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No pasa nada

por Teresa Ribeiro, em 06.02.19

600.jpg

 

Falta cerca de um mês para o Dia Internacional da Mulher, o dia em que todos os jornais falam dos problemas da condição feminina, desde a discriminação no trabalho à violência doméstica e no entanto quando passei de manhã pela banca dos jornais (ainda gosto de consultar as primeiras páginas assim, ao vivo e a cores), que vi eu? 

Manchete do i - "Já morreram mais mulheres, proporcionalmente, em Portugal do que no Brasil"

Manchete do JN: "Só num ano Estado apoiou 18 órfãos de violência doméstica (maioria dos casos são de crianças que viram a mãe morta pelo pai)

Manchete do Público: "Violência doméstica - 85% dos casos não resultam em acusação (no caso do duplo homicídio do Seixal, MP abriu inquérito apenas por coacção e ameaça)

Pois, houve mais um crime, particularmente chocante, daí esta concertação noticiosa. O Correio da Manhã, no seu estilo inconfundível, publica: "Monstro estrangula filha com as mãos (violência doméstica levou mãe da bebé a pedir ajuda à PSP)

Leio estas manchetes e penso nas negacionistas do "Not Me" (nome que eu agora inventei por oposição ao #MeToo), que tomam a sua experiência pessoal pelo todo afirmando que não se passa nada. Bem sei que a discussão há um ano acendeu-se por causa de uma situação muito menos dramática, a do assédio. Mas faz sentido separar os dois fenómenos? No país onde se mata mulheres que se farta o assédio não existe? E já agora, juntando outro tema que também é caro às negacionistas: a discriminação no trabalho, também é falácia?

A sério?

 

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33 comentários

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De Anónimo a 06.02.2019 às 18:29

"que tomam a sua experiência pessoal pelo todo ".
Acontece com frequência pensarmos que o que acontece connosco acontece com todos (ou quase). Também se dá com os do #meToo.
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De Fernando Sousa a 06.02.2019 às 18:43

Percebo a tua ideia, Teresa. Mas manter as questões em separado não facilitará as soluções?
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De Sarin a 06.02.2019 às 19:40

Não sou Teresa, mas sobre essa pergunta - e porque há 2, 3 minutos deixei comentário da mesma índole deste postal no seu post it - penso que não podem ser dissociados. Há abordagens que se requer sejam concertadas e comuns, embora também careçam de medidas específicas. A violência doméstica não terá causa exclusiva no machismo, mas é a sua maior causa e acompanha todo o processo - até na violência contra homens, vítimas silenciosas por vergonha, "homem que é homem não leva nas trombas de uma mulher".
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De Fernando Sousa a 06.02.2019 às 20:14

Francamente francamente gostaria de ter mais dados sobre a violência doméstica contra velhos, crianças, doentes, eu sei lá para poder ter uma opinião mais acabada. Sem que isto queira dizer que discorde.
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De Sarin a 06.02.2019 às 20:30

Das 10 vítimas mortais de violência doméstica que se fala hoje, todas são mulheres, a última uma criança de 2 anos. Vítima porque o pai a entendeu como sua posse.

Na violência contra jovens e contra idosos, e segundo leio há alguns anos, o conceito de posse, de domínio, é comum.
Não será abusivo dizer que o conceito de posse, de domínio, é a base onde se edifica o machismo. Até que ponto estará relacionado, seria um estudo interessante. No entanto, temos os factos: vítimas mortais da violência doméstica, vítimas não mortais, vítimas masculinas silenciadas por vergonha independentemente da idade.

Não faço esta análise para dizer que os homens são os maus da fita - não o digo; há muitos homens e muitas mulheres machistas, e nem todos os machistas são violentos.
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De Fernando Sousa a 06.02.2019 às 20:44

Não sei se não será abusivo, não sei. Mas concordo que esse estudo seria interessante. Tenho mais pressa em entender do que meter-me em trincheiras.
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De Sarin a 06.02.2019 às 20:49

Não estou entrincheirada, acredite. Reporto-me aos dados que vou obtendo ao longo dos anos em que acedo, em que disponibilizam, tais estatísticas.

