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Ninguém deseja imitar a Irlanda

por Luís Naves, em 14.03.15

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Para o governo de Atenas, há duas hipóteses: avançam as reformas que a esquerda radical sempre recusou ou a alternativa será o abandono da moeda única, calamidade que implica um recuo de 30 anos. Ministros cheios de estilo, que entraram a matar, já enfiaram a viola no saco, mas os analistas nacionais continuam a detectar vitórias esmagadoras em todas as patéticas provocações que ajudam a empurrar aquele país para a porta de saída da zona euro. Aqui, os comentadores andam obcecados com a beleza e a dignidade do exemplo grego, mas nenhum deles explica que Portugal tem apenas de imitar a Irlanda. Quem não aceite as regras do Tratado Orçamental terá financiamento mais caro, não conseguindo pagar as suas dívidas. Todas as fantasias conduzem ao cenário grego da dependência externa. Pelo contrário, quem optar pelo rigor poderá recuperar a riqueza perdida durante a crise. Irlanda, Espanha e Portugal já desmentem as previsões económicas e, com substancial ajuda externa, inverteram a tendência de queda, obtendo crescimento e criação de emprego.

No entanto, em jornais e televisões, os comentadores que diziam que isto era impossível não alteraram um milímetro do seu discurso. A Imprensa esteve três anos a evitar a discussão central, confundindo desejos com realidade e sintomas com causas. Agora, sem leitores (os jornais perderam 40% da circulação em dez anos), a comunicação social não permitirá uma discussão política exigente, pois isso tornaria irrelevantes todas as análises nunca concretizadas: o País enfrentava a insurreição, a ruptura violenta, depois a espiral recessiva, mais tarde a necessidade de reestruturar a dívida e até a conveniência de sair do euro, a impossibilidade de terminar o programa de ajustamento, o horror social e a miséria eterna. A conversa mantém-se imperturbável, insistindo que os parceiros europeus erraram em toda a linha e que o nosso problema nunca foi causado por ilusões de megalomania, mas pela intransigência da Alemanha.

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9 comentários

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De Makiavel a 14.03.2015 às 16:59

"Para o governo de Atenas, há duas hipóteses: avançam as reformas que a esquerda radical sempre recusou ou a alternativa será o abandono da moeda única, calamidade que implica um recuo de 30 anos."

Não discutindo a veracidade (ou falta dela) na afirmação acerca do recuo de 30 anos em caso de abandono da moeda única por parte da Grécia, pergunto quantos anos já recuou a Grécia com o fundamentalismo austeritário que tem vindo a imperar na Europa nos últimos anos. A esse recuo não se refere o autor, mas ele está bem patente no recuo do PIB, no nível de desemprego e na calamidade social que estes liberais de bolso teimam em negar. Em Portugal, essa política provocou um recuo de cerca de uma década, a avaliar pela evolução dos indicadores macro-económicos tão do agrado dos economistas-adivinhadores de factos consumados. Em matéria de emigração, os níveis estão comparáveis com os da década de 60.
Chega a ser ridículo ouvir os defensores desta pandilha virem falar de crescimento económico e criação de emprego.
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De lucklucky a 15.03.2015 às 11:16

Mais um que não percebe nada de nada.

"...mas ele está bem patente no recuo do PIB..."

É claro que o PIB recua. Você sabe o que é o PIB?
Se até sabe vê-se que considera o dinheiro pedido emprestado pela Grécia que a transformou por momentos num país mais rico que a Itália como parte do PIB...

Ou seja para si não é uma riqueza artificial.

Se trabalha num Mcdonalds e pede empréstimos passando a ter um orçamento anual com mais metade do seu orçamento habitual... passa a acusar os outros porque quando já não lhe emprestam mais? O seu PIB diminui drásticamente!

Ou seja você não percebe sequer que para a riqueza voltar à riqueza que existia por causa do crédito, mas sem crédito- tem de deixar de trabalhar no Mcdonalds. Tem de aprender a fazer outra coisa que seja mais produtiva.

