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O evangelho dos marginalizados

por Pedro Correia, em 12.03.15

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«Amados irmãos novos cardeais, com os olhos fixos em Deus e na nossa Mãe, exorto-vos a servir a Igreja de tal maneira que os cristãos - edificados pelo nosso testemunho - não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial. Exorto-vos a seguir Jesus crucificado em toda a pessoa marginalizada, seja pelo motivo que for; a ver o Senhor em cada pessoa excluída que tem fome, que tem sede, que não tem com que se cobrir; a ver o Senhor que está presente também naqueles que perderam a fé, que se afastaram da prática da sua fé ou que se declaram ateus; o Senhor, que está na cadeia, que está doente, que não tem trabalho, que é perseguido; o Senhor que está no leproso, no corpo ou na alma, que é discriminado. Não descobrimos o Senhor se não acolhermos de maneira autêntica o marginalizado. Recordemos sempre a imagem de São Francisco, que não teve medo de abraçar o leproso e acolher aqueles que sofrem qualquer género de maginalização. Verdadeiramente, amados irmãos, é no evangelho dos marginalizados que se joga, descobre e revela a nossa credibilidade.»

 

Palavras de Francisco no remate da homilia da missa com os novos cardeais em Roma, a 15 de Fevereiro. Palavras que fazem qualquer católico orgulhar-se deste Papa, eleito há dois anos - data que amanhã se comemora.

Nesse mesmo dia 13 de Março de 2013 escrevi no DELITO sobre o cardeal Bergoglio: «Apareceu com ar despojado, fraterno, repassado de fragilidade humana. De braços caídos, sem pedir aplausos, com um sorriso tímido, parecia querer dizer aos mil e trezentos milhões de crentes que o reconhecem a partir de hoje como dirigente espiritual que está disposto a aceitar este imenso desafio que o destino lhe proporciona embora não se sinta verdadeiramente digno dele».»

À medida que o tempo passa, cada vez encontro mais motivos que corroborem a excelente impressão inicial transmitida por este homem que foram «buscar ao fim do mundo», como o bispo de Roma disse dele próprio nessa sua primeira aparição no balcão da Basílica de São Pedro.

 

E, a propósito, é para mim cada vez mais incompreensível o sectarismo de certa esquerda portuguesa, que recusou associar-se ao voto parlamentar de congratulação pela eleição do primeiro Papa não-europeu em 1200 anos. PCP, Bloco de Esquerda, 'Verdes' e seis deputados do PS - Pedro Delgado Alves, Mário Ruivo, Miguel Coelho, Isabel Moreira, Elza Pais e António Serrano - dissociaram-se desse singelo voto, que se limitava a isto: «A Assembleia da República, reunida em sessão plenária, saúda o Estado do Vaticano, a Igreja Católica e todos os que professam a sua fé, pela eleição do novo Sumo Pontífice.»

Alguns deles - os comunistas - não hesitaram meses depois em colocar-se ao lado da feroz ditadura norte-coreana, também num voto parlamentar. Amarrados ao seu persistente dogmatismo, entre o pontífice capaz de cruzar continentes apregoando a libertadora mensagem de Cristo e Kim Jong-un, preferem o tirano de Pyongyang, que condena todo um povo à servidão.

Deviam, também eles, meditar sobre a homilia papal que invoca o evangelho dos marginalizados. Com "disponibilidade total para servir os outros" como "único título de honra" do humanismo cristão. Contra todos os cálculos, contra todos os riscos, contra todos os medos.


4 comentários

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De Tiro ao Alvo a 13.03.2015 às 09:05

Inteiramente de acordo. Também me custa a aceitar que pessoas inteligentes, apenas por razões partidárias/ideológicas, apareçam a apoiar ditadores. Ou, então, estarei enganado e não serão inteligentes.
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De Pedro Correia a 13.03.2015 às 11:16

Pior ainda é apoiar esses ditadores com reserva mental, por mera sujeição à rígida disciplina interna, por receio de represálias do partido, que funciona como entidade patronal. Sucede em partidos cujos quadros dirigentes e intermédios são compostos quase em exclusivo por funcionários desses mesmos partidos, como é o PCP.
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De Luís Lavoura a 13.03.2015 às 13:15

o sectarismo de certa esquerda portuguesa, que recusou associar-se ao voto parlamentar de congratulação pela eleição do primeiro Papa não-europeu

Essa esquerda tomou, em minha opinião, a posição correta. O Estado português não é confessional e portanto nada tem que se congratular, ou deixar de congratular, pela eleição de qualquer figura de qualquer religião.

Os seguidores dessa religião naturalmente que se congratulam, mas o Estado não é confessional e portanto não se congratula.
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De alberto c. a 13.03.2015 às 23:10

O estado português não é confessional mas, na prática, as crendices maçónicas são tidas como dogmas e mais de 60% dos deputados do CDS ao PS e BE, com a única excepção do PCP lá estão, e no governo a defenderem e a imporem os dogmas daquela confissão secreta.

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