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O cavalo de Tróia do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 27.07.15

Há dias escrevi aqui que me parecia que a situação na Grécia tinha atingido uma irracionalidade de tal ordem, que não se sabia o que o governo grego pretendia. O tempo levou a descobrir que, com ou mais ou menos planos rocambolescos, o que ele pretendeu desde o início foi a saída do euro e o regresso ao dracma. Tsipras parece por isso Hamlet, de quem se dizia que estava numa verdadeira loucura, mas havia método nisso ("Though this be madness, yet there is method in't").

 

Efectivamente, Atenas só não saiu do euro porque não teve apoio externo para o fazer. O problema de um país adoptar uma moeda própria é que ninguém a aceita no estrangeiro. Por isso, em ordem a poder manter o pagamento dos bens importados, esse país tem que antes de tudo ter uma reserva grande de divisas. Ora, a Grécia não tinha quaisquer reservas. Correu por isso literalmente seca e meca para as arranjar. Tsipras pediu auxílio aos EUA, à Rússia, à China e até ao Irão, para obter um financiamento que lhe permitisse sair do euro. De todos estes países ouviu um sonoro e terminante não. Pode haver desavenças com a Europa, mas a nenhum destes Estados interessava contribuir para o colapso da zona euro. Por isso Krugman, um dos maiores apoiantes do Grexit, acabou a chamar incompetente ao governo grego.

 

Rejeitado por todos, Tsipras voltou, qual filho pródigo, para os braços do Eurogrupo. Mas voltou sem qualquer convicção, referindo que um dia a batalha vai dar frutos. Parece que estamos assim perante a velha estratégia leninista de dar dois passos atrás para dar um passo em frente.

 

Em qualquer caso, não parece que as feridas tenham ficado minimamente saradas e que Tsipras tenha desistido dos seus intentos. A Grécia é por isso hoje o cavalo de Tróia do euro, de onde os seus soldados estão preparados para sair a qualquer momento, voltando a fazer colapsar a cidadela.


16 comentários

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De Luís Lavoura a 27.07.2015 às 09:38

Este post está muito bem arquitetado e escrito, mas parte de uma teoria - que o Syriza quis desde sempre a saída da Grécia do euro - que não é sustentada por quaisquer provas factuais. A teoria pode até estar certa, mas o LML não a sustenta com quaisquer provas.
O problema é que se podem construir muitas outras teorias que, tal e qual, como esta, também não contradizem os factos observados - mas que não são provadas por eles.
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De Irra! a 27.07.2015 às 11:10

Já tens idade suficiente para seres capaz de identificar um link, de o seguires e de leres o que lá está.
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De Luís Lavoura a 27.07.2015 às 13:40

Nenhum dos muitos linques do post prova a tese de Menezes Leitão.
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De Vai-te curar a 27.07.2015 às 20:34

O teu mal é seres analfabeto.
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De A Não Perder a 27.07.2015 às 11:07

http://en.protothema.gr/what-do-greek-politicians-know-about-austerity-nothing/
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De Manuel a 27.07.2015 às 12:29

Sem reestruturação da divida a alternativa seria o dracma. Daí a imaginar que sem o dracma a alternativa seria uma reestruturação da divida, parece-me um bocado rocambolesco.
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De isa a 27.07.2015 às 13:50

