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Nós compreendemos a aflição

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.04.15

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(foto Rui Ochôa, Expresso)

 

Meu caro Professor Marcelo Rebelo de Sousa,

Lamento desiludi-lo, mas V. Exa., apesar de todo o seu virtuosismo, não está com sorte nenhuma. Deixe lá, essas coisas acontecem a qualquer um. Para a Académica o fim-de-semana também não correu de feição. Há noites assim e para essas temos a certeza de que o tempo, como dizia o outro, não volta para trás, pelo que agora importa, futebolisticamente falando, "corrigir os erros e levantar a cabeça".

Todos nós compreendemos que quem - não me interprete mal mas é o que me parece das suas aparições televisivas analisadas à distância -, condiciona a decisão política aos jogos de interesses clientelares, dando dela a ideia de que tudo não passa de um negócio de bastidores, rumores, boatos e meias-verdades ao sabor das conveniências e das agendas pessoais e televisivas, tenha dificuldade em definir-se e em assumir os riscos inerentes à política sem receio de fracassar.

Se o meu caro Professor quer ser Presidente da República, e é legítimo que o seja num momento tão difícil como aquele que Portugal atravessa, então avance já, não perca tempo, apresente-se aos seus concidadãos. Poderá fazê-lo em directo, na TVI, sem gastar um chavo, com garantia de audiências e o monopólio das manchetes de segunda-feira. Depois seria só cavalgar a onda. Quem nada no Tejo e nas águas do Guincho pode cavalgar qualquer Nazaré. Não espere pela definição e estabilização da galeria dos condenados. Deixe isso para os fracos e os sacristães. Essa seria a sua forma de marcar a agenda e condicionar eficazmente as escolhas de Passos Coelho. O PSD ficaria refém do seu anúncio e o Professor garantiria de imediato o apoio do seu partido. Não se acanhe. O Professor Sampaio da Nóvoa ficaria apavorado ante a perspectiva de um debate com V. Exa., com a Judite de Sousa e o Rodrigues dos Santos a moderá-lo, e eu com receio do que lhe pudesse acontecer. Quanto ao apoio do CDS-PP e de Paulo Portas, como sabe, com mais ou menos amuo, isso seria sempre negociável. Em política quase tudo é negociável: sobreiros, submarinos, vistos "gold", sondagens, computadores "Magalhães", "PPP's", barcos que metem água, comissões de inquérito, as contribuições do Jacinto Leite Capelo Rego, enfim, tudo menos a vichyssoise. Até aí compreendemos todos. Aliás, não há quem não compreenda que seja mais fácil percorrer os caminhos florentinos ao crepúsculo do que entrar e sair da corte quando o Sol está a pique.  

É claro que se não quer ser candidato, nem está disposto a avançar, deverá dizê-lo desde já. Não lhe ficaria bem andar a alimentar amores impossíveis domingo após domingo. Nenhuma dona de casa gosta disso. Um homem tem de se definir ou então que desampare a loja. Para empata já chega o inquilino de Belém. Não deixe que neste aviário em que se tornou a apresentação de candidaturas presidenciais qualquer avestruz se predisponha a chocar os ovos alheios. E deixe-me dizer-lhe que frangos e pintos para andarem a correr de um lado para outro e a conspurcar a capoeira já temos os suficientes para esta fase. Está na hora de aparecerem os galos. O Professor tem um porte e uma crista suficientemente vistosos para não se perderem nos "entretantos" daquelas entediantes conversas de salão com as tias e os tios de Cascais que só percebem de canasta e gamão.

Certamente que lhe daria imenso jeito, como ao PSD, e talvez mais a este, ter como rival numa eventual candidatura presidencial o Professor Sampaio da Nóvoa. Tudo isso nós percebemos. O que ninguém entende é que queira fazer do homem um Fernando Nobre, coisa que ele nunca será, e do PS, com o devido respeito, o partido dos animais. Isso os portugueses nunca lhe perdoariam e poderiam zangar-se com quem teve a ideia. Como também ninguém entende a sua pressa em querer que o PS defina um candidato e o apoie sem que os candidatos se definam primeiro e o PSD diga qual a sua estratégia presidencial e qual o mole que vai apoiar. 

