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Delito de Opinião

No cerejal

Paulo Sousa, 11.10.22

Já por aqui escrevi algumas linhas sobre duas felizes viagens à Ucrânia. Na primeira das visitas, juntamente com os meus companheiros de aventuras, tivemos a sorte da nossa chegada ter motivado um jantar com a família alargada dos nossos anfitriões.

À fartura dos pratos que nos foram servidos, concorreram o calor humano e os sorrisos. As continuas traduções do nosso vizinho, que ali nos recebia, ajudou à afinação da sintonia de todos os comensais. É certo que somos os quatros, ali representantes deste rectângulo, pessoas razoavelmente dadas e por isso incapazes de recusar mais um brinde proposto pelo mais velho da casa, o sogro dele. A bebida acastanhada, destilada em casa, e baptizada por nós como “bom material”, afinou a goelas e os espíritos e foram eles os primeiros a avançar com uma demonstração de cânticos populares. Pouco seguros do nosso repertório acabamos mais tarde também por alinhar na cantoria e chegamos mesmo a conseguir fazer um cânone da “Menina que estás à janela”. Uma coisa memorável.

Consciente da irrepetibilidade daqueles momentos, registei em áudio diversas passagens daquelas três ou quatro horas, quase até esgotar a memória do telefone.

Um dos cânticos ucranianos ficou-me na memória. Não reconheci uma única palavra, mas lembro-me com clareza da limpidez da voz do cantor, do sentimento transmitido e do silêncio quase total enquanto o mesmo foi entoado. Só o voltei a ouvir umas semanas mais tarde num almoço em jeito de ressaca da viagem.

Ontem, nas notícias, ouvi-o de novo e reconheci-o imediatamente. Centenas de habitantes de Kyiv cantavam-no no metro, enquanto se abrigavam dos mísseis russos.

A canção é a mesma, o povo também e não consigo ficar indiferente à serenidade que transmite, nem à impotência que sinto face ao curso da guerra.

Entretanto soube que se chamava No Cerejal (ou No Pomar das Cerejeiras segundo tradução directa do Google) e, a partir dos inúmeros registos que se encontram na internet, pertence sem dúvida ao cancioneiro popular ucraniano.

Não me atrevo a elaborar sobre a exegese da letra que o Google traduziu e por isso deixo aqui apenas o seu texto.

Oh, no pomar de cerejeiras
Um rouxinol cantou lá
Eu pedi para ir para casa
E você não me deixou ir.

"Você é minha querida, e eu sou sua.
Deixe-me ir, o amanhecer chegou.
Minha mãe vai acordar,
Eles vão perguntar onde eu estava."

E você dá a ela esta resposta:
"Que linda noite de maio.
A primavera está chegando, traz beleza,
E tudo se alegra com essa beleza."

"Minha senhora, esse não é o ponto.
Onde você vagou a noite toda?
Por trança desamarrada,
Há uma lágrima em seu olho?"

"Minha trança está desamarrada -
Suas amigas desamarradas.
Uma lágrima brilha nos olhos,
Porque eu estava me despedindo da minha amada.

Minha mãe, você já está velha
E estou feliz, jovem.
Eu quero viver, eu amo.
Mãe, não repreenda sua filha.

 

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