários que originam. A esse caos e a quem o fomentou.

Até lá, até esse dia, apontar o dedo ao automóvel (ao automobilista) é coisa a cultivar empenhadamente. Oferece um culpado evidente, uma pena óbvia e justiceira, um fácil destinatário do desprezo bem-pensante, receitas abundantes para o fisco, uma simples e clara solução.

Solução com a vantagem de impraticável, se generalizada na sua aplicação - como afinal supostamente deveria ser aplicada, atendendo à dimensão do mal em causa -, a menos que se aceitem as tremendas consequências que traria. E por isso politicamente abençoada. Até dá votos, pela sua mera invocação como ideal.

E é essencial à impunidade de políticos. Passados, presentes e futuros. A isso e à desresponsabilização do estado.

Que é o que interessa.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto do João Pedro Pimenta.

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3 comentários

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De Costa a 04.03.2018 às 19:12

Agradeço o destaque.

Costa
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De Isabel a 04.03.2018 às 21:25

Um dia, talvez se vá saber o que foi decido pelos portugueses e o que foi decidido por Bruxelas, isto é, pela Alemanha.
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De Lucklucky a 06.03.2018 às 12:39

Os que defendem a ferrovia, os transportes públicos são aqueles que impedem a uber. Pois o que querem é o controlo sobre as pessoas. Mercantilistas.

Só o cartel dos taxistas, exemplo do mercantilismo tradicional tuga é aceite. E por ser cartel é caro. Veja-se quanto custa uma licença.

A luta é cultural, política.
Enquanto o carro, a mota, a uber desenvolvem a individualidade.

Isso é um anátema para Marxistas. O individuo quer-se em grupos. Corporativismo. Fascismo portanto.

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