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O acaso vira a vida do avesso

por Pedro Correia, em 27.11.16

Herbert L. Matthews com Fidel Castro 

 

E se Adolf Hitler, quando saiu da sua Linz natal para concretizar o sonho de ser pintor, não tivesse chumbado na admissão à academia de belas-artes de Viena? A pergunta, para quem gosta de fazer leituras psicológicas da história universal, tem razão de ser: um Hitler reconhecido como artista pela elite vienense jamais teria precipitado a II Guerra Mundial.
E se James Dean não tivesse desaparecido tragicamente, ao volante de um Porsche prateado, com apenas 24 anos, em 1955? Imaginemo-lo disforme e grotesco como o Brando crepuscular ou destruído pela sida, como aconteceu a Rock Hudson: não sobraria espaço para o mito, só possível porque os deuses o levaram tão jovem para o seu Olimpo.
Uma porta que se fecha na cara, um pouco mais de pressão sobre um pedal: um quase-nada capaz de mudar o mundo. “O acaso é uma parte da realidade. O inesperado acontece nas vidas de todos nós com uma regularidade quase entorpecente.” São palavras de Paul Auster, um dos autores contemporâneos que mais têm sublinhado a importância do acaso na viragem de qualquer vida. Quantas vezes a realidade não supera os mais assombrosos cenários de ficção?


Herbert L. Matthews foi um daqueles homens cujas vidas mudaram para sempre num só dia, que para ele constituiu simultaneamente o apogeu da sua carreira de jornalista e uma data fatídica que jamais o largou. Era um repórter que se distinguira ao serviço do New York Times na Guerra Civil de Espanha e na II Guerra Mundial antes de o instalarem, durante uma década, num gabinete de editorialista. Naquele dia, 17 de Fevereiro de 1957, conseguiu o furo da sua vida: entrevistou Fidel Castro na Sierra Maestra.
Castro liderava um pequeno grupo de guerrilheiros que se opunham à ditadura de Fulgencio Batista mas era praticamente desconhecido fora de Cuba. Foi Matthews quem o transformou num mito ao projectá-lo para a manchete do seu jornal a 24 de Fevereiro, uma semana após ter entrevistado o jovem comandante barbudo que Batista jurara ter morto uns meses antes. Afinal Fidel não só estava vivo como comandava “centenas de homens”, como Matthews garantira na reportagem.
O veterano jornalista, já com 57 anos, deixara-se iludir: Castro tinha apenas 18 homens armados na Sierra Maestra. Mas o mito do resistente hercúleo estava lançado: o furo jornalístico transformou-se no maior veículo de propaganda da “revolução” cubana, que triunfaria menos de dois anos depois – e se transformou numa ditadura mais feroz e muito mais longa do que a de Batista.


Matthews, antes tão louvado pela sua proeza, passou a ser contestado nos Estados Unidos à medida que Castro revelava a sua face de autocrata sem escrúpulos. Considerado um herói em Cuba, país que continuou a visitar quase até à morte, em 1977, recebeu críticas contundentes dos seus próprios colegas, que o consideraram um peão ao serviço do comunismo castrista.

Depois de se reformar do New York Times, em 1967, radicou-se na Europa e na Austrália. Obstinado até ao fim, nunca denunciou o carácter ditatorial da “revolução” nem admitiu ter-se enganado quando assegurou aos leitores que Castro era um democrata genuíno que só pretendia instaurar a democracia na ilha. Em 1969, ainda o considerava “um dos homens mais extraordinários do nosso tempo”, dando razão aos seus críticos: o jornalista que denunciara a ditadura de Batista era incapaz de denunciar a ditadura de Castro.


Outro repórter do New York Times, Anthony De Palma, disseca este caso num livro brilhante, editado em Portugal pela Bizâncio: O Homem que Inventou Fidel. Tese: Matthews tornou-se prisioneiro da sua manchete. Reconhecer os erros do ditador “teria diminuído a sua própria importância” enquanto jornalista que o deu a conhecer ao mundo. Conclusão: por vezes é muito ténue a linha que separa a verdade do mito e mesmo um jornalista experimentado pode cair nas malhas da propaganda.

A vida de Matthews teria sido bem diferente se não tivesse subido à Sierra Maestra naquele dia, escapando à monotonia do trabalho de gabinete em busca, mais do que de uma notícia, do “reconhecimento” que, segundo Hegel, é uma característica inerente à espécie humana.

Sem esse golpe do acaso, perderia uma cacha mundial mas mantinha incólume a sua reputação, que assim foi de algum modo manchada para sempre.

