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No mundo das novas censuras

por Pedro Correia, em 14.11.19

enero2015[1].jpg

 

1. Censura de imagem. Fotografias de um vulgar e suculento cozido galego - muito semelhante ao nosso, mas com grão - foram banidas do Instagram, por decisão de um anónimo comité censório dessa rede social. Alegação: aquelas imagens de enchidos mesclados com vegetais «infringem as normas comunitárias» pois contêm suposta «violência gráfica e linguagem [visual] que estimula o assédio ou nudez e actividade sexual». Um galego de Vigo, que publicou estas imagens em homenagem ao «primeiro cozido da temporada» em casa da mãe, senhora de aparentes virtudes culinárias, não esconde a perplexidade, alegando ter-se limitado a fotografar os alimentos tal como estavam na travessa. Presume-se que a «violência gráfica» do chouriço e do repolho tenha ferido sensibilidades de alguns devotos das religiões vegetariana e vegana.

 

2. Censura de linguagem. A Air Canada anunciou que deixará de dirigir-se aos passageiros recorrendo ao anacrónico tratamento «senhoras e senhores»: evita assim ferir putativas susceptibilidades de género, designadamente das pessoas de sexualidade «não especificada». Passarão a ser designados, uns e outros, por «toda a gente» em obediência ao novo cânone da absoluta neutralidade de género. Falta saber por quanto tempo, pois esta expressão antropocêntrica promete por sua vez ferir as susceptibilidades de alguns animais.


42 comentários

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De C.S. a 14.11.2019 às 09:40

Estou perplexa. Acho que estamos, enquanto sociedade, a cair numa onda exagerada de regulação e censura, porque não dizê-lo, que me assusta.

Basta uma pessoa achar que uma foto de um cozido é imprópria e puff... Lá se vai a foto. Isto não é uma afronta à liberdade de cada um?

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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 09:43

A nova censura anda aí, Cátia. Assanhadíssima. A policiar palavras e a interditar imagens. O passo seguinte é reprimir os pensamentos. Com a nova tecnologia, cada vez mais sofisticada, não tarda a chegar lá.
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De Vorph Valknut a 14.11.2019 às 09:50

Banamos e danemos o Insta, mais Facebook, Twitter e os CTT
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De C.S. a 14.11.2019 às 13:58

É assustador. Basta uma pessoa não concordar com uma foto nossa, faz uma denuncia e a foto desaparece. As pessoas parecem não entender que ao agirem dessa forma estão a colocar a liberdade do outro em causa.
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 21:43

Algumas - muitas até - chegam ao ponto de aplaudir coisas destas. Sem se aperceberem que estão a apoiar novas formas de censura.
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De Vorph Valknut a 14.11.2019 às 09:44

"infringem as normas comunitárias pois contêm suposta «violência gráfica e linguagem [visual] que estimula o assédio ou nudez e actividade sexual».

Será por os enchidos terem uma forma peniana?

Após tamanho repasto o estímulo que me sobra é o de ir para a caminha nanar.
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 09:48

Se for cozido à portuguesa, acompanhado por tintos como o Flor do Tua (Douro) ou Vinha Maria (Dão), torna-se ainda mais pecaminoso.
Nem me atrevo a reproduzir aqui os rótulos.
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De Robinson Kanes a 14.11.2019 às 10:33

Flor do Tua ainda ontem marchou... Espero que não tenham feito sofrer muito as uvas no esmagamento.

Um cozido galego e uma Fabada Asturiana? Ui, maravilha.

Quando chegamos a extremos, todos sabemos como acaba. Eu bem digo e já falei muito sobre isso nas minhas bandas: qualquer dia vou ter medo de dizer que sou hetero, que como carne (muito menos que antes, mas ainda como) e tantas outras por aí adiante...
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 21:45

As patrulhas vegetarianas e as madres superiores do veganismo andam cada vez mais atentas ao menor indício de fuga à norma. Qualquer dia teremos de comer bifanas ou rojões na clandestinidade.
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De Vorph Valknut a 14.11.2019 às 22:11

Pedro, como é que um tipo frita uma bifana na clandestinidade?
A adicionar a esta dificuldade, temos depois os "nomes de código":

Torresmo Veiga
Cataplana Martins
Bifana de Sá
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 22:22

Camufla-se a bifana debaixo de uma espessa cama de rúcula.
Os rojões fritam, ocultos, numa frigideira atrás de uma enorme panela onde cozem brócolos e espinafres.
E a salsicha fica disfarçada sob um tecto de quinoa e soja.
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De Vorph Valknut a 14.11.2019 às 22:47

No Instagram mostram-se os cus das Kardashian , mas os cozidos estão banidos. Penso que a solução é pedir à Kim que faça o cozido
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 22:52

Preferem o cuzinho à cozinha.
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De Bruno Santos a 14.11.2019 às 10:05

Depois admiram-se da ascensão da extrema direita. Em muitas matérias (não todas, claro está) limitam-se apenas a propor o regresso desta merda à normalidade.
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 22:23

Em ascensão, imparável, está a extrema dieta.
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De Anónimo a 14.11.2019 às 10:43

Jornalistas a favor da censura:

https://www.city-journal.org/journalists-against-free-speech

The result is what Dean Baquet, the New York Times executive editor, recently called a “generational divide” in newsrooms. The progressive activism of younger journalists often leaves their older colleagues exasperated. “The paper is now written by 25-year-old gender studies majors,” said one Washington Post veteran. She wouldn’t speak for the record, though: as fragile and marginalized as these young progressives claim to be, they know how to make life miserable for unwoke colleagues.

