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O colapso do Estado.

por Luís Menezes Leitão, em 28.06.17

Quando Nixon percebeu que o Watergate o estava a atingir, resolveu pedir a um dos seus assessores que fizesse um relatório a explicar tudo o que sabia sobre o assunto, obviamente para lhe passar as culpas pelo caso. Ele respondeu-lhe imediatamente que não iria ser o bode expiatório das decisões do presidente e passou a colaborar directamente com as investigações a Nixon. António Costa também está a tentar desesperadamente salvar Constança Urbano de Sousa, apesar de ser neste momento evidente para todos que o sector que ela tutela colapsou em Pedrógão Grande. Para essa operação de salvamento obteve o apoio directo de Marcelo Rebelo de Sousa, que na própria noite do incêndio fez a maior declaração de absolvição política de que há memória em Portugal. Mas, apesar de popularidade de Marcelo, isso não chegou e a opinião pública começou a exigir responsabilidades. Por isso António Costa resolveu arranjar um bode expiatório que pudesse assumir as culpas pela tragédia, pedindo relatórios a diversos serviços para lhe permitir encontrar um culpado e salvar a sua Ministra.

 

O problema é que, como também seria de esperar, ninguém nos serviços está na disposição de ser imolado em holocausto e sucedem-se os relatórios a passar as culpas uns aos outros. Assim, a protecção civil diz que a culpa do SIRESP. O SIRESP, num relatório que publicou, nega que a culpa seja sua.  Os bombeiros respondem que a culpa é dele. Assiste-se assim a um jogo de pingue-pongue entre os serviços da administração interna, mostrando que neste ministério já não há rei nem roque. Já se percebeu, no entanto, que ninguém vai assumir responsabilidades.

 

A primcipal função do Estado é proteger os seus cidadãos. Um Estado que deixa morrer 64 pessoas é um Estado que colapsou. Quando deixam que tudo se passe sem consequências, Marcelo e Costa admitem que não se importam de estar à frente de um Estado nessas condições. E isto só demonstra que não deveriam estar nos cargos que ocupam.


20 comentários

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De xico a 28.06.2017 às 08:45

A culpa é evidentemente minha que só dei pela gravidade do incêndio na madrugada de domingo.
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De V. a 28.06.2017 às 09:13

No eggs no omlets.
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De Luís Lavoura a 28.06.2017 às 09:34

A principal função do Estado é proteger os seus cidadãos.

Esta frase, assim sem qualificações, está incompleta. Proteger os cidadãos de agressões e violência física, sim. Da agressão estrangeira, também. De riscos em países estrangeiros, idem. Mas não protegê-los de todo e qualquer perigo em que eles decidam incorrer.
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De Diogo Moreira a 28.06.2017 às 09:55

O problema de toda a sua argumentação é esta frase: "Um Estado que deixa morrer 64 pessoas é um Estado que colapsou."

Independentemente da cor política do Governo em funções, imputar as mortes no incêndio ao Estado é profundamente de má-fé. É somente a normalização do 'quanto pior, melhor'.
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De Luís Lavoura a 28.06.2017 às 11:28

Bom comentário. Sobretudo quando, como neste caso, muitas das culpas das mortes podem ser assacadas aos próprios mortos, ao seu comportamento negligente ou estouvado. Porque quem decide morar numa aldeia cercada de florestas, apenas porque foi nessa aldeia que nasceu e é nela que tem uns terrenos, ou quem decide meter-se numa estrada cercada de florestas num dia de calor brutal e com incêndios consabidamente na região, está evidentemente a expôr-se a grandes perigos. Não se pode dizer que as mortes foram devidas ao Estado - elas foram, antes de tudo, devidas ao comportamento leviano dos mortos.
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De Einstürzende Neubauten a 28.06.2017 às 12:54

"elas foram, antes de tudo, devidas ao comportamento leviano dos mortos."

Esta coisa apodada de Luís Lavoura, constitui uma ofensa ultrajante, até ao vómito, para todo aquele dotado de mínimo de civismo, educação, moralidade e empatia para com o outro. Qualidades estas que nos fazem pessoas humanas.

