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Delito de Opinião

No hospital d' aquém-Tejo

jpt, 05.06.20

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Uma indisposição, felizmente não gravosa, de familiar bem próximo conduziu-me ontem ao hospital distrital deste aquém-Tejo. Na triagem a categoria atribuída foi verde (bela cor, claro). Após 2 horas e tal de espera telefono a médica amiga, "fita verde? aí? Tens para oito horas...", e sosseguei, qual esse outro Flávio, o estóico tio-avoengo Marco Aurélio. Enfim, foram mais de sete horas de espera. À porta, em pé - ali há apenas um pequeno banco, para duas pessoas, alambique de covid-19. O cafézito, pepsi-cola a 1,8 euros? "Posso-me sentar? Sim, durante 20 minutos" diz-me a simpática "colaboradora" (como agora sói dizer-se), imune à decerto ilegalidade da afronta."Porque não foste ao hospital ...!?", o privado, claro, depois, já noite mesmo, e isso neste Junho de ocasos lentos, me barafustaram amigos. Sorrio, não elaboro introspecções, e nunca em público. E muito menos falo deste escândalo do funcionalismo público. Ululantes na verborreia dos "direitos adquiridos" e das nobres causas. Mas na hora doente alheados - por via dos privilégios do tal funcionalismo - de nós ali, a obesidade pobre, velhos pouco-validos, os sotaques agudos e ondulantes, ciganos, apatetado eu e talvez algum outro, negros (pós)imigrados. Para quê falar disso se o meu familiar está bem, para quê resmungar?

Simpáticos os "seguranças" como agora se chamam os contínuos, desprovidos da arrogância que os uniformes tanto convocam. "Posso entrar só para ir ver o meu ai-Jesus?", pergunto a um deles. "Sim, mas pouco tempo, sff" anui. E lá está a "carne da minha carne", sentada na cadeirinha de plástico fixada à parede, ombreando com a longa de fila de doentes, todos mais juntinhos do que os passageiros da TAP a olharem em frente, como manda a dra. Graça, a Freitas ("vão visitar os idosos", dizia ela quando os tontos espanhós fecharam os lares e o povo gosta da senhora, "tão competente", e a burguesia e o funcionalismo público ainda mais gosta pois "tão PS"). Repito, ombro a ombro, ali estão os doentes, da fita amarela até à menos urgente.

Falar disto para quê, se o meu familiar está bem, para quê resmungar? No caminho para casa conta o "sangue do meu sangue", na estupefacção de quem tal nunca vira, "ao meu lado um doente velho dizia ao telefone "não via uma coisa destas desde os tempos da Guiné", e eu imagino-lhe a tatuagem "amor de mãe, 70-73", veterano agora transposto para hospital de campanha. "As velhinhas na maca a pedirem água e ninguém lhes dava" e eu a relativizar, coisas da necessária dureza do trabalho hospitalar. "As enfermeiras aos gritos umas com as outras e a não ligarem aos doentes", e eu aduzindo que talvez sejam "auxiliares", que há destrinça nos uniformes, etc. É a era do Covid-19, dirão. Mas talvez não seja. É este aquém-Tejo, célebre pela rudeza das gentes, cultura ríspida. Talvez, ainda que isto aqui seja de povoamento tão recente. Pois, de facto, apenas é.

Portanto, uma indisposição, felizmente não gravosa. À qual se segue uma mudança nas vidas. Deslocações. E quarentenas. Não porque não possamos apanhar o tal covid-19 (tão anunciado no tal hospital). Mas porque não posso conviver com os meus circundantes, os tais "grupos de risco". Porque estivemos num hospital, público. Comandado pela simpática ministra. "O barato sai caro", diz o povo, condenado ao barato.

Entretanto, nem eu posso ir à bola nem o tal familiar pode ir às festas, ralhou-lhe Sousa.

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