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Delito de Opinião

O Brasil, a igreja católica (e os opinadores portugueses)

jpt, 28.10.18

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Bolsonaro é apoiado por várias igrejas evangélicas - sobre cujas dimensões mariolas e comerciais poucas dúvidas haverá. E é certo que IURD e afins já apoiaram o PT (business as usual ...). Mas agora bolsonarizam. Que diz a igreja católica, tradicionalmente menos explícita nos seus apoios? Consulto o insuspeito Vatican News e noto que o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil já apelara, em Abril, à participação dos católicos nas eleições, para isso evocando considerações do actual Papa e fundando-se nas perspectivas de Bento XVI. E encontro o texto produzido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desta semana (23 e 24 de Outubro): "Nota da CNBB por ocasião do segundo turno das eleições de 2018". 

 

O documento é interpretável, claro. E, assim sendo, cada um o lerá segundo a sua ... decisão prévia. Está acessível na ligação que incluí mas copio a sua conclusão: "Exortamos a que se deponham armas de ódio e de vingança que têm gerado um clima de violência, estimulado por notícias falsas, discursos e posturas radicais, que colocam em risco as bases democráticas da sociedade brasileira. Toda atitude que incita à divisão, à discriminação, à intolerância e à violência, deve ser superada. Revistamo-nos, portanto, do amor e da reconciliação, e trilhemos o caminho da paz!". Cada um que tire as suas conclusões, segundo a sua ... decisão prévia. Mas, caramba, é difícil não encontrar aqui uma elíptica alusão, como é tão habitual na igreja católica, à retórica (e às intenções proclamadas) do capitão Bolsonaro.

 

Interessam-me as reacções portuguesas ao caso bolsonar. A simpatia para com ele, óbvia ainda que implícita - pois explicitá-la ainda tem custos sociais -, na comunicação social e na política. Jornalistas e bloguistas, "comunicadores" como agora se diz, e políticos que se situam na direita elaboram-se com enleios de neutralidade. Esta tendência anuncia o que um ambiente sociocultural e profissional lisboeta está pronto para acolher, caso surja a hipótese (muito implausível em Portugal, ainda assim). Dessa retórica "neutralidade" é exemplo o que li ontem de um conhecido e veterano bloguista: é "paternalismo" botar opinião sobre as eleições brasileiras! 15 anos depois do advento dos blogs, onde participou e onde nos seus blogs e em tantos interactuantes imensa opinião se botou sobre as várias eleições americanas, francesas, russas, a "hermana" Espanha, angolanas, Tsipras e Varoufakis, se calhar até brasileiras, brexits, autonomias, etc. Mas agora? É paternalismo opinar. 

 

É interessante pois este é um meio, político, social e cultural, que usualmente se revê no CDS, com mais ou menos flutuações. Partido que se reclama (ou reclamou) da democracia-cristã, da doutrina social da igreja e com ligações, muito legítimas, ao mundo eclesiástico.  Ora muito dos agora "neoneutrais", simpatizantes, militantes (e até presidentes, como Cristas, a quem referi ontem), fazem "orelhas moucas" ao (elíptico) parecer eclesiástico. 

 

Deixemo-nos de subterfúgios, a democracia-cristã portuguesa morreu. E esta direita "neoneutral" anseia por um "movimento de capitães". Deste tipo bolsonar. A igreja? Serve para a pompa do casamento dos filhos, enterrar os conhecidos, quiçá a missa do galo, para alguns só alguns ainda para um convívio dominical. Eu, ateu e nem baptizado, conheço mal a Bíblia. Mas tenho a ideia de lá ter lido "bem-aventurados os hipócritas, porque eles serão fartos" (Mateus 5: 3-9). 

6 comentários

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    Pedro 28.10.2018

    Nunca Jesus Cristo pronunciou o sermão da montanha. Os estudiosos acreditam que foi acrescentado muito depois da primeira versão da bíblia ter sido escrita (pela análise semântica e linguística ).Aliás a Bíblia foi sendo revista conforme a situação política vivida pelos cristãos, daí os seus ensinamentos paradoxais. Umas vezes Jesus era inclemente - situação política dos cristãos favorável - outras benévolo - situação política desfavorável.

