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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 25.08.14

«Tenho a firme certeza de que a desregulamentação iniciada com a suspensão do padrão ouro vs possibilidade de emitir moeda é a grande causadora da actual evolução dos mercados em que a deflação será a estocada final na economia mundial baseada em especulação e bens não tangíveis sendo o "trabalho" um dos bens tangíveis mais afectados.
A espiral de crise actual continuará a atirar milhões de pessoas que tinham alguma coisa para um imenso limbo onde não terão nada (apesar de terem - não terá é valor).
Também vi esse programa na SIC N e destacaria outros pormenores se o soubesse de cor, só para informar que o exemplo dado no programa em questão do killowat-hora de energia renovável era dado como mero exemplo e não apoiado com veemência.
Continua-se a fuga para a frente de que cito como exemplo a breve efectivação do acordo de parceria comercial que a UE está a negociar com os USA em que serão abolidas as últimas grandes barreiras alfandegárias que existem entre estes dois colossos económicos e em que uma vez mais as pequenas e médias empresas europeias serão as grandes prejudicadas assim como também os países com economia mais débil. Esta "parceria" na sua forma principal já é praticada na Irlanda e no Reino Unido sem que daí decorra especial vantagem para o tecido produtivo e apenas ganham os grandes impérios financeiros que baseiam a sua riqueza no planeamento fiscal e na especulação.»

 

Do nosso leitor William Wallace. A propósito deste texto do José António Abreu.


15 comentários

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De l.rodrigues a 25.08.2014 às 14:10

Como se pode ver no gráfico comparativo o problema é absolutamente outro, e a ilação a tirar a oposta. (Para quem tem preguiça de clicar em links, nele se mostra a reacção de economias diversas (padrão ouro abandonado em blocos diferentes) à grande Depressão e o Japão com a sua década perdida, comparadas com a performance da zona Euro na crise actual.

Dica: o pior dos desempenhos é do euro, logo seguido do padrão ouro (que se safa porque os diversos países o foram abandonando).

http://www.washingtonpost.com/blogs/wonkblog/wp/2014/08/20/worse-than-the-1930s-europes-recession-is-really-a-depression/
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De William Wallace a 25.08.2014 às 17:07

Em relação ao gráfico que cita penso não ser plausível para a sua teoria pois analisa uma variável em simultâneo com períodos temporais distintos.

A única ilação (A CUSTO) que se poderá tirar é que diferentes blocos económicos reagem de modo diferente a uma crise económica (e isso é óbvio) provocada ainda por cima por factores distintos em horizontes temporais distintos.


O que está em causa no texto do JAA é que actualmente não existe um padrão de riqueza comum a todos os Países do Mundo como sempre foi e que esse desequilíbrio torna tudo muito incerto e volátil o que provoca quedas abruptas na capacidade das pessoas poderem ter algo de valor com o qual possam criar bases para uma evolução sustentada do seu nível de vida.

Actualmente com a desregulação em curso perdeu-se qualquer capacidade de confiança entre cidadãos e empresas, entre empresas e empresas, ou seja tudo é volátil (demasiado volátil) e com a evolução tecnológica até os traders de mercado com as suas camisas ás riscas e suspensórios vermelhos são já obsoletos pois não são rápidos o suficiente para acompanhar os melhores programas de forex que fazem tanta publicidade como as casas virtuais de apostas, até por ex. no Euronews.

A volatilidade actual é voraz e o que se está a fazer é tentar aumentar a economia mundial concedendo mais volatilidade ao sistema económico esperando que a mesma o ajude a regular, no fundo é a teoria da desregulamentação ao quadrado, lançar gasolina no fogo para ver se ele consome todo o oxigénio existente e se extingue por si e manifestamente não está a resultar pois como as taxas de juro já estão quase no zero e mesmo assim a economia não arranca e cada vez há mais pobres em todo o mundo e quando elas (taxas de juro) subirem para pararem a deflação que brevemente chegará aos ricos (quem tiver 400 mil euros de património é rico mas é pobre porque ninguém lhe dá esse valor - mesmo que justo e não inflacionado) então será o caos e é isso que irá acontecer pelo menos segundo as regras actualmente vigentes.

