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Nihil obstat

por Rui Rocha, em 27.04.14

Já está. O Papa Francisco declarou hoje santos João XXIII e João Paulo II perante centenas de milhares de fiéis de todo o mundo. Pelo visto, à cerimónia assistiram 98 delegações de Estados e organizações internacionais, incluindo 24 chefes de Estado e monarcas, do Rei de Espanha a Robert Mugabe. Sei como são tortuosos os caminhos do Senhor, mas talvez fosse caridade cristã informar o Presidente do Zimbabué que o Vaticano ainda certifica santos mas já não vende indulgências. São tradições que se perdem e é pena. Imagine-se, por exemplo, o jeito que não daria por estes dias às crianças do Corno de África aquela coisa da multiplicação dos pães. O certo é que houve milagres, embora de outra natureza. São João Paulo II fez, só à sua conta, dois. E São João XXIII cometeu um. Temos portanto dois Papas e milagres temos três que é, como se sabe, a conta que Deus fez. Pelo que, se recorrêssemos à estatística que é uma outra forma de produzir milagres (veja-se a já estafada questão dos dois frangos comidos por um só mas que estatisticamente divididos por dois dão um frango a cada um), sairia a coisa à média de milagre e meio por Papa hoje santificado. Mas a manipulação, de números ou outra, não é para aqui chamada. Os milagres agora certificados em folha azul de vinte e quatro linhas foram devidamente analisados, estudados, escrutinados e finalmente reconhecidos por uma comissão de sábios e peritos lúcidos e independentes que aplicou no processo, Deus me perdoe, verdadeiro rigor científico. Veja-se o caso, por exemplo, de um dos milagres de São João Paulo II. Floribeth Mora Dias tinha um aneurisma que a medicina não podia curar. A 1 de maio de 2011, às duas da manhã na Costa Rica, esta católica acompanhou pela televisão a beatificação do Papa polaco, apesar de habitualmente não conseguir “acordar normalmente” e voltou a adormecer. “Às oito da manhã ouviu uma voz no quarto que lhe dizia "levanta-te”, recordou. Apesar de estar sozinha, voltou a ouvir "levanta-te, não tenhas medo” e identificou a origem do apelo numa revista comemorativa da revista de João Paulo II, com o Papa polaco na capa, com as mãos levantadas. E pronto, macacos me mordam se não estava curada sem necessidade daquelas mezinhas que o Bruxo de Fafe obriga os seus clientes a emborcar. Natureza diferente têm os outros dois milagres papais. Para que não se diga que santos da casa não os fazem, a cura dirigiu-se desta vez a membros da própria Igreja. João Paulo II curou a freira Marie Simone Pierre que sofria de Parkinson. E João XXIII salvou a religiosa  Caterina Capitani de morrer devido a uma perfuração gástrica hemorrágica. Ora aqui confesso a minha decepção. Apesar de maravilhosos, estes dois milagres, não desfazendo, parecem-me poucochinho. Noto que João Paulo II e João XXIII conseguiram curar as religiosas das suas doenças mas, apesar dos seus imensos poderes, foram incapazes de as fazer celebrar missa.

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5 comentários

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De Vento a 27.04.2014 às 13:12

Mermão,

sob o ponto de vista canónico há duas espécies de ocorrências que identificam a intervenção divina: o milagre (que se identifica por tudo quanto contraria a natureza) e a cura (que se identifica através de uma ocorrência inesperada de algo que podia levar meses ou anos a ter um fim, isto é, que a ciência pode resolver).
Aqiui chegados vamos aos principais milagres de um e outro santo.
João XXII:
Concílio Vaticano II. Facto extraordinário: quando lhe levam um programa para que se debata o que devia ser a Igreja apresentam-lhe a seguinte hierarquia:
Papa, bispos, sacerdotes religiosos e o povão.
Milagre: João XXIII risca tudo isso e escreve: POVO de DEUS. E sobre o Povo de Deus recomendo a leitura dos mais diversos documentos conciliares.

João Paulo II:
Facto extraordinário: Por duas vezes reune em Assis os líderes mundias de todas as religiões.

Agora faça a leitura de algo a que muitos poucos atribuem importância, isto é, a existência dos santos. Os santos estão aí não para corroborar umas teses de uma qualquer Igreja mas testemunhar, com seus actos, contra todos nós. Que isto nos faça pensar.
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De Carlos Cunha a 27.04.2014 às 15:35

com paletes de milagres no seu continente natal, e para todos os gostos, calhou em sorte ao papa francisco canonizar santos de milage e meio.

http://en.wikipedia.org/wiki/Milagros_Schmoll

http://www.caretas.com.pe/Main.asp?T=3082&S=&id=12&idE=1049&idSTo=0&idA=60076#.U10TKc7jjIV
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De Vento a 27.04.2014 às 19:31

Pois é, Carlos, mas ninguém vê o milagre que reside no fenómeno contracorrente. Este talvez seja fácil de compreender mas difícil de assimilar e concretizar.
Em torno da ciência e do milagre muito se poderá especular. Num país latino-americano, à semelhança do que se passou por todos os continentes, incluindo nos países africanos, nos mais recônditos lugares que a dita civiliazação pode chegar, ocorreram, e estão documentados, os mais diversos fenómenos paranormais. Vai daí, um grupo de psicólogos e psiquiatras decidiu atribuir uma série de processos bioquímicos, e mais que bioquímicos, a toda uma panóplia de acontecimentos que a medicina desconhece.

Após a apresentação do seu grande e enorme conhecimento em torno de todo o processo curativo e até milagroso, a questão que lhes coloco é a seguinte: Estando todos vós (esses), e mesmo os que não são dados a estas artes da ciência, tão cientes de todo o processo que conduz ao fenómeno, porque motivo não sois capaz de o fazer desencadear?

