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Nice

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.10.20

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A motivação, o pretexto, se quiserem, é cada vez menos compreensível. E pela forma como se exprime, saindo violento das entranhas guturais das bestas, resume-se a uma frase banalizada. A grandeza Dele é ofuscada pela sua miséria moral.

O que aconteceu em Nice e regularmente se repete numa espiral incontrolável, muito mais em França, também na Bélgica e noutros locais outrora marcados pela aceitação do vizinho, de quipá ou com turbante, e pela outorga de um espaço de liberdade e responsabilidade a cada um, numa fraternidade serena e acolhedora mesmo quando as marcas da vida tornaram os dias mais longos e as noites difíceis e sofridas, tornou-se uma distante recordação.

Agora já não se trata de recebermos o outro com fraternidade e igualdade. O outro vai obrigar-nos a repensar a nossa relação, a deixar tudo o que se construiu para trás. Porque na violência insana nada se constrói, e nem mesmo o que foi erguido com o sacrifício de todos se mantém de pé.

Quando uma igreja, local de entrega, reflexão e paz se torna em local de emboscada para os indefesos, quando a loucura faz dela um talho onde o cutelo processa a degola dos sacrificados inocentes, e as bestas se comprazem vendo o sangue fresco escorrer pela pedra fria e silenciosa, não há diálogo possível.

Deixou de ser um problema de diálogo intercultural ou inter-religioso para se tornar num problema de sobrevivência. De todas as civilizações. Da humanidade.

Sim, porque se a violência, a barbárie, o terror, tudo isso a que estamos a assistir e cujo nome já não faz a diferença, é afinal, como escreveu Camus, "l'hommage que de haineux solitaires finissent par rendre à la fraternité des hommes", então não se poderá continuar a assistir à homenagem passivamente, deixando que a indiferença, o relativismo moral e ético e a banalização do mal, de que falava Hannah Arendt, façam apodrecer o que ainda resta de saudável para se voltar a construir.

É preciso matar o caruncho que se apoderou das estruturas e subiu pelas colunas dos templos. Há que domar a besta, trazê-la de novo ao caminho da razão. Sem vacilar.

A esperança é um pranto. A tolerância está de luto.


30 comentários

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De Bea a 30.10.2020 às 07:18

Toda a tolerância tem limites e só há aceitação se os dois lados jogam com iguais princípios e se encontram. Aquilo a que se assiste e se vai repetindo é intolerável e urge ser punido; punição que tem de ser firme e rigorosa, mas abrangendo apenas os envolvidos, não se condena um povo pelos desmandos odiosos e desumanos de alguns.
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De V. a 30.10.2020 às 07:37

Eu avisei.

Há mais culpados para além dos assassinos.
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De balio a 30.10.2020 às 08:35

em França, também na Bélgica e noutros locais outrora marcados pela aceitação do vizinho, de quipá ou com turbante

Isto é falso. A França tem uma longa tradição de intolerância e de guerras religiosas. As guerras entre católicos e protestantes em França foram muito duras e cheias de ódio. E muitos franceses colaboraram de muito bom gosto no Holocausto.
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De V. a 31.10.2020 às 02:05

Parvoíce. E o que é uma cambada de ratos do deserto têm a ver com isso, por acaso são os carrascos da História? Logo eles, assassinos, sanguinários e violadores.
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De Vento a 30.10.2020 às 08:46

O mundo ocidental ao renegar os princípios cristãos em favor dos petrodólares, abrindo-lhes as pernas escancaradamente, assinou sua sentença.

Os governos ditos laicos, mas putrefactos, serão os mentores das próximas cruzadas contra a escumalha deste género que eles mesmo promoveram. A laicidade destes gajos assentou na destruição dos valores éticos e civilizacionais do ocidente. Têm a resposta.

Espero que os cristãos se distanciem dos laicos e dos religiosos maçons quando estas se iniciarem. A guerra é deles, dos que destruíram as bases civilizacionais cristãs e dos que com elas pactuaram. A perseguição aos cristãos no mundo sempre foi vista como um mal menor.

A última encíclica de Francisco, não trazendo nada de novo ao cristianismo, também nada evitará sobre o futuro. Pelo contrário, é um reavivamento de princípios que os católicos há muito vinham fazendo e aplicando; e que os lóbis maçons, feministas e lgbtistas e também islamitas na ONU contrariavam, subvertendo através das leis as democracias ocidentais.