Em Portugal e noutros países faz-se agora apelo á economia dos bens transaccionáveis e esperava-se que isso fosse a alavanca de um estabilizar da economia (o que manifestamente não acontece nem acontecerá) pois os exportadores estão a trocar mercadoria com cada menos valor facial por dinheiro para manterem os seus negócios em funcionamento e não para os expandir criando assim mais emprego e possibilidade de algum reequilíbrio da sociedade além de que muito do dinheiro contabilizado como exportações (em Portugal) são receitas não repetíveis (venda de ouro pelas famílias , projectos imobiliários - vistos gold , e combustíveis refinados) daí já ter-se iniciado uma quebra no ciclo de aumento das exportações iniciado em 2009 porque a concorrência aumenta e o retorno liquido tem diminuído claramente devido á incipiente deflação que já se verifica o que leva os empresários a retraírem-se ainda mais de investirem optando por uma lógica a curto prazo ou então encerramento das actividades o que continua a gerar mais queda de preços por parte de outros empresários para tentarem sobreviver pois aumentam ainda mais as pessoas incapazes de adquirir esses bens and so on ......................

Para finalizar o meu raciocínio devo dizer que a velocidade de evolução de economia virtual (aquela que é feita em excell ) ultrapassou largamente a velocidade da real e isso irá ter ainda consequências mais nefastas no actual modelo económico a não ser que se mude de paradigma regredindo no tempo 60 anos ou avançando 60 anos passando a fornecer a todos sem excepção condições mínimas de vida, ou seja a utopia comunista.

Como está actualmente só poderá piorar para todos embora alguns (muitos) continuem a achar que não serão afectados e é por esses acreditarem nisso que muitos milhões continuaram a sofrer de várias formas e cada vez mais.
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De Diogo Moreira a 25.08.2014 às 19:18

Eu tentei manter-me afastado desta discussão, mas vai aqui tanta inverdade que tenho mesmo que intervir.

"não existe um padrão de riqueza comum a todos os Países do Mundo como sempre foi" - o Mundo teve dois padrões de comparação internacional de Moedas, o Padrão Ouro (desde metade do século XIX até à 1ª Guerra Mundial) e o Padrão Papel-Ouro (também conhecido por Bretton Woods, e que vigorou de 1944 a 1971). No primeiro método, cada país tem reservas de ouro e cada moeda em circulação representa uma parte desse ouro; no segundo método, todos os países definiam a sua taxa de convertibilidade para o dólar americano (USD), sendo que cada nota e moeda desta divisa correspondiam a uma quantidade de ouro na Reserva Americana. Os dois métodos revelaram-se insuficientes, por defeitos próprios, daí a não estarem hoje em vigor.

"A volatilidade actual é voraz e o que se está a fazer é tentar aumentar a economia mundial concedendo mais volatilidade ao sistema económico esperando que a mesma o ajude a regular, no fundo é a teoria da desregulamentação ao quadrado" - a origem do problema da desregulação financeira não é dos dias de hoje. O sr. Alan Greenspan, anterior chefe da Reserva Federal Americana (o equivalente ao nosso Banco Central Europeu), bateu-se por esta desregulamentação desde os anos 1980 - coisa que todo o mundo copiou. Devido à grande crise dos anos 1930, foi criada regulamentação que impedia que Bancos de Depósito (aqueles que recebem e guardam o dinheiro que as pessoas lá colocam) se misturassem com a Banca de Investimento (aqueles que negoceiam nos variados Mercados Financeiros). Essa separação era a norma em Portugal até há poucos anos, tendo os Bancos de Investimento sido incorporados no Banco que lhes deu origem.

O que se fala actualmente na parte académica é na necessidade de regular muito bem a actividade bancária. Foram dados alguns passos importantes tanto nos EUA como na Europa, mas ainda insuficientes para inverter o que nos trouxe aqui.

"quando elas (taxas de juro) subirem para pararem a deflação" - a deflação é o contrário da inflação. É caracterizada pela descida continuada do nível de preços na Economia; prejudica especialmente aqueles que desejam investir hoje, pois sabem que os preços irão cair mais no futuro (e, se esperarem, conseguem comprar os mesmos equipamentos por um preço mais baixo), criando também incerteza quanto à possibilidade de terem lucros (porque o preço dos produtos que venderem também deverá cair no futuro). A deflação combate-se com a diminuição das taxas de juro (para incentivar o consumo no momento presente em detrimento de poupar para consumir no futuro).

