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Bolsonaro é apoiado por várias igrejas evangélicas - sobre cujas dimensões mariolas e comerciais poucas dúvidas haverá. E é certo que IURD e afins já apoiaram o PT (business as usual ...). Mas agora bolsonarizam. Que diz a igreja católica, tradicionalmente menos explícita nos seus apoios? Consulto o insuspeito Vatican News e noto que o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil já apelara, em Abril, à participação dos católicos nas eleições, para isso evocando considerações do actual Papa e fundando-se nas perspectivas de Bento XVI. E encontro o texto produzido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desta semana (23 e 24 de Outubro): "Nota da CNBB por ocasião do segundo turno das eleições de 2018". 

 

O documento é interpretável, claro. E, assim sendo, cada um o lerá segundo a sua ... decisão prévia. Está acessível na ligação que incluí mas copio a sua conclusão: "Exortamos a que se deponham armas de ódio e de vingança que têm gerado um clima de violência, estimulado por notícias falsas, discursos e posturas radicais, que colocam em risco as bases democráticas da sociedade brasileira. Toda atitude que incita à divisão, à discriminação, à intolerância e à violência, deve ser superada. Revistamo-nos, portanto, do amor e da reconciliação, e trilhemos o caminho da paz!". Cada um que tire as suas conclusões, segundo a sua ... decisão prévia. Mas, caramba, é difícil não encontrar aqui uma elíptica alusão, como é tão habitual na igreja católica, à retórica (e às intenções proclamadas) do capitão Bolsonaro.

 

Interessam-me as reacções portuguesas ao caso bolsonar. A simpatia para com ele, óbvia ainda que implícita - pois explicitá-la ainda tem custos sociais -, na comunicação social e na política. Jornalistas e bloguistas, "comunicadores" como agora se diz, e políticos que se situam na direita elaboram-se com enleios de neutralidade. Esta tendência anuncia o que um ambiente sociocultural e profissional lisboeta está pronto para acolher, caso surja a hipótese (muito implausível em Portugal, ainda assim). Dessa retórica "neutralidade" é exemplo o que li ontem de um conhecido e veterano bloguista: é "paternalismo" botar opinião sobre as eleições brasileiras! 15 anos depois do advento dos blogs, onde participou e onde nos seus blogs e em tantos interactuantes imensa opinião se botou sobre as várias eleições americanas, francesas, russas, a "hermana" Espanha, angolanas, Tsipras e Varoufakis, se calhar até brasileiras, brexits, autonomias, etc. Mas agora? É paternalismo opinar. 

 

É interessante pois este é um meio, político, social e cultural, que usualmente se revê no CDS, com mais ou menos flutuações. Partido que se reclama (ou reclamou) da democracia-cristã, da doutrina social da igreja e com ligações, muito legítimas, ao mundo eclesiástico.  Ora muito dos agora "neoneutrais", simpatizantes, militantes (e até presidentes, como Cristas, a quem referi ontem), fazem "orelhas moucas" ao (elíptico) parecer eclesiástico. 

 

Deixemo-nos de subterfúgios, a democracia-cristã portuguesa morreu. E esta direita "neoneutral" anseia por um "movimento de capitães". Deste tipo bolsonar. A igreja? Serve para a pompa do casamento dos filhos, enterrar os conhecidos, quiçá a missa do galo, para alguns só alguns ainda para um convívio dominical. Eu, ateu e nem baptizado, conheço mal a Bíblia. Mas tenho a ideia de lá ter lido "bem-aventurados os hipócritas, porque eles serão fartos" (Mateus 5: 3-9). 


4 comentários

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De Vento a 28.10.2018 às 14:57

Começo pelo fim.
Ao ir buscar o sermão da montanha fê-lo por atrevimento, pois reconhece a ignorância perante a realidade bíblica.
Se alguma comparação podemos estabelecer perante tal realidade, esta deverá ser feita pela afirmação "bem-aventurados os pobres de espírito...", do versículo 3 do capítulo referido, com uma das dietas hoje em dia bastante preconizadas.
Traduzo:
O reino não se alcança por "obesos", isto é, os que se enchem de si mesmo e de teorias impeditivas à acção do Espírito. Os pobres de espírito são precisamente aqueles que se esvaziam das gorduras que os podem esclerosar para criar espaço à essa acção.
O vazio de "si mesmo" permite, entre outros resultados, entrar na realidade do Outro. No fundo, através deste esvaziamento, o olhar transforma-se em asas que voam de um "eu" para outro "eu".
Aqui chegados, mais facilmente compreenderemos a Universalidade da mensagem de Cristo e a proposta que é feita através desta mesma característica. Esta resume-se ao facto de cada um se transformar em servidor diante do outro. Logo, a inclusão e não a exclusão é a proposta. É aqui que se compreenderá a seguinte instrução em Mateus 10, 7-13:

"Vão e anunciem isto: “O Reino do Céu está perto.” Curem os leprosos e outros doentes, ressuscitem os mortos e expulsem os demónios. Vocês receberam sem pagar; portanto, dêem sem cobrar. Não levem guardados no cinto nem ouro, nem prata, nem moedas de cobre. Nesta viagem não levem sacola, nem uma túnica a mais, nem sandálias, nem bengala para se apoiar, pois o trabalhador tem o direito de receber o que precisa para viver.
– Quando entrarem numa cidade ou povoado, procurem alguém que queira recebê-los e fiquem hospedados na casa dessa pessoa até irem embora daquele lugar. Quando entrarem numa casa, digam: “Que a paz esteja nesta casa!” Se as pessoas daquela casa receberem vocês bem, que a saudação de paz fique com elas. Mas, se não os receberem bem, retirem a saudação."