Para os islamitas radicais e extremistas a preservação de seus ditos valores passava pela corrupção do ocidente.
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De Pedro Correia a 30.10.2020 às 10:21

Muito bem, Sérgio.
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De Anónimo a 30.10.2020 às 11:00

Surpresa!

Defenderam e defendem a chegada de pessoas de civilizações que já deram bastas mostras de uma ideologia politico-religiosa supremacista : Islão.
Basta ver o que aconteceu aos Zoroastras e Baháʼí. "Grupos" que não fazem parte da narrativa pois não são úteis à esquerda que domina os jornais e universidades.
A extrema esquerda e boa parte da esquerda quer o Islão porque basicamente os vê como aliados que odeiam o Ocidente Liberal. Foram por exemplo os grandes votantes no supremacista social - por outras palavras Marxista - Corbyn nas ultimas eleições Britânicas.
Entretanto um ex-primeiro ministro Malaio já disse de sua justiça: Os muçulmanos têm o direito a matar milhões de Franceses
Censurado e manipulado por cá claro. Note-se como a notícia é escrita aqui:
https://observador.pt/2020/10/30/franca-twitter-retira-comentario-do-antigo-primeiro-ministro-da-malasia/

lucklucky
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De Miguel a 30.10.2020 às 16:29

A culpa dos atentados é dos assassinos (islamistas, na sua maioria). Ponto. Não é dos ocidentais - sejam de esquerda ou de direita. Claro que as hienas (islamistas, mais algumas franjas de extremistas vários e de agentes provocadores) salivam com o cheiro do sangue. Não é nada de novo. Já conhecemos isso dos anos 30. Estão bem uns para os outros. Metem nojo.
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De Miguel a 30.10.2020 às 16:50

Para evitar ambiguidades: quando escrevi islamistas refiro-me aos que pretendem impôr a charia pela intimidação e pela violência. Refiro-me a terroristas. Não incluo nessa categoria nenhum cidadão respeitador das leis em vigor nas democracias ocidentais - independentemente da sua origem nacional ou da sua crença religiosa.
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De Anónimo a 30.10.2020 às 17:01

Não. É a esquerda (de extracção marxista na maioria) que desde há décadas tem justificado o uso de civis na guerra, e as matanças de civis em atentados e tem apoiado islamistas onde quer que seja.

E é a esquerda que defende a imigração desregrada porque quer destruir a cultura ocidental, para ter uma população com culturas menos resistentes ao poder arbitrário e absoluto.
Anos 30? e os 20? e os 40? e os 50? e os 60?
Para a esquerda marxista a Inglaterra e a França eram piores que os Nazis.


lucklucky


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De Miguel a 30.10.2020 às 18:43

Você devia mudar de pseudo e passar a assinar Tullius Détritus.
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De V. a 31.10.2020 às 10:20

E você, que os defende, devia considerar-se culpado também. Eu considero-o culpado. É de esquerda, é culpado. Ponto.
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De Miguel a 31.10.2020 às 20:17

Quem defende os assassinos: quem os acusa ou quem acusa a "Esquerda"? Já percebemos que para fanáticos do seu calibre os culpados não são os assassinos islamistas.

O vosso sonho é que o sangue vertido pelos islamistas leve a uma guerra civil na Europa.

V. é um mau pseudo; devia passar a assinar Iago. Abaixo de abutre.
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De Miguel a 31.10.2020 às 20:43

Senhor V., um verdadeiro patriota em circunstância alguma atribuiria a um seu compatriota a culpa por estes hediondos e cobardes ataques terroristas perpretados por inimigos da civilização. Quem crê e defende os valores da Europa também nunca o faria. O que você escreveu em minha intenção é vergonhoso. Um homem íntegro não se comporta dessa maneira.

É a última vez que lhe dirijo a palavra.

