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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 02.01.16

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«Embora não me considere detentor da "verdade", e tenha as minhas dúvidas sobre a existência desta, a minha "vida paralela" de cinéfilo permite-me afirmar, com razoável à vontade, que a História do Cinema é feita da conversão de livros péssimos em filmes óptimos. A velha ideia (com 'força de lei') de que o livro é sempre melhor que o filme caiu por si, e há muito tempo. Além de que estabelecer a comparação entre duas formas de expressão tão diversas não se afigura tarefa fácil - para dizer o mínimo. Mas claro que haverá sempre a noção do que é um bom livro e do que é um bom filme.
É sabido que Hitchcock adormeceu a meio da leitura da novela de Daphne Du Maurier, na fase de recolha de matéria-prima para a confecção de outra obra maior: Os Pássaros. Considerou que já estava de posse de material suficiente, chegou-lhe aos ouvidos a notícia de alguns episódios de comportamentos anómalos de aves em praias da Caifórnia, e lá foi ele.
E não constitui uma das mais rocambolescas (e, se calhar triviais...) histórias do cinema que um filme tão notável como Ter e Não Ter, de Howard Hawks, tenha tido como ponto de partida o repto por este lançado a Ernest Hemingway: "Queres apostar em como faço o meu melhor filme a partir do teu pior livro?"...
Não li a novela que deu origem a Vertigo; logo, não tenho opinião. Mas sei que tudo começou quando Hitchcock assistiu à exibição de Les Diaboliques, de Henri-Georges Clouzot, filme de argumento extraordinário, dos mesmos autores. Tão impressionado o Mestre ficou que não perdeu tempo a entrar em contacto com os dois escritores gauleses, aos quais encomendou o argumento para um dos seus próximos filmes. E foi isso que eles fizeram. Se o livro é uma fase intermédia ou se é posterior à estreia do filme (como, mais tarde, se tornaria prática comum), desconheço. Conta o enredo, o qual foi concebido para conversão em imagens. Se a adaptação de Hitchcock é fiel à ideia original ou se foi sujeita à sua leitura do potencial dramático do argumento (tudo indica que sim, que toda a acção seria o sonho de um homem, à espera da morte, pendurado em algerozes prestes a ceder, e sem ninguém por perto), também será difícil chegar a alguma conclusão (nem mesmo na célebre entrevista a Truffaut soa muito convinvente - para não falar da fabulosa partitura de Bernard Herrmann, em registo, deliberadamente, oníirico).»

 

Do nosso leitor Ricardo Saló. A propósito deste meu texto.


10 comentários

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De JSP a 02.01.2016 às 20:17

Onde está "Faulkner", escrever "Hemingway".
Cpmts.
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De Pedro Correia a 03.01.2016 às 10:12

Certo. Vou tomar a liberdade de emendar apesar de o texto não ser meu.
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De Anónimo a 02.01.2016 às 23:06

O 'Ter ou não ter' é do Faulkner ou do Hemingway?
Não sabia que o Hitchcock tinha adormecido a meio do conto 'Os Pássaros'. Ainda bem que isso não o impediu de ler e adaptar outros livros da Daphne du Maurier como, por exemplo, a Rebecca e a Jamaica Inn.
:-) Antonieta.
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De Pedro Correia a 03.01.2016 às 10:13

É do Hemingway, Antonieta. O Faulkner foi o autor do argumento cinematográfico - o que, aliás, Hemingway nunca lhe perdoou.
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De Ricardo Saló a 03.01.2016 às 02:31

Caro Pedro: primeiro que tudo, obrigado pela 'honraria'. E, só para encerrar o assunto da minha parte, aproveito para dizer aquilo que -pela sua extensão- se me afigurou supérfluo referir no meu segundo comentário. Mas também porque não me parece assunto de solução muito óbvia ou linear. A minha ideia de que o filme é o sonho de um homem à espera da morte, pendurado num algeroz prestes a ceder (e sem ninguém, nas proximidades, para salvá-lo) e, para mais, minado pela 'culpa' da queda fatal do agente que arriscou a vida por ele levanta uma questão de algum melindre (mas nada de grave -eu não me importo e ele já morreu...). Porque, caso a minha 'pseudo-teoria' esteja certa, o final do filme representaria uma fífia maior na carreira de um génio obcecado com a perfeição: a única pessoa cuja queda da torre faria sentido seria a de James Stewart. Caso esteja errada, esse cenário não se coloca, mas nem por isso o enredo se revela muito esclarecedor. Na verdade, sempre considerei anómalos alguns aspectos da narrativa: a) embora sempre tenha sido muito criativo no uso da elipse, creio que recorrer a ela numa cena tão relevante como a do salvamento de Scotty é, no mínimo, suspeito (primeira carta de uma 'partida viciada' com o espectador?); b) o estratagema engendrado pelo antigo colega de estudos é de uma sofisticação de tal modo desajustada da personagem (e de uma mera ficção) que chega a ser embaraçoso, quase caricato; c) o momento da revelação da 'verdade' é um ponto, eternamente, em aberto, bem como -se bem que menos- a pertinência da sua própria inclusão no andamento da acção (da qual, curiosamente, parece ser um travão...) d) por fim, a aparição fatal da freira, causa da queda de Novak, é, claramente, um corpo estranho no rigoroso dispositivo narrativo do filme -como se alguém, a meio de uma discussão grave, se lembrasse de um pormenor pitoresco da sua última ida à Feira Popular... Ou como se a última cena de "Vertigo" tivesse sido confiada a Abbott & Costello... Não faz sentido! Aqui, podia voltar ao princípio: coisas que só acontecem nos sonhos?...
Um abraço
Ricardo Saló
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De Pedro Correia a 03.01.2016 às 10:19

A sua análise de 'Vertigo' é muito interessante, Ricardo. Poderemos, de facto, considerar este filme um sonho dentro de um sonho. A presença da freira no final remete-nos para o tema da transgressão moral e do pecado, omnipresentes na obra de Hitchcock. Mas este é, na verdade, um filme que se presta a leituras múltiplas - o que só atesta o fascínio que tantos anos depois continua a exercer sobre os espectadores.
Eu, confesso, senti-me mais fascinado por aspectos menos oníricos. Daí ter procurado seguir o roteiro dos locais de filmagens quando estive em São Francisco. Aí percebi, ainda melhor, que nunca viajamos tão bem como quando viajamos à boleia do cinema.
Um abraço. E bom ano!
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De Anónimo a 03.01.2016 às 10:30

E estas análises deixam-me com imensa vontade de ler o livro que originou este filme.
Para já vou reler o livro do Truffaut.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 03.01.2016 às 18:43

É melhor ir por aí, Antonieta.
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De Anónimo a 03.01.2016 às 20:16

Já fui, Pedro. Sobre o Vertigo li as páginas 180 a 184.
Foi uma releitura interessante, até sobre o 'D'entre les morts', da dupla Boileau-Narcejac, que parece que escreveu o livro a pensar no Hitchcock, desejando que ele gostasse e comprasse os direitos... e ele comprou.
Sei que também tem o livro, talvez queira dar uma espreitadela.
:-) Antonieta
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De Ricardo Saló a 03.01.2016 às 23:10

A possibilidade de múltiplos planos de leitura é, talvez, a maior riqueza de cineastas da estirpe de Hitchcock (sim, porque há mais :) ). Obrigado e, também para si, Pedro, um Bom Ano.
Um abraço
Ricardo Saló

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