"faz-se agora apelo á economia dos bens transaccionáveis" - Em 1776, o sr. Adam Smith postulou a 'Teoria das Vantagens Absolutas', na qual defende a troca livre de produtos a nível internacional, com base no melhor produto que cada país possa produzir. E o exemplo que associou a esta teoria foi a da troca dos têxteis ingleses com o Vinho do Porto português. Esse senhor é generalizadamente considerado o pai de uma Ciência chamada Economia.

A maioria dos Economistas em vigor na actualidade são neo-clássicos e têm uma visão do mundo em que "a Oferta cria a sua própria Procura" (isto é, os produtores que forem realmente bons conseguirão sempre vender os seus produtos). Na realidade, a crise que atravessamos é uma crise da Procura (as pessoas não têm dinheiro hoje nem perspectivas que melhore a sua condição financeira nos próximos anos) - e se ninguém compra, não vale a pena Investir (em novas unidades fabris, em equipamento ou na contratação de pessoas para aumentar a produção).

Numa coisa concordamos: "a velocidade de evolução de economia virtual" - a parte financeira da Economia ganhou um peso e um destaque que não tem razão nenhuma de ser. No entanto, serve hoje para abrir noticiários quando acontece alguma coisa numa Bolsa de Valores, cada jornal/noticiário tem o seu cantinho com cotações de vários títulos e até temos 3 jornais especializados em Portugal!

Para finalizar, o comentário de l.rodrigues é muito certeiro. É preciso ver com atenção o que lá está exposto.
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De William Wallace a 25.08.2014 às 23:20

Não sou economista nem percebo muito de excell o que sei é o que leio e vejo e SINTO no dia-a-dia e você ao escrever isto :

"a deflação é o contrário da inflação. É caracterizada pela descida continuada do nível de preços na Economia; prejudica especialmente aqueles que desejam investir hoje, pois sabem que os preços irão cair mais no futuro (e, se esperarem, conseguem comprar os mesmos equipamentos por um preço mais baixo), criando também incerteza quanto à possibilidade de terem lucros (porque o preço dos produtos que venderem também deverá cair no futuro). A deflação combate-se com a diminuição das taxas de juro (para incentivar o consumo no momento presente em detrimento de poupar para consumir no futuro). "

Dá-me razão .

O que está a acontecer é mesmo isso está-se a tentar que as pessoas gastem JÁ para que a economia não afunde de vez tentando manter-se os preços baixos mas isso já não resulta pois existe incerteza em todos os agentes económicos desde consumidores a produtores além de que a deslocalização de empresas para o extremo oriente não impulsionou esses mercados de forma sustentada para se tornarem eles próprios consumidores em grande escala, o trabalhador médio nesses mercados aufere uma parte ínfima dos rendimentos (não apenas o salário e também: condições de vida em geral, acesso a saúde e educação, férias, etc) auferidos na Europa.

Como disse acima está-se a atirar gasolina para cima da fogueira para ver se ela arde mais e consome o oxigénio mais depressa mas ao fim de 5 anos está provado que não está a resultar pois não existe CONFIANÇA e quem tem alguma capacidade económica (seja consumidor ou produtor) tende a retrair-se e fazer aumentar a espiral.

A desregulação económica começou em meados dos anos 80 e até poderia resultar pois havia poucos países com economia de mercado pujante, o resto do mundo ou não tinha economia ou então ela era planificada, ora com adesão de inúmeros países ao sistema capitalista sem as consequentes evoluções sociais, o mercado global aumentou mas as desigualdades sociais mantiveram-se e são essas que propiciam competitividade nos dias de hoje e isso não é sustentável por mais tempo seja para quem é forçado a descer ou para quem não tem hipótese de subir.

Por isso ainda hoje o FMI recomendava a subida de salários na Alemanha para tentar compensar os défices da zona Euro.