Assim e em virtude dos comentários passarem, em teoria, pelo crivo da moderação, mas na prática isso não se verificar, despeço-me desde já do Delito de Opinião. Sabendo eu que existe Liberdade de Expressão ela deve decorrer dentro de certos limites de civismo e honradez, não devendo esse Direito sobrepor-se ao Dever de respeitarmos o bom nome, honra e respeito pelos mortos de Pedrogão apanhados num turbilhão de chamas, medo, pânico, abandono e desespero, onde se encontravam crianças, assim com dos seus familiares enlutados.

E lá diz o ditado: quem não sente não é filho de boa gente

Parece-me que opiniões deste calibre não deveriam ser permitidos. Por muito menos já tive alguns comentários "esquecidos"
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De Luís Menezes Leitão a 28.06.2017 às 20:23

Hesitei em publicar esse comentário, mas achei que o mesmo falaria por si relativamente até onde os apoiastes deste governo são capazes de ir para o desculpabilizar. É a técnica tradicional de atribuir a culpa à vítima.
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De Luís Lavoura a 29.06.2017 às 10:13

(1) Eu não sou apoiante deste governo. Nem sequer votei nem no PS, nem na CDU, nem no BE, nem no PAN.

(2) Atribuir a culpa à vítima (coisa que eu só parcialmente faço - compreendo perfeitamente que as pessoas na confusão, no desespero, na ilusão de que a potência dos motores dos seus carros é invencível, tenham tomado decisões erradas) nada tem de especial. Todos os anos morrem em Portugal centenas de pessoas em desastres de automóveis cuja culpa é delas próprias. Todos os anos morrem em Portugal centenas de cancerosos do pulmão cuja culpa é deles próprios, por terem sido fumadores. Atribuir a culpa às vítimas é, por vezes, de toda a justiça.
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De Einstürzende Neubauten a 28.06.2017 às 13:16

Pedro, faço aqui copy de um resposta que deixei a um comentário do Sr. Luís Lavoura, num post de Luís Menezes Leitão, intitulado Colapso do Estado.

Parece-me que existem opiniões que conferem, promovem, delitos.
Através da Liberdade de Consciência e Pensamento não deveríamos permitir, publicamente, toda a Opinião , pois é assim que se mina, corrompe e desvirtua esse Direito soberano e notável que é a Liberdade de Pensamento. Nunca um Direito se deve legitimar pela ofensa, desrespeito, maldade, injuria, insensibilidade, e descompaixão pelo com o Outro. Ao permitirmos que tal suceda somos, paradoxalmente, coniventes com a corrupção de todo o Direito, Por ser um defensor intransigente e radical da Liberdade, aqui fica o meu apelo.

" muitas das culpas das mortes podem ser assacadas aos próprios mortos, ao seu comportamento negligente ou estouvado(....) Não se pode dizer que as mortes foram devidas ao Estado - elas foram, antes de tudo, devidas ao comportamento leviano dos mortos."

Esta coisa apodada de Luís Lavoura, constitui uma ofensa ultrajante, até ao vómito, para todo aquele dotado do mínimo de civismo, educação, moralidade e empatia para com o outro. Qualidades estas que nos fazem pessoas humanas.

Assim e em virtude dos comentários passarem, em teoria, pelo crivo da moderação, mas na prática isso não se verificar, despeço-me desde já do Delito de Opinião. Sabendo eu que existe Liberdade de Expressão, ela deve decorrer dentro de certos limites de civismo e honradez, não devendo esse Direito sobrepor-se ao Dever de respeitarmos o bom nome, honra e respeito pelos mortos de Pedrogão, apanhados num turbilhão de chamas, medo, pânico, abandono e desespero, onde se encontravam crianças, e dos seus familiares.