A "fragilidade" é simplesmente uma tactica auto vitimização para obter poder, ascendência e justificar a si próprios censura e violência sobre os outros.

A ironia é que mecanismo que recompensa politicamente a vitimização foi precisamente criado e instituído pelos jornalistas seniores que agora se queixam dos mais novos.
No fundo bárbaros, recompensaram com propaganda sempre quem "arranjava" vítimas civis instituído um mecanismo de recompensa política.

Como as história se repete os revolucionários velhos acabam muitas vezes às mãos dos revolucionários jovens, até que os velhos se apercebem e impedem qualquer jovem de subir ao poder como na URSS. Morrendo o regime de velhice...

Atente-se nesta frase e depois digam se alguma civilização pode sobreviver com a Overton Window a ser determinada por:
“The paper is now written by 25-year-old gender studies majors,”



lucklucky
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De Anonimus a 14.11.2019 às 11:12

A internet tornou a estupidez fácil, prática, cómoda e, acima de tudo, rentável.
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 21:50

Podia ser pensamento da semana.
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De Anónimo a 14.11.2019 às 11:19

Estou boquiaberta e começo a ficar assustada. Não quero voltar ao tempo da ditadura, o mote está dado e o caminho paulatinamente começa a fazer-se nesse sentido. Começo a sentir um certo desconforto de conversar sobre coisas do dia-a-dia. Não é que me confronto, a olhar em redor, receosa por manifestar uma ideia ou opinar sobre qualquer assunto que não coincida com as ideias destes críticos de meia tigela que nos infernizam.

Paira no ar e de forma inquietante um ambiente muito bafiento.
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 11:20

É o "novo normal", como agora se diz.
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De Isabel Paulos a 14.11.2019 às 11:23

Começou com parte substancial das mulheres e dos homens (perdão, toda a gente) a ser engolido pela voragem do aparente, numa emancipação artificial. Como modelo de felicidade apareceram os casais delgados muito alinhados, iguais aos dos anúncios a margarinas magras com sabor a manteiga, ele de ar blasé, de camisa azul clara aberta, calças de sarja bege e sapatilhas adidas, ela de blusinha de viscose, saiinha a condizer e sapatinho de bailarina, ambos a sorrir muito para irradiar aquela felicidade pessoal e profissional que se reconhece ter sido alcançada com a prática da outrora auto-ajuda, hoje coutching.

A seita dita proibições na alimentação e as impõe o exercício físico. A seita com muitos e muitas beatas prontos a catequizarem todos os hereges que não resistem aos pecados capitais da gula e da preguiça. Começaram por ser adeptos do chamado estilo de vida saudável e vão alargando o seu campo de acção. Cada vez que os contestamos (a medo, nunca se sabe) temos de ouvir sermão e missa cantada. Porque é blasfémia, porque deturpamos tudo e só estamos a demonstrar a nossa ignorância e apego aos mitos antigos.

O facto é que quando se começa por confundir apetite, desejo e humanidade com perversão acaba-se a ver pecado numa simples travessa e a pugnar pela ausência de corpo, esse pedaço de culpa, que a modernidade há de querer esconder.
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 21:46

Excelente comentário, Isabel.
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De Isabel Paulos a 14.11.2019 às 22:45

Obrigada, Pedro.
As ditaduras da moda revolvem as entranhas.
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De Anónimo a 14.11.2019 às 11:27

Bom dia, estamos a ofender o Islão , essa religião da paz e o amor .
Na mesma onda , parece que o Bernardo Silva vai ter aulas de reeducação , só espero que não seja na Sibéria.

Luis Almeida
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De Pedro Correia a 14.11.2019 às 21:47

Na próxima vez que fizer uma graçola nas redes sociais, o Bernardo leva cem chibatadas.
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De Luís Lavoura a 14.11.2019 às 11:29

O cariz sexual da fotografia da frente é bem evidente: a salsicha tem um aspeto claramente fálico e encontra-se encostada ao grelo.
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De Anónimo a 14.11.2019 às 11:43

E ainda há quem ande por aí a perguntar-se o porquê da decadência ocidental...
E estes são exemplos ridículos e, até certo ponto, inofensivos.
Valha-nos a ironia de ser o Leste europeu, acolitado pela "Santa Rússia", o bastião que resiste a esta "sin verguenza"...


JSP
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De Anónimo a 14.11.2019 às 19:13

Não há nada inofensivo nisto. Uma pessoa não pode colocar uma imagem de um prato de comida.

Foi precisamente por muitos terem considerado inofensivo e ridículo os ataques anteriores que chegámos aqui.

A ironia é que boa parte dos protestam "apoiou" a Hillary Clinton e onde já nós estaríamos se ela tivesse ganho.


lucklucky

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