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Notas políticas (8)

por Pedro Correia, em 20.11.15

Vejo muita gente sentada na ala direita do hemiciclo defender sem sombra de relutância a hipótese de manutenção de Passos Coelho à frente de um executivo de mera gestão corrente, durante meses a fio, apesar do evidente desgaste que tal solução constituiria para os sectores políticos que se apresentaram nas legislativas sob a sigla Portugal à Frente.

Fico perplexo perante os entusiastas dessa tese, para mim mirabolante. Se tal hipótese se concretizasse - algo em que não acredito - seria um brinde suplementar a António Costa. Com o Governo sem poderes efectivos, a oposição a legislar a partir da Assembleia da República e Cavaco Silva a despedir-se de 35 anos de vida política abrindo um conflito institucional de gravíssimas proporções com o órgão parlamentar. Um conflito que legaria como presente envenenado ao sucessor em Belém.

 

Vejo, por outro lado, muita gente sentada na ala esquerda do hemiciclo cheia de pressa de assumir funções governativas. É algo incompreensível, dada a fragilidade da solução que se desenha em alternativa ao Governo já chumbado no Parlamento. Quanto mais cedo tomar posse o novo Executivo liderado - com toda a probabilidade - por António Costa mais essa fragilidade se tornará evidente no decorrer dos dias.

Os putativos "acordos à esquerda" - crismados de "posição conjunta sobre solução política" - são omissos em política financeira, política europeia, política de defesa, reforma do Estado, ajustamento orçamental, moeda única, Tratado Orçamental, Orçamento do Estado, redução da despesa pública. São até omissos na célebre questão da reestruturação (ou renegociação) da dívida - antes defendida em uníssono por comunistas, bloquistas e muitos socialistas.
Mal o efémero XX Governo Constitucional cesse funções, logo virão à tona as divergências entre todos quantos formaram a conjuntural maioria negativa que o derrubou - o que aliás é indiciado pela recusa de Jerónimo de Sousa em garantir que o PCP aprovará o Orçamento do Estado para 2016. Apetece perguntar afinal sobre que tema conversou o secretário-geral do PCP com o seu homólogo do PS nas duas longas reuniões já travadas na sede dos comunistas.

 

Entre a relutância de uns, que parecem querer prolongar a função governativa sem poder efectivo que a sustente na nova aritmética parlamentar, e a pressa de outros, aparentemente mais preocupados em ocupar lugares no Conselho de Ministros do que em construir uma alternativa sólida, vamos vivendo dias crispados - como há muito não víamos na política portuguesa.

Trocam-se insultos, cavam-se trincheiras, convertem-se os adversários em inimigos. Como se fôssemos protagonistas de uma guerra virtual. Enquanto outra guerra, bem real, se desenrola cada vez mais perto das nossas portas.

 


14 comentários

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De queima beatas a 20.11.2015 às 13:56

"Uns e outros". Foi Costa que disse referindo-se á molhada que arrebanhou. Em todo o caso a minha beata balança ateada entre dedos sobre o que será melhor: Deixa-lo chamuscar-se no incendeio que ateou ou sacudi-lo desde já da floresta que não é propriedade sua.
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De Pedro Correia a 20.11.2015 às 17:09

Só espero que o Presidente não sacuda a água do capote. Para vir mais tarde dizer num qualquer livro de memórias: "Eu avisei."
Como escrevi aqui recentemente, não precisamos de polícias-sinaleiros em Belém. Por acaso até há poucos anos havia por lá um cabeça de giz...
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De am a 20.11.2015 às 14:05

Segunda feira:

--Mamã já sou 1º. Ministro!

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De Pedro Correia a 20.11.2015 às 17:07

Já ouvi algo semelhante em qualquer lado...
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De lucklucky a 20.11.2015 às 14:35

É interessante este tipo de opiniões onde só o outro lado está autorizado a extremar posições.
Curiosamente é sempre o mesmo lado.

Não discordo que o PSD+CDS se deve recusar a ser Governo.
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De Pedro Correia a 20.11.2015 às 17:07

Extremar posições, neste caso, não é sinal de força mas de fraqueza.
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De Anónimo a 20.11.2015 às 14:54

Fosse Cavaco Silva mais eficaz, mais rápido nas suas funções e menos PSD, uma vez que é presidente de todos os portugueses, todo esse burburinho, todo esse mal dizer, dos outros, não existiriam. Isto é o símbolo dos políticos que temos que mais não fazem, senão dizer mal, dos que se lhe opõem, sem terem visto nada, da possível governação dos outros. Quanto à outra guerra que se desenrola e é cada vez mais visível, mais perto ou mais longe das nossas portas, há que não esquecer que hoje fizeram mais três mortos e 180 reféns, lá para terras de África, mais propriamente no Mali, Bamako. Bem sei que é em África, mas merecem tanta homenagem como todos aqueles que sofrem ou sofrerem os horrores do terrorismo na Europa porque também são eles vítimas do mesmo.
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De Pedro Correia a 20.11.2015 às 17:05

O terrorismo é transversal. Não podemos olhar só numa direcção. Por acaso tenho acompanhado ao longo de todo o dia a situação no Mali nos mais diversos órgãos de informação.
Claro que o tratamento mediático é incomparável com o massacre de sexta-feira 13 em Paris. Basta reparamos nisto:
- Os atentados do dia 13 foram os mais sangrentos na capital francesa desde a II Guerra Mundial (relevância noticiosa óbvia);
- Jornais e televisões têm correspondentes em Paris ou deslocam para lá enviados especiais num par de horas (proximidade geográfica);
- Paris é a segunda cidade do mundo com maior número de portugueses (proximidade afectiva).
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De Luís Lavoura a 20.11.2015 às 15:43

Quão mais simples teria tudo isto sido se tivéssemos um presidente competente e não enfeudado ao PSD, que tivesse (1) dissolvido a Assembleia da República no inverno para que tivéssemos tido eleições antecipadas na primavera, e (2) indigitado imediatamente para formar governo António Costa, como líder da maioria, em vez de perder tempo a indigitar o líder da minoria.
Toda esta merda em que estamos metidos se deve a Cavaco Silva ser presidente da direita em vez de ser presidente da república.
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De Pedro Correia a 20.11.2015 às 16:59

Os segundos mandatos presidenciais são, em regra, sempre piores do que os primeiros.
Cada vez mais me convenço que só devia haver um mandato presidencial.
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De am a 20.11.2015 às 16:07

Meu caro...

Cavaco foi até muito rápido...

Só passadas semanas é que os Irmãos Metralha, rabiscaram 4 papeluchos às escondidas do xerife!
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De Pedro Correia a 20.11.2015 às 16:58

Nada que supere o Lucky Luke, mais rápido do que a própria sombra.
(Às vezes também dispara nas caixas de comentários)
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De jo a 20.11.2015 às 18:18

Há uma coisas que me baralham:

Primeiro a direita dizia que costa não tinha legitimidade. Agora diz que tem legitimidade mas o governo que se vai formar não será estável.

Desde quando é preocupação da oposição que o governo caia depressa demais?
Estão com medo de ir para o governo?
Se ele cair tanto melhor. Ou querem que ele governe muito tempo?

Têm uma solução mais estável e legítima de acordo com o atual Parlamento?

O governo de Costa é ilegítimo, mas alterar as regras para ser governo é legítimo?
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De Pedro Correia a 20.11.2015 às 23:23

Descanse. Num futuro próximo haverá muito mais coisas a baralhá-lo.

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