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De Peregrino a Meca a 30.10.2020 às 13:41

Asimilar radicais intolerantes sanguinarios a uma enorme maioria de pessoas respeitadoras da lei, do próximo e de outras culturas é quase tão intolerante como as reacções que denunciam.
Ou é por racismo ou por ignoracia. Desconheço que possa ser outra coisa.
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De V. a 31.10.2020 às 02:09

Curioso. Nunca ninguém viu essa enorme maioria de pessoas respeitadoras da lei, do próximo e de outras culturas manifestar-se contra os radicais intolerantes sanguinários que matam inocentes em seu nome.

Se calhar concordam. Desconheço que possa ser por outra coisa.
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De Peregrino a Meca a 02.11.2020 às 14:38

O senhor V alguma vez organizou, foi, ou iria, a uma manifestação que:
- Pedisse desculpa pelas brutalidades históricas feitas à nome da religião católica, do rei de Portugal ou simplesmente para explorar os recursos de outras civilizações (falo, de forma não exaustiva de Inquisições, Cruzadas, segregação e perseguição, colonialismo etc.)?
- Os crimes actuais cometidos por aliados de Portugal em nome de interesses pessoais ou para defender a prosperidade de um país frente a outro (falo de exploração de recursos uma vez mais, mas também fomentar guerras civis, participação directa a homicídios, etc.)?
- Os crimes cometidos por dignatários depositários da confiança de milhões de pessoas que se dedicaram a abusar sexualmente de crianças indefesas que estavam a seu cargo?
- As alarvidades ditas por tantos dos nossos políticos e concidadãos incidindo sobre temas como racismo, misoginia, desprezo de minorias, xenofobia, etc.?
Pois, parece-me que não. Eu também não e não o faria. E a razão que é que os senhor e eu não nos julgamos responsáveis por esses actos e portanto não temos que ir mostrar o nosso desacordo por actos que não nos concernem. Pois bem, da mesma forma, quem pratica a religião islâmica da forma que lhe parece correcta, respeitadora das leis “terrenas”, não tem porque pedir “desculpa” pelos actos de pessoas que se reivindicam da mesma religião com quem não se identificam.
“Quem cala consente” vale no pátio da escola.
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De O Inconveniente a 30.10.2020 às 14:37

As pessoas têm de se convencer que o islamismo não é uma religião de paz. Nunca foi. A começar dentro dela própria e a acabar nas relações dela com as outras. Maomé nunca foi um homem de paz. Foi um homem de disputas, de batalhas e que sobreviveu pela força.
O islamismo não tem uma entidade de referência, como o catolicismo tem o Vaticano, na pessoa do Papa. Tem centenas, milhares de autoridades que proclamam a sua fé da forma como melhor a entendem, em aldeias, cidades, países e tribos.
Por isso, reformar o islamismo é impossível. Mas reformar o muçulmano individualmente já será.
A grande maioria das autoridades islâmicas, sejam locais, nacionais, ou mundiais, são fundamentalistas. Apoiam e defendem a força, a luta, a guerra, a batalha, a sharia. Uma pequena minoria, principalmente xiita, interpreta o Islão de forma mais moderada.

O problema do Ocidente é que ainda não percebeu que não pode aceitar as interpretações da maioria, com a desculpa da tolerância. E reparem, não é preciso dizer que a morte do infiél é para levar a cabo, de forma direta. Basta que se aceite e defenda alguns dos mil e poucos escritos, que vieram completar o corão. Basta isto para estar a prestar um enorme serviço ao fundamentlismo.

Na europa temos milhares de muçulmanos que aqui encontraram repouso. Que se ocidentalizaram e que aqui permanecem e vivem no respeito pelos países e sociedades que os acolheram. Mas depois abrem-se as portas a mais e mais. E aqueles que cá estão há anos, integrados, não vêem isso com bons olhos. Fugiram de pessoas como estas e agora vêem-se novo a levar com elas.

Por isso, tentar mudar uma civilização, nunca será possível. Mudar indivíduo a indivíduo, já é uma hipótese. Mas proiba-se a expansão da fé pela visão da batalha. Para isso há que determinar certas regras. Vamos ver quem terá a coragem de as estabelecer, pois levará com toda a certeza com os defensores da liberdade religiosa.
Os quais terão a sua razão. Porque a religião islâmica é mesmo assim. Ninguém a estará a alterar, ao defender a guerra aos infiéis.
Mas o certo é que não pode acontecer. Há um preço a pagar. E o preço da liberdade religiosa, nunca poderão ser vidas humanas.
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De Francisco Almeida a 30.10.2020 às 23:04

Tem toda a razão quando diz que o Papa é uma entidade de referência. Sem essa referência, cada um interpreta como quer e é capaz; mesmo dentro do cristianismo, essa falta de referência levou até aos extremos dos evangélicos americanos e brasileiros. Mas a unidade da igreja católica baseado no dogma da infalibilidade do Papa e na prévia audição dos bispos, tem custos inerentes que são o tempo de reacção necessário até se efectivarem mudanças e que dão aos menos atentos e aos desafectos, a ideia de que a igreja está sempre atrasada no tempo.

