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No centenário de Vergílio Ferreira

por Luís Naves, em 14.01.16

Vergilio_Ferreira.jpg

 

No parágrafo final do romance Para Sempre, de Vergílio Ferreira, consta a seguinte extraordinária frase: “Pensa com a grandeza que pode haver na humildade”. Se houvesse uma definição do escritor, eu escolhia esta.

Vergílio Ferreira era um extraordinário autor de frases, mas sobretudo um escritor de águas profundas, cujos romances vão perdurar. Quando os historiadores de arte da próxima geração olharem para a literatura do século XX, é provável que descubram nele uma das figuras máximas deste período. Muito influenciado pelo existencialismo, o autor desenvolveu uma voz única, pela perfeição da prosa, coerência de pensamento, inovação estética e, no entanto, a sua influência parece diluir-se numa espécie de injusta amnésia temporária, pelo menos na generalidade dos meios de comunicação. Vergílio Ferreira continua a ser vítima do preconceito, daquilo que alguns dizem ter sido o mau-feitio, vítima certamente de o terem considerado conservador e da forma corajosa como criticou os excessos revolucionários, não embarcando nas capelinhas literárias do seu tempo e sempre crítico das facilidades do neo-realismo, que abandonou nos anos 40.

Como romancista, Vergílio Ferreira foi certamente inovador e original. É, apesar disso, lembrado por um texto mais tradicional, Manhã Submersa (1953). O próprio espantava-se com o êxito desse livro, que foi adaptado ao cinema. Trata-se de um encantador pequeno romance ou novela, com detalhes autobiográficos e história bem desenhada; também é um livro diferente da restante obra, que inclui ensaio filosófico, conto, romance e diário. Nesse conjunto inesgotável, não faltam trabalhos literariamente sólidos, que progressivamente se instalarão na memória, por exemplo, Aparição (1959), Alegria Breve (1965) ou Em Nome da Terra (1990), para citar três dos melhores; Mudança (1949) será talvez considerado no futuro como um importante livro de ruptura, com aspectos revolucionários na época em que foi escrito, mesmo a nível europeu.

Para Sempre (1983) será a sua obra-prima, é essa a minha opinião. Gosto também imenso de Estrela Polar (1962) e de Rápida, a Sombra (1974), dois livros que costumam ser menos referidos, mas que têm estrutura notável, usando (diria de maneira expressionista) o cenário exterior naquilo a que o autor chamava ‘o tom’ do romance. Estes dois livros falham parcialmente devido à definição menos conseguida das personagens dos narradores, ou seriam igualmente obras-primas.

Até ao Fim (1987) é outro livro que parece muito à frente do seu tempo e o mesmo se pode dizer de Pensar (1992), colecção de pequenos textos que podiam constar de um blogue inimitável, se na época já existissem blogues. O diário literário Conta-Corrente tem páginas imortais e é um fabuloso documento, mas vale sobretudo pela densidade de pensamento, a grandeza da visão poética e ali não faltam (ao contrário da lenda) momentos de humor e fina ironia, de mistura com observações do quotidiano, crónica e reflexões sobre escrita. Ao longo das suas páginas, a personagem do autor permanece um enigma.

Vergílio Ferreira estava obcecado com a percepção pública dos seus textos e tinha embirrações estéticas, por exemplo ele considerava que o enredo era um defeito e queria escrever romances de ideias, o que não é frequente na tradição da literatura portuguesa, tirando casos como Raul Brandão e, nas correntes contemporâneas, Gonçalo M. Tavares. O romance de ideias tem execução difícil e exige uma enorme bagagem cultural, pois no esqueleto da obra não está necessariamente uma história, mas uma inquietação filosófica. Vergílio Ferreira tinha essa cultura invulgar, mas que nunca exibia com pedantismo. Isso permitiu-lhe escrever com clareza de estilo, o que talvez explique a inegável influência sobre os actuais prosadores nacionais.

No próximo dia 28 comemoram-se cem anos do nascimento de Vergílio Ferreira, que faleceu em Março de 1996. Tive a sorte de poder contribuir para uma recolha de frases da sua autoria, num livro que deverá sair por estes dias editado pela Quetzal e que, espero, possa ser um pequeno contributo para que os leitores não esqueçam este enorme escritor português.

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10 comentários

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De Justiniano a 14.01.2016 às 14:54

A coisa começa a tornar-se aborrecida. Já esgotei os elogios ao caro Luis Naves, e, ainda assim, a cada texto que sucede vejo-me forçado a repetir elogios, enaltecer a qualidade da sua escrita e a pertinência do que discorre dos seus textos.
Um grande bem haja a todos;
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De Luís Naves a 14.01.2016 às 18:00

É muito simpático da sua parte.

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