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Nossa Senhora de Paris

por jpt, em 15.04.19

paris.jpg

À notícia do incêndio da Notre-Dame acorri à tv, deixando-me diante da (tão desiludida) France2. É uma desgraça, por tantos sentida como que se quase pessoal - "notre-dame" é como se a igreja de todos, verdadeiro nome próprio assim como se a tratássemos por "tu", muito  mais do que a catedral de Pedro, a romana, que traduzimos, dando-lhe assim a terceira pessoa. Coisa, ligação, um pouco devida a Victor Hugo mas mais ainda, até porque Hugo é mais falado do que lido, da época ainda recente em que Paris foi centro cultural do mundo, e depois turístico, "uma festa" alguém disse, ou talvez fosse mais um "simpósio" que o autor quisesse subentender, mas pouco importa agora, hoje, esse esmiuçar.

E logo me lembrei do "Paris Já Está a Arder?", o célebre livro tão marcante para a minha geração - e para a anterior. Tendo Hitler mandado arrasar a cidade na retirada de 1944, o generalato alemão, apesar dos constrangimentos que tinha - após o atentado a Hitler, e até talvez mesmo antes, as famílias dos oficiais superiores, eram reféns, e talvez isso tenha explicado o suicídio de Rommell -, recusou-se a cumprir essas ordens. Por isso ficou a cidade salvaguardada, imune aos catastróficos efeitos da II Guerra Mundial, ao invés de tantas outras cidades europeias, hoje pejadas de réplicas de um passado, sem "patine", algumas mesmo verdadeiros fantasmas - lembro sempre o meu espanto, numa era bem pré-internet, de tão menos informação detalhada, quando cheguei a Sofia: não havia nada antigo, um mono de arquitectura estalinista, e na qual os restos da velha e tão importante cidade romana cabiam na esplanada de um café lisboeta.

Venho aqui ecoar essas sensações e noto que Luís Menezes Leitão já explicitou as mesmas memórias. Não serei tão escatológico como ele. A F2, às 9 horas, já fala de reconstrução, mostrando espírito estóico, resistente, exemplo de ânimo. E ali se lembra como a catedral de Reims foi incendiada pelos bombardeamentos da I Guerra Mundial, e depois reconstruída.

Nesta desgraça ficam-me, assim em cima do momento, três pontos: a verdadeira irrelevância da "espuma dos dias", depois de ter cruzado este dia na expectativa da ansiada (pela imprensa francesa e belga) comunicação de Macron, programada para o fim do dia de hoje, prevista para culminar estes meses de verdadeira insurgência dos "coletes amarelos". Que interessará isso, agora? E a consciência, tantas vezes esquecida, do quão perecível é a (grande) obra humana, afinal o tal mero pó que a pó voltará, depois do catastrófico incêndio do Museu Nacional do Rio no ano passado e da demência fundamentalista em Palmira (e do saque do museu de Bagdad, aquando da queda de Hussein, cujas verdadeiros danos desconheço).

E um terceiro dado, pouco simpático para esta noite: todos os dias, há imensos anos, são devastadas áreas muitíssimos mais alargadas de floresta virgem do que a área da Nossa-Senhora de Paris. De modo irrecuperável, pois não passíveis de serem reconstruídas mesmo que sem a tal indizível "patine", como o será a catedral. Uma destruição rotineira e avassaladora que não causa qualquer comoção generalizada. Por mero, e catastrófico, antropocentrismo. Choramos, de modo lancinante até, o perecer da obra humana. E encolhemos os ombros ao devastar da obra natural. Divina, para tantos. Que depois se dizem, sabe-se lá porquê, crentes num desenho e desígnio divino.

Só um paupérrimo antropocentrismo pode justificar estas sensibilidades. Nada religiosas. E, mais do que tudo, verdadeiramente incultas. Por mais lágrimas répteis que finjam verter hoje.