A sua tentativa de condicionar as escolhas, que foi o que ontem quis fazer sob a capa do comentador independente, não passará disso mesmo. Uma tentativa para depois ver as reacções. Só que as presidenciais não são orais de Constitucional em que a rapaziada bronzeada se põe a atirar bolas para canto. O PS não precisa de apoiar o Professor Sampaio da Nóvoa. Não se iluda. Ao PS basta um, um único candidato, e não precisa de alternativa ao Professor Sampaio da Nóvoa porque este não é candidato [oxalá não me engane]. É uma lebre.

Porque é evidente que o meu caro Professor está farto de saber que jamais se apresentará contra um Guilherme d´Oliveira Martins. Por amizade, eu sei. Mas também porque ser cilindrado, sejamos realistas, por um homem tão discreto não seria bonito de se ver. O Professor Marcelo sabe bem, porque é um homem culto e inteligente, que a discrição é sempre mais eficaz do que o brilho dos holofotes. O brilho é transitório, apaga-se com o tempo. A discrição faz parte do carácter. É fiável. E é isto que os portugueses esperam do seu próximo Presidente da República. Fiabilidade. O Professor Marcelo sabe muito bem que, tal como na amizade, no amor ou na vida só há duas coisas que contam: a fiabilidade e a seriedade. Na política não é diferente. E também sabe que só será vencedor das presidenciais quem for fiável. Chega de feira. Pessoalmente, não tenho dúvidas de que entre dois homens (ou mulheres) igualmente sérios os portugueses escolherão quem lhes dê mais garantias. Quem seja mais fiável. E é aí que a porca torce o rabo para o seu lado.

Os portugueses já perceberam que quem canta em qualquer palco, a qualquer hora, desde que tenha um microfone e uma câmara, sendo-lhe indiferente se o faz na TVI, na Madeira, na Universidade de Verão ou em Quarteira,  por muito simpático, bem-disposto e sério que seja, não é fiável. As verdadeiras estrelas, tal como um Presidente da República que se preze, não podem estar em todo o lado ao mesmo tempo, não podem andar aos saltinhos a dar palpites e a mandar recados. Porque se desgastam. E o meu caro Professor Marcelo sabe isso tão bem quanto eu. O Professor Marcelo não é o dr. Marques Mendes para lhe andar a disputar audiências. Eu não queria estar a dizer-lhe isto, eu não sou ninguém. Eu emigrei. E habituado como estou a apreciá-lo e a vê-lo brilhar em qualquer palco desde os tempos de antanho, nunca esperei que se espalhasse ao comprido de forma tão confrangedora.

Peço-lhe desculpa,  não me contive, tinha de lhe dizer isto. Às vezes temos de fazer de Lopetegui para não fazermos de trolhas. 

Com estima e elevada consideração, subscreve-se um admirador desiludido.


11 comentários

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De Les beaux esprits a 13.04.2015 às 18:04

O antigo primeiro-ministro Pedro Santana Lopes voltou a admitir, esta terça-feira, candidatar-se às presidenciais de 2016, discordando da opinião de Marcelo Rebelo de Sousa de que o candidato do centro-direita só deve avançar no final do ano.

No programa Edição da Noite, da “SIC-Notícias”, o actual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa socorreu-se mesmo do jogo de apostas mútuas para classificar a ideia defendida por Marcelo Rebelo de Sousa de que começar já a debater candidatos às presidenciais é suicídio para a direita.

“É como jogar no Euromilhões com a chave já na mão”, ironizou Santana Lopes ao comentar as advertências lançadas também esta terça-feira pelo comentador da TVI e ex-presidente do PPD-PSD sobre o “timing” mais adequado para o lançamento da candidatura presidencial do espaço do centro-direita.
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De Marquês Barão a 13.04.2015 às 18:33

Uma simples nota. O professor Marcelo mais do que parecer sério tem de o ser. O simples facto de admitir vir a candidatar-se obriga-o desde já a deixar de ser comentador habitual onde quer que seja. Antes que alguém o empurre para a porta da rua ou simplesmente lhe mostre o caminho, ou está á espera que alguém com muito menos crédito lhe sirva de exemplo?
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De jo a 13.04.2015 às 19:24

Diz o povo e com razão: quem desdenha quer comprar.