E lá diz o ditado: quem não sente não é filho de boa gente

Parece-me que opiniões deste calibre não deveriam ser permitidos. Por muito menos já tive alguns comentários "esquecidos"

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De Diogo Moreira a 28.06.2017 às 17:24

Desculpe, Luís, mas não concordo consigo. Vejo este seu comentário repetido por vários lados, a tentar assacar as culpas às vítimas. Já parou para pensar o que teria feito se estivesse no lugar de uma daquelas 64 pessoas, com o pânico a assombrá-lo por causa da proximidade das chamas? Ou, sequer, que uma daquelas 64 pessoas podia ser da sua família?

Vejo muita gente sedenta de sangue, a pedir para rolarem cabeças - muitas de preferência! -, uns apenas no seu comportamento normal, outros oportunisticamente. A pergunta que fazem é "quem falhou?" ou "quem é o elo mais acima da cadeia que tem que ser responsabilizado?". No dia seguinte à tragédia, o jornal Público perguntava "Porquê?". No entanto, a pergunta que toda a gente deveria estar a fazer é "quantas mais pessoas terão que morrer queimadas num incêndio até que se faça alguma coisa para o evitar?"

Os diagnósticos têm sido feitos há décadas, as respostas são nossas conhecidas. Como nada se fez, a tragédia estava ao virar da esquina.

64 histórias de vida foram terminadas prematuramente. Quantas mais são precisas?
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De Luís Lavoura a 29.06.2017 às 10:22

o que teria feito se estivesse no lugar de uma daquelas 64 pessoas, com o pânico a assombrá-lo por causa da proximidade das chamas?

Eu compreendo perfeitamente as opções das pessoas. Com o pânico, com um automóvel à mão, acreditam que, mesmo que haja fogo, podem acelerar pelo meio dele e fugir, fugir para muito longe, e que o fogo não as apanhará. Compreendo perfeitamente que tenham arriscado.

Eu ainda no ano passado também circulei por uma estrada à volta da qual ainda havia pedaços de fogo de um grande incêndio que tinha lavrado por ali. Sabia que estava a arriscar, mas tive confiança em que não arriscava de mais, que o carro era potente, que a estrada era larga.

Agora, o facto de compreender a atuação das pessoas, não implica que não a condene. As pessoas (as que morreram na estrada 236-1) morreram muito perto de Figueiró dos Vinhos. A decisão correta e segura teria sido irem para Figueiró, aparcarem o carro, irem jantar a um restaurante, arranjarem lugar numa pensão, e ficarem por lá o tempo que fosse preciso quietinhas. Gastariam dinheiro e tempo, mas isso teria sido seguro. As pessoas não tomaram essa opção porque era caro, chato e desagradável - eu compreendo-as perfeitamente. Preferiram tomar uma opção arriscada, e o risco materializou-se. Azar delas. Lamento-as profundamente. Mas não as ilibo de culpas.
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De Diogo Moreira a 29.06.2017 às 13:41

Quem não tem uma bola de cristal não consegue prever o futuro. Por isso, olhar hoje para trás e ver as 100.000 melhores hipóteses para escapar à morte é um exercício fácil de fazer.

Mais uma vez, atira as culpas para as vítimas. Mas tem agora um requinte de malvadez: na sua justificação, as vítimas afinal eram forretas! Como se, entre escolher dinheiro ou a vida, aquelas 64 pessoas pensaram apenas nos bens materiais!
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De rão arques a 28.06.2017 às 10:05

Repulsivo jogo do empurra sem ponto final à vista??
É urgente parar esta roleta da fraude sustentada por licenciador e batoteiro. Se o SIRESP não falhou então houve erro humano, o que determina e decreta desde já a sentença de saída para Costa.
Se um general nunca se desculpa com as suas tropas nem se pergunta se já cumpriu a obrigação de se demitir.
Nem por mais uma hora tal afronta ao país e à sociedade!
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De Anónimo a 28.06.2017 às 10:21

Vamos lá a ver se no caso da Constança as previsões lhe correm melhor que no caso da Kristalina (e outros).
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De Einzturzende nebauten a 28.06.2017 às 10:32

