Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Notas sobre a tempestade Kristin

Paulo Sousa, 07.02.26

Os verdadeiros heróis são aqueles que quando são surpreendidos pela realidade, pelo caos iminente e pelo perigo, não se encolhem e pela sua reacção, mesmo com custos, conseguem ultrapassar as circunstâncias, minimizar os danos e seguir em frente.
A tempestade Kristin, que na semana passada assolou a zona centro do país, transformou alguns locais em verdadeiros cenários de guerra. Os danos nas habitações, nas empresas, nas infra-estruturas e na floresta são inúmeros e demorarão muito tempo a ser ultrapassados.
Foi neste contexto de ruptura que os trabalhadores da empresa Adelino Duarte da Mota, localizada nas Meirinhas, junto ao IC2, souberam ultrapassar o choque, reconfiguraram-se e, além de terem conseguido continuar a produzir, ajudaram a comunidade igualmente afectada pelos cortes da corrente eléctrica.
A história está aqui contada pelo Observador, mas em traços gerais, os técnicos desta empresa, cujas instalações foram bastante danificadas pela tempestade, desafiaram-se a reconfigurar uma turbina a gás natural que normalmente serve para secar pasta cerâmica. “Os funcionários relatam as noites sem dormir e as muitas horas de cálculos e testes", até que finalmente, além de terem conseguido assegurar as condições para voltar a laborar, estão agora a produzir energia que alimenta 150 habitações.

 

Registo igualmente outra notícia dos primeiros dias após a tempestade, e que não deixa de ir contra uma visão encolhida de demasiada gente que julga a realidade sem a conhecer.
A empresa de moldes TJ , localizada na Zona Industrial da Marinha Grande, foi igualmente afectada. Os repórteres relatam o que ali encontraram da seguinte forma: Numa empresa de moldes de plástico, noutra zona da Marinha Grande, a tarefa principal dos últimos dias só começa quando a noite cai. “Desde o primeiro dia e da primeira noite que estamos aqui”, diz com orgulho Paula Barreira, sentada na entrada da TJ Moldes em plena escuridão. A funcionária administrativa, que em Março completa 35 anos de casa, tem revezado a “vigia” com vários colegas para evitarem a pilhagem de materiais e máquinas de valor elevado. Fica até às 22h00, mas regressa de manhã cedo. “Vamos safar isto, temos de safar esta casa”, diz emocionada ao Observador. "Eu fui a segunda pessoa a chegar aqui naquela manhã e para mim foi desolador. Gritei…foi o pior dia da minha vida. O meu pai faleceu e não foi tão difícil como ver esta casa como está, porque isto é que faz parte da nossa vida. Tudo o que nós temos, eu e os meus colegas, agradecemos a esta casa”, acrescenta em lágrimas."

Quem na comunicação social opina sobre as empresas, os empresários, as leis laborais, ignora a cultura que existe em inúmeras empresas. Quando se quer mudar uma alínea da lei, de modo a que os enviesamentos ideológicos de quem não conhece a realidade, ceda espaço ao bom senso e à capacidade de as pessoas se entenderam, ignora que existem empresas que são verdadeiras comunidades, onde, cada um no seu papel, sabe perfeitamente que todos estão no mesmo barco. Poucos sabem o envolvimento que é necessário para criar, fazer e crescer e manter uma empresa, assim como, que existe quem sinta como suas as dificuldades e os desafios colocados ao seu empregador. Quem está por fora, com o salário assegurado por lei ou por rentismo, fala do empresário português como alguém com pouca formação, desqualificado e à espera de subsídios. Ao replicar coisas que ouviram dizer, dizem mais sobre si próprios, do que sobre o tema que puerilmente abordam.

39 comentários

Comentar post