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14 comentários

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De Pedro Vorph a 15.04.2019 às 22:41

Obrigado jpt pelo texto
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De jpt a 16.04.2019 às 23:12

por quem sois
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De Manuel Gonçalves Pereira Barros a 15.04.2019 às 22:52

Em Sófia o monstro estalinista,reconstruído,que horror ! Um dano colateral das forças do Eixo,aconteceu... em Paris já se fala de reconstrução,não surgirá um mono! Quem combateu e derrotou os nazis e seus companheiros já não está cá, mas,cuidado,perdura a sombra do seu (dele) bigode !!!
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De jpt a 16.04.2019 às 23:12

fui a Sofia duas vezes há 25 anos, cidade devastada, feia. A reconstrução foi a possível no âmbito da arquitectura estatal de então, a estalinista. Um vácuo Esta minha consideração não é um manifesto político.
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De João Pedro Pimenta a 17.04.2019 às 01:23

Por acaso passei lá há meia dúzia de anos e achei a cidade simpática, com alguns pontos interessantes, embora nada de especialmente ribombante. Deve ser porque sempre gostei de marcas ortodoxas. Mas desde os anos noventa até aos anos 2010 deve ter mudado alguma coisa, com a entrada na UE. Os grandes edifícios estalinistas no centro foram adaptados, um deles até se tornou no Sheraton de Sófia, cujo bar no subsolo é nada mais que um bar de strip, talvez para realçar as diferenças balcânicas. E a dois passos, no meio do logradouro daquele complexo enorme, entre o hotel e a presidência, uma pequena e antiquíssima igrejinha.
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De jpt a 17.04.2019 às 18:12

Impressionou-me essa igreja - estou longe, tenho as minhas fotos em Lisboa e já
nem me lembrava do nome. É esta, igreja de São Jorge, de IV sob Constantino. Enclausurada num mono. https://www.flickr.com/photos/u2iano/45999764435

Eu estive seis dias lá, com pouco dinheiro,era o tempo pós-comunista, 1994, aquilo pouco radioso e a cidade relativamente desinteressante. Mas é também muito isto do lisboeta (ou portista) - um tipo chega a estas cidades em que as zonas históricas são quase nada e fica desiludido.
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De jpt a 17.04.2019 às 18:12

perdão, quis dizer portuense
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De João Pedro Pimenta a 26.04.2019 às 16:01

Essa mesmo. Mas o país tem outras cidades mais visitáveis, como Plovdiv ou Veliko Tarnovo (está para a Bulgária um pouco como Guimarães está para Portugal).
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De Costa a 15.04.2019 às 23:02

Um livro que não se esquece (e com ele, dos mesmos, Oh Jerusalém). Pena vê-lo invocado nesta circunstância. Mas era sem dúvida devido. Se era preciso pretexto para a ele voltar, ei-lo. Desgraçadamente.

Quanto ao resto, vêm aí tempos novos. E não serão melhores do que o que deixamos.

Costa
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De jpt a 16.04.2019 às 23:10

não sei o que aí virá. mas o que vivemos é tétrico. Para quem negue isso basta este exemplo, é óbvio que o incêndio foi causado pelos trabalhos de reparação - a incúria cheia de tecnologia que destrói por onde passa
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De Miguel a 16.04.2019 às 08:50

Primeiro é o choque, depois a tristeza. Por fim é bom ler as coisas em perspectiva, na sua medida, para além da "espuma dos dias". Post muito oportuno.

Um antropocentrismo esclarecido far-nos-ia estar estarrecidos todos os dias perante a dilapidação do património natural. O planeta vai 'sobreviver', a humanidade também (no sentido em que não vão morrer todos os homens), já a civilização humana não é certo.
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De jpt a 16.04.2019 às 23:08

Glosando o que Gandhi (não) disse, seria um boa ideia essa a da civilização humana...
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De Fernando Antolin a 16.04.2019 às 22:03

O directo responsável pelo não cumprimento da ordem de destruição dos monumentos, foi o comandante militar de Paris, o general Dietrich von Choltitz.
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De jpt a 16.04.2019 às 23:07

Obrigado Fernando Antolin. Eu li o livro ainda menor, donde há mais de 35 anos, e o exemplar está em casa, em Lisboa, como tal não o consultei ao escrever e a memória dos detalhes é muito vaga. Mas é um livro, pelo menos assim o lembro, extraordinário.

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