Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O casamento em anos de cão

por Patrícia Reis, em 30.03.14

O amor não é o dos romances, as senhoras não têm veias azuis e desmaiam, caem à cama com doenças do foro pulmonar.

Os homens não andam de chapéu, não frequentam uma tertúlia, não se levantam quando uma senhora entra na sala.

Alguns mantêm amantes. As mulheres também os têm.

Dito tudo isto, na verdade um pouco banal, podemos concluir que nos dias correm, um ano de casamento equivale a um ano de vida de cão.

Isto quer dizer que, apesar dos meus 43, tenho quase 70 de casada. Uma raridade? Sim.

Há dias, um miúdo dizia, no recreio, que o fulano X era bestial, "já foi meu pai". O outro miúdo pareceu aliviado.As segundas e terceiras famílias são outra banalidade.

A crise financeira implica connosco, com o tudo que existe nas suas vidas. A crise emocional é provocada por nós e por esta permanente vertigem em que vivemos: ligados ao telemóvel, ao site, ao blogue, ao facebook, ao twitter.

Um casal jantava, há uns dias, sozinho, num restaurante dito "da moda". Ambos de telemóvel na mão.

Pensei: bom, devem estar à espera da comida. O repasto chegou. A animação com os telemóveis continuou.

Lembrei-me então do livro de Luísa Costa Gomes, Ilusão ou o que lhe queiram chamar (D. Quixote). O protagonista tem duas famílias, sendo que uma é avatar, ou seja, vive num jogo chamado Second Life. Triste?

Não sei se a maioria das pessoas o sente com tristeza, tenho a certeza de que é um belo livro, isso tenho.

Estar casado e manter um casamento é exigente e mais difícil do que conseguir um emprego ou promoção (isto se quisermos entender por emprego qualquer tipo de emprego, claro está). Todos os dias temos de escolher amar aquela pessoa, mesmo que já não a possamos nem ver? Não, nada de tão dramático. O casamento que dura é aquele em que as duas pessoas não se abandonam. Virar costas é simples. Ficar é que é mais implicado.

Tem dias, se quiserem.

Dizia-me uma poetisa que tudo isto é uma consequência evidente da libertação das mulheres e ainda bem. Que os casamentos arranjados, que os casamentos de 50 anos com manadas de sapos por engolir já não existem. Não respondi. Os casamentos brancos, com manadas de sapos e outras espécies, ainda existem. A taxa de divórcio diiminuiu. Por causa da crise. Há mais queixas de abusos.

Há mais silêncios. Silêncios maus.

O bom silêncio? É para aqueles que não se esquecem de dizer tudo.

Autoria e outros dados (tags, etc)


4 comentários

Imagem de perfil

De cristof a 30.03.2014 às 22:19

penso que o casamento não se adequa aos tempos que correm. como as feridas que provoca são mesmo graves ,o manter um estatuto que funcionava bem (quando a minha mãe dependia do ordenado unico do meu pai - que lhe era atribuido partindo da premissa que era para alimentar uma familia) nos dias que correm trás prejuizos para os descendentes e o par que merecem um repensar sério das soluções possiveis, quer para uma saudavel descendencia - que fica logo seriamente penalizada ao esperar as "condiçoes" de poder casar + as lutas e traumas duma separação penosa, quer para os nubentes que se digladiam e depauperam economicamente e psicologicamente com "regras" de que terceiros (advogados) serão os unicos a sorrir. Retirar o "romantico+tradição" dum util pensar de alternativas seria de grande sensatez.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 31.03.2014 às 09:33

Alguns mantêm amantes

Seria mais adequado ter escrito "Alguns têm amantes", pois atualmente poucos homens se dão ao luxo de poder manter uma amante (e poucas mulheres querem ser mantidas dessa forma).
Sem imagem de perfil

De Vento a 31.03.2014 às 13:23

Quando entendermos que o casamento não pode ser mais uma forma de libertação do que desejamos libertar-nos, então, talvez possamos voltar a ser um que Homem algum separará.

Com sorriso de desdém, leio frases como "isto é consequência da libertação da mulher". E o sorriso é expressão do pensamento de que quem se libertou também foi o homem. De maus hábitos, para adquirir, em conjunto, outros maus hábitos.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 31.03.2014 às 13:51

Nem mais, Patrícia. Gostei muito.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D