Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




310px-Brazil_topo_en2.PNG

 

Bolsonaro é apoiado por várias igrejas evangélicas - sobre cujas dimensões mariolas e comerciais poucas dúvidas haverá. E é certo que IURD e afins já apoiaram o PT (business as usual ...). Mas agora bolsonarizam. Que diz a igreja católica, tradicionalmente menos explícita nos seus apoios? Consulto o insuspeito Vatican News e noto que o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil já apelara, em Abril, à participação dos católicos nas eleições, para isso evocando considerações do actual Papa e fundando-se nas perspectivas de Bento XVI. E encontro o texto produzido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desta semana (23 e 24 de Outubro): "Nota da CNBB por ocasião do segundo turno das eleições de 2018". 

 

O documento é interpretável, claro. E, assim sendo, cada um o lerá segundo a sua ... decisão prévia. Está acessível na ligação que incluí mas copio a sua conclusão: "Exortamos a que se deponham armas de ódio e de vingança que têm gerado um clima de violência, estimulado por notícias falsas, discursos e posturas radicais, que colocam em risco as bases democráticas da sociedade brasileira. Toda atitude que incita à divisão, à discriminação, à intolerância e à violência, deve ser superada. Revistamo-nos, portanto, do amor e da reconciliação, e trilhemos o caminho da paz!". Cada um que tire as suas conclusões, segundo a sua ... decisão prévia. Mas, caramba, é difícil não encontrar aqui uma elíptica alusão, como é tão habitual na igreja católica, à retórica (e às intenções proclamadas) do capitão Bolsonaro.

 

Interessam-me as reacções portuguesas ao caso bolsonar. A simpatia para com ele, óbvia ainda que implícita - pois explicitá-la ainda tem custos sociais -, na comunicação social e na política. Jornalistas e bloguistas, "comunicadores" como agora se diz, e políticos que se situam na direita elaboram-se com enleios de neutralidade. Esta tendência anuncia o que um ambiente sociocultural e profissional lisboeta está pronto para acolher, caso surja a hipótese (muito implausível em Portugal, ainda assim). Dessa retórica "neutralidade" é exemplo o que li ontem de um conhecido e veterano bloguista: é "paternalismo" botar opinião sobre as eleições brasileiras! 15 anos depois do advento dos blogs, onde participou e onde nos seus blogs e em tantos interactuantes imensa opinião se botou sobre as várias eleições americanas, francesas, russas, a "hermana" Espanha, angolanas, Tsipras e Varoufakis, se calhar até brasileiras, brexits, autonomias, etc. Mas agora? É paternalismo opinar. 

 

É interessante pois este é um meio, político, social e cultural, que usualmente se revê no CDS, com mais ou menos flutuações. Partido que se reclama (ou reclamou) da democracia-cristã, da doutrina social da igreja e com ligações, muito legítimas, ao mundo eclesiástico.  Ora muito dos agora "neoneutrais", simpatizantes, militantes (e até presidentes, como Cristas, a quem referi ontem), fazem "orelhas moucas" ao (elíptico) parecer eclesiástico. 

 

Deixemo-nos de subterfúgios, a democracia-cristã portuguesa morreu. E esta direita "neoneutral" anseia por um "movimento de capitães". Deste tipo bolsonar. A igreja? Serve para a pompa do casamento dos filhos, enterrar os conhecidos, quiçá a missa do galo, para alguns só alguns ainda para um convívio dominical. Eu, ateu e nem baptizado, conheço mal a Bíblia. Mas tenho a ideia de lá ter lido "bem-aventurados os hipócritas, porque eles serão fartos" (Mateus 5: 3-9). 


8 comentários

Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 28.10.2018 às 15:14

Quanto ao resto, não deixa de ser enternecedor ouvir e ver aqueles que aplaudiram de pé o espectáculo obsceno da destituição de Dilma Rousseff - por um "crime" que, em Portugal, teria metido nos calabouços todo e qualquer elenco governativo pós 25 de Abril - chorarem agora lágrimas de crocodilo face à onda do "populismo" (na era da pós-verdade, as palavras servem para encobrir aquilo que lá está, e o que lá está tem um nome que designa exactamente o seu referente: esse referente chama-se Fascismo) de Bolsonaro. Mais uma vez nos é dado assistir - ao vivo e a cores - à ópera bufa de lusos políticos, comentadores e analistas de toda a sorte a praticarem aquilo que melhor sabem fazer: exibir em todo o seu esplendor a inimputabilidade que inexoravelmente nasce da sua inenarrável incompetência e ignorância. Já vimos isso anteriormente, e os nomes Kosovo, Iraque e Líbia, vêm-me, vá-se lá saber porquê, à lembrança...
Aquilo que esteve no subterrâneo golpe palaciano que decapitou Dilma Rousseff é exactamente aquilo está no que leva Bolsonaro aos ombros: Bullets/Bible/Cattle.
É caso para dizermos "Perdoa-lhes, Pai, porque eles - lá e cá - sabem exactamente o que fazem".
Imagem de perfil

De jpt a 29.10.2018 às 05:39

Os americanos não é? O Boaventura também já disse isso. Mas juntou-lhe o colonialismo ...
Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 29.10.2018 às 11:43