Explicito que, por não abusivo, me refiro ao facto de o machismo se recriar no conceito de domínio de um sexo sobre o outro.
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De Fernando Sousa a 06.02.2019 às 22:44

Sarin, esforço-me por ir ao encontro do que diz. Mas vamos ver. Não tenho dúvidas sobre a relação entre a ambição pelo poder e a violência, e em ver no machismo um terreno fértil para o pior. Mas deve conhecer como eu muitas situações em que o machismo não está lá, na violência, incluindo na doméstica. Por isso lhe digo, como disse à Teresa, que o melhor é não projectar vários filmes ao mesmo tempo no mesmo écrã para podermos depois falar do que vimos.
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De Anónimo a 07.02.2019 às 15:06

Ai leva, leva. E não são poucos. Até lhes cortam a instrumentação à tesourada. A minha vizinha enfiou-lhe com um tacho de água a ferver nas partes. Aquilo ficou tudo cozido. Fónix!
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De Teresa Ribeiro a 06.02.2019 às 19:47

São questões diferentes, que podem e devem ter abordagens diferentes, mas que têm o mesmo pano de fundo, uma cultura machista e misógena que - e isso é o que mais me choca - tantas mulheres se esforçam por escamotear. Foi só para sublinhar isto que as associei, Fernando.
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De Fernando Sousa a 06.02.2019 às 20:29

Eu percebi isso, Teresa. Alertei só para a dificuldade em perceber o que se passa num écrã onde são projectados simultaneamente vários filmes. Quando vier o intervalo vamos saber do que estamos a falar? Não se baralha tudo?
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De João André a 07.02.2019 às 11:03

Concordo que são questões diferentes Teresa, mas habitualmente têm uma linha condutora comum: a parte agressora tem uma posição de dominância sobre a parte agredida. Neste contexto também podemos colocar outros casos do #metoo, como os de Kevin Spacey e Asia Argento, onde o abuso (que também é violência) não é de homens contra mulheres, mas da pessoa de maior poder contra a de menor.

Há no entanto um contexto cultural que deveria evitar empacotar as discussões. Machismo e atitude de "posse" dos homens sobre as mulheres serão, mesmo sem violência ou abuso/assédio sexual, provavelmente mais comuns que os casos contra idosos.
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De JPT a 06.02.2019 às 19:29

Sendo a maior parte dos agressores doentes mentais (muitos, aliás, suicidam-se após praticarem os homicídios), não ocorre a ninguém que a exposição pornográfica destas situações gera um efeito de emulação? Será, realmente, a solução para um problema cuja exposição mediática não pára de aumentar (só se pode comparar ao futebol), aumentar o nível de exposição mediática?
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De Teresa Ribeiro a 06.02.2019 às 19:51

Noutros temas, defendo essa contenção mediática - neste caso, e uma vez que se observa tanto negacionismo por parte de homens e mulheres, tem esta função, a de meter a realidade pelos olhos dentro, mesmo de quem não quer ver.
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De João André a 07.02.2019 às 11:07

Curioso que tantas vezes esses doentes mentais acabem por agredir mulheres mais que outros homens.