Um Estado com um sistema público de saúde que não responde em tempo suficiente e necessário aos seus cidadãos - doentes oncológicos, por exemplo - quer por falta de meios técnicos ou humanos é um Estado que abandonou os seus cidadãos. É assim também na justiça - com processos que se arrastam e em que os litigantes mais modestos por falta de recursos têm de desistir; ou na violência / homicídio doméstico- na Segurança-falta de pessoal, equipamento, formação -no Ensino - com escolas mal equipadas/geridas, com turmas sobredimensionadas - é um Estado que desvalida os seus cidadãos. Mas esse vício de Estado tanto é português, como é americano, francês, etc, onde são as grandes Corporações de Interesses que definem os interesses de Estado. São elas que definem a Nova Razão de Estado.
Muito para além dos incêndios. Aliás as causas do estado a que o Estado chegou estão relacionadas com as empresas e grupos de pressão que o maldizem, apenas com o fito de lhe deitarem a mão. Não com o objetivo de melhorarem os seus serviços, mas com o intuito exclusivo de viverem dele. E de viverem viciosamente sobre o mal viver da maioria.
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De Luís Lavoura a 28.06.2017 às 11:24

Um Estado com um sistema público de saúde que não responde em tempo suficiente e necessário aos seus cidadãos - doentes oncológicos, por exemplo

O meu filho teve um cancro e, não somente foi atempadamente atendido, como até começaram a ministrar-lhe o tratamento antes mesmo de terem a certeza absoluta de que cancro era, com o fim de lhe salvarem a vida (parece que salvaram).

Os médicos têm que fazer escolhas. Podem não atender com prioridade doentes que sabem que, de uma forma ou outra, vão falecer rapidamente. Podem não operar rapidamente uma pessoa se souberem que essa operação e destina, apenas, a dar a essa pessoa mais um ano ou dois de vida. (Como aconteceu com a minha avó, que foi apanhada com um cancro do estômago, operaram-na e tiraram-lhe o cancro, mas dois anos depois o cancro voltou e matou-a.) Mas, quando se trata de uma pessoa a quem se pode de facto salvar a vida, eles atuam rapidamente.
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De V. a 28.06.2017 às 18:40

Acaba de enumerar, de facto, a característica principal das repúblicas
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De Anónimo a 28.06.2017 às 12:39

Em democracia, os eleitores têm o Estado que merecem.
Atente-se no que aconteceu ontem no MEO ARENA.
Somos ótimos a improvisar a solidariedade nas desgraças.
Mobilizamo-nos e unimo-nos eficazmente.
Mas ninguém o faz, para exigir, de quem de direito, responsabilidade, probidade e competência, para que tais desgraças não aconteçam.
O discurso dos intervenientes, com poucas e tímidas exceções, estava formatado no politicamente correto.
Na mesma festa, estavam os representantes das vítimas e, em lugar de destaque, os representantes dos responsáveis.
Não para os julgar.
Para os aplaudir!
Depois, há o peido do Salvador.
Coragem de, metaforicamente, aproveitar a oportunidade para precisamente chamar a atenção para o espírito de rebanho e para a falta de critério de toda aquela gente?!
Ou um gesto excessivo de alguém que cospe na sopa que tão generosamente lhe foi servida por toda aquela gente!
É com imensa tristeza que tenho de concluir que somos, de facto, um povo menor:
- como as crianças, choramos e rimos, com toda a espontaneidade deste mundo;
- como as crianças, achamos uma grande seca tudo o que seja pensar, planificar e executar o necessário para a nossa segurança e bem-estar.
Temos, de facto, o Estado que merecemos!
João de Brito
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De WW a 28.06.2017 às 18:57

O Estado não colapsou, o Estado está há muito em ruínas...



" A Nação não se confunde com um partido, um partido não se identifica com um Estado. "
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De JAB a 29.06.2017 às 20:18

Depois de tanto comentário e contra-comentário só me ocorre dizer: "É a geringonça, seu palerma!"

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