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Delito de Opinião

O bacilo totalitário

Romances e política IV - A PESTE (1947)

Pedro Correia, 22.01.22

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Nenhuma sociedade está imune à praga totalitária. Esta é a principal lição a extrair de um dos melhores ensaios sobre ética política em forma de romance jamais escritos. Publicada no rescaldo imediato da II Guerra Mundial, A Peste, dividida em cinco capítulos à semelhança das tragédias clássicas, é uma poderosa alegoria da França ocupada pela tropa nazi - cenário aqui transposto para uma cidade da Argélia natal de Albert Camus, subitamente infestada de ratos surgidos das suas entranhas putrefactas. Os animais, portadores da morte em forma de peste, fazem retroceder os seres humanos aos abismos medievais. Os bairros urbanos são postos de quarentena. Orão, em solo argelino ainda sob administração francesa, tal como Paris escassos anos antes: os ratos andavam fardados e usavam suástica.

O cenário é aterrador. «Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombas, sem árvores e sem jardins, onde não se sente o bater de asas nem o sussurro de folhas, uma cidade neutra, para dizer tudo?» Onde o medo impera e o futuro se torna uma palavra desprovida de sentido.

No meio do drama, muitos revelam a pior face: surgem os cobardes, os que se aproveitam da desgraça alheia para fazer dinheiro, os que se deixam vergar ao dedo do destino. Mas há também os que recusam capitular, os que se mostram solidários sem reservas, os que dão combate sem tréguas ao bacilo portador do mal absoluto. Heróis ou santos? Não, apenas homens em toda a dignidade que esta palavra contém. Em revolta aberta contra as injustiças, tenham as insígnias que tiverem, num mundo alheio à misericórdia divina. Como Camus põe na boca do médico Rieux - personagem fulcral na resistência ao letal invasor - em diálogo com o perplexo padre Paneloux, que aludira a um eventual castigo de Deus como forma de punição dos pecados: «Hei-de recusar até à morte esta criação em que as crianças são torturadas.» 

Sem vacilações nem ilusões: «O bacilo não morre nem desaparece nunca.» Permanece oculto no meio de nós.

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