 

Texto reeditado


10 comentários

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De WW a 27.11.2016 às 13:51

Não concordo com a tese em causa, nenhum homem sozinho pode fazer nascer e / ou apascentar um mito.
Fidel Castro foi o que foi porque derrotou os EUA "sozinho" duas vezes, 1º derrubou o governo de Baptista fortemente apoiado e financiado pelos EUA e depois venceu novamente um golpe orquestrado pelos EUA na Baía dos Porcos, foram essas vitórias que começaram a fazer a lenda, além dos discursos nas Nações Unidas, isto já para não falar na crise dos misseis em que surgiu uma vez mais na imprensa internacional ou como louco ou como herói.
Foi a decadência militar dos EUA ao longo das décadas de 60 e 70 que com as derrotas em Cuba, no Sudoeste Asiático e por fim no Irão que ajudaram a cimentar os mitos dos lutadores pela "liberdade" no 3º mundo, algo com que Portugal também sofreu ao perder as suas províncias ultramarinas para estas a seguir entrarem em modo de autodeterminação e destruição...
Seria hoje como se Saddam Hussein tivesse repelido os EUA quando lançaram as "suas" guerras contra o Iraque, estatuto (de Fidel Castro) que Chavez quase obteve e do qual Kadafhi também esteve perto e que o Ayatollah Khomeni obteve.

P.S. - É de lamentar que aqui no Delito após uma semana de "vitórias" da Geringonça e na altura em que a mesma completa um ano de "vitórias e derrotas" ninguém tenha escrito um texto sequer sobre a mesma, quase como aqui aconteceu em relação ao BES e o seu "ring fencing"....
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De Pedro Correia a 30.11.2016 às 13:25

Aqui no Delito, ao longo de um ano, escreveram-se dezenas de artigos sobre a "geringonça".
Eu aliás não chamo "geringonça" ao Governo e acho péssimo haver jornais que lhe chamam assim.
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De Conde de Tomar a 30.11.2016 às 21:09

Aqui e não só estamos de acordo. E o que acho paradoxal é haver membros do governos/partidos da coligação que usem esse epiteto desprestigiante.
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De Pedro Correia a 03.12.2016 às 22:55

Acho o mesmo. Mais do que paradoxal: acho um disparate.
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De Anónimo a 27.11.2016 às 15:54

Tal como a ignorância, o preconceito é atrevido.
Que legitimidade invocarão os políticos e opinadores de hoje para chamar nomes a Fidel?!
Provavelmente invocarão a mesma que promove a escravidão de muitos em favor de uns poucos, ou seja, o regresso ao feudalismo.
Feudalismo que já não anda a cavalo, com espada e lança, mas que se desloca em grandes porta-aviões nucleares.
Sinais dos tempos!
João de Brito

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De Pedro Correia a 30.11.2016 às 13:24

Eu não chamo nomes a Fidel. Aliás não lhe chamo Fidel: chamo-lhe Castro.
Também não chamava António ao Salazar nem Francisco ao Franco.
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De do norte e do país a 27.11.2016 às 20:20

É estranho que alguém defenda assassinos como fidel. Pode-se dizer que começou bem, mas rapidamente se tornou em mais um ditador socialista/comunista assassino.
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De Tiro ao Alvo a 28.11.2016 às 08:42

Tem razão Do Norte: não se entende que hoje, no século XXI, apareça gente a defender Ditadores. Se ainda este tivesse deixado o seu povo a viver bem, mas deixando-o, como deixou, na miséria, ainda menos se entende.
Vesga é o que essa gente é.
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De Maria Dulce Fernandes a 28.11.2016 às 12:21

Diz-se também ( apesar do subsequente e naturalíssimo desmentido) que o anti-americano primário fez um try out para os New York Yankees e que chegou a ser-lhe oferecido um contrato, mas não como a estrela de primeira água que almejava ser. O que teria acontecido se por acaso Fidel Castro fosse mesmo um bom baseballer, ninguém sabe, mas que não haveria tanta sepultura indiferenciada nem valas comuns em Cuba, isso é garantido.
Não posso desejar paz à sua alma, porque se acreditar que ele tinha consciência que pairará agora como alma, também tenho que acreditar que nunca terá paz.
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De Pedro Correia a 30.11.2016 às 13:23

Castro - que era bom jogador de beisebol e basquetebol - terá mesmo feito uma aproximação aos Yankees nos tempos em que cursava Direito na Universidade de Havana. Aí está o papel do acaso na História: cada vez dou mais razão ao Paul Auster.
Trocando o desporto pela política, em 1963 Castro proibiu todo o desporto profissional em Cuba. Condenando assim milhares de desportistas cubanos ao exílio ou ao desemprego.
Durante décadas as deserções de atletas olímpicos cubanos foram sendo uma triste notícia, repetida olimpíada após olimpíada.

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