Na minha modesta opinião a globalização económica não resultou bem para a grande maioria dos países e ou se regressa a um modelo similar ao que vigorava antes da globalização ou se parte para outro paradigma mais avançado em que as pessoas tenham acesso a + ou - tudo sem grandes dificuldades (saúde, educação, lazer, comida) pois o que vivemos agora não está a resultar em lado nenhum.

Na Europa e USA temos desemprego já estrutural, na China e India as condições da esmagadora maioria das populações continuam a ser miseráveis se comparadas com as da Europa, em África a devastação do continente em busca de recursos naturais continua, sem que as populações recebam as devidas compensações ou a exploração seja sustentável caso contrário não teríamos as vagas de emigrantes que todos os dias morrem no Mediterrâneo.

Na América do Sul as coisas não estão melhor que em África e o Brasil (e outros) brevemente entrará em crise pois o seu desenvolvimento não assenta em bases sólidas.


Acho que a minha opinião é bastante explicita nos posts por isso irei abster-me de responder mais.
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De Diogo Moreira a 26.08.2014 às 00:28

Não percebo como lhe dou razão, depois de lhe apontar um erro crasso (quando afirmou que as taxas de juro irão aumentar para combater a deflação, quando é exactamente o contrário do que tem que ser feito).

A Economia mundial actual está numa fase de desaceleração. Os grandes motores desse crescimento são os EUA, a Europa, a China e o Japão, com contributos bastante menos significativos de outros países/áreas geográficas. O que nos diz a Teoria Económica é para os Estados se meterem na Economia e consumirem/investirem, de modo a manter a saúde dessa mesma Economia.

O que lhe parece fazer confusão (e é natural face a tanta berraria no espaço mediático) é que o problema é de falta de Procura (um agregado de todas as pessoas, empresas, Estados e afins que desejam comprar coisas) e não é de falta de "confiança". Não é com políticas de empobrecimento que saímos da cepa torta - é com o contrário! Precisamos de agentes económicos com capacidade de compra, para que as empresas produzam e contratem mais pessoas para produzir mais, reduzindo o desemprego que não é estrutural. Ao insistir nas políticas de austeridade, estamos a arrefecer ainda mais a Economia; ao colarmos um "Tratado Orçamental" ao comportamento dos Governos da Zona Euro, estamos a fazer sair de cena os únicos agentes com capacidade para inverter a tendência negativa que se faz sentir. E é esta austeridade a única política económica que se tem servido em Portugal desde 2008.

O que é que isto tudo tem a ver com as condições laborais noutros países é algo que não compreendo.

A regulação financeira foi introduzida com vista a impedir outro acontecimento semelhante à crise dos anos 1930 (e que deu a machadada final no moribundo Padrão Ouro, que nunca verdadeiramente regressou ao activo depois da 1ª Guerra Mundial). A desregulação dos anos 1980 aparecia de forma 'simpática', dado que os Bancos de Depósito e os Bancos de Investimento teriam todos os incentivos para se auto-regularem e isso seria mais que suficiente para não se repetirem os erros do passado. Nem os Bancos se auto-regularam, nem os Estados os regularam, nem nós ficámos sem repetir os mesmos erros...

O FMI recomendou a subida dos salários na Alemanha para que os alemães tenham maior poder de compra e usem esse dinheiro para adquirem coisas - inclusivamente, fazendo aumentar as Importações dos restantes países da União Europeia (UE), como Portugal. A ideia é fazer aumentar a Procura da UE por quem ainda tem margem de manobra (e que, por acaso, até foi quem mais beneficiou com a criação do Euro).

Caso não saiba, a globalização económica é um sucesso mundial. Porém, os seus ganhos estão mal distribuídos, sendo que os países mais avançados ficam com a parte de leão.

Gostaria que me continuasse a discussão, especialmente focando a parte em que isto tudo é relevante para a introdução de um novo padrão-ouro (ou outro que o substitua).
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De rmg a 26.08.2014 às 23:21


Tendo em conta os debates por vezes acalorados que aqui tive com o William Wallace ao longo dos tempos (e que lhe agradeci oportunamente) acho muito bem que ele se abstenha de continuar a conversa.

