Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Nos 95 anos de Adriano Moreira

por Pedro Correia, em 06.09.17

9448454_F8zot[1].jpg

 Retrato de Adriano Moreira na galeria dos antigos presidentes da Sociedade de Geografia de Lisboa

 

No dia 10 de Julho de 2015, um senhor vestido formalmente, de cabeços brancos e testa alta, ergueu-se da cadeira onde estava sentado, numa livraria do centro de Lisboa, e durante três quartos de hora prendeu a atenção de algumas dezenas de pessoas que o escutavam com uma notável lição de história, geografia, geopolítica - tudo a pretexto da literatura.

Eu estava entre os que tiveram o privilégio de o escutar nesse fim de tarde. E admirei a impressionante rapidez de raciocínio, a notável fluência verbal e a claridade de ideias deste homem que foi advogado e político, é hoje conselheiro de Estado, mas cuja verdadeira vocação nunca deixou de ser o ensino. Deu aulas durante dezenas de anos e deixou um rasto de admiradores em todos os continentes: é um dos portugueses com maior vocação universalista.

A expressão francesa sagesse aplica-se por inteiro a Adriano Moreira, que nessa tarde em Lisboa discorreu sobre a "comunidade de afectos" que a CPLP é acima de tudo - e como a língua comum funciona como poderoso traço de união entre os Estados-membros. Ao contrário do que sucedeu com outras antigas potências coloniais europeias, como a Bélgica ou a Holanda, incapazes de gerar laços afectivos com os povos residentes nas paragens que tutelaram.

Adriano Moreira foi subsecretário de Estado da Administração Ultramarina (1958-61) e depois ministro do Ultramar (1961-62) com António de Oliveira Salazar, de quem chegou a ser apontado como um dos seus mais jovens e promissores delfins. Enquanto ministro, aboliu a lei do indigenato - uma das medidas de maior alcance social alguma vez decretadas nos então territórios ultramarinos.

A corte da ditadura fervilhava de intrigas contra aquele jovem governante com 40 anos recém-cumpridos que se atrevia a revelar protagonismo num regime em que tantos progrediam na penumbra. Um dia, em Dezembro de 1962, Salazar chamou-o e foi sucinto: "Nós acabamos de mudar de política." Adriano Moreira foi igualmente sucinto: "Então acaba de mudar de ministro."

Nunca mais reassumiu um posto governativo. Fundou a Academia Internacional da Cultura Portuguesa, foi presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, dirigiu o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Correu mundo, escreveu livros, (Tempo de Vésperas, O Novíssimo Príncipe), radicou-se no Brasil após o 25 de Abril, regressou a Portugal, foi deputado e presidente do CDS, retomou a sua paixão de sempre: o ensino.

"A minha mãe ensinou-me que Deus é companheiro e nunca me esqueci disso. Nunca ando sozinho, nunca ando sozinho", declarou em Maio de 2015, numa longa entrevista concedida ao jornal i que vale a pena ser relida.

Pensa bem e diz o que pensa. Gostem ou não do que ele diz. Se em Portugal existisse Senado, ele seria o nosso primeiro senador. Atingidos os 95 anos, que hoje festeja, continua um sonhador. Ouvi-lo falar com tão espantosa agilidade mental é também uma lição de vida. 

Autoria e outros dados (tags, etc)


42 comentários

Sem imagem de perfil

De WW a 06.09.2017 às 14:30

Um dos maiores Portugueses do séc. XX e XXI !