    O inventor do cristianismo foi Paulo, e não Jesus Cristo
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    Rui Henrique Levira 28.10.2018

    Paulo, esse grande espertalhão... O bom do nativo de Tarso lá concluiu que a coisa, restrita ao seio do Judaísmo que a excluía, não dava, e, vai daí, lançou-se, muito "empreendedoristicamente" como hoje sói dizer-se, à conquista de novos mercados espirituais.
    Uma incomensurável ajuda ao êxito da empresa foi, sem dúvida, a destruição do Templo, no ano 70 da nossa Era, que definitivamente deixou o Judaísmo cristão-palestiniano sem sede nem eixo. Na luta pelo poleiro espiritual definitivamente levou a melhor Saulo, o renascido do Caminho de Damasco, sobre Cefas, o pescador das margens do Mar da Galileia.
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    Vento 29.10.2018

    Rui, tem de ler as cartas de Paulo depois da "queda do cavalo" para comprovar o percurso, as duas viagens feitas a Jerusalém, e a razão que o levou ao encontro daqueles que ele designava como "os pilares da igreja".
    Paulo transformou-se no que é porque teve a coragem de se entregar nas mãos dos romanos para que decidissem sobre sua vida.
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    Rui Henrique Levira 29.10.2018

    Sim, meu caro Vento, os mesmos "pilares da igreja" (leia-se Pedro/Cefas e a própria família de Jesus, na pessoa de Tiago) com quem ele manteve insanáveis polémicas no como, onde e a quem devia levar a singular leitura da Lei de Moisés que o Rabi de Nazaré espalhara na sua passagem pela Terra.
    E, meu prezado Vento, se Paulo se entregou nas mãos dos romanos, entregou-se ele às mãos dos seus, porquanto Saulo de Tarso era um cidadão romano. Essa cidadania, bem como a sua educação greco-romana, explicam, por si só, a clara opção de Paulo de alargar aos gentios aquilo que era mais uma (entre tantas) corrente do Judaísmo.
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    Vento 29.10.2018

    Começo pelo fim. Não explica nada disso. O que explica a sua acção são as cartas conhecidas. Recomendo-lhe novamente a leitura.
    A transfiguração diz tudo, e desmonta esse seu argumento. A figura central na transfiguração é Cristo. Se conhecesse o que para a tradição judaica significa os lugares, bem como o significado de cabeça e pés, não afirmaria uma aberração como essa de que a "Lei de Moisés que o Rabi de Nazaré espalhara na sua passagem pela Terra". ´É uma aberração na medida em que a morte de Cristo também é fruto dessa lei. E o facto de ter sido crucificado fora de muros de Jerusalém indica a sua contradição. Recomendo a leitura de Eclesiástico para compreender o sentido dos condenados o serem fora de muros da cidade.

    Mais ainda, se o Rui entendesse o significado dos lugares como Belém e Nazaré mais facilmente compreenderia o sentido do texto neotestamentário.
    A título de exemplo, para que explore: não é por acaso que em torno do nascimento de Jesus em Belém surgem os pastores. Porquê? Porque era em Belém que se criavam os cordeiros que se sacrificavam no templo de Jerusalém. E a partir daqui compreenderá não só o significado do termo "Cordeiro de Deus" como também o que se pretende pré-anunciar nesta narrativa ao nascimento.
    Finalmente, as polémicas ficaram sanadas exactamente no que ficou designado pelo concílio de Jerusalém. E daí? Onde pretende chegar? Polémicas sempre houve e existirão. A crucifixão é fruto de uma grande polémica.
    Compreendo a sua visão naïf em torno de algo que leva muitos anos a estudar. Direi mesmo a vida toda. Todavia não é a literatura e o conhecimento profundo destes temas que nos torna cidadãos do Reino. O que nos atribui essa cidadania é o Amor que colocamos no que fazemos, e também nas intenções do que dizemos.
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