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Noutro tempo

por Isabel Mouzinho, em 17.11.14

Dos primeiros anos da minha vida guardo memórias difusas de uma Lisboa que já não existe, com lojas que se chamavam Val do Rio e tardes enormes em que o tempo de brincar parecia a eternidade.

De vez em quando, relembro de súbito cheiros, sabores, frases, pedaços de conversas e figuras que marcaram esses dias, agora  tão distantes.

Pode ser o cheiro da cera nas enormes tábuas de madeira do chão da nossa casa, o aroma inconfundível do creme Nívea sempre associado ao sol e à praia, ou da pasta da escola onde se misturavam restos de aparas de lápis e o saco da merenda com migalhas de pão barrado de Tulicreme.

Nessa época éramos todos sócios do Centro Diese Juvenil e guardávamos religiosamente uma fotografia autografada do António Feio, que era o sócio número um. Jogávamos ao prego na praia, em grupos grandes de primos e de amigos, que se juntavam debaixo do mesmo toldo, tardes a fio, nos dias de férias que pareciam não ter fim.

Tudo era ao mesmo tempo simples e misterioso, e acreditávamos sem pensar muito nisso que a vida era mais ou menos como o universo de fantasia e realidade misturadas que líamos nos livros dos Cinco e dos Sete, ou noutros romances de aventuras.

Relembro tudo isto no dia em que desapareceu Anthímio de Azevedo, também ele uma figura incontornável dessa altura, que nos entrava casa dentro todas as noites e com quem aprendemos que o Anticlone dos Açores é que era o responsável pelas variações de sol ou chuva e nos habituámos a dizer "acentuado arrefecimento nocturno", antes de perceber o que as palavras significavam realmente.

Entre esse tempo antigo e o de agora quantas alegrias, tristezas, ansiedades e emoções, risos, lágrimas, abraços e inquietudes marcaram as nossas vidas?

À boa maneira proustiana, basta um pequeno nada para nos transportar involuntariamente para um passado longínquo, feito de vida despreocupada e imaginação à solta, entretanto perdido no mais fundo de nós.

E é uma nostalgia boa que toma conta de nós assim de repente, sem dramas, nem mágoa, nem saudade, deixando apenas existir o lado mais enternecedor da  lembrança.

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17 comentários

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De Fiel Amigo a 17.11.2014 às 20:07

Ainda bem que, no DdO, Anthimio de Azevedo não foi esquecido.

Para lá de ser uma pessoa encantadora, aprendi com ele os conceitos básicos da previsão meteorológica. O que é um anticiclone, uma depressão, uma superfície frontal, o que origina que por aqui faça ou não "bom tempo", o que provoca calor ou frio (e também o tal arrefecimento noturno), ar húmido ou seco, etc., coisas que nos transmitia com simpatia, sabedoria e simplicidade.

Lamento que hoje em dia não haja previsão meteorológica digna desse nome, apenas uns bonecos para básicos, pois as novelas ou os reality-shows não podem esperar. Uma previsão que (além de nos ensinar algo), nos diga se se espera chuva de manhã e melhoria para a tarde (ou vice-versa) coisa que os tais bonecos simplesmente ignoram, ou, e sobretudo, A PREVISÃO DO TEMPO PARA OS PRÓXIMOS DIAS. Claro que agora podemos aceder a vários sites, mas não é a mesma coisa, nem nada que se pareça.

Quando vou ao Norte, não perco a previsão meteorológica da TV Galicia, coisa para demorar uns 6 a 8 minutos (o que será até um pouco demais), e que se revela utilíssima para a zona adjacente de Portugal. Deixo aqui o link, para o caso de a alguém poder interessar:

http://www.crtvg.es/o-tempo

Que o nosso saudoso Anthimio descanse em paz.
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De Isabel Mouzinho a 17.11.2014 às 23:38

Para todos os que crescemos a ouvi-lo, ele não será nunca esquecido.

E eu também acho que os espanhóis, apesar de tudo, mantêm uma previsão meteorológica mais próximo da que aprendemos. Por isso não é exactamente a da TV Galicia que sigo, mas a da TVE, que é muito completa e elucidativa e que vejo mais ou menos todos os dias.

Que descanse em paz o Anthímio.
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De Maria Dulce Fernandes a 17.11.2014 às 20:22

O seu texto levou-me de passeio à vereda frondosa das minhas memórias.Trouxe-me uma saudade doce , um sorriso nostálgico e um bater suave de asas dentro do peito :) :)
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De Anónimo a 17.11.2014 às 22:29

Delicodoce
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De Isabel Mouzinho a 17.11.2014 às 23:40

Sabem bem, de vez em quando, estes passeios. :) :)
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De Isabel Mouzinho a 17.11.2014 às 23:44

A resposta ao seu comentário saiu-me fora de sítio, Maria Dulce. Sou uma "caloira" aqui na casa, é o que é. :)
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De Maria Dulce Fernandes a 18.11.2014 às 17:46

Esteve muito bem. Excelente o texto, mais uma vez. :) :)
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De Pedro Correia a 17.11.2014 às 22:56

Bem-vinda ao DELITO, Isabel. Muito a propósito, essa "nostalgia boa". Anthímio de Azevedo fica na memória de muitos de nós, além da sua dimensão humana, também como símbolo de uma era.
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De Isabel Mouzinho a 17.11.2014 às 23:42

Obrigada pelas boas vindas, Pedro. Quanto ao resto, concordo consigo.
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De Teresa a 17.11.2014 às 23:58

Adorei o post! Relembrei com saudade o cheiro a nívea , o pão com tulicreme, as aparas na pasta, os dias grandes que pareciam não ter fim, as aventuras dos 5 e dos 7 e ... claro....o amigo de todos nós que invariavelmente a seguir ao telejornal da noite entrava nas nossas casa para nos explicar o tempo que íamos ter. Obrigada!
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De Isabel Mouzinho a 18.11.2014 às 13:29

Obrigada eu, Miska! Devemos ser mais ou menos da mesma geração. ;)
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De Luís Naves a 18.11.2014 às 10:02

Excelente post, espero que se divirta por aqui...
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De Isabel Mouzinho a 18.11.2014 às 13:30

Obrigada, Luís. Também é isso que espero. :)
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De Paulo Abreu e Lima a 18.11.2014 às 20:24

Tive o prazer de conhecer o Anthímio no já antigo edifício do IPMA perto do aeroporto de Lisboa através de um amigo que lá trabalhava. Um Senhor no trato, um exímio Comunicador na TV. Não foi com a minha professora de Geografia que aprendi a direcção dos ventos, mas com ele, com as suas frentes frontais frias, com as suas depressões cavadas e com o mítico anticiclone dos Açores. Enfim, tudo explicadinho com serenidade e gosto. Já não há mais disto.

Isabel, espero que se divirta muito por aqui :)
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De Isabel Mouzinho a 18.11.2014 às 22:01

Eu não o conheci (hélas) a não ser da televisão, mas nem por isso deixou de ser "muito lá de casa".
Todos aprendemos muito com ele, Paulo, é verdade, sobre o tempo e uma certa maneira de ser.

Também espero divertir-me aqui e para já está a correr bem, acho eu :)

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