Para mim, o verdadeiro cavalo de Troia foi a criação da moeda única, dizem alguns que os problemas que os países sentem serão, apenas, por umas falhas na sua criação, pois eu penso que o objectivo foi atingido sem nenhuma falha, ou seja, foi a melhor maneira de poder mandar, simultaneamente, no maior número possível de países, passando por cima da vontade e das escolhas dos cidadãos. As grandes decisões são tomadas fora e não dentro de cada país. O que se passou com a Grécia é a prova que já nem sequer estamos "entre a espada e a parede", será mais um... "Grab by the balls" ;)
Na minha opinião, há outro cavalo de Troia que já vem "a galope", um que já foi recusado pelos cidadãos europeus mas que, agora, vai ser decidido sem eles poderem votar na matéria, para não correrem o risco de, novamente, não passar e é o célebre TTIP - The Transatlantic Trade and Investment Partnership , o acordo comercial que está a ser negociado entre a UE e a América do norte.
Por exemplo, a Europa tem regras rigorosas sobre químicos, pesticidas e medicamentos que podem ser utilizados a nível agroalimentar, ao contrário dos EUA. Mais de um milhão de pessoas em toda a Europa assinaram em 2014 uma iniciativa de cidadania europeia contra acordos comerciais entre a União Europeia e América do Norte. A campanha denominada - Parar TTIP-, foi apoiada por mais de 320 organizações da sociedade civil, os sindicatos e os denominados consumer watchdogs, espalhados pelos 24 Estados-Membros da UE.
De qualquer modo, nada parou, continuam a trabalhar... na maneira de passar por cima de Todos e, se for preciso, até do Parlamento Europeu, onde até podem dar muito jeito uns lobistas "aplicadinhos" ;)
Quanto aos argumentos para este acordo comercial, nem se esforçam muito, apregoam que o consumidor vai poder ter, por exemplo, carne mais barata... mas a que custo? Os produtores europeus vão ser "apagados" do mapa pois não se pode competir usando métodos mais saudáveis, perda de empregos e, pior, tal como noutras importações, a própria etiquetagem dos produtos é pouco rigorosa e, basta saber que, por exemplo, quando usam certos antibióticos nos animais (alguns proibidos na Europa) ou mesmo o uso de lexívia (hipoclorito de sódio) para poderem, após o abate, desinfectar certas partes do animal (processo idêntico em marisco importado da China e de outros países, pouco preocupados com a saúde da população), isso não aparece especificado porquê? por não ser considerado um ingrediente mas, apenas, fazer parte do processo, como se fosse um mero cozer ou grelhar.
Além de concorrência desleal, um perigoso ataque à nossa saúde, realmente dá que pensar, mais uma vez, outro cavalo de Troia que vai cumprir na íntegra e, sem nenhuma falha, mais um objectivo e, infelizmente, desconfio que este é bem pior porque não será, simplesmente, por simples ganância ou para fazer meros negócios...
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De William Wallace a 27.07.2015 às 22:29

Controlo, nada mais do que isso !

Concordo com tudo o que escreveu.

P.S. - Não esquecer as medidas securitárias implementadas para nos proteger, dizem eles.
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De isa a 28.07.2015 às 19:10

Por acaso consegue imaginar qual é o objectivo deste "Cavalo de Troia" ?
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De Anónimo a 27.07.2015 às 14:49

Não concordo, lamento.

Tsipras fez a negociação mais arriscada de que há memória na UE. Passo a explicar porque é que o PM GR é um grande negociador:
- queria um perdão de dívida a prazo e vai tê-lo
- queria uma reestruturação da dívida que fosse consensuada e apoiada, mesmo incentivada, pelo FMI e vai tê-la
- queria um 3º resgate da UE e vai tê-lo
- queria um empréstimo intercalar para fazer face à situação de ruptura financeira em que os bancos GR se encontravam e já o teve
- queria manter-se no EURO e é onde está a GR no dia de hoje.

Para isso valeu tudo, mas o PM GR soube sempre que a posição geostratégica da GR valia o risco.
No final, a UE acabaria a encontrar um meio de manter a GR no EURO porque só assim esta continuaria ancorada aos valores, ideais, objectivos europeus, incluindo no plano da defesa. Tsipras sabia-o. E conhecia bem o pensamento de Bismarck " em política pode-se mudar tudo, menos a geografia".

Fingiu sempre que estava irredutível, mas soube sempre que acabaria a ceder quando a sua opinião pública estivesse pronta para a capitulação. Deu-lhe toda a importância com a marcação de um referendo, aguentou maratonas negociais de dezenas de horas e voltou a Atenas dizendo que o que aceitara era o menor dos males, atendendo a que o povo grego não queria sair do EURO.
E quem não está disposto a aceitar um "second best" quando essa é a hipótese que resta? Vem em segundo, mas é um "best".