O Diogo Moreira tem teóricamente toda a razão do mundo mas isso é o que dizem os livros , os artigos da especialidade e os gurus na moda.
Como na prática a teoria é outra fica-se tudo pelas declarações de intenção.

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De l. rodrigues a 27.08.2014 às 01:01

Não é uma questão de declarar intenções. ´É quem pode decidir, porque tem o poder, não querer.
Porque não dá ouvidos a quem lê os livros, a quem é especialista, e a quem "está na moda" porque, essencialmente, ao londo da crise e antes desta esteve mais vezes certo do que outros que "não estão na moda" mas não saem de voga.
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De rmg a 27.08.2014 às 14:40


Agradeço a atenção que me deu bem como o seu comentário ao meu.

Mas mantenho que são declarações de intenções, excelentes intenções decerto, mas intenções à mesma.

Quem é que tem o poder e aonde?
Desculpar-me-à mas falar em quem tem o poder é demasiado genérico para mim.
Os americanos, os europeus, os chineses, as tais "100 famílias", outros?

As pessoas não conseguem pôr a família de acordo sobre o restaurante onde vão jantar uma vez por mês e depois esperam que todos os poderes do mundo se entendam na era da globalização e com a China a tornar-se a maior potência já para o ano?

Os livros, as revistas e os gurus de que fala também os tenho e os conheço.
Aliàs desde que me reformei há 2 anos que só os leio a eles e aos historiores da WWII.
No entanto leio-os por puro prazer intelectual, assim como eles só escrevem por puro prazer intelectual.

Se quem é especialista nunca criou um único posto de trabalho ou nunca evitou que uma empresa fôsse à falência é especialista em teorias.
Por isso os que fizeram coisas reais na vida fogem de lugares políticos como o diabo da cruz.

Uma boa tarde para si
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De Diogo Moreira a 27.08.2014 às 18:50

Antecipando-me a l. rodrigues, está-se a falar dos Governos dos países, nomeadamente a dos ditos 'países desenvolvidos'. Era suposto que o poder decorresse do povo e para o povo (dado que estes Governos são legitimamente constituídos num quadro democrático, independentemente da sua forma específica). Porém, actualmente assistem-se a políticas de empobrecimento desse mesmo povo a nível Europeu (especialmente na região dos 'mandriões' do Sul), tendo como desígnio supremo a "confiança dos mercados". Ou seja, subjugam-se vários povos em nome de uma construção que, segundo os dados mais recentes, beneficia uma parte muito ínfima da população desses mesmos países.

Para além disso, os resultados práticos das políticas prosseguidas pelos Governos dos países do Sul da Europa, e insistidos por mil e um políticos alemães, são em tudo contra o que eles se auto-propuseram (pelo menos, na declaração pública de interesses que fizerem aos povos em causa): os défices não estão contidos, a dívida pública não parou de aumentar, o crescimento económico não se materializou, o desemprego não está contido, etc. No caso específico português (o tal de 'ir além da Troika'), as previsões de recuperação da Economia apontam para o fim da crise em 2035 (mais ano, menos ano)!

Quanto ao seu exemplo da família, não tem nenhuma ligação com a realidade internacional. Existe uma coisa chamada Diplomacia, que é utilizada pela maioria dos países. Só algumas e raras excepções é que podem fazer como os pais da sua hipotética família (pois são os que detêm o poder - monetário ou da força). As crianças podem fazer como 'terroristas' e tentar impor a sua vontade à dos pais, mas serão estes a decidirem se aceitam negociar com os 'terroristas'.

"Se quem é especialista nunca criou um único posto de trabalho ou nunca evitou que uma empresa fôsse à falência é especialista em teorias." Qualquer trabalhador que dá o litro numa empresa (com salário mínimo ou principesco) e ela vai à falência por culpa dos gestores (que também podem ser os donos da empresa e que criaram o seu posto de trabalho) passou a ser designado por "especialista em teorias". Hoje aprendi mesmo uma coisa nova!
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De Diogo Moreira a 27.08.2014 às 03:38

O que a prática actual mostra é que se pegam as lições que se aprenderam da história e as atiram pela janela fora. E uma coisa deveria estar sempre na cabeça de quem tem responsabilidades de decisão nestas matérias: há milhões de pessoas que sofrem com as "brincadeiras" de quem está no poder.