Porque a riqueza passada foi artificial só pelo crédito.
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De Makiavel a 16.03.2015 às 09:42

Presunções à parte, foquemo-nos no essencial: houve ou não houve recuo abissal com a política austeritária ou acha que este nível de recuo seria inevitável face ao nível de endividamento? Não me diga que faz parte dos teóricos da vivência acima das possibilidades? Haja pachorra.
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De s o s a 14.03.2015 às 23:53

os jornais sobrevivem, tal como os blogs. Só me faltou ler agora que a culpa da diminuiçao de leitores é da esquerda radical grega ou, vá lá, do socrates. Sim, concordo, nao houve insurreiçao, alias na qual nao acredito nem acreditei. Mas para alem de estarmos a conseguir dinheiro mais fácil, cena comunitaria, ou seja nao por merito proprio, mas nem isso aqui importa. Importa, atirar á cara dos radicais de direita e seus analfabetos, que continuamos endividados, mas principalmente dependentes do exterior. Explico melhor, mesmo que repentinamente nao tivessemos juros a pagar, nem mesmo divida, nao sobreviamos sem investimento externo. Esta é a questao !!! claro que o mundo é assim, e nao de outra forma, mas a treta da direita, radical ou menos, é desonesta.
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De lusitano a 15.03.2015 às 08:58

Quando virem a grecia a nao conseguir pagar aos funcionarios publicos nem fornecedores do estado, as escolas a fechar, os hospitais a parar causando mortes, enfim o caos, vao ainda culpar a alemanha, que foi a causadora disto...
Ora eu nao sou, de forma nenhuma simpatizante da alemanha, e tenho como um dos pilares fundamentais a honestidade. Se eu peço dinheiro a alguem eu adapto a minha vida de forma a pagar, se empresto dinheiro alguem espero os mesmos valores.
Quando entram em incumprimento já nao empresto mais. Você empresta ? E até perdoa uma parte da divida?
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De Anónimo a 15.03.2015 às 12:43

Esta é boa. É que acabo de emprestar dinheiro a um amigo (muito enrascado), quero que ele me pague mas penso que a possibilidade é muito remota (não lhe digo isto para manter a esperança de algum dia ver a pasta de volta).
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De Luís Marques a 15.03.2015 às 13:03

Concordo com o princípio (óbvio) de que quem deve tem de pagar. Gostava de ver alguns políticos de esquerda a governar um país segundo as políticas que defendem se ninguém lhes emprestasse dinheiro...
Porém há 3 elementos que não deveriam ser esquecidos (nem todos têm a mesma importância e até podem ter apenas um interesse histórico).

1) se cada um tem pagar o que deve, essa regra não se devia aplicar à Alemanha, que já beneficiou de um substancial perdão de dívida?
Onde está a moralidade do caloteiro para dizer aos outros que têm de pagar o que devem?
Repare que se poderia ainda falar dos danos causados durante a 2ª Guerra Mundial (aliás, a Alemanha com muito pouca história enquanto "Alemanha" causou por duas vezes danos que nunca conseguiria pagar...)

2) Sair do euro seria catastrófico para qualquer país (mais não seja porque o valor da dívida se manteria em euros e a nova moeda teria um valor significativamente mais baixo). Porém, é preciso dizer que para as economias menos "pujantes" a adesão ao euro foi um erro uma vez que se perdeu a "arma" cambial, dificultou as exportações e facilitou em certa medida as importações; o contrário do que as pequenas economias precisam. O euro beneficiou sobretudo as grandes economias.

3) A especulação da agência de "rating" agravou a crise uma vez que muitos capitais da Grécia (mas não só) "fugiram" para bancos situados fora do país, agravando a situação grega e ajudando ao financiamento alemão a taxas de juro próximas de zero %!

Para uma análise menos simplista, parece-me que estes elementos também deviam ser referidos, mas é só uma opinião...
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De João Carlos Reis a 15.03.2015 às 17:47

Prezado Luís,
apesar de tudo o que escreveu, devemos ter em conta que a Irlanda não é o melhor exemplo, pois tem as empresas que tem devido, não a uma estratégia industrial, mas sim fiscal, pois o IRC na Irlanda é metade (ou menos) do da esmagadora maioria dos países da União Europeia. (Eu ainda gostaria de saber como é que eles conseguem manter isso, pois se nós tentássemos fazer isso, as entidades da União cair-nos-iam em cima num instante...)
Logo o exemplo de desenvolvimento (adaptado, como é evidente, a cada país) que teremos que seguir é, apesar disto indignar muita gente enganada nas suas ideias, a Alemanha, pois, só por um "pequeno" exemplo, enquanto que a generalidade dos países subiu a idade da reforma, a Alemanha... baixou-a... dá que pensar...
Quanto à regressão social que se verificou em Portugal, bem como na Grécia, é devido ao seguinte conjunto de factores: todos os governos no pós-25 de Abril de 1974 se têm empenhado (uns mais, outros menos e, como é óbvio, com a ajuda da grande maioria dos nossos maiores empresários, pois o governo sozinho não consegue fazer tudo) no subdesenvolvimento económico da nossa Pátria e, consequentemente, dos nossos concidadãos. Como "pequeno" exemplo (entre muitíssimos) o actual primeiro-ministro fez, em democracia, exactamente o mesmo que um advogado de má memória fez em ditadura assim que chegou ao poder: seguiu o caminho mais fácil, aumentando os impostos e empobrecendo o país e os seus habitantes. Coincidência (ou talvez não) é que ambos se orgulham destes seus feitos...
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De Diogo Moreira a 21.03.2015 às 02:39

O Luís Naves continua a tentar ver o mundo a preto e branco, os "nossos" contra os "deles". E, por causa disso, volta a insistir no mesmo: o caminho da recuperação é único e passa apenas e só pela austeridade.