Mais ainda, é necessário compreender a realidade cultural para conhecer o que se passa no Brasil e o discurso empolgante que se faz. O Brasil não é a Europa, que hoje não se sabe o que é, e não se pode levar à letra aquilo que é expresso no calor das campanhas. Como já disse, Bolsonaro é o homem certo no momento certo, para gerar equilíbrios.
O ideal é sempre algo que continua a ser idealizado; e ao pretender-se ver externamente o padrão por que cada um se rege é procurar impor uma realidade falível.
Concluindo, o presidente Bolsonaro é uma pedra em bruto que acabará por ser lapidada ao longo de sua governação. O Brasil possui os instrumentos adequados para que assim aconteça.
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De Pedro a 28.10.2018 às 18:24

Nunca Jesus Cristo pronunciou o sermão da montanha. Os estudiosos acreditam que foi acrescentado muito depois da primeira versão da bíblia ter sido escrita (pela análise semântica e linguística ).Aliás a Bíblia foi sendo revista conforme a situação política vivida pelos cristãos, daí os seus ensinamentos paradoxais. Umas vezes Jesus era inclemente - situação política dos cristãos favorável - outras benévolo - situação política desfavorável.

O inventor do cristianismo foi Paulo, e não Jesus Cristo
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De Vento a 28.10.2018 às 19:28

Recomendo-lhe a leitura das cartas de Paulo, nomeadamente a carta aos efésios.
Aquilo que você designa por não pronunciamento do sermão da montanha faz-me lembrar as discussões estéreis e inúteis que alguns pseudo-teólogos tecem sobre se a multiplicação dos pães se refere a uma só ou a duas ocasiões. E foram duas, pois há sinais evidentíssimos que os ditos cientistas ainda não descobriram.
Desde já convido um desses a chegar-se à frente para debater a temática.

Cristo não inventou nada e Paulo também não. A designação de cristãos ocorre em Antioquia. E o cristianismo é marcado fundamentalmente pelo Novo Testamento cuja compilação toma forma a partir da denominada Bíblia dos setenta (Septuaginta) em Alexandria - ainda que se discuta sobre a existência de uma anterior tradução até agora não identificada - e que marca o início da ruptura com o judaísmo tradicional.
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De Rui Henrique Levira a 29.10.2018 às 05:07

Cristo não inventou nada, porque Cristo, sendo uma construção teológica sem existência terrena, nada poderia inventar. Já o homem que nasceu de uma mulher e que ficou conhecido por Jesus de Nazaré, como qualquer hodierno teólogo minimamente sério convirá, jamais foi o criador do Cristianismo, porquanto sendo um judeu devoto nunca lhe passaria pela cabeça desligar o seu movimento reformador (e, em certos casos, radical) do tronco mosaico onde ele certamente o incluía. Jesus de Nazaré nasceu, viveu e morreu judeu e unicamente judeu. O seu branqueamento como criador de uma seita antijudaica foi-lhe muitíssimo posterior e obedeceu a objectivos em que tiveram tanto peso o oportunismo proselitista de não poucos quanto o material proveito de outros tantos para quem o programa era exactamente o contrário do prescrito pelo pobre camponês crucificado - não o esqueçamos - pelo mesmíssimo Império que eles então tentavam tomar de assalto.
Quanto a Saulo de Tarso, parece-me que essa sua terminante recusa de ver nele o criador e enformador do proto-cristianismo embate num sério escolho: as cartas de Paulo - não tendo em conta, claro está, as amplamente consideradas apócrifas - são anteriores a todos os Evangelhos sinópticos. Ou seja, na formação do cânone bíblico do Novo Testamento foi a teologia do Paulo das Cartas que influenciou, informou e limitou a escolha daquilo que era a Palavra de Deus lícita (porque ortodoxa) e não lícita (porque heterodoxa).
As discussões estéreis e inúteis de alguns pseudo-teólogos foi aquilo que fez avançar, desde os séculos XVI/XVII e principalmente dentro dos movimentos protestantes - para desgosto daqueles que tratavam com a força purificadora do fogo toda e qualquer discussão (fosse ela estéril ou fértil, inútil ou útil de todo) - a exegese bíblica e os estudos sobre religião. Ser tal facto ainda hoje um motivo de aceso debate é que me causa a maior das estranhezas.

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