Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O burquíni e a democracia francesa

por Diogo Noivo, em 06.09.16

burquini_fotoAP.jpg

 

O debate sobre o burquíni abalou os alicerces da identidade nacional francesa. Quando uma peça de vestuário é capaz de tal proeza, teme-se pela saúde da identidade nacional, tão frágil que soçobra perante tecido.

Os detractores do burquíni dirão que não está em causa a indumentária, mas sim o que ela simboliza. Aliás, foi esse o racional que fundamentou a proibição imposta em França (os alegados problemas de higiene, aduzidos ao debate pelo presidente do município de Cannes, parecem-me um fundamento demasiado patético para ser levado a sério). O valor deste argumento é discutível, pois não é de todo evidente que a burqa (e, por maioria de razão, o burquíni) seja uma representação de uma estripe radical e violenta do Islão. Como, por outro lado, também não está demonstrado que o uso do burquíni seja uma consequência da coacção - embora, neste aspecto em concreto, existam bons argumentos para ser cauteloso, sem recorrer às litanias ultramontanas que se vão lendo aqui e ali. 

Mas mesmo que o burquíni fosse uma expressão de um Islão sectário e violento, a forma como se decidiu implementar a proibição invalidou por completo toda e qualquer boa intenção que a fundamentasse. Se, como foi evocado, o objectivo fosse o de banir do espaço público representações de ideologias repressoras, sectárias e violentas, deveria ter sido ilegalizada toda a parafernália onde figurem os rostos de Che Guevara ou de Mao, para dar apenas dois exemplos. Mais, se se pretende proteger a sociedade francesa do ódio e da violência (nas suas mais diferentes expressões), então as autoridades estavam obrigadas a ilegalizar o partido Frente Nacional. Mas nada disto aconteceu. Quis-se suprimir alegadas manifestações de ódio, mas apenas no seio da comunidade muçulmana. A todos os outros sectores da sociedade aplicou-se o muito português ‘tudo como d’antes, quartel-general em Abrantes’.

É abusivo e ridículo inferir deste caso que França adoptou uma política de perseguição religiosa exclusivamente direccionada contra o Islão. A verdade, como escreveu João Pedro Pimenta n’A Ágora, é  que se trata de mais um exemplo do jacobinismo francês, em que a tão afamada "laicidade" é na realidade uma atitude anti-religiosa disfarçada.  No entanto, ao pegar num argumento geral e aplicá-lo somente a um pequeno sector da sociedade, criaram-se condições (e factos) para que a comunidade muçulmana em França se sinta alvo de discriminação selectiva. E, com isso, deu-se mais um argumento ao totalitarismo jihadista, que certamente usará este episódio para ‘demonstrar’ aos muçulmanos que a verdadeira opressão religiosa está na Europa, e não no sectarismo sanguinário do autoproclamado Estado Islâmico e demais organizações jihadistas. Perante tudo isto, François Hollande, correctamente apodado em França de Monsieur Flan, mostrou não ter a consistência política necessária para recentrar o debate público.

André Lamas Leite escreveu n'A Destreza das Dúvidas que o busto da República aguenta bem o burquíni. De acordo. Já não tenho tanta certeza que a democracia francesa aguente cidadãos de indignação fácil, disponíveis para aceitar medidas de corte autoritário.

Autoria e outros dados (tags, etc)


23 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 06.09.2016 às 11:21

Burquini...
E é com isto qua a UE se vai distraindo.
E tanto, que leva a que, neste sítio, ninguém dê conta das vozes autorizadas que avisam que a saída de Portugal seria o mais indicado.
Lamentável!
João de Brito
Sem imagem de perfil

De J. L. a 06.09.2016 às 14:23

Bem visto.
Sem imagem de perfil

De JS a 06.09.2016 às 15:13

"We will colonize you with your democratic laws." — Yusuf al-Qaradawi, Egyptian Islamic cleric and chairman of the International Union of Muslim Scholars.

Devegarinho ao princípio, claro.
Os idiotas úteis ajudam.
Sem imagem de perfil

De Teresa a 07.09.2016 às 13:22

A intenção é clara e o caminho delineado muito antes da invenção do burkini. Porque a mulher mussulmana usa burkini, burka e quejandos? Porque se não o fizer é vista/considerada/tratada como não digna.
Deixem os burkinis e depois esperem sentados, e cobertos, pelo movimento a favor do não-bikini/fato de banho para não constrangir as mulheres dignas.
Já o Menino Jesus teve de "saltar" de presépios em alguns arrondisements de Paris porque incomodava as maiorias islâmicas que lá vivem. De incómodo em incómodo...
Sem imagem de perfil