Voltemos um pouco atrás e vejamos a dinâmica da Zona Euro, destino e origem da maioria das nossas trocas comerciais. Ora, o que aconteceu foi que a dinâmica de uns (nomeadamente a Alemanha) contra-balanceou a dinâmica de outros (Portugal, Espanha e Grécia, por exemplo).

Tudo isto poderia ser prolongar-se mais uns tempos se se mantivessem as condições de financiamento nos mercados financeiros internacionais. Mas uns quantos "sobredotados" inventaram formas cada vez mais criativas de sacar dinheiro a outros (com os famosos - mas opacos - CDS, Credit Default Swaps). Com o aval das agências de notação financeira, coisas como créditos 'subprime' foram vendidos como activos sem risco, como se fossem obrigações do Tesouro americano ou alemão.

Rebenta a bolha (ou o esquema ou o que se quiser chamar). A crise financeira é estancada com ajuda massiva dos Estados, que têm que pedir emprestado para evitar males maiores. E os oportunistas atacam: Trichet aponta a credibilidade como única variável fundamental do discurso económico, não colocando o BCE como garante de último recurso da União Monetária - as taxas de juro de países periféricos começam a ser apertadas, gerando belos lucros para os especuladores financeiros. Portugal atinge os ridículos 7% vaticinados por Teixeira dos Santos, o Governo de Sócrates entretém-se com PEC e cai.

Vem Passos Coelho e a 'Troyka' - que garantem, contra toda a literatura económica sobre o assunto, que o caminho é o da austeridade nas contas públicas porque os cidadãos andaram a viver 'acima das suas possibilidades'. E a crise, originada pelo sector financeiro, é para ser paga pelos contribuintes! A Irlanda foi entretanto apertada pelos mesmos poderes e teve que pagar uma dívida dos seus bancos totalmente desproporcional.

A Grécia desaparece das notícias, porque o capitalismo que se institui é do mais baixo nível, isto numa Europa defensora dos valores humanos! A Irlanda endivida-se, paga a factura com desemprego e o PIB começa a crescer (mas ainda longe de atingir os níveis pré-crise) devido à indústria farmacêutica (altamente intensiva em capital/maquinaria); porém, nem isso é boa notícia para os irlandeses: como a maioria das empresas são multinacionais, repatriam os seus rendimentos e, face à baixa taxa de IRC, pouco fica na Irlanda do que ali é produzido. E ainda se tem a lata de dizer que este é um país de sucesso!

Tal como em Portugal, as metas na Grécia nunca foram cumpridas - tendo mesmo originado muitas alterações ao programa original, piorando o que já estava mau. A receita é cobrar mais impostos aos residentes (IVA e IRS) e diminuir às empresas (IRC). Porém, como o problema é a falta de poder aquisitivo, as empresas não vendem e, por isso, não contratam...

Chega Draghi e coloca o BCE a fazer de verdadeiro Banco Central. As taxas das dívidas soberanas descem de maneira generalizada na Zona Euro. Porém, os 'iluminados clubísticos' apontam a austeridade como o factor fundamental nessa redução. O FMI, através do seu centro de estudos, chega à conclusão que as políticas seguidas tiveram o condão de piorar a situação - e o que os decisores fazem? Aplicam mais da mesma austeridade destrutiva!

A União Europeia decide criar um Tratado Orçamental. Como se a Economia fosse regulada na secretaria! Veio introduzir mais uma distorção neste caldo de erros e enganos - e o Luís afirma que só por aí nos iremos salvar!...

A saída do Euro é um cenário em cima da mesa - apenas e só porque uns quantos acham que podem ficar incólumes às ondas de choque que daí advirão. Dificilmente os especuladores ficarão quietos - Portugal será o próximo a abandonar o Euro. Depois, provavelmente Espanha (que a sua bolha imobiliária ainda não foi curada). E depois de Espanha desmorona-se a União Europeia e Monetária - a Espanha é demasiado grande.

Aqui no burgo, vamo-nos entretendo a dizer que uma cor é melhor que a outra só porque eu gosto mais... E ignora-se os factos que entram pelos olhos dentro. Ainda estamos a tempo de mudar - mas é preciso que não nos iludamos com os contos: olhe-se a realidade.

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