Justa lembrança e homenagem aqui trazida pelo Pedro Correia.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 06.09.2017 às 21:48

Ele e Salazar (como se comprovou num concurso na Televisão).
Sem imagem de perfil

De WW a 07.09.2017 às 14:01

" Somos um país pequeno, com problemas sérios, e não podemos aderir a frentes débeis, só com o fim de proclamar que - brincamos às democracias. "
Sem imagem de perfil

De Vlad, o Emborcador a 06.09.2017 às 14:30

O único Homem, português, vivo que admiro moral e intelectualmente. Pensa virtuosamente. Fala, mais que sabidamente, sabiamente.
Um modelo de virtude republicana na veia de Cícero, ou Catão.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 06.09.2017 às 21:44

Não precisamos de Senado para termos senadores. Adriano Moreira é um desses raros senadores naturais. Património de Portugal.
Sem imagem de perfil

De Alain Bick a 06.09.2017 às 14:48

em 71 na Cité tive oportunidade de o 'entender' através da nossa comum Amiga Margot.
nunca me interessou saber se foi a Margarida quem o chamou ou se foi ele que lhe pediu auxílio.
é pessoa que procuro ignorar.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 07.09.2017 às 00:18

Não consegui perceber mas a sua intenção talvez fosse essa.
Sem imagem de perfil

De Joao a 06.09.2017 às 15:21

E sobre a prisão do Tarrafal. Não disse nada?
Sem imagem de perfil

De Joao a 07.09.2017 às 06:30

Era mais a isto
http://www.lusopt.pt/portugal/164-tarrafal-e-uma-mancha-no-passado-de-adriano-moreira
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 07.09.2017 às 09:11

Remete para um texto anónimo, embora escrito na primeira pessoa do singular: deve ser a lógica das "redes sociais".
Um texto que assinala isto: o «encerramento definitivo do Tarrafal ocorreu a 1 de Maio de 1974.»

Eu remeto para o jornalista cabo-verdiano José Vicente Lopes, um dos mais prestigiados do país:
«Após o encerramento oficial do Campo de Concentração do Tarrafal, a 1 de Maio de 1974, a estrutura prisional ainda recebeu outros detidos, todos opositores ao projecto que o então o PAIGC pretendia concretizar.
A revelação está contida no novo livro do jornalista, historiador, poeta e ensaísta cabo-verdiano José Vicente Lopes, 'Tarrafal - Chão Bom: Memórias e Verdades', apresentado naquela Colónia Penal criada pelo regime do Estado Novo português em 1936, no norte da ilha de Santiago, em Cabo Verde.
O campo foi reaberto em Dezembro de 1974 e encerrado em Julho de 1975, para receber indivíduos que se opunham ao projeto que o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) apresentava na altura. Mas é preciso ter em conta que a responsabilidade por essa prisão foi do Estado português.»

Como fica claro, o encerramento definitivo do Tarrafal ocorreu apenas em Julho de 1975, o que basta para atestar a credibilidade histórica desse texto anónimo.
Sem imagem de perfil

De Joao a 07.09.2017 às 14:14

O texto que me interessa é a portaria 18.539 de 17 de Junho de 1961 assinada pelo Ministro do Ultramar Adriano Moreira.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 06.09.2017 às 15:32

95 anos e com uma boa dose de lucidez que muitos não têm.
Para ele, um Feliz Aniversário
Li a entrevista.
Não tenho qualquer conhecimento e capacidade de comentar sobre política.
Estamos a caminhar para novas eleições autárquicas e ontem, enquanto jantava, vi um pouco do debate dos candidatos à Câmara do Porto.
Cada candidato com suas ideias, a verdade é que os debates são sempre guerras de palavras entre si, não há entendimento, não há formação cívica. Quem falar mais alto é ouvido.
Por isso, transcrevo o que assenta perfeitamente nos políticos actuais, sejam eles candidatos à AR, PR ou EA.

"Há pessoas que têm capacidade, mas a população não as conhece porque ou falam ao ouvido do príncipe ou pertencem a uma burocracia que governa mas é discreta. O perigo é que quando aparecem estas pessoas a comunicação social cria uma imagem que não corresponde à realidade. Devemos pedir à comunicação social que não deixe isso acontecer nas próximas eleições. Tragam a imagem real dos candidatos. Precisamos de saber coisas sobre a personalidade real deles."

Cumprimentos.

