O altar da Pátria
Um conterrâneo telefonou-me para informar que tinha passado na RTP2 um filme sobre Guimarães e que nele figuravam algumas pessoas que conhecíamos.
Fui ver. A película chama-se Torres & Cometas, um título enigmático que graciosamente é desvendado, em parte, pela apresentação escrita e, no resto, pelo filme propriamente dito. Cometas são o homem da câmara, Gonçalo Tocha, e o carregador do microfone; e torres uma que está na igreja de S. Pedro, no centro novo da cidade, cujo edificado é principalmente do séc. XIX, e outra que não está lá mas que deveria estar, como somos informados por um entusiasta local. O qual acha a igreja (aliás basílica, informa com orgulho), “uma das mais bonitas de Portugal”. Presumimos que, se lhe fosse acrescentada a torre que ficou a faltar, ficaria uma das mais bonitas da península.
A igreja aparece mais do que uma vez, de modo que a tragédia do par que ficou ímpar deve ter impressionado a alma sensível do realizador. E não houve portanto tempo para mostrar a de Nossa Senhora da Oliveira, ou a de S. Francisco, ou a das Dominicas, ou a da Misericórdia, ou a dos Santos Passos, que todas, entre outras, talvez tenham mais créditos arquitectónicos e históricos que o templo perante o qual Tocha encalhou.
Encalhou noutras marés: largos minutos são consumidos com microfones avariados que o operador tenta consertar pelo expediente de olhar para eles, e nós para ele; assistimos a várias conversas de telemóvel cuja pertinência ou interesse num filme sobre a cidade ficam envoltos em mistério, uma delas junto ao busto de João Franco, que ouve com serenidade as irrelevâncias; e no interior de uma livraria alguns intelectuais locais trocam impressões, mormente sobre o facto de estar a chover.
A participação de intelectuais não fica por aqui: num grupo um perora indignado a favor do Obamacare e contra os bancos, no meio de um silêncio aquiescente. E o espectador pode concluir, descansado, que na Capital Europeia da Cultura (o filme é dessa época e foi repetido agora, decerto por ser um marco miliário na história da cidade, da RTP2 e dos dislates) há gente que lê livros e tem opiniões. Das boas, isto é, de esquerda, e dos bons, isto é, dos consagrados pelos bonzos do pensamento.
A certo passo, somos surpreendidos por um carrinho de bebé que rola por uma ribanceira com uma moça, desesperada, a correr atrás. E o episódio deve ter um significado profundo porque o mesmo carrinho, e a mesma moça, aparecem mais à frente noutro local mas na mesma desesperante situação. Se fosse frequentador dos círculos esclarecidos, já decerto me teriam explicado a simbologia implícita no episódio.
Outro mistério é a estátua de Mumadona. Ou melhor, a razão pela qual as pessoas passam por trás da estátua e não pela frente. Como fica numa praça que atravesso frequentemente a pé, e também eu passo por trás, espero conciliar o sono apesar de não conseguir dilucidar a questão, que o filme não esclarece.
Não falta também um momento poético: somos preparados magistralmente, numa gruta na Penha, para uma epifania: e ela vem sob a forma de barulho de água a correr, que lembra o barulho da água a correr.
Não são apenas estes os motivos de forte interesse: vemos uma manifestação junto à Casa das Artes, onde um popular exaltado exibe uma cartaz do tamanho de um cartão de visita; uma banda que assassina com diligência a Abertura 1812; uma loja de ferragens que vende espadas como a de D. Afonso Henriques; Cavaco Silva que sobe a um palco para dizer não sei quê, e outros senhores que fazem discursos patrióticos; um alfarrabista que não chega a dizer nada que se ouça porque também ninguém lhe perguntou; um bairrista excitado que garante que o monte da Penha tem 617 metros de altura, enquanto o do Sameiro, em Braga, regista apenas 400 e tal, prova evidente da superioridade do altar da Pátria; uma azougada e muito jovem banda de S. Torcato, com original música pimbo-folclórica e uma coreografia dos primórdios do music hall em Freamunde; e um erudito que quer demolir os edifícios junto à torre da Alfândega, que é “fantástica”, para salientar aquele “símbolo temporal e espiritual” (o símbolo animal devemos ser nós que estamos a ver).
Um filme repleto de história e comédia, diz a apresentação e, na parte da comédia, é verdade. Involuntária.