Ou quer que Marcelo seja presidente, ou quer que ele seja, ou é lhe indiferente.

- Se lhe é indiferente porquê o desconforto com a indecisão de Marcelo?

- Se pretende outro como presidente, não espera decerto que Marcelo vá cumprir um calendário que não quer, para beneficiar terceiros.

- Estes nervos todos só se justificam num admirador do Prof.
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De JS a 13.04.2015 às 19:30

É verdade SdeAC.
Ao fim de 50 anos Salazar teve que cair. Da cadeira, etc. Curiosas periodicidades?.

É que tal como agora, ao fim de quase de 50 anos de ilusionismo político, às novas gerações as velhas patranhas não dizem nada, absolutamente nada.

O presente regime bafejou incontáveis beneses muitos "eleitos". Mas está a deixar de fora muitos mais.
Apesar de nem todos os eleitores terem a sua argúncia, será que é desta que os "capitâes" desta geração dizem que estão fartos das trincheiras?.
Nem mais um emigrante para o ultramar, digo, "europa"? ....

Será que o jovem Marcelo quer enfiar o mesmo barrete que o padrinho (contra-feito mas ansioso) enfiou?. Rei de um regime moribundo?.
Será apenas mais uma das suas corriqueiras, e erradas, "leitura de ossinhos"?.
Será que acha mesmo que mais vale ser rei por um dia do que príncipe toda a vida?.

Pior. Será que julga que vai melhorar o sistema que o sustem?.
Ó homem !. Atire-se ao rio.
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De Kostas Varoufakis a 13.04.2015 às 19:32

Ao ler o post do Sérgio sobre quem é mais fiável lembrei-me da última sondagem da Aximage e os 13,5 pontos que António Costa perdeu em sete meses aos olhos dos portugueses na confiança para PM. Não posso estar mais de acordo quando escreve que "Os portugueses já perceberam quem quem canta em qualquer palco, a qualquer hora, desde que tenha um microfone e uma câmara, sendo-lhe indiferente se o faz na TVI, na Madeira, na Universidade de Verão ou em Quarteira, por muito simpático, bem-disposto e sério que seja, não é fiável".
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 13.04.2015 às 20:00


O candidato em que eu naturalmente votaria, seria Marcelo Rebelo de Sousa, mas acho que o meu voto não servirá para o ajudar a chegar ao Palácio de Belém.
Portugal está mesmo a precisar de um governo de esquerda e de um presidente da República que ajude a resgatar o país das politicas neo-liberais dos últimos anos.
Apesar de ser Monárquico sempre votei nas presidenciais, às vezes em branco, mas sempre fui lá colocar o papelinho na urna, e desta vez também estou a contar votar. Mas vou seguir o conselho que Álvaro Cunhal deu aos comunistas na 2ª volta das presidenciais de 1986, quando os mandou votar em Mário Soares; vou tapar a cara do professor Sampáio da Nóvoa e colocar a cruz no respectivo quadradinho.
Quanto à fiabilidade de Marcelo Rebelo de Sousa, lembrei-me do "mistério dos dez negrinhos". Devera escrever "dez pequenos africanos", mas nos anos 70 do século passado havia uma muito maior liberdade de expressão!

http://portadaloja.blogspot.pt/2011/12/marcelo-o-professor.html

Com a devida vénia ao José do Portadaloja e ao seu espantoso arquivo que nos ajuda a recordar tantas coisas que muita gente já esqueceu.

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De Valhelhas a 13.04.2015 às 21:51

Onde, as sondagens que dão Oliveira Martins a derrotar estrondosamente Rebelo de Sousa? Diga-se de passagem que preferia OM a MRS em Belém.
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De lucklucky a 13.04.2015 às 22:14

"O professor Marcelo sabe muito bem que tal como na amizade, no amor ou na vida só há duas coisas que contam: a fiabilidade e a seriedade."


Como pagar as dívidas e não desvalorizar a moeda?
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De cristof a 13.04.2015 às 22:14

O meu palpite é que o proximo presidente será Rui Rio e é essse que o Marcelo teme que lhe tape a porta.
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De O que é a verdade? a 13.04.2015 às 23:21

Tem uma relação complicada com a verdade.Juras,sopas frias que são quentes,é só ir contando quantas vezes.

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