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O amor livre e a Caixa Geral de Depósitos

por Diogo Noivo, em 21.02.17

“Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Carregadinha de sageza, a pergunta é posta na boca de d. Hélder, Arcebispo progressista brasileiro, uma personagem saída das crónicas de Nelson Rodrigues. Reza a crónica que após um debate público onde “católicos inteligentíssimos, arejadíssimos, etc.,etc.” peroraram sobre amor livre com invulgar compreensão e manifesta abertura, chega a vez de o Arcebispo se pronunciar. “A cidade parou” porque todos “queriam conhecer a sua palavra sobre o direito que temos de fazer a nossa vida sexual com a naturalidade de um vira-latas de esquina ou de um gato de telhado”. Instado a dizer de sua justiça sobre a liberdade de amar sem pudor, d. Hélder pondera e, “de mãos postas”, mata o assunto: “Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Como escreveu o cronista brasileiro, gozando a paródia que criou, “[d]epois disso, o speaker poderia insistir? Nunca. E, ao mesmo tempo, não sabemos o que mais admirar em d. Hélder: se a fina inteligência, se a cálida bondade”.
Viajando no espaço e no tempo, do Brasil da década de 1960 para o Portugal de 2017, concluímos que a trapalhada com a Caixa Geral de Depósitos é o amor livre dos dias de hoje. Sopesando as novidades, as declarações, e o pouco edificante desenrolar do «caso Caixa» na última semana, é já evidente que o Ministro da Finanças mentiu ao parlamento e à opinião pública. É igualmente evidente que o Governo, responsável pela defesa do interesse público, se dispôs a mutilar a lei e os consequentes deveres de transparência exigidos a gestores públicos. E, embora menos claro, não é abusivo considerar que tudo isto foi levado a cabo com a conivência do Primeiro-Ministro e com a cobertura do Presidente da República – este último, ao ver o desenrolar do folhetim, meteu habilmente o corpo de fora, assassinando o Ministro das Finanças pelo caminho.
Aqui chegados, PS, PCP, BE e Presidência da República encarnam o espírito de d. Hélder: o que são a verdade, a ética, e os deveres de transparência quando comparados com a necessidade de recapitalizar a Caixa e com a estabilidade financeira do país? Não sei o que mais admirar: se o fino descaramento, se o pálido sentido de Estado. É agora oficial que os fins justificam os meios, e que a tão falada “ética republicana” mais não é do que um verbo de encher.
O novo utilitarismo é especialmente surpreendente nos bloquistas. Ao contrário dos demais partidos e de outros intervenientes no debate político, a acção pública do Bloco de Esquerda fundou-se sempre na moralização do regime. Desde que desaguaram no espaço público, os bloquistas foram sempre intransigentes com a mentira, mesmo quando ela não existia. As políticas públicas foram sempre por eles avaliadas com base naquilo que era “justo” e “correcto”, e nunca com base no que era possível. Para o Bloco, os constrangimentos da realidade foram sempre acessórios porque a política, na forma como a entendiam, almejava um patamar etéreo, onde a verdade, a ética e a justiça eram bens tão tangíveis como absolutos. Mas tudo mudou, o que levanta um problema. Se já não é o aurato da moral e da correcção, e considerando que a chamada «agenda fracturante» é agora bem mais exígua (e o pouco que sobra já foi assumido por outros), a raison d’être do Bloco de Esquerda desapareceu.
Escreveu Nelson Rodrigues que houve um tempo em que olhar para o céu nos punha “em relação direta, fulminante, com o infinito”. Porém, o progressista d. Hélder “só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”. Para a esquerda, o «povo» é o equivalente do céu. E o Bloco, quando olha para ele, já não encontra nada de sublime. Por isso, é bom que vá pensando se leva ou não guarda-chuva.


7 comentários

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De Manuel Silva a 21.02.2017 às 10:53

Caro Diogo Noivo:
Li com enorme prazer o brilhante texto que nos deixou.
Mas respondo-lhe a esta sua inquietação: «a raison d’être do Bloco de Esquerda desapareceu.»
Meu caro, como sabe, o Partido Democrata, nos EUA, já esteve muito à direita do Partido Republicano, defendendo mesmo o esclavagismo.
Portanto, o BE, se não for eliminado pelos eleitores nas votações, há-de ser o que Deus quiser.
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De Diogo Noivo a 21.02.2017 às 11:52

Obrigado pelas suas palavras, Manuel Silva.
Quanto ao Bloco, o contorcionismo terá que ser muito profissional para que possa sobreviver com um módico de verticalidade.
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De sampy a 21.02.2017 às 11:04

Dom Hélder Câmara, "uma personagem saída das crónicas de Nelson Rodrigues"?!...
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De Diogo Noivo a 21.02.2017 às 11:51

O d. Hélder que surge nas crónicas de Nelson Rodrigues é uma caricatura, como aliás outros referidos com frequência pelo autor. Mais do que representar a pessoa em causa, representa uma ideia, aglutina um conjunto de comportamentos sociais e políticos. Isto é, é mais do que a pessoa em apreço. Logo, é uma personagem.
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De sampy a 21.02.2017 às 12:20

Ok.
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De jo a 21.02.2017 às 11:44

Nota com certeza que o inverso do que o preocupa também é verdadeiro:
O PSD teve uma ministra que se enredou nas explicações dos Swaps, que disse que ia haver devolução de IRS quando já era evidente que tal não ia acontecer, tiveram um primeiro ministro que disse que não sabia que as pessoas tinham de cumprir obrigações com a SS, outro ministro que fingia que era doutor, e em todos os casos, consideraram que não havia razões para demissões. Isto para não falar do irrevogável ministro que ia sair mas não saiu.

Neste momento andam preocupadíssimos com uma mentira dita ao Parlamento, apesar de não se conseguir perceber em que é que essa mentira alterou o decorrer das coisas.

Às vezes penso se o governo será tão bom que a única coisa que a oposição encontra para o perseguir é isto. Mas isso é falso evidentemente. A oposição é que consegue ser pior que o governo.
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De Diogo Noivo a 21.02.2017 às 11:56

E, portanto, como os outros meninos são maus, o que estes fazem está certo. É isso? O nosso Arcebispo d. Hélder não diria melhor.

Por outro lado, e tendo o seu comentário presente, este caso brilha ao conseguir reunir os males de todos os outros: problemas éticos, leis feitas à medida, obliteração dos deveres de transparência, comportamentos lesivos para o interesse público, tudo junto e condensado no "caso Caixa". De facto, é obra.

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