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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 25.09.16

«Na qualidade de pessoa que tirou a carta depois dos 30 anos, trabalha e (desde que tem voto na matéria) vive no centro de Lisboa, tem passe desde os anos 80, e faz 90% das suas deslocações urbanas a pé ou transportes públicos (incluindo, claro, táxi, porque depois das 21h30 demoro mais tempo entre o Rossio e as Amoreiras de transportes do que a pé), e nunca foi ao grande Porto de automóvel, estou de acordo consigo em tudo. E, ao mesmo tempo, estou de acordo consigo em nada. A Holanda, país rico e ordenado (até os alemães gozam com a ordem na Holanda), cuja maior "montanha" é da altura de Monsanto (não a aldeia beirã, mas o monte à saída de Lisboa), não é comparável em nada com Portugal.

Não é por gosto que as pessoas gastam duas ou três horas por dia no trânsito, e, as que usam transportes urbanos (como eu) empatam meses ou anos de salário num objecto que só usam ao fim-de-semana e em férias. O facto é que os transportes públicos em Portugal (como quase tudo o que é público, em Portugal) são ineficientes, excepto para as pessoas que lá trabalham. Na Holanda o pessoal dos comboios ocupa a primeira classe e vai para lá discutir diuturnidades e subsídios de flatulência? Na Holanda os trabalhadores do metro ganham em média o triplo dos passageiros? Na Holanda os trabalhadores do metro recebem complementos vitalícios para manter a reforma igual ao salário dos colegas no activo? Na Holanda há seis greves de transportes por ano?

Com estas condicionantes, com os custos de pessoal inacreditáveis que têm as empresas públicas de transportes, temos de perceber e aceitar que, ao fim-de-semana, haja metros de 16 em 16 minutos, que, depois das 22h00 é normal estar 20 minutos no Marquês à espera de um autocarro para as Amoreiras, ou meia-hora em Santa Apolónia à espera de um comboio que pare em Moscavide, que, salvo para “o Barbas”, seja impossível ir às praias da Costa sem levar um carro, que, tirando para Faro, ir ao Algarve de comboio é como ir à Índia, e que qualquer emigrante tem de trazer carro (ou vir de navette) para chegar à sua aldeia beirã ou transmontana.

Em suma: é a favor da privatização de todos os transportes públicos? É a favor da automatização da rede do metro, como em Barcelona? É que enquanto os transportes públicos de Lisboa e a CP estiverem ao serviço da CGTP, não será possível “acabar a ditadura do automóvel” - enfim, só se for falindo (outra vez) o erário público ou pondo tudo a andar de bicicleta, na nossa cidade das (muito mais do que) sete colinas, e não só os lunáticos que andam por aí em sentido contrário e com fones nas orelhas, e para quem (supostamente) se edificam longas pistas rosas que só servem para carrinhos de bebé, runners, senhoras com joanetes e amigos da construção civil com pouco trabalho.»

 

Do nosso leitor JPT. A propósito deste texto do Tiago Mota Saraiva.


6 comentários

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De João André a 26.09.2016 às 14:24

Tenho dificuldades em conciliar a maior parte dos pontos com os dois últimos parágrafos.

1. os caminhos de ferro holandeses foram privatizados há uns anos. De acordo com toda a gente que conheço, sem excepção, o serviço piorou (mesmo que o lucro tenha aumentado). Não tenho dados de estudos, de inquéritos de satisfação ou outros, é apenas um "inquérito" pessoal que me indica que começou a haver gente a mudar para carro ou outras opções.
2. Há uma imensa quantidade de gente na Holanda a viajar de bicicleta. Isso significa que os transportes públicos ficam mais aliviados que de outra forma. Claro que ajuda o facto de o país ser muito plano, mas isso é precisamente o que não há em Portugal.

Sou das pessoas que tenta sempre viajar de comboio na Holanda, especialmente se vou à (ou passo pela) Randstad (Haia, Amesterdão, Roterdão, Utrecht), uma vez que o trânsito nesta área é do pior que já vi (incluindo Lisboa ou Porto). Sempre adorei a forma como é possível viajar entre duas cidades no país com apenas uma mudança ou duas pelo meio e sendo elas de uns 3 minutos (devido à excelente sincronização). Só que se quisermos comparar com Portugal convém lembrar que o mais ou menos razoável sistema ferroviário que existia nos anos 80 foi sistematicamente destruído em favor do automóvel e nisto todos os governos têm tido responsabilidades.
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De JPT a 27.09.2016 às 10:34