A doença pode explicar tendências agressivas, mas não o facto de as mulheres serem mais frequentemente alvos. Para isso temos que olhar para contextos culturais e sociais, onde as mulheres são mais facilmente objectificadas e habitualmente vistas como mais fracas, com tal como alvos mais apetecíveis.
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De JPT a 07.02.2019 às 11:19

Parece-me que falta alguma frieza (ou, se preferir, cinismo), nessa análise. É, em regra, mais fácil agredir uma mulher do que um homem. As mulheres não são "vistas como mais fracas". Em regra, elas são fisicamente mais fracas. Por isso é que há mais gente a assaltar caixas multibanco que bancos. A isso acresce o facto, que me parece manifesto, de a sexualidade (ou a falta, supressão ou frustração da mesma) ser o aspecto que mais depressa conduz à acção irracional, violenta ou não, contra terceiros ou não, e de, como diria o Sr. Freud, poucas patologias mentais estarem totalmente dissociadas da sexualidade.
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De João André a 07.02.2019 às 15:17

Completamente de acordo. Apenas preferi não dar azo a todo o meu cinismo em relação ao caso. Mas é verdade: os fracos são sempre vistos como alvos. Só que uma diferente perspectiva sobre as mulheres ajudaria a reduzir a objectificação delas e talvez reduzisse a influência do elemento sexual na agressão.
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De Anónimo a 07.02.2019 às 11:43

Mas em geral as mulheres são mais fracas. Por muito agressivas que as pessoas sejam, quando querem exercer esses ímpetos fazem-no com quem percepcionam serem mais fracos. É a parte animal do ser humano.
Por isso a violência doméstica ser maioritariamente feita sobre mulheres, idosos e crianças. Se formos verificar os casos de violência doméstica efectuados por mulheres documentados quase de certeza que iremos verificar que as vítimas são maioritariamente idosos e crianças.

Com isto não quero dizer que não haja muita coisa errada na relação homem-mulher neste mundo em geral e em Portugal em particular.

Tem a ver com relações de poder (físico, monetário, profissional, etc.). E por muito que se tente igualizar a situação em várias das relações de poder (completamente de acordo), na parte do poder físico a mulher será sempre inferior ao homem (em geral), e consequentemente mais frequentemente vítima de violência.

João Costa
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De Teresa Ribeiro a 07.02.2019 às 18:42

Acredito que é atávico, João. Vem mesmo do tempo das cavernas. Não por acaso esta história de violência sobre as mulheres é transversal a todas as sociedades e desde tempos imemoriais. Se retirarmos a fina camada de verniz que ganhámos ´com o progresso civilizacional, o que fica são instintos básicos: me Tarzan, you Jane!
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De Anónimo a 07.02.2019 às 19:15

Acho que a camada não é assim tão fina.
Aliás acredito que a maioria das pessoas em geral, e neste caso dos homens em particular, não se revêm nas situações descritas no texto.

Mas mesmo que apenas 1% dos homens o sejam. Serão mais de 50.000 casos, só em Portugal. Mesma coisa com as mulheres. Com a diferença que têm, inerente da condição física, menos vítimas com que "trabalhar".

A violência sobre mulheres, idosos e crianças é transversal à história da humanidade. Porque são mais fracos. A história da humanidade é a história do domínio dos mais fortes sobre os mais fracos, o Homem sobre os animais, os romanos sobre os bárbaros, os mongoís sobre os europeus, os europeus sobre os africanos... A violência sobre outra pessoa, qualquer outra pessoa, homem, mulher, criança ou idoso, é apenas a definição mais pequena e pessoal desse instinto. O domínio sobre a fraqueza.

João Costa
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De Octávio dos Santos a 06.02.2019 às 22:40

«Manchete do i - "Já morreram mais mulheres, proporcionalmente, em Portugal do que no Brasil".
Manchete do JN: "Só num ano Estado apoiou 18 órfãos de violência doméstica (maioria dos casos são de crianças que viram a mãe morta pelo pai).
Manchete do Público: "Violência doméstica - 85% dos casos não resultam em acusação (no caso do duplo homicídio do Seixal, MP abriu inquérito apenas por coacção e ameaça).»