Os bancos recapitalizaram-se, o povo está preparado para o que aí vem, mas Tsipras conseguiu da UE e do FMI o que era impensável uns meses antes, ou mesmo no pricípio de Junho.
Para quem não tinha nada a não ser o apoio popular e a bancarrota já no país, obter financiamento para a economia GR, promessas de "haircut" ( ainda que com outro nome) e garantir que a GR se mantém no EURO com suporte financeiro do BCE não vos parece uma grande negociação?
Pois a mim, sim.
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De Manuel a 27.07.2015 às 23:42

Claro que sim, mas de que adiantaria aos adeptos dos partidos tradicionalmente detentores do poder, admitirem que o Tripsas foi capaz de fazer o que os seus partidos não querem fazer, nem sequer alguma vez serão capazes de fazer? Nada, não lhes adianta nada. A única hipótese que têm para se livrarem deste problema embaraçoso consiste em fazer uma propaganda de diminuição e distorção dos factos com vista na desvalorização e eliminação do perigo que é uma ameaça o status quo tradicional.
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De William Wallace a 28.07.2015 às 13:31

Discordo completamente da sua análise !

A única coisa que Tsipras conseguiu foi dar a contribuição final para transformar a Grécia no 2º estado falhado da Europa (o 1º é a Ucrânia).

Ao ter feito um bluf que não quis concretizar, saída do Euro mais que aceitável atendendo tudo aquilo aquilo que se passou nas "negociações" desde Janeiro além do facto mais relevante que é saber-se que estas politicas não "ajudaram" nenhum Pais a elas submetidos.

Deveria pois retomar a soberania do seu País e levar avante as suas politicas, se é que tinha algumas pois agora não tem nada, tem um acordo muito pior que o anterior no qual ninguém acredita e umas declarações piedosas sobre questões relevantes mas que não passam disso, declarações.

A Grécia é agora o maior exemplo da TINA There Is No Alternative ) e será sempre lembrada como isso mesmo a quem sequer ousar sair da linha nem que seja por motivos mais que justos.

Como vê está tudo alinhar-se pelo vento mais "forte", as peças são arrastadas pelo tabuleiro e tudo está a encaixar-se.
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De Manuel a 29.07.2015 às 00:12

Desculpa me intrometer.
As opiniões são como espermatozoides: são muitos mas só um fecunda. A ver vamos.
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De lucklucky a 27.07.2015 às 15:28

O Syriza é Marxista logo obviamente quer a suposta destruição do Euro, mas só até o Euro estar eventualmente nas suas mãos e dos ideologicamente próximos.
Se for preciso fazer uma aliança com a Marine Le Pen...

O Euro é uma concentração de poder e por isso atrai qualquer Marxista.

Tal como quer liberdade de expressão quando está na oposição.Atinge o poder e a liberdade de expressão num ápice passa a devaneios burgueses. Ou sindicatos muito necessários quando não tem poder e supérfluos quando tem...

Como é óbvio concordo com a convicção do autor que o filme ainda agora começou. Mas o objectivo será tomar conta do Euro por dentro.

Sabotar até tomar o controlo, tácticas históricas do Marxismo.
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De Aguenta, Lavoura a 27.07.2015 às 20:48

Partidos políticos pró-europeus exigem explicações formais ao governo pelo plano de Varoufakis. Dizem que há que apurar responsabilidade “política e criminal”. Ex-ministro das Finanças estava a preparar a possibilidade de regresso ao dracma, e diz que isso lhe foi pedido por Alexis Tsipras ainda em Dezembro, antes mesmo das eleições.
Vinte e quatro deputados do Nova Democracia entregaram nesta segunda-feira um requerimento formal exigindo a presença no Parlamento do primeiro-ministro Alexis Tsipras para dar explicações sobre os planos de regresso ao dracma, admitidos neste fim-de-semana por dois seus ex-ministros: Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças, e Panagiotis Lafazanis, ex-ministro da Energia.

(jornal Negócios)
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De Aguenta, Lavoura a 28.07.2015 às 08:26

http://observador.pt/2015/07/28/gravacao-audio-ja-pode-ouvir-yanis-varoufakis-a-falar-do-plano-b/

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