Facto: os transportes públicos estatizados são ruinosos há décadas. Para deixarem de ser ruinosos (por ordens da troika, claro) tiveram de se reunir as seguintes condições (exemplifico com o Metro de Lisboa): circular abaixo da velocidade máxima, operar com três carruagens em vários horários e percursos e cortar na manutenção, pelo que as avarias se repetem, nos veículos, nas escadas, passadeiras e elevadores (e vamos acreditar que os cartões Viva Lisboa se esgotaram porque o fornecedor teve uma “quebra de produção” e não porque se fartou de atrasos de pagamento). Por cima disto, caiu uma horda de turistas em Lisboa, e, desde 2010, o Estado torrou dezenas de milhões dos contribuintes para rescindir contratos e financiar as empresas (pois já não tinham crédito na banca). E o Tribunal Constitucional até julgou lícita a eliminação dos escandalosos complementos dos reformados do Metro (definindo que a tutela dos abusos de confiança só vale MESMO para a função pública) Até que, finalmente, em 2014, deu-se o "milagre" dos resultados operacionais positivos – algo que é normal da Albânia à Zâmbia, os transportes darem lucro – condição básica para um privado assumir a sua gestão (e para saber o que isso quer dizer, basta olhar para a Fertagus, que presta um bom serviço, dá lucro e não tem greves). No instante seguinte a este "milagre" (feito às custas dos lisboetas e dos contribuintes), os Andrés e os Saraivas reverteram as concessões aos privados (incumprimento que vamos todos ter de pagar), puseram outra vez as pessoas de Bragança e da Guarda a pagar os transportes de Lisboa, e pouco falta para que os instalados do Metro, CP e Refer recomece a contratar primos, sobrinhos e cunhados (e não falta nada para que os conselhos de administração sejam invadidos por “boys” do partido). Sabendo que é assim, e que assim será para sempre – até porque não há dinheiro para mais – incita-se os lisboetas (que vivem de Torres Vedras a Palmela e da Guia ao Carregado), com a cara séria de um protector da Terra Mãe, que ataquem de bicicleta a Gago Coutinho, a Estados Unidos da América, as Forças Armadas ou a Calçada de Carriche. E porque não de carroça ou de jumento, já que não são precisos os votos da PAN?
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De M. S. a 27.09.2016 às 15:00

Caro JPT:
Este seu texto, premiado como Comentário da Semana, teve origem numa interpretação deturpada de outro comentário meu.
Eu respondia ao comentário de luckyluck sobre a falta de liberdade individual que, na opinião dele, as coisas públicas originam, dando, ironicamente, o exemplo holandês de falta de liberdade individual pela excelente rede de transportes públicos em detrimento do transporte particular, especialmente nas 3 cidades que referi.
Por essa razão, da deturpação que fez, e porque resolveu despejar tudo nele, decidi não entrar novamente na discussão.
Mas hoje, ao passar por aqui casualmente, dei-me de caras com mais outro arrazoado azedo em que dispara contra tudo e contra todos.
Estas suas três pérolas que abaixo transcrevo mereceram-me a atenção. E são significativas de uma coisa que inquina os debates entre nós. Fala-se a partir de preconceitos, de opções políticas e/ou ideológicas, de ódios pessoas, de azedumes resultantes de situações variadas mal resolvidas: raramente a partir do conhecimento da realidade.
Disse: «basta olhar para a Fertagus, que presta um bom serviço, dá lucro e não tem greves).»
Só quem não começou a usar a Fertagus e dela se serve regularmente há mais de 10 anos pode falar assim. Sim, a Fertagus é um sucesso financeiro garantido por uma renda de quase 500 mil euros/ano de indemnizações compensatórias pagas pelo malvado do Estado, o culpado de todos os males à face da Terra. E o sistema de bilhetes da Fertagus foi uma monstruosidade muito peculiar até há pouquíssimo tempo, melhorando um pouco agora, mas, mesmo assim, uma irracionalidade que faz perder o comboio a muita gente.
É um verdadeiro fiasco no propósito inicial anunciado pelo seu mentor, o então ministro Ferreira do Amaral, retirar muitos carros da Ponte 25 de Abril (Ponte Salazar, se preferir, ou Ponte sobre o Tejo, como a esmagadora maioria das pessoas se lhe referia). Cada vez há mais carros, tornando a vida das pessoas da Margem Sul um verdadeiro inferno. E os horários mantêm-se inalterados, com uma frequência inadequada, de hora a hora entre Setúbal e Coina para Lisboa, de 20 em 20 minutos a partir daí. Isto quando há clientes mais do que suficientes para aumentar a frequência dos comboios. É outro verdadeiro fiasco na qualidade do serviço, que tem piorado a lhos vistos.
Mas António Gedeão escreveu no poema Impressão Digital:
«Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.»
Disse ainda: «puseram outra vez as pessoas de Bragança e da Guarda a pagar os transportes de Lisboa»
E eu e o senhor não pagamos o Túnel do Marão?
E a A4 para Bragança?
Deixe-se de demagogia barata.
Disse finalmente: «incita-se os lisboetas (que vivem de Torres Vedras a Palmela e da Guia ao Carregado), com a cara séria de um protector da Terra Mãe, que ataquem de bicicleta a Gago Coutinho, a Estados Unidos da América, as Forças Armadas ou a Calçada de Carriche»
Outra deturpação. O que está em causa é fomentar o uso do transporte público colectivo ou a bicicleta. Ma onde for possível.
Até parece que está satisfeito com a entrada e as consequências de 400 ou 500 mil carros entrarem todos os dias em Lisboa.
Alguém estudou os impactos na nossa saúde de tamanha irracionalidade?
(Manuel Silva)
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De JPT a 27.09.2016 às 17:44

