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Novamente o fim do mundo

por Paulo Sousa, em 22.03.20

“Gabriel Malagrida assegurava no Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto (1756), que só por castigo a face da omnipotência divina se tornara tão horrenda. Hereges, judeus e católicos, todos eram responsáveis pela vingança implacável de Deus. A causa próxima do flagelo radicava, no seu entender, nos mundanos e profanos modos de vida urbana, com os seus ”teatros, as músicas, as danças mais imodestas, as comédias mais obscenas, os divertimentos, as assistências aos touros, sendo tanto o concurso, que enchiam as praças, e as ruas todas; e nas igrejas, nas festas sagradas, nos sermões, nas missões apostólicas, por mais fervorosas que fossem não aparecia uma alma”. (…)

Na generalidade dos casos, o pregador, interpelando directamente os crentes, avoluma os terrores visíveis da destruição e as incertezas do povo em relação ao futuro.”

O Terramoto de 1755, Lisboa e a Europa, de Ana Cristina Araújo

Edição Clube do Colecionador dos Correios

 

Já aqui falei sobre os profetas do Apocalipse e da sua intenção de nos fazer mudar de comportamento. Sempre existiram e sempre existirão.

Querer procurar uma causa humana para algo natural é o cúmulo do antropocentrismo. Usar algo natural como argumento para sugerir o fim da produção intensiva do capitalismo é tão razoável como razoável era a convicção de Gabriel Malagrida.

Já todos vimos nas redes sociais comentários insinuando, ou até afirmando, que o bicho que nos faz ficar em casa era uma criação do homem. Para se acreditar nisto é necessário conseguir também acreditar que o génio humano é mais sofisticado que a natureza, o que é outro corolário idiota de uma visão antropocentrista do mundo.

Não somos assim tão capazes. A impotência em agir perante a realidade sempre foi um estímulo para a espécie humana, e certamente que depois disto a ciência continuará a avançar. E quem protagonizar a solução para este problema será certamente beneficiado pelo seu desempenho e ganhará dinheiro e vantagens com isso. Querer acabar com o capitalismo é discordar que isso assim funcione.

A dimensão da mortandade de outras pestes foi aumentada pelas fragilidades alimentares das populações, especialmente quando estas se seguiam a maus anos agrícolas. Até nesse ângulo, e graças ao capitalismo, nunca a população humana esteve tão bem preparada para lidar com o que está a acontecer.

Por isso, Malagridas dos dias hoje, ponham a viola no saco, olhem para história e lembrem-se que até este devoto pregador do sex XVIII acabou garrotado como herege no processo dos Távoras.


22 comentários

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De Vorph Valknut a 22.03.2020 às 16:57

"Querer procurar uma causa humana para algo natural é o cúmulo do antropocentrismo."

Um paradoxo:

Sendo nós criaturas naturais, porque criados sob as leis naturais, mas capazes de ultrapassar, crescentemente, os ditames naturais (interferência nas leis e sistemas biológicos) com que propósito e através de que acaso terá criado, a natureza, o animal humano?

Os humanos ao serem capazes de manipular as leis naturais, reduziram, em grande extensão, os sistemas orgânicos/inorgânicos dependentes, exclusivamente, de leis naturais, mas sendo nós criaturas derivadas da natureza (criaturas naturais), não serão todas as nossas acções, acções humanas e naturais? Não haveria assim acção humana que não fosse, ao mesmo tempo, natural
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De Paulo Sousa a 22.03.2020 às 17:10

A questão é interessante mas podemos definir como acção natural a que não tem intervenção humana.
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De Vorph Valknut a 22.03.2020 às 18:13

Sendo o Homem, um Animal, pelo menos para mim (H. sapiens sapiens), não vejo de um lado acções humanas e inaturais e do outro acções inumanas e naturais.

Nós emergimos da Natureza. Somos, dela, um produto
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De Paulo Sousa a 22.03.2020 às 18:28

Mas a nossa capacidade de interferir nas leis e sistemas biológicos, como diz, justificam um tratamento de excepção à regra.
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De Anónimo a 22.03.2020 às 19:49

"mas capazes de ultrapassar, crescentemente, os ditames naturais (interferência nas leis e sistemas biológicos)"

Não consigo entender a lógica. Todos interferem "nas leis" e sistemas biológicos. O vírus da Influenza matou milhões. Não interferiu? Quando uma espécie se extingue porque em competição com outra não foi interferida e vice versa uma vez que houve perdas dos dois lados?

Ou será que quer dizer em Consciência? Mas será o sempre?


lucklucky

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De Anónimo a 22.03.2020 às 23:09

Nós desafiamos as leis da vida, desde a medicina, passando pela química e terminando na física
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De Vento a 22.03.2020 às 17:09

É oportuna a sua reflexão, que retoma em momento adequado. Na realidade os profetas da desgraça confundem muito o fim do mundo com o fim dos tempos. Assim como crentes e não crentes confundem reino de Deus com reino dos Céus, que possuem significado diferente.
Adiante.