De tric.Lebanon a 06.09.2016 às 16:50

a Laicidade promove o Islamismo e persegue o Catolicismo !! Em França o Islão já tem mais poder politico-financeiro que os Católicos !!! Laicidade=Islamização...em Portugal, uma civilização católica ancestral, os Laicos estão para os Católicos, como os Daesh estão para a Cristandade no levante...
Sem imagem de perfil

De kika a 06.09.2016 às 18:21

Enquanto os burquinis vão poluindo as praias..
O Estado islâmico pediu ás mulheres lá do sítio
para não usar a burka por questões de segurança.
Este mundo anda absolutamente esquizofrénico.
É ,aqui portanto no ocidente que se deve aceitar esses delírios
porque somos todos culpados e tão civilizados que
tudo é aceitável ... o que não é aceitável é mulheres como
eu afirmar por aí que a burka e burquini é uma visão de horror
absoluto da condição da mulher mulçulmana .
Tentei ser muito moderada para não me proibirem a entrada também aqui
como já o fizeram não muito longe deste espaço.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 06.09.2016 às 21:00

Viva, Diogo.
Tudo dito nas primeiras duas frases: "O debate sobre o burquíni abalou os alicerces da identidade nacional francesa. Quando uma peça de vestuário é capaz de tal proeza, teme-se pela saúde da identidade nacional, tão frágil que soçobra perante tecido."
Assino por baixo.
Sem imagem de perfil

De José a 07.09.2016 às 13:13

Uma peça de vestuário que aos olhos de todos afirma uma religião! Vê isso em mais alguém? Vê mais alguém impor tradições abjectas e desumanas? Acha bonito ver este retrocesso civilizacional? Pensava eu que o Mundo progredia, jamais pensei que em pleno século XXI havia gente capaz de apoiar esta agressão a toda uma civilização! Por vezes basta um slogan para mudar uma sociedade, se nunca percebeu isso deve viver noutro lado, mas não no mesmo Mundo que nós! Pautamos-nos pela defesa da liberdade, mas essa defesa não pode ir ao ponto de por em causa essa mesma liberdade e democracia em nome de uma religião obscurantista, falsa por que criada por homens, e notoriamente anti-democrática. São as palavras dos seus lideres que confirmam este raciocínio não ver isto é tapar o sol com uma peneira!
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 06.09.2016 às 21:01

"para que a comunidade muçulmana em França se sinta alvo de discriminação selectiva."

E então?
É perfeitamente justificado a discriminação contra a religião-politica mais violenta e agressiva que existe.
Sem imagem de perfil

De singularis alentejanus a 07.09.2016 às 10:45

Para mim é tão simples quanto isto: Se eu estiver a pensar ir para um qualquer país, tenho que me submeter ás leis e hábitos desse país, ainda que para mim não tenham cabimento, e nunca como estrangeiro impor os meus, sejam eles de que tipo forem.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.09.2016 às 12:32

Sempre gostei de alentejanos; perfeitamente de acordo.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.09.2016 às 13:39

Bem dito
Nada a acrescentar
Sem imagem de perfil

De LaLaLa a 07.09.2016 às 20:05

Coisa que, em Portugal, não se vê da parte dos "Afrikans" que para aqui andam. Vemos uma agressão ao nosso próprio povo, mas é preferível falar de França. Também estamos ameaçados, mas isso já é "racismo".
Sem imagem de perfil

De carls a 07.09.2016 às 20:35

dás uma bofetada num negro és racista. Um negro da-te um tiro é uma vitima da sociedade. Tal e Qual.
Sem imagem de perfil

De João Pinto a 07.09.2016 às 11:39

Ilegalizar a frente nacional?
Isso é passar um atestado de estupidez a metade da população francesa, visto que cerca de metade dos franceses concordam com as políticas de imigração e anti islao que defendem. O islao não é uma religião da paz. O islao é um sistema político autoritário que pretende implantar a lei da sharia em todo o mundo. Todos os que defendem o politicamente correto são culpados do que que está a acontecer no ocidente. O islao defende uma condição inferior para a mulher. É isto que queremos nos nossos países?
Imagem de perfil

De jabeiteslp a 07.09.2016 às 14:32

Quem não se adequa
se adapta a quem acolhe
Rua...

Simples, certinho, e direitinho
que tudo o resto é blá blá..

Bom resto de semana de aqui da Serra

Sem imagem de perfil

De joana a 07.09.2016 às 16:29



É horrivel como estas mulheres estão tão vestiddas com tanto calor.
Só podem estar a provocar as pessoas, debaixo daqueles turbantes pode estar explosivos, estou para ver qual será o dia que isso vai acontecer.

As filhas podem estar em fato de banho... elas não ... Porquê ?

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D