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O capitão motorista

por jpt, em 23.03.19

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Não é preciso ser historiador para perceber o sentido da tendencial "endogamia" - como agora se diz, erradamente - na elite política. O enclausuramento das possibilidades executivas (e também legislativas) num cada vez mais pequeno grupo de gente, entrecruzado por relações de solidariedade afectiva e dependências mútuas, leva à formação de cliques, seja qual for o regime, ao enquistamento conceptual e à articulação com interesses cada vez menos abrangentes na sociedade. E mostra, sempre, um fim de ciclo, uma progressiva incapacidade desse poder para convocar e confiar em núcleos mais alargados das elites político-culturais. Este organograma "familiar" do governo bem o mostra. O governo está construído em torno de um pequeno grupo, sociologicamente demarcado. E as tentativas de cooptação de inéditos têm sido frágeis - eu tenho andado arredio às notícias nacionais, não sei como têm sido as coisas em 2019, mas no final de 18 era óbvio que as novas ministras da saúde e da cultura são muito frágeis opções, decerto que descartáveis no futuro. Não tendo trazido nada de relevante nem em perspectivas para as suas áreas nem em habilidades políticas. Ou seja, o governo remodela-se mas não se regenera. 

Trata-se mesmo do final de um ciclo. Não o legislativo, mas de um ciclo geracional catapultado em 2005 mas já ambientado sob Guterres. De facto, trata-se do ocaso da "geração Macau". E por mais que numa manobra obviamente articulada, num determinado fim-de-semana Galamba (logo depois recompensado pela almejada secretaria de estado), César (o mais impudico dos políticos relevantes actuais) e a jornalista Câncio, tenham tentado cortar o nó górdio que é o âmago do PS, o seu visceral "link" com Sócrates, isso ribomba neste ocaso do I governo costista, patente nesta sua "árvore genealógica", preenchido com inúmeros antigos membros dos governos com e de Sócrates, sem que isso tivesse provocado verdadeiro sobressalto no país. 

O PS vai ganhar as eleições e fará um novo governo. Provavelmente, após ter provado que conseguia governar nestas condições, e contornada a tenaz da crise financeira, conseguirá cooptar para o seu próximo governo outras energias das elites corporativas, outros Centenos, e nisso largar o mais estrito do socratismo, da concepção "macaísta" de exercício do poder executivo. E isto, goste-se ou não do PS, é fundamental para o país. Isto é o que se pode retirar da peculiar composição deste governo. Mas, honestamente, dela não se pode retirar qualquer ilegalidade ou imoralidade. Nem mesmo uma obrigatória disfuncionalidade. Apenas denota um esgotamento.

Outra coisa completamente diferente é o demonstrado pela notícia de que o secretário de estado da defesa do consumidor pretendeu contratar como motorista um seu "amigo" (termo que alude a uma relação de cariz afectiva e sexual) que é capitão do exército, algo que já foi confirmado pela arma. Claro que criticar isto provocará logo (até entre alguns comentadores residentes aqui no blog) a invectiva de uma "fobia" minha. Não. Ainda para mais neste período de grande debate sobre formas de relacionamento, em que a sexualidade assumiu estatuto de putativa toxicidade, bastará utilizar o contrafactual: se um secretário de estado heterossexual quiser contratar uma actriz de novela, com o qual tem uma relação de índole afectiva-sexual, para sua secretária (assistente administrativa) sendo ela desprovida de formação específica, ou uma cirurgiã ou bióloga para arquivista, por exemplo, haverá uma crítica generalizada, por desrespeito dos comportamentos actualmente exigíveis, demonstrada na total irracionalidade da utilização dos recursos humanos e no óbvio favoritismo. Falar-se-á de muita coisa, e obviamente de "favores sexuais". O facto deste secretário de estado ser homossexual inibe, no contexto actual, a crítica radical ao inadmissível comportamento. E faz demorar a óbvia, urgente e necessária decisão: a sua imediata demissão por execrável nepotismo. E essa demora mostra bem mais o estado cataléptico do governo costista do que o emaranhado de relações familiares que o constitui.

Fica por resolver uma coisa. Presume-se que um capitão do exército possa comandar até contingentes com o máximo de 250 militares. Em actividades de rotina mas também em momentos de urgência, de imediatismo de tomadas de decisão e da sua aceitação e de actuação conforme. Como poderemos presumir que centenas de homens e mulheres militares se articularão, mesmo que apenas sob constrangimentos subconscientes, sob um oficial que sabem preferir ser motorista - tarefa digna mas para a qual está muito mais do que sobre-habilitado - do namorado, a quem presta "favores sexuais", do que cumprir essas funções de comando para as quais foi formado?

Por outras palavras, que lugar tem este "oficial" nas forças armadas portuguesas? Evidentemente, nenhum. Tem a palavra a "arma".

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1 comentário

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De Anónimo a 23.03.2019 às 18:35

Autêntica pocilga.
Mas "democrática", segundo apregoam.


JSP

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