Imagem de perfil

De Pedro Correia a 06.09.2017 às 21:41

Achei bem mais interessantes os dois debates televisivos que já vi entre candidatos do Porto do que os dois debates de Lisboa, Maria. Dos outros não vi nenhum.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 06.09.2017 às 22:18

Não vi o de Lisboa.
O de ontem, foi um pouco.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 07.09.2017 às 00:17

Esta noite houve outro debate televisivo com os candidatos por Lisboa. Tenciono escrever sobre esse tema aqui.
Sem imagem de perfil

De A. de Matos a 06.09.2017 às 17:25

Concordo que é um homem inteligentíssimo, de grande cultura e de provecta idade.
Do ponto de vista ético custa-me muito a engolir. É que não basta ser inteligente e sabedor.
Não teve problemas de consciência em fazer parte de uma governo que tinha censura, pide e torturava. Ele próprio assinou coisas (não cito concretamente porque não me lembro com exactidão) que levaram pessoas para a prisão e tortura. Talvez Tarrafal (não há muito, isso veio nos jornais mas falha-me a memória).
Em resumo: não queria vê-lo como senador nem em coisa nenhuma! Prefiro o Isaltino Morais. Consta que roubou mas não mandou torturar ninguém. Pertenço à corrente que defende que crimes contra as pessoas são muito piores que crimes contra o património.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 06.09.2017 às 21:38

Preferir Isaltino Morais a Adriano Moreira é, só por si, um tratado de ética.
Sem imagem de perfil

De A. de Matos a 06.09.2017 às 21:47

É preciso perceber o que eu disse embora eu concorde que não sou muito bom a exprimir-me. Vou tentar ser mais claro: um torturador é coisa pior que um gatuno que não ataca fisicamente nem manda atacar.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 06.09.2017 às 23:04

Recomendo-lhe a leitura deste artigo do José Pedro Castanheira no 'Expresso' antes de falar do que não sabe:
http://expresso.sapo.pt/actualidade/tarrafal-verdades-e-mentiras-do-campo-de-trabalho-de-chao-bom=f599690

Nunca ouvi sequer o mais acérrimo inimigo de Adriano Moreira chamar-lhe "torturador".
De resto, se essa atoarda tivesse algum fundamento, ninguém imaginaria que o comunista Domingos Abrantes aceitasse sentar-se a seu lado nas reuniões do Conselho de Estado, onde ambos têm lugar.

Sinta-se à vontade para elogiar Isaltino Morais (que nada tem a ver com este filme) sem necessidade de fazer tanta pirueta verbal.
Sem imagem de perfil

De Armando Palavras a 06.09.2017 às 22:42

É de grande justiça lembrar esse dia. O meu abraço fraterno a Pedro Correia e a Adriano Moreira.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 06.09.2017 às 22:56

Abraço que retribuo com gosto.
Sem imagem de perfil

De Beatriz Santos a 06.09.2017 às 23:02

Admiro Adriano Moreira. Não defendo a sua linha política, mas possui sabedoria e é integro.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 06.09.2017 às 23:16

Há felizmente muita gente capaz de reconhecer mérito e valor a pessoas de campos políticos diferentes ou até opostos. É o seu caso, Beatriz.
Sem imagem de perfil

De amendes a 06.09.2017 às 23:46

Moçambique --- deve-lhe a primeira Universidade criada nas ex-colónias portuguesas...

Felicidades.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 07.09.2017 às 00:16

É verdade. Foi ele a dar o passo inicial para o ensino universitário em Moçambique - e também em Angola.
Merece ser reconhecido por isso também.
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 07.09.2017 às 01:00

Adriano Moreira sabe muito. Não é um tudólogo de pacotilha. Tem um conhecimento intelectual dos mais sólidos que conheço aliado a toda uma riqueza cultural e humana com que a longevidade nos brinda.
Curioso como não procura a ribalta, talvez porque esta lhe seja intrínseca
É o género de pessoa que devia poder ser clonada para bem do país
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 07.09.2017 às 01:05

Infelizmente, Dulce, em Portugal o culto do mérito é algo muito residual. Por isso a nossa capacidade de admirar os outros é curta. Dramaticamente curta por vezes.

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D