Os americanos? Não... Aliás, foram os marcianos, eles sim, mais a sua SNA, que puseram o telefone de Dilma Rousseff e de meio governo brasileiro sob escuta e entregaram o resultado da sua "investigação" a um juiz muitíssimo imparcial. Quando ouço gente a invectivar o "populismo" de Bolsonaro, só me pergunto que espécie de "populismo" leva um juiz (um órgão de soberania) de um país independente e soberano a investigar os seus cidadãos com base nas escutas ilegais feitas por uma agência de espionagem estrangeira à chefe de Estado da sua própria nação.
Para nós portugueses a coisa ainda se torna mais absurda quando notamos que um ex vice-presidente da nossa Assembleia da República se recusa a ir ao Brasil responder por uma grave acusação de alegado homicídio argumentando que a justiça brasileira não é justa nem imparcial. Pelo vistos, aquilo que não serve a Duarte Lima é óptimo para Lula da Silva e para Dilma Rousseff.
Quanto a colonialismo, creio que o termo é um pouco desadequado quando se fala das relações dos EUA com qualquer nação da América Latina, pois melhor será tratarmos a coisa - pelo menos desde o estabelecimento da Doutrina Monroe - por neocolonialismo.
Finalizando, há que fazer um aviso à navegação: eu não sou nada apreciador das ideias do Dr. Boaventura.
Imagem de perfil

De jpt a 30.10.2018 às 07:18

Sob o tão democrata Obama não andaram a escutar a então nazi Merkel? Não se ouviram grandes críticas locais.
A explicação dos males do mundo pela causa americana tem todos os conteúdos da explicação feitícica.
"Colonialismo" para explicar modernidade e contemporaneidade não (me) serve. Nem "colonialidade". Mas enfim, são visões do mundo muito consagradas nos tempos correntes.
Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 30.10.2018 às 13:11

Eu referi-me a neocolonialismo. E quanto à Merkel (a quem eu jamais chamei, chamo ou chamarei nazi) é mesmo esse o problema de todos os povos neocolonizados: a páginas tantas, assumem a "superioridade"dos seus amos como algo inquestionável e piam baixinho, não vá o patrão zangar-se. Ser esse patrão Obama ou Trump ou o Capitão América vai dar ao mesmo. Se hoje a Europa é uma vasta colónia de bases militares, não me parece que nessas bases militares ondeie a bandeira do Kirguistão.
Quanto à explicação dos males do mundo pela causa americana, é, nesse particular, o caro JPT mais papista que o Papa, pois o que não falta é vasta obra académica "made in USA" que esmiuçadamente aponta o mar de bem-aventuranças que a hegemonia americana trouxe ao Mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Mas não nos apoquentemos, prezado JPT, pois essa hegemonia está a ir, rapidamente e com a prestimosa ajuda do complexo militar/industrial/financeiro/mediático dos próprios EUA (com inimigos destes, quem precisa de amigos?), pelo cano dos resíduos (chamemos-lhe assim) da História. Recoste-se, estimado JPT, e aprecie o espectáculo.
Imagem de perfil

De jpt a 30.10.2018 às 14:03

O sarcasmo não é sempre bom amigo. Só funciona bem quando não assenta no adulterar prévio do que o outro, a quem se atira a pedra, botou; Eu referi a ideia, que BSS escreveu por extenso e que muitos agitam, de que a culpa do que se passa no Brasil é dos EUA, seus malévolos interesses e práticas. A tese vale o que vale, para os folóeres do analista e para os antiamericanos do feitiço. O resto é apenas vontade sua de atirar umas bocas Ok, estaão aí escarrachadas ...
Sem imagem de perfil

De Rui Henrique Levira a 30.10.2018 às 15:10

Vai perdoar-me a sinceridade, caro JPT, mas a minha vontade de de "atirar umas bocas" anda pela mesma intensidade volitiva por si demonstrada de fazer o mesmo.
E engana-se o senhor ao crismar de "antiamericano" aquilo que eu escrevo, pois tenho tanto contra o povo americano contra contra outro povo qualquer tenho, ou seja, nada. O que eu detesto é uma classe governativa que, desde muito cedo, levou os EUA a construírem um império sem alguma vez se dizerem imperialistas.
Quanto ao sarcasmo, fará o senhor a fineza de determinar o como e o quê há-de escrever e deixar-me a liberdade de o mesmo fazer, certo? Se assim não for, também algum muito pouco urbano reparo estilístico terei eu de fazer ao colorido "atirar umas bocas" que por aqui ficam "escarrachadas", que, convenhamos, está uns furos abaixo daquilo que se lhe exige a nível intelectual, porquanto "bocas" mandam os trolhas do cimo dos andaimes.
Imagem de perfil

De jpt a 30.10.2018 às 20:41

"bocas" monopólio dos trolhas? enganou-se no interlocutor, cagança elitista comigo não pega. "bocas" abaixo de trolha, bem mais rasteiro do que o sarcasmo que lhe estava, calmamente, a atribuir é a desonestidade de amarfanhar o que o outro escreve e gozar sobre isso - exactamente o que acima faz. Fica a conversar sozinho, com os burguesotes adamados. Eu vou com os trolhas, foda-se

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D