Vamos lá a exemplos:
Anita Siu de Sheffer (nome verdadeiro) teve um acidente de automóvel em Santiago do Chile. Uma lesão cerebral causou-lhe a perda completa dos sentidos, do paladar e do olfacto. Como possuia recursos financeiros pôde deslocar-se aos melhores hospitais dos EUA e consultar os médicos mais bem informados sobre a matéria na tentativa de recuperar sua saúde. Após exames e terapias, os médicos concluem que as fibras transmissoras que ocasionam a recuperação dessas funções são de tal forma finas que impedem qualquer tentativa de restabelecimento das comunicações e, consequentemente, da recuperação dos sentidos.
Anos mais tarde, no Panamá, participa numa assembleia cristã levada a efeito pelo já desaparecido Padre Emilliano Tardif (nome verdadeiro, homem também miraculado e recuperado de uma doença enquanto hospitalizado no canadá), as chamadas assembleias de "cura e libertação".
A assembleia foi concluida, aí foram proclamadas várias curas sem se referir a pessoas, e Anita vai para casa no mesmo estado em que se encontrava.
No dia seguinte, acordou com o suave odor da roseira que se encontrava junto à janela de seu quarto e ao mesmo tempo reconhece o odor do café que vinha da cozinha. Emocionada toma o café da manhã e dá-se conta durante a refeição que também tinha retomado o paladar.
Mais tarde, em reunião com vários membros da restante assembleia em que tinha participado, conta-lhes o sucedido e desabafa ainda mais:
"Tenho duas crianças mas nunca as pude cheirar. Vocês, mães, sabem o que significa perceber o cheiro dos filhos. Pois bem, esta manhã eu aproximei-me deles, abracei-os e comecei a cheirá-los suavemente".
In "Jesus está Vivo" de Emilliano Tardif e do grande teológo latino-americano (leigo) José H. Prado Flores.

Uma última resposta a seu comentário, Carlos. A Igreja celebra o dia de todos os Santos, a celebração diz respeito a todos os Santos de todo o mundo e de qualquer religião. E quando se celebram todos os Santos celebram-se todos os santos também desconhecidos.

A santidade não é algo que ocorre por agregação a fenomenologias, é um caminho, um percurso diário em que o homem se reconhece como fonte da causa do bem e do mal, e busca superar aquela outra natureza que é mortal e conduz à morte, a qualquer tipo de morte.

Já agora, aproveito a oportunidade para deixar-lhe a última mensagem que foi dada em Medjugorje, fenómeno que ocorre desde 1984, se tiver oportunidade investigue sobre todas as investigações levadas a efeito e desloque-se lá para ver o que está a ocorrer:
http://www.medjugorje.org.br/index2.php

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De da Maia a 27.04.2014 às 15:41

Caro Rui,
esta questão dos milagres é um processo científico.
Por assim dizer, é o "carro vassoura" do método científico... no sentido em que vai varrer para o campo milagreiro a fenomenologia que escapa a uma explicação razoável da ciência actual. Focou-se especialmente na medicina, mas seja como for reúne uma base de dados de "mistérios".

Doutra forma, como trataria a ciência esses assuntos?
Não trataria.
O método de classificação, associando a cura à convicção do paciente, relacionada com um "santo", é uma escolha que satisfaz a teologia associada.

O problema que vejo no método, é que se a pessoa estiver convicta que foi um animal, ou de modo geral, uma besta não católica, que originou o milagre da cura, isso não se enquadra nos cânones. Por isso, é um método algo limitado, mas varre uma parte do fenómeno.

Outra falha é que não cobre os casos de insucesso. Se o santo tenta salvar, em contraponto deve haver um demónio a impedir. Portanto, no trabalho de registo podemos saber quais são os santos que andam activos na cura, e falha a classificação dos demónios que andam a actuar no outro sentido.

Este processo católico deve ter origem na China, onde há uma multiplicidade de mortos que passam a deuses, e o seu templo é tanto maior quanto o sucesso dos milagres. Os devotos gratos investem mais, o templo fica maior, chama mais devotos, e o culto cresce. Mas depois se os resultados começam a falhar, o templo começa a ser abandonado por outro.
O processo chinês parece-me mais económico-científico, e afere de forma mais simples o sucesso actual da divindade, com o senão de que essas divindades podem ter vantagem em fazer milagres a quem tenha mais capital de investimento. Algo menos comunista que o modelo católico.

De qualquer forma, e para concluir, o facto de se colocar ao nível de milagre coisas inexplicadas pela ciência habitual, só mostra que a ciência habitual foi elevada a um estatuto de divindade justificativa.
Foi tendo essa pretensão, alimentada por imensos fanáticos da banha-da-cobra, ditos cientistas, pouco diferentes de pastores da IURD.

Assim, a ciência parece avançar, mas vai sempre deixar um imenso caos atrás, porque não compreende todo o detalhe.
Quanto mais a sociedade é convencida de que a ciência é suficiente para a explicação, mais espaço deixa para que as falhas sejam vistas como milagres... tão simples quanto isso.
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De IMMC a 28.04.2014 às 00:52

Li o seu post sem pensar em fazer qualquer comentário, tenho por hábito não entrar em 'discussões' religiosas por as considerar infrutíferas mas de repente lembrei-me de S. Tomé e da passagem do Evangelho lida hoje na missa e não resisto em deixar-lhe aqui esta passagem do que Jesus disse a Tome (que mais tarde foi Santo) : «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que crêem sem terem visto».

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