Ora, no meio desta turbulência, apareceram alguns comentadores que afirmam que o Padrão Ouro é que era e que devíamos voltar a ter um sistema semelhante. Suspeito que, na maioria dos casos, quem afirma essas coisas não sabe do que está a falar ou tem um interesse particular nesse regime cambial. O que nos mostra a história (e não a teoria sem sustentação em factos) é que esses regimes não funcionam.

Prefiro que as pessoas exponham as suas ideias e que não se calem: pode ser que eu aprenda alguma coisa. E, se eu contribuir para que alguém fique melhor informado sobre a realidade em que vivemos, tanto melhor!
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De rmg a 27.08.2014 às 16:21


Agradeço a sua atenção e o comentário que faz ao meu.

As lições da História só são úteis se adaptadas ao mundo em que se vive, invocá-las tal qual é anacrónico e inútil.
Não regi a minha vida como os meus Pais a deles nem eduquei os filhos (e agora os netos) como eles me educaram.
Se o tivesse feito tinha dado cabo da vida deles e da minha.

Portanto quando o articulista do Washington Post nos escreve o que escreve e vai buscar o quadro que vai buscar (ainda que a uma fonte respeitável, mas com uma extrapolação dele) temos que começar por nos perguntar : “o que é que o gajo quer?”.

Porque um quadro que compara histórias de há 100 anos com histórias de hoje dispenso, não tem pés nem cabeça a não ser para forçar conclusões.

A Europa velha e acomodada de hoje, cercada económicamente pela China e pelos emergentes, todos jovens e lutadores, tem o quê exactamente a ver com os EUA da Grande Depressão e os países industrializados no mundo limitado e colonial da época?

Na minha opinião o "gajo" está a vender o peixe que toda a gente nos EUA agora anda a vender pois o fim da “era Obama” vai coíncidir inevitávelmente com o fim da impressão de notas de dólar como tem sido feita e com a cada vez maior redução dos capitais chineses como possuidores da dívida pública de lá que vem a acontecer de há uns anos para cá (à frente deles só está a “Social Security Trust Fund” e a Reserva Federal, o que diz tudo!).

Nada disto aconteceu por acaso , claro, bastou os chineses começarem a tirar de lá o dinheiro e a meterem-no aqui na UE para os americanos, que não brincam em serviço, se lembrarem que havia aqui uns patos para depenar (e aí o William Wallace tem toda a razão mas claro que os grandes teóricos da universidade ou do café vivem na macroeconomia, a microeconomia cumpre a função de lhes assegurar o sustento, deve-se sentir muito honrada por isso e como se já não lhe bastasse a concorrência chinesa agora leva com a americana).

Dou-lhe toda a razão no que diz sobre o padrão-ouro .

E também continuaria a expôr ideias e não me calar, mas vou pregar para outra freguesia, a minha vida está ainda lá fora apesar de pouco faltar para os 70.

Como dizia Sacha Guitry “Le peu que je sais, c'est à mon ignorance que je le dois” e o meu caro parece “achar” que pode aprender algo com os outros e “contribuír” para que os outros fiquem mais bem informados sobre a realidade em que vivemos.

Ora eu aprendo sempre algo com os outros e não tenho qualquer pretensão de dominar a realidade que vivemos...

Uma boa tarde para si

PS - No tal artigo do WP aconselho vivamente a leitura dos quase 50 comentários, aprende-se mais naqueles raciocínios cruzados que no corpo do texto principal.


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De Diogo Moreira a 27.08.2014 às 18:31

As lições da História são úteis na medida em que forem retratos fiéis de uma época. Pode-se aprender com as situações passadas pela positiva (na qual queremos copiar um qualquer bom acontecimento), quer pela negativa (como parece ser o caso da educação que recebeu dos seus pais, a qual não considerou suficientemente boa para transmitir aos seus filhos e netos).

(Um parêntesis: curiosamente, isso é algo que também se pode aprender da literatura - basta pegar nos escritos de Eça de Queirós e comparar a época em que ele escreveu com a actual, que as semelhanças saltam à vista, apesar de acontecimentos e situações "anacrónicas".)

