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Delito de Opinião

O achismo a galopar em força no comentário

Pedro Correia, 25.01.22

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Digam o que disserem, só a política consegue rivalizar com o futebol em popularidade televisiva. Aí está o debate entre António Costa e Rui Rio para confirmar: 3,3 milhões de espectadores sintonizaram-no em simultâneo. Tanto ou mais do que um jogo internacional envolvendo equipa portuguesa.

Convém reconhecer que o facto de ter sido transmitido pelos três canais generalistas deu forte contributo para esta audiência digna dos Himalaias. Mas constitui um desmentido vivo daquela frase-feita acerca dos portugueses, que «não se interessam por política». Frase papagueada até à exaustão, curiosamente, por muitos bitaiteiros que exercem a profissão de comentadores e que deste modo fazem da política o seu ganha-pão. Alguns ocupam a pantalha há anos. Mudam os cenários, mudam os directores de informação, mudam até as designações dos canais e lá continuam eles, de traseiro colado à poltrona, a debitar vacuidades.

Entre as inanidades mais vezes propagadas, ao longo da maratona de confrontos televisivos entretanto concluída, inclui-se esta: «Os debates não mobilizam os indecisos.» Proferida em pose catedrática e autoridade pseudo-científica por vários daqueles que tomam assento em canais sempre prontos a anunciar «debates decisivos». O que não deixa de ter graça.

Também têm piada aqueles comentadores que parecem detectives: estão sempre a achar. Pertencem à escola do achismo. Desta vez, no rescaldo do confronto PS-PSD, proliferaram como cogumelos. «Eu acho que Rui Rio foi convincente»; «Eu acho que este debate foi construtivo»; «Eu acho que indiscutivelmente Rio venceu»; «Eu acho que Costa esteve muito bem».

Frases escutadas sobretudo na CNN Portugal, que tratou o tema ao nível do mítico combate de boxe entre George Foreman e Muhammad Ali no Zaire em 1974. Iniciou a emissão dedicada ao grande evento às 15.27 e só deu descanso aos telespectadores nove horas depois, já outro dia nascera, eram 00.32. Incluindo um bloco de comentários iniciado às 21.48 e que se estendeu até ao fim. Mais do que duplicando os 77 minutos do embate Costa-Rio, que teve duração inferior à de um desafio de futebol.

Também nisto a política vai imitando a bola: o tempo em que se fala é superior ao tempo em que se joga. Se houvesse uma taça para o canal campeão na «análise e comentário» dos debates, o troféu seria entregue precisamente à CNNP, aliás com inteiro mérito: pôs em antena três painéis simultâneos com um total de nove comentadores, acrescidos de três jornalistas da casa a lançar temas para a conversa. E voltou aqui o achismo à baila, em doses torrenciais. Acompanhado com cansativa frequência pelas mais detestáveis bengalas verbais: surgiu o estafado «em cima da mesa», pontificou o famigerado «anos atrás». E nem o ridículo americanismo «no fim do dia» deixou de vir à tona.

Nessa altura já meio país havia regressado às telenovelas: os painéis peroravam para um público residual. Eis um mistério a pedir detective. Como conseguiram tantos mudar de canal antes de os sábios lhes terem revelado quem vencera o debate?

 

Texto publicado no semanário Novo

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