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Delito de Opinião

O comentário da semana

Pedro Correia, 16.05.21

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«Há dias li, numa entrevista, uma frase do escritor timorense Luís Cardoso a propósito de um seu livro O Plantador de Abóboras:

"O passado é um lugar estranho quando se sai dele como se nunca lá tivesse entrado."

Para lhe dizer que guardo do Belenenses bonitas recordações. A família era vermelha na sua maioria, havia um tio belenenses, havia um tio sportinguista. O meu avô, tirando ele, apenas permitia que o tio do Belenenses me levasse à bola. Os jogos eram no velho Estádio das Salésias e metiam lanche.

Um ano, tão longe esse ano, fui com o meu avô ver o Benfica-Atlético. Ao mesmo tempo, nas Salésias, o Belenenses preparava-se para vencer o seu segundo campeonato. Bastava o empate. Diz a lenda que José Pereira, o pássaro azul, terá dito ao Martins, avançado-centro do Sporting: "Eu saio daqui em ombros, tu sais de carroça." É quando, quase no tombar do jogo, Martins faz o segundo golo do Sporting e impede o Belenenses de ganhar o campeonato.

No estádio da Luz, nos rádios a pilhas ouviu-se o golo do Martins, apenas dois anéis, não estava cheio, mas o relvado foi invadido e ouviram-se foguetes lançados por aqueles que acreditam sempre. Lembro-me do Germano central do Atlético, que na época seguinte iria para o Benfica, a ajudar a pôr aquela gente fora do relvado para que o jogo tivesse um fim. Lembro-me do meu avô perguntar porque não estava contente e o meu silêncio a marcar a tristeza do meu tio Belenenses, Carlos de seu nome. Ainda o meu tio sportinguista, Angelino de seu nome, a dizer ao meu avô: "O pai nunca se esqueça que o Sporting deu-lhe este campeonato!"

O passado é mesmo um lugar estranho.»

 

Do nosso leitor Orlando Tavares. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes.

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