O articulista do WP faz o que é normal: pega nos dados existentes, coloco-os em índices (para poder comparar as evoluções) e tenta perceber o porquê da variação existente. Repare que ele não pegou em dados em 'bruto' (como os valores do Produto Interno Bruto em valores correntes), de modo a não enviesar a análise que está a fazer. E essa análise diz respeito à forma como evoluiu a economia nos blocos assinalados, dado um forte choque no mercado (a depressão dos anos 1930 e a crise actual).

Sendo certo que muitas coisas são diferentes em relação aos anos 1930, podemos comparar a forma como as pessoas e governos reagiram nessa situação, com a forma como se está a reagir actualmente. E o que se percebeu nesses longínquos anos 1930 é que "os mercados" não podem ficar entregues a si próprios, que algum dia as coisas correm mesmo mal ("the shit hits the fan") e a maioria das pessoas passa por imensas provações económicas. Fez-se a desregulação - e não é que a história se repetiu (apesar de todas as diferenças que existem entre as duas épocas)?

O que fazer, então, para retomar o curso do crescimento económico? A maioria dos doutos e sapientíssimos conselheiros opinou quanto à necessidade de contenção de défices (tanto de um lado como doutro do Atlântico), pois era a falta de confiança quanto à tributação estatal a génese de todo o problema (e, se os défices aumentassem, seriam necessários mais impostos para os financiar). Apoiaram-se em teses que viriam pouco tempo depois ser desacreditadas (por erros na concepção, recolha de dados e/ou tratamento estatístico) - mas nem assim mudaram as opiniões e as propostas de decisão.

Agora aparecem algumas vozes discordantes do pensamento único que nos quiseram impor (como o nosso 1º-Ministro tanto insistiu a não existência de alternativas e como a maioria dos alemães continua a bater na mesma tecla da necessidade de conter os défices...). E, ao contrário do que expressa no seu comentário, a maioria dos Economistas americanos discorda do "gajo" (é uma divisão interessante, entre 'Economistas-de-água-doce' e 'Economistas-de-água-salgada'), apesar de ele apresentar os números nos quais sustenta as suas posições.

Sobre estas questões (bem como a falsa questão da compra das obrigações americanas pelos chineses), sugiro a leitura do seguinte post de Paul Krugman e os links nele contidos: http://krugman.blogs.nytimes.com/2014/02/26/vsps-of-2010/

Farei o exercício de ler os comentários do texto do WP, mas suspeito já o que vou encontrar: pessoas que têm a certeza absoluta de que o articulista está profundamente errado e que 'toda a gente' sabe que ... (inserir qualquer argumento); ao mesmo tempo, irão existir pessoas que louvarão todas as palavras do autor e não concebem outra forma de ver o Mundo; os seguidores da MMT e os seguidores de Mises também meterão a sua colher. Enfim... teorias para todos os gostos (sendo que a maioria não consegue explicar os números que o sr. O'Brien apresentou).
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De rmg a 27.08.2014 às 19:54


Mais uma vez agradeço o seu comentário.

É V.Exa. uma pessoa cheia de certezas : quem é que lhe disse que eu não achei suficientemente boa a educação que recebi dos meus Pais?

E quem é que lhe disse que eu não a transmiti aos meus filhos, devidamente adaptada aos tempos deles (tenho filhos entre os 40 e os 45 anos)?

Dou-lhe o benefício da dúvida mas não me parece que tenha grande experiência de educar gerações com 25 anos de diferença numa altura em que a vida e o mundo avançaram mais em 20 anos que nos 100 anos anteriores.

Estou aqui a olhar para o meu 1º télémóvel de 1992 ou o meu 1º computador com menos memória que muitos gadgets de bolso que por aí andam e a pensar que só isso devia ser suficiente para as pessoas se deixarem de comparações ligeiras.

Mas não é fácil dialogar consigo, que até já se pronuncia sobre as educações na minha família tirando do contexto o que eu escrevi.

Portanto e quanto ao resto nem lhe respondo grande coisa : tenho o privilégio de ter uma biblioteca como já há poucas (e de livros lidos!) e qualquer pessoa medianamente culta sabe que as semelhanças entre o que Eça escreveu e os tempos de hoje têm a ver com algo que nunca muda, a natureza humana, se fôr ler o Antigo Testamento verificará que há por lá muitas semelhanças com o telejornal das 8 .