Caso não tenho notado, nunca me deu para associar o automóvel à minha liberdade individual (teria estado trinta anos no cativeiro). E essa piada (?) da ponte Salazar qualifica-me não a mim, mas a si, como membro da seita que chama “fascista” a quem discorda dele. Eu, de facto, não uso regularmente a Fertagus, como resulta do que escrevi. Aí escrevi o que me dizem (mas a minha experiência pessoal é a melhor). Se tem comboios suburbanos de 20 em 20 minutos, queixa-se de barriga cheia: ontem, esperei isso para ir de autocarro do Marquês às Amoreiras (às 20h00) e o meu recorde à espera do metro à saída do futebol - que espero não bater hoje - são 16 minutos. Quanto à renda paga à Fertagus é certamente menor que as indemnizações compensatórias pagos as empresas públicas de transportes. Se é muito ou pouco, não sei, com certeza que poderá compará-la com o que custam a CP, REFER, Carris e Metro. Se os carros continuam a entupir a Ponte 25 de Abril não é por falta de comboios ou barcos, mas pelos maus transportes públicos em ambas as margens do rio. Acresce que, como sabe, subir a portagem nessa ponte é um tabu que o só o malvado Cavaco se atreveu a quebrar (temporariamente, o que por acaso, até é a causa da tal indemnização compensatória). Nada tenho contra o Estado. Mas o Estado existe para servir os cidadãos. Tenho tudo contra um Estado e empresas públicas que servem para colocar supranumerários dos partidos políticos e estão dominadas por sindicatos sem quaisquer escrúpulos, que não hesitam em prejudicar os mais pobres para reforçarem os seus privilégios. E tenho tudo contra o cinismo dos que dizem “defender os trabalhadores” enquanto apenas protegem os trabalhadores que lhes pagam as quotas, convivendo bem com a existência de tarefeiros, bolseiros, e trabalhadores temporários que fazem o dobro e recebem metade. Mas se acha que está bem a região mais rica de Portugal receber recursos das mais pobres para pagar o défice do seu sistema de transportes, percebo que não se incomode com estas minudências. Lamento se ainda não percebeu (provavelmente não via os "Sopranos") mas as ciclovias e os “passeios inclusivos” são o sucedâneo das rotundas e da “arte pública”: são obras de baixo valor, contratáveis por ajuste directo, que permitem transferir fundos dos autarcas para os seus amigos na construção civil. Tirando turistas e alguns excêntricos, não passa pela cabeça de ninguém andar de bicicleta em Lisboa e nunca serão as bicicletas, numa das cidades mais íngremes e quentes da Europa, que evitarão a entrada de carros na cidade. Serão transportes públicos de qualidade, mas isso não é, e nunca foi, a prioridade dos que se apregoam seus defensores (como a surreal comissão de utentes dos mesmos, que partilha a sede com a CGTP).
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De JPT a 29.09.2016 às 11:28

Actualização: no final do jogo em Alvalade (40 mil espectadores) - facto não desconhecido do metro, pois tinha 6 revisores a fiscalizar as entradas- espera de 15 minutos pelo metro da linha amarela direcção Rato. Do outro lado, direcção Odivelas, espera de 13 minutos. Naturalmente, quando chegou a composição, metade das pessoas conformou-se com ser esmagada e a outra metade ficou na plataforma à espera mais 15 minutos. No dia seguinte, ambas as passadeiras da estação do Marquês estavam imobilizadas e as máquinas não tinham cartões Lisboa Viva (repetindo-se a mensagem sonora em inglês a avisar os turistas que os cartões eram reutilizáveis durante um ano). Posso garantir que os salários foram pagos a tempo e horas. Tudo como dantes, quartel general em Abrantes.
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De M. S. a 29.09.2016 às 17:05

Conclusão lógica: 40 mil de carro para o Estádio de Alvalade.
Nesse caso não esperariam 13, muito menos 15 minutos.
Quer venham da A2, da A1, da A8 ou da A5.

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