Na tradição judaico-cristã os sinais, isto é, as ocorrências de fenómenos naturais e sobrenaturais (aqueles que não se explicam e conhecem de forma ordinária) de grande dimensão ou que prenunciem um cataclismo, só servem como julgamento ou reflexão interior no sentido de nos advertir para comportamentos pessoais e/ou colectivos que são significativamente prejudiciais. Daí muito se ter falado em idolatria (que não diz respeito somente a edificar bezerros de ouro). A idolatria pode ser um culto egoísta da personalidade, pode ser a valorização material sobre a dimensão social, pode ser também o farisaísmo que se cultua em torno de uma ideologia e/ou religião que leva a pensar que só esses estão em estado de salvação e pureza pelo cultivo de seus rituais, isto é, de uma falsa demostração e ostentação exterior de falsa pureza que os leve a ser saudados e elevados, com condenação subjacente de todos os demais.

Portanto, o fim dos tempos da narrativa bíblica não possui a conotação de fim do mundo, mas tão somente o encerramento de um tempo e a entrada de um novo ciclo. Tal aconteceu com a célebre puta da Babilónia, referência à Besta (César-Nero), que acabou por cair, mas também no que diz respeito a outras nações antes e depois desta Besta em particular.
Este novo ciclo, muitas vezes, tal como Jesus fez ao retirar-se para a Galileia após a morte de João o Baptista, era precedido do slogan: "arrependei-vos porque o reino de Deus está próximo.". Significa isto que se encontrava à disposição da ignorância e dos ignorantes (que somos todos nós e os anteriores) uma nova revelação que permitisse o despertar das consciências.

Assim, dizia Jesus a Nicodemos: "Necessário vos é nascer de novo". Isto é, nascer pela renovação em mente e espírito significado e objecto de uma outra dimensão de avaliação e da percepção perante as realidades colectivas e individuais: de comportamentos.

Não obstante os constantes sinais naturais (guerras, cataclismos, epidemias, fome, colapsos financeiros e também dimensões de natureza individual) e sobrenaturais que têm pendido sobre os homens, tem-se mantido este ciclo de vicissitudes causadas pelo egoísmo; e que somente perante fenómenos que a todos afectam e afectarão, outros ainda virão, nos faz sensibilizar para a consciência do sofrimento e do sofrimento que a todos afecta e toca. Tornando-nos, por isto, mais afectuosos e cooperantes uns com os outros.

Muito poderia ir neste sentido, mas é suficiente para se perceber o que escrevo e o que não escrevo e que se infere.
Concluindo: Estes sinais ou signos ou acontecimentos estão aí para os que vivemos, proporcionando-nos uma renovação do espírito mas também para os que viremos a morrer. Dando-nos assim conta de que só nos pertence o que damos, e é somente isto que levamos connosco, ou seja, o que deixamos feito em prol dos outros. O que não damos não nos pertence, porque não o levamos connosco. Aqui chegado, este é outro sinal do "juízo final": que foi que eu fiz por quem precisou de mim e por mim mesmo?

Fiz-me entender, Paulo?
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De Paulo Sousa a 22.03.2020 às 17:33

Julgo que sim. Mas o capitalismo sempre foi capaz dessa mesma renovação perante mudanças. Terá faltado isso ao meu post. A inacção rígida, fingindo que nada se passa, não é a abordagem correcta, pois deixaria de ser capaz de satisfazer as necessidades humanas que são igualmente dinâmicas.
A ideia de que só possuímos o que damos é inspiradora. Eu até diria que só somos o que damos.
Obrigado pelo comentário
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De Vento a 22.03.2020 às 17:48

O capitalismo é capas disso e de outras coisas mais que não isso. Porque o capitalismo não é uma entidade abstracta: somos nós.
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De Paulo Sousa a 22.03.2020 às 17:52

O capitalismo é a forma como nos organizamos e como funcionamos.
Ouvi há dias Onésimo Teotónio Almeida a falar sobre o capitalismo enquanto consequência do protestantismo. Achei interessante. Gostava de poder estudar isso.
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De Vento a 22.03.2020 às 18:03

Estude que é interessante. O capitalismo ou outra ideologia social não é contestado biblicamente (somente os comportamentos), mas a subserviência ao capital que monopoliza, pelo poder que em si encerra, incluindo a capacidade de corromper, a consciência e a atitude dos demais. Daqui resultou a célebre afirmação: "É mais fácil um camelo passar no buraco da agulha que um rico entrar no reino dos céus." E os discípulos de jesus, que também eram ignorantes e entendiam que o ser-se rico era um privilégio de Deus por se considerarem justas essas pessoas, perguntaram: "Quem se salvará!?"
Jesus respondeu: "O que é impossível ao homem é possível a Deus." Abstenho-me de comentar esta citação porque sei que é capaz de a interpretar no contexto que frisei no meu primeiro comentário.