Também os judeus não têm uma referência única mas a sua circunstância histórica de sempre perseguidos deu-lhes uma coesão própria que tem evitado a fragmentação que se verifica nos protestantes cristãos.

O islamismo já foi a ponta da civilização e felizmente para nós europeus, também com os judeus, guardaram os conhecimentos da ciência grega que depois voltaram a ser transmitidos aos cristãos e permitiram que o Renascimento tivesse a expressão que teve, pois os monges copistas da idade média apenas eram sensíveis às letras e não às ciências. Depois estagnaram e viram-se colonizados ou reduzidos a protectorados, primeiro pelos otomanos, depois pelos europeus.
A grande fractura ocorre depois de 2ª guerra com o petróleo e o desenvolvimento dos media - filmes e televisão - que afogaram uma sociedade conservadora de valores próprios arreigados e normas imutáveis desde o tempo de Maomé, com imagens de estilos de vida e comportamentos ético-morais profundamente ofensivos e que agrediam as suas convicções. Somou-se a consciência que depressa adquiriram que estavam a ser explorados pois sabiam a quanto vendiam um barril de petróleo e viam depois em filmes e televisões os preços dos combustíveis. Afinal foram eles que inventaram a numeração que nós utilizamos.
Criou-se assim uma sentimento alargado de rejeição e antagonismo pelo ocidente, muito particularmente pelos EUA e, sendo livres de escolher, preferiam ouvir os imãs que condenavam a vida ocidental. Por sua vez os imãs, que se tornavam mais importantes quanto mais seguidores tivessem, perceberam que radicalizando as intervenções atraíam mais fiéis. Gerou-se assim um efeito de "feed-back" que promoveu o radicalismo e descartou os moderados que pessoalmente acredito serem ainda a maioria mas que não se vêem nem se ouvem.
Nesta óptica, é clarificadora a moderação exemplar dos ismaelitas que têm como referência a direcção espiritual do Aga Khan.
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De O Inconveniente a 01.11.2020 às 07:52

Bom, isso de parar no tempo tem a sua interpretação. Se repararmos, apesar de a igreja católica estar sempre atrasada no tempo, são os islâmicos que ainda vivem na idade média e que mais vagarosamente evoluem, em matéria de modernização.
A igreja tem a vantagem de ter uma interpretação oficial dos escritos que a regem. Têm uma voz, uma teoria, uma forma una de interpretar e uma liberdade de pensamento, que está instituída e é defendida pela entidade máxima.
Os islâmicos não. Para além de terem mais de um milhar de escritos sagrados, não existe uma doutrina universal. Existem várias doutrinas, várias liberdades e limites sobre aquilo que é a lei sagrada. Essas doutrinas variam de país para país, cidade para cidade e até de tribo para tribo. Veja-se o Iemen, um país que, segundo um estudo de 2015, tinha mais de 2000 tribos, cada uma com as suas doutrinas.
Ao contrário de si, eu já acho que a grande quebra e o momento em que de facto algo muda no islamismo, foi em 1979, com a revolução do Irão.
Até lá os muçulmanos nunca se preocuparam muito com Jerusalém. Jerusalém é a 3a cidade santa do Islão, atrás de meca e medina. Só com os extremistas religiosos do irão é que se lembraram de Jerusalém. E é a partir daí que a coisa descamba e se torna no problema que é hoje.
A maioria xiita, que são os mais fundamentalistas, vê os EUA como o grande infiel, pois estes sempre apoiaram os seus maiores inimigos. A Arábia Saudita, sunita e Israel.
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De Francisco Almeida a 31.10.2020 às 02:10

O islamismo é uma religião; uma nova ligação (re-ligar) entre os homens e Deus. Não é uma seita - tê-lo-à sido inicialmente, como todas - e tem assim um carácter universal. É profundamente errado dizer que não é uma religião de paz pois as questões de paz e guerra existem noutro plano que não o da religião.

De facto são dominantes neste momento as autoridades islâmicas radicais ou fudamentalistas, mas são as QUE SE OUVEM; ou seja, as que os media noticiam quando as vítimas são ocidentais, europeus ou norte-americanos.
O factor discriminativo não é serem cristãos pois de 600 mil que existiam no Iraque, restam menos de metade; no Líbano, reduzem-se desde 1932; na Síria a "oposição democrática" a Assad, financiada e apoiada pela dupla Hillary Clinton-Obama matou-os quanto pôde (o primeiro foi o ministro da Defesa, assassinado à bomba); na "primavera árabe" egípcia, logo no segundo dia foram assassinados 9 monges; na China de Xi-Jinping foram perseguidos e houve mortos (como é "de règle" nesse paraíso socialista, de números pouco se sabe). Aliás houve um idiota neste blogue que veio acusar o papa Francisco de ser amigo dos comunistas chineses por ter conseguido um acordo que parou a matança e suavizou a perseguição).
Poucos têm a noção que há muitíssimo mais vítimas de terrorismo com alegada motivação religiosa de muçulmanos do que de cristãos. Só que esses, tal como os cristãos não europeus e não norte-americanos, não são notícia, logo não existem.

É certo que no Corão se preconiza a guerra aos infiéis. Mas o Corão não pode ser modernizado. De facto em nada pode ser alterado. Cabe aos dirigentes religiosos fazer a sua interpretação e a frase "combater os infiéis" pode existir no mesmo sentido que os missionários cristãos iam combater o panteísmo. Se os dirigentes religiosos inspiram e preconizam guerra e terrorismo, isso deve-se a motivações políticas, não à letra do Corão.

Também o Corão refere a sharia e que se deve cortar a mão a um ladrão ou que uma mulher vale metade de um homem. Mas até os turcos otomanos, que não são exemplo de tolerância, decidiram que o Sultão era o representante de Alá e assim o único administrador da propriedade e da justiça e, por isso, no âmbito terreno do império turco as mulheres herdavam em paridade com os homens e o seu testemunho em tribunal tinha o mesmo valor do de um homem.
Repetindo. Se hoje há dirigentes islâmicos que aplicam literalmente a sharia, isso deve ser explicado pela sociologia e pela política (como é que radicais desprovidos de humanidade ascendem a situações de direcção) e não pela religião.

Não faz sentido classificar religiões com critérios como paz e guerra que lhes não pertencem. Diz-se de facto que o cristianismo é (agora porque não o foi nas cruzadas nem na Inquuisição, nem com os huguenotes franceses, nem com a caça às bruxas dos bispos alemães) uma religião de paz e isso estriba-se no "dar a outra face" e no "dar a César o que é de César. A primeira é um repúdio da violência mas a segunda tem um duplo sentido de secularização. Não é apenas a doutrina política de separar a organização do estado da organização da igreja mas também uma doutrina moral que separa a vivência cristã da militância política. Isto não quer dizer que um cristão (uma pessoa concreta) possa ser um santo na igreja e um sacana na política mas que a vivência e regras de uma comunidade cristã não são as mesmas que as de um partido político.

Diz o mais elementar bom senso que "dando a outra face" e perdoando 70x7 vezes não é possível governar um país. Mas já seria possível governar com o "olho por olho" etc.., do Antigo Testamento, como transmitido pelos profetas.
Ora o cristianismo, a doutrina de Cristo, criou uma nova dimensão mas não renegou a antiga. No Credo diz-se: "Ele (Espírito Santo) que falou pelos Profetas". E, há poucos anos, Bento XVI numa genial palestra, identificou como raízes da Europa a profética judaica, a filosofia grega e a religião cristã (a que depois se juntaria o direito romano).
(continua)

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De Francisco Almeida a 31.10.2020 às 02:11

(continuando)

Se hoje um qualquer pastor evangélico brasileiro se lembrasse de atacar índios e apedrejar LBGTs invocando frases do Antigo Testamento, e mesmo que esse comportamento se tornasse dominante no Brasil sob batuta política de um Bolsonaro++, não seria justificação para dizer que o cristianismo era uma religião racista ou que a Bíblia era um manual de violência.

Há um problema grave de violência e terrorismo no ocidente; há uma ameaça à Europa com seriíssimos aspectos culturais e demográficos; é mesmo possível que tenham de ser utilizadas medidas que não cabem na ética cristã. Mas reduzir o problema a uma pretensa dimensão religiosa seria um tremendo erro.
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De O Inconveniente a 01.11.2020 às 08:03

O maior infiel não é aquele que pratica outra religião, a qual sempre praticou. O maior infiel é o muçulmano que troca de religião, que desprestigia o islamismo, ou que trai os seus.
O problema do fundamentlismo é que está em todo o lado, pois essa é a interpretação direta do Islão.
Ao contrário das outras religiões, o Islão, quando interpretado de forma direta e o mais simples possível, é uma religião violenta, com punições violentas e com objetivo de conquista.
E aí reside o problema. Com as restantes também existem interpretações violentas, mas essas são secundárias, pois para além de exigirem alguma imaginação na sua interpretação, têm de se distanciar da doutrina oficial.

Convido a ler o livro de Mohammed al Tawhidi, um reformista islâmico, que escreveu The tragedy of islam.

E também para ver no youtube uma entrevista dele a candace owens. Soberba para um ocidental, sem conhecimentos profundos sobre o Islão, perceber o porquê de tantas coisas incompreensíveis.
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De Francisco Almeida a 01.11.2020 às 18:35

Se bem o interpreto, a violência (derivada do fundamentalismo) é directa e imediata no islamismo (e apenas indirecta e secundária no cristianismo). Não posso concordar. Se isso fosse correcto, seria de esperar que os primeiros tempos do Islão tivessem sido de violência e não é assim que os vejo.
Irei acrescentar uma resposta ao seu primeiro comentário de 30.10 14:47 especificamente sobre Maomé e os inícios do Islão.

Antes do séc. VIII na Arábia a questão de uma sociedade ser secular nem sequer se punha. A chefia tinha de ser militar e outras arquias, incluindo as religiosas, uma vez atribuídas uma família mantinham-se nesse clã. Note-se que o Islão não tem sacerdotes, tal como os judeus, pelo que as arquias religiosas estavam ligadas a circunstâncias concretas. Assim os hashemitas até ao tio de Maomé eram hereditariamente os guardiões da Kaaba, tal como hoje a família Saud são os defensores de Meca, tendo a missão de assegurar a peregrinação (Hadj ou Haje).

Creio que o primeiro teórico do estado teocrático, por entender ser necessário o poder político à finalidade religiosa, foi Ibn Taymiyya no início do século XIV (6 sécs. depois de Maomé). As ideias de Ibn Taymiyya foram mais de três séculos depois, a base do Wahnabismo, a mais estruturada doutrina fundamentalista islâmica (sunita), adoptada pela família Saud e, a partir da Arábia Saudita, exportada (“catecismos” e dinheiro) para praticamente todo o Islão sunita.
Está a ver a contradição?
É que tem razão quando diz que a revolução do Irão em 1979 foi crucial. De facto, até aí, o único estado de governo xiita era a Síria alauíta dos Assad que, além do desígnio sobre o Líbano não tinham ambições expansionistas nem territoriais nem doutrinárias. No entanto foi da Arábia Saudita que vieram o dinheiro e os terroristas do 11 de Novembro. Ou seja, sendo o wahnabismo - até ao Irão começar a intervir externamente para já no Líbano e no Iémen - a maior ameaça islâmica ao ocidente, está instalado num país cuja cúpula política são - até ver - os grandes aliados dos EUA.
Outro exemplo seria a Indonésia, o maior país islâmico do mundo, também aliado dos EUA. Mais preocupante ainda, se caísse o governo militar, seria o Paquistão, certamente o país islâmico em que o povo em geral mais odeia o ocidente e tem um poder nuclear superior ao da Inglaterra.

Considero o terrorismo e, talvez ainda mais, o activismo cultural imigrante, enormes ameaças mas entendo que não devem ser encarados nem combatidos como ameaças religiosas. Mais entendo, que se o forem por ser mais fácil como polarização, não só a eficácia do combate será comprometida como arriscamos a vir a ter por inimigos muitos que agora não o são.

Incidentalmente também discordo que os xiitas sejam os mais fundamentalistas. Antes do mais há cerca de 85% sunitas e apenas 15% de xiitas. E como ameaça, a parte mais importante serão os iranianos cujo fundamentalismo religioso, mesmo assim sem comparação com o whanabismo, é instrumental em relação ao desígnio político de dirigir políticamente o Islão.
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De O Inconveniente a 02.11.2020 às 08:13

Eu apenas referi que a grande maioria dos sunitas têm uma interpretação do Islão de forma fundamentalista. Como referi no meu primeiro comentário, existem correntes pacíficas e tolerantes no universo xiita. Já no sunita não são tão frequentes. O wahabismo é um dos maiores problemas do Ocidente, pois é uma corrente instalada principalmente na Arábia e que tem imensos seguidores milionários, os quais financiam o terrorismo worldwide.
A questão xiita apenas aparece como um problema, quando em 1979 se lembraram de Jerusalém.
Quanto à violência, não quero fazer comparações. Apenas referi que o cristianismo tem uma doutrina oficializada, já o islamismo não tem. Essa doutrina cristã evoluiu. Passou por um período de violência, com a expansão da fé, mas depois parou e vem desde aí professando a paz e a tolerância. A Europa pratica a tolerância religiosa há séculos, ao passo que em pleno sec XXI, muitos estados islâmicos não a praticam. Há poucos anos, o único país do médio oriente que praticava a tolerância religiosa era Israel.
A questão é que os muçulmanos têm uma longa tradição de violência, de conquista e de morte. Ainda hoje. Viveram um período de fratura após a morte do profeta, que teve repercussões até hoje. Quando Hussein, neto de Maomé tentou a unificação do Islão, 50 anos após a morte de Maomé, foi decapitado, juntamente com a sua família e amigos. Tudo isto é ainda hoje ensinado com orgulho e ainda hoje se justifica e pior ainda, é transmitido com proximidade. Os cristãos, por outro lado, não negando a prática de excessos, transmitem esses episódios com distanciamento histórico, de um ponto de vista distante. Sendo impensável realizar aqueles atos hoje. Os muçulmanos fundamentalistas não. Não se distanciam e até justificam manter esta postura hoje em dia.
Isto tudo para explicar que a França não vai nunca doutrinar uma religião. Mas pode doutrinar o indivíduo. Basta que impeça o ensinamento da fé por Imans fundamentalistas. E por fundamentalista, entenda-se todos aqueles que entendem e justificam a violência, que são quase todos.
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De Francisco Almeida a 01.11.2020 às 18:41

“Maomé nunca foi um homem de paz. Foi um homem de disputas, de batalhas e que sobreviveu pela força.”
Isto é totalmente errado.

Maomé ficou novo orfão e foi criado por um tio. A família não era rica e o tio tinha um cargo prestigioso - guardião da Ka’aba - mas nem era rico nem pertencia à aristocracia (Quraysh). Começou a trabalhar novo para uma viúva da aristocracia, passando de empregado a agente comercial e acabando com ela casar.
Diz-se que com cerca de 40 anos foi visitado pelo anjo Gabriel que o chamou à pregação mas que hesitou e foi sua mulher Kadija que o incentivou. Confirmando o adágio que santos da casa não fazem milagres os habitantes de Meca não só não o levaram a sério (dificilmente os Quraysh e outros aceitariam lições de um Hashemita) como o hostilizaram, valendo-lhe sempre a protecção de seu tio e da família de sua mulher.

Não existia um estado árabe mas centenas de tribos, na maioria nómadas e que se combatiam há dois séculos, à margem dos remanescentes de dois impérios em decadência, romanos bizantinos e persas sassânidas. Os chefes de cada tribo eram escolhidos pelas qualidades guerreiras e de liderança pelos sheiks (anciãos). Os habitantes das cidades, estavam igualmente divididos em linhagens familiares e, por vezes, também em estado de guerra civil. Era o caso de Medina em que doze tribos se guerreavam há anos e também contra judeus, encontrando-se à beira da exaustão.

Maomé ficou viúvo e seu tio morreu pelo que ficou sem protecção e os seus seguidores começaram a ser perseguidos e mortos pelos habitantes de Meca. Ou das suas viagens comerciais ou de peregrinações a Meca, Maomé era conhecido por membros das tribos em conflito em Medina e, depois de por duas vezes conferenciar fora de Meca com dois representantes, convidaram-no para ir para Medina não apenas como profeta mas como juiz para estabelecer a paz. No ano de 622, Maomé deixou Meca com os seguidores mais próximos e foi para Medina. Esta, fuga, chamada Hegira, marca o início da era islâmica. Assim Maomé iniciou o seu percurso político como um homem de paz e de pregação.

Como escrevi, guerra era nesse tempo o estado habitual dos árabes e assim que uniu as tribos de Medina, Maomé ficou a dispôr de gente treinada começou a saquear caravanas de Meca (este saque de caravanas era habitual e praticado pelos árabes nómadas que contudo evitavam o assassínio). Meca era militarmente muito mais forte e melhor equipada mas algo amolecida militarmente pois vivia do turismo religioso (Meca conservava cerca de 360 ídolos tribais e era assim regularmente visitada, gerando uma importante actividade económica que a pregação monoteísta de Maomé directamente ameaçava).
Depois de uma primeira batalha não decisiva mas em que os de Meca tiveram vantagem, o poder militar de Maomé foi sempre crescendo por adesões de convertidos e acabou por entrar em Meca quase como num passeio militar. Dominada Meca, o crescimento foi exponencial. Por adesões e conversões, conquistas e submissão, formou um imenso império, de facto o império de mais rápido crescimento na história da humanidade nos 10 anos de chefia de Maomé (622-632); pouco mais do que duplicaria nos 30 anos seguintes e menos que duplicou nos seguintes 90 anos.
https://en.wikipedia.org/wiki/Early_Muslim_conquests

O início do século VIII foi uma época violenta mas ao construir o império, Maomé terminou com imensas situações de guerra endémica e, analisando resultados, teremos de concluir que foi um criador de paz. Claro que, exceptuando as adesões por conversão, houve privação de liberdade mas isso ocorreu com todos os impérios em todos os tempos. Pessoalmente não creio que o império muçulmano tivesse sido inferior à Pax Romana; e então se compararmos com o nosso comum antepassado Carlos Magno, saímos muito envergonhados.
(continua)
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De Francisco Almeida a 01.11.2020 às 18:43

(continuando)
Chegado a Medina, Maomé promoveu regras de convivência para islamitas, pagãos, cristãos e judeus e só surgiram problemas graves com judeus, que directamente afrontaram o islamismo por motivos religiosos. Diz-se que Maomé pretendia matá-los a todos mas que cedeu a pedidos e apenas os expulsou e lhes confiscou os bens. Este facto - porque as acções de Maomé são fonte de direito no Islão - ajuda a explicar o ódio que os islamistas têm aos judeus, sendo que muitos odeiam ocidentais apenas por serem amigos dos judeus.

Quanto aos cristãos, valorizo o facto do bispo cristão copta do Egipto, ter enviado a Maomé como presente para agradecer o tratamento dado aos cristãos após a conquista, duas irmãs escravas de boa família, a mais nova de rara beleza. Esta, de nome Marya, parece ter sido a última muher de Maomé e foi mãe do seu filho Ibrahim que morreria ainda bébé, o que levou Maomé às lágrimas, conforme narrado por testemunhas presentes.
Note-se que os cristãos pagavam tributos mais altos do que os muçulmanos mas não eram chamados a fazer serviço militar o que levou um historiador a considerar que diminuindo ao tributo uma “taxa de isenção militar” de valor estimado, o valor ficaria menor do que o que pagavam os muçulmanos.
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De Peregrino a Meca a 02.11.2020 às 14:41

Infelizmente, o preço da liberdade são sempre vidas humanas. Proibir religiões por actos de minorias é o mesmo que mandar para a prisão todos os polícias porque há uns que abusam da sua autoridade.
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De Marta a 30.10.2020 às 18:12

O melhor texto que li sobre o atentado até agora. Muito obrigada.
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De Anónimo a 30.10.2020 às 22:38

Excelente texto, Sergio, assertivo , genuíno e factual. Muito bom.

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