Para que estas manchetes diminuam, ou até desapareçam, eu já propus uma solução... aqui no Delito de Opinião:

https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/convidado-octavio-dos-santos-9411467
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De Joao a 07.02.2019 às 10:12

Professora julgada por assassinar o marido; rosa grila matou o marido; filha matou a mãe adotiva; mae atirou-se ao rio com o filho provocando-lhe a morte ( motivo o ex deixou-a), mulher levas as duas filhas mar dentro em pleno inverno, provocando-lhes a morte; mulher incendiou casa onde estavam as duas filhas. 80 % das denuncias de abusos sexuais são falsas, sendo arma para atingir os seus ex companheiros / maridos, sujeitando os filhos a todo um processo com exames, policia e toda uma manipulação.
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De Teresa Ribeiro a 07.02.2019 às 18:50

Não adianta ir buscar exemplos de mulheres agressoras. Claro que também há. O que se discute aqui é a expressão estatística dos crimes contra as mulheres.
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De João André a 07.02.2019 às 11:05

Estive para referir este aspecto Teresa. Não é possível dissociar o movimento #metoo da violência doméstica contra mulheres. Homens que pensam que podem apalpar mulheres e tratá-las como objectos serão também mais propensos a exercer violência contra elas.
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De Teresa Ribeiro a 07.02.2019 às 18:45

É isso, João André!
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De António a 07.02.2019 às 13:24

Tenho uma opinião sobre o que Teresa Ribeiro expôs. Creio que é uma opinião realista. Creio que é fundamentalmente correcta. Creio que poderia contribuír para uma argumentação necessária. Não é 100% coincidente com a opinião de Teresa Ribeiro (apenas uns modestos 90%), e eu não sou mulher, por isso vou guardar essa minha opinião para mim. É a lição que aprendi - calar-me.
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De Anónimo a 07.02.2019 às 19:47

A sociedade actual ESTUPIDIFICA as pessoas e depois alguns queixam-se que as pessoas são estúpidas, etc.

O problema deve ser visto na sua raiz. Também os media dão demasiado valor ao futebol, etc, e depois alguns queixam-se que existem excessos nas claques, assim não admira!

Não devem culpar apenas o cidadão comum que está cá em baixo, mas TODA uma manipulação que existe para ESTUPIDIFICAR as pessoas como falar das pequenas coisinhas, mas não das grandes.

Mas "no pasa nada", eu é que sou o errado!
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De Anónimo a 08.02.2019 às 10:41

Como eu disse, neste país da manipulação e do "circo", "no pasa nada".

Vejam este artigo e os comentários.
https://ionline.sapo.pt/artigo/645646/entre-marido-e-mulher-meta-a-colher?seccao=Opiniao_i
O flagelo da violência doméstica não se resolverá de um dia para o outro e basta ver o que pensa do fenómeno o juiz Neto de Moura, que ilibou um agressor porque a mulher era adúltera.

Como os comentários referem e bem, o que o artigo diz não corresponde à verdade, condenar a pena suspensa é diferente de ilibar. E seria importante falarem nos argumentos usados pelo Tribunal de 1ª Instância.

Agora pensem em toda a manipulação que deve existir pois não sabemos o que é escondido.
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De s o s a 07.02.2019 às 23:30

diz a FIFA , agora (aqui ao lado ), que o futebol masculino dá dinheiro, enquanto que com mulheres ´
e so custos.

Sendo que até parece, todavia é falso que se matem mulheres á farta ...

Mas o post nao é polemico, e portanto nao é passivel, nao requer abordagem politicamente livre.

Ainda assim, os 18 orfaos, sao nadissima perante os tantos milhares de crianças a cargo do estado, provenientes de pais pouco mais que parideiros ... esse sim um problema gravissimo, quer para os contriibuintes quer para as crianças
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De Anónimo a 08.02.2019 às 09:02

jordan peterson
Aborda muita coisa de forma profunda, e nao leviana como se ve em quase todos os artigos que nos mandam aos olhos todos os dias.
Sugiro a pesquisa e visualizacao das muitas palestras deste senhor.
A bem de todos.

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