Portanto o cristianismo, melhor, os cristãos, não oferecem nada de novo sobre o manifesto ou notícia bíblica. Também estes podem e são alvo das críticas que aí (Bíblia) subjazem.
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De Vorph Valknut a 22.03.2020 às 18:11

Eu tenho ouvido, o Papa, criticar, em variadíssimas ocasiões, um tipo de capitalismo, actual e crescente.
Mas, afinal, o que é, hoje, o Capitalismo? Livre concorrência com vista a saciar as necessidades do consumidor? Mercados auto-regulados em consequência do total acesso do consumidor à informação dos agentes económicos? (a pressão selectiva como vontade do consumidor). Mas onde entram factores como propaganda, manipulação/assimetria da informação, Conglomerados, Corporações/Fusões (numerosas marcas pertencentes a um reduzido número de agentes económicos).

A questão não é o capitalismo. A questão é o que poderá, deverá, ser "daqui" para diante
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De Anónimo a 22.03.2020 às 19:29

Creio ter o Papa falado numa 'economia' que mata.
Qual de nós, como nas multidões que esvaziam as produções de tudo, no exemplo pequeno burguês da Zara, não acumula artigos bons em casa, desnecessários, descartáveis em qq altura?
Que grande comerciante, vai descurar produzir sempre mais?
Se a Auto Europa, deixar de aumentar ano após ano a produção, que destino a espera?
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De Vorph Valknut a 22.03.2020 às 18:15

"Mas o capitalismo sempre foi capaz dessa mesma renovação perante mudanças"

Antes do capitalismo, ou de qualquer sistema económico, ideológico, já o Homem moderno, mais o antigo, se superavam perante os desafios postos pela mudança.
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De Paulo Sousa a 22.03.2020 às 18:33

O Capitalismo assenta numa lógica de premiar o mérito. Isso sem mais nada levará a um capitalismo selvagem que tem de ser regulado. A questão põe-se apenas no ponto de equilíbrio entre estas duas realidades. Diferentes países e culturas têm diferentes pontos de encontro entre estas duas necessidades.
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De Anónimo a 22.03.2020 às 17:36

No tempo do Malagrida e durante mais dois séculos, no mundo cristão vivia-se o culto de um Deus castigador. Logo tudo o que acontecia bom ou mau era por vontade de Deus. O 'não faças isso que Deus pode te castigar' ou 'foi Deus que o castigou' era o 'tratamento' para quase tudo, ao Rei já era mais complicado o 'diagnóstico'. Agora Deus é uma entidade boa e compreensiva, mas nunca fiando, como diria Saramago, e por isso ainda se diz, até na TV, 'até amanhã se Deus quiser', o que não faz muito sentido por Deus querer sempre o nosso bem.
Dizem alguns entendidos que o 'se Deus quiser', vulgarmente utilizado para as mais variadas ocasiões, é o oxalá da religião muçulmana que por cá ficou.
Voltando às grandes epidemias históricas, ex. da peste negra, elas surgiram em momentos de grande fulgor religioso. Foi com este argumento que eu há dias me vi livre duns 'pastores de rua' quando me abordaram que a falta de religiosidade dava estes novos coronavirus.
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De Paulo Sousa a 22.03.2020 às 17:48

Nas sociedade mais devotas a vontade de Deus continua a explicar o que não tem explicação. Mas no Ocidente ateu e dessacralizado a natureza é que está a dar.
Até o católico Guterres faz afirmações animistas quando nos "lembra" que a natureza está zangada com connosco. É uma manobra retórica a que ele recorre para nos convencer de algo que ele soube interpretar - ele sabe porque está na ONU - e nós ainda não.
Valham-nos os entendidos na vontade do Senhor ou da Natureza, ou lá o que é.

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De Anónimo a 22.03.2020 às 19:19

Depois de uma desgraça há quem precise de uma caça ás bruxas.


lucklucky


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De Paulo Sousa a 22.03.2020 às 21:18

É verdade. O Sócrates culpou o chumbo do PEC4.
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De Anónimo a 23.03.2020 às 00:43

Como diria o outro, nada acontece por acaso.
E acrescentou, desde que o Papa deu a palmada na chinesa, isto tinha que acontecer.

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De Anónimo a 22.03.2020 às 19:32

Entretanto todos os Estados falharam ; talvez excepto a Coreia do Sul.


lucklucky






-
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De Paulo Sousa a 22.03.2020 às 21:21

O estado falhar resulta da sua natureza. O incómodo deriva das consequências das suas falhas e das promessas que nos faz.

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