E também não lhe respondo porque continua a adoptar um ar professoral - a explicar gráficos e conceitos variados - com alguém que não conhece, mas que por acaso é licenciado numa área técnica , teve uma vida profissional e pêras e nem às centenas de recém-licenciados com quem trabalhou durante 42 anos se dirígia assim.

Essa de me pedir para reparar que não foram utilizados dados em bruto é de quem de facto acha que isto aqui pelas caixas de comentários é tudo uma cambada de analfabrutos.
Que tal tentar perceber o grau de "analfabrutismo" do interlocutor antes de disparar lições?

Começasse eu por ter a certeza que o Paul Krugman era um dos seus exemplos (desconfiei) e não me teria dado (nem a si) ao trabalho de tanta escrita , o próprio PK já se desdisse as vezes necessárias para não saír de moda.
Não há "falsa questão da compra das obrigações americanas" pelos chineses, há falsa questão do poder que isso lhes possa dar sobre os EUA e é disso que o PK fala sem explicar nada de nada - diz que é assim e pronto.
Eu também já fui assim quando tinha crianças com pouco discernimento na família : é assim e pronto (e eles engoliam).
Agora é tudo teenager pelo menos mas certinhos : como é que a educação que os meus Pais me deram lhes foi parar nem imagino...

Passe V.Exa. muito bem

PS 1 - Claro que a China não tem qualquer poder sobre os EUA, meteu lá o dinheiro para eles lhes comprarem coisas, desenvolveu a indústria e agora já não precisa dos EUA e virou-se para a Europa.

PS 2 - Nomeie por favor um único lugar em que fôsse preciso tomar decisões que o Paul Krugman tenha aceite em toda a sua vida (tenho vários livros dele).

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De Diogo Moreira a 28.08.2014 às 16:32

Parafraseando o que o rgm escreveu no comentário anterior, "Não regi a minha vida como os meus Pais a deles nem eduquei os filhos (e agora os netos) como eles me educaram.
Se o tivesse feito tinha dado cabo da vida deles e da minha." O raciocínio é simples: se educou os seus filhos de maneira diferente da dos seus pais para não "dar cabo da vida deles" é porque achou que a educação que os seus pais lhe deram era desadequada, no mínimo, e completamente errada, no máximo. De qualquer forma, o que posso retirar dessas afirmações é que a educação que recebeu foi algo de negativo. Pode ser um problema da minha interpretação, tal como pode ser um problema da sua forma de se expressar.

Quanto ao resto, devo-lhe dizer que é tudo irrelevante. Estou a discutir ideias, não estou a discutir pessoas. Não interessa quem o rmg diz ser na internet (que nem o seu nome indica), nem os filhos ou netos que tem, nem a sua actividade profissional, nem sequer como eu me devo dirigir a quem é (supostamente) mais velho que eu. Os argumentos que eu discuto valem por si próprios, independentemente da ideia que alguém possa ter da minha pessoa. Invocar uma suposta autoridade não ajuda em nada uma discussão séria e ponderada.

Ao contrário do que sugere, eu não escrevo directamente para o rmg (ao contrário deste comentário em específico). Eu escrevo para todos quantos quiserem ler - e tenho o cuidado de ser o mais claro, sucinto e expressivo o suficiente dado o limite de caracteres disponíveis para os comentários.

Eu bem sei que existem nomes que são "proscritos" por certos opinadores - e o de Paul Krugman está actualmente no topo, logo seguido de um 'fantasma' chamado Keynes. Eu não tenho que provar nada do que ele diz - ele faz um bom trabalho nesse sentido - mas continuarei a invocá-lo quando achar que ele consegue explicar algo melhor que eu (tal como utilizo os escritos de outros autores).

Se quiser continuar a discutir - os meus pensamentos, as minhas ideias, os meus argumentos e as minhas sugestões - terei todo o prazer de continuar a expressar a minha opinião. Porém, se o interesse do rmg é perorar sobre a minha ou a sua vida privada, ficarei por aqui.
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De rmg a 28.08.2014 às 17:54


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