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Nem uma lágrima pelo Cabo Delgado

por jpt, em 06.07.20

mortos CD.jpg

Nem um suspiro pelo Cabo Delgado, quanto mais uma lágrima ...

No sábado um amigo em Maputo, lusomoçambicano que durante anos foi jornalista em importantes jornais em Portugal e, depois, em Moçambique, partilhou no seu mural de facebook a notícia de mais uma emboscada nas estradas de Cabo Delgado, a qual causou dez mortos, com três sobreviventes que conseguiram fugir para o mato. Um dos mortos era irmão de um seu conhecido. Ao seu postal, que publicou "para ver se o mundo acorda um bocadinho para esta inexplicável guerra que está a decorrer na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, desde Outubro de 2017", juntou várias fotografias dos túmulos dos assassinados pelos guerrilheiros. No meu mural de FB partilhei o seu postal e fotos, tal como várias outras pessoas o fizeram, exactamente com o mesmo objectivo, dar visibilidade a esta desgraça crescente. Nessa mesma semana as notícias mostraram efeitos de mais um ataque guerrilheiro a Mocimboa da Praia, com relatos de inúmeros militares mortos - até de um oficial superior - e da população em fuga. Desta ouvem-se, em registos áudio,  relatos de sevícias praticadas por guerrilheiros e de desmandos por parte da tropa regular. Uma refugiada de Mocimboa descreve com detalhe a situação, explicitando que os guerrilheiros "vêm para matar, nem avisam" e que os soldados pilham, dizendo-os, em frase extraordinária, "os novos insurgentes".

Quase todos os dias vejo no FB, em páginas individuais ou colectivas de moçambicanos, notícias e filmes sobre as atrocidades que vão decorrendo no Cabo Delgado. E muitas outras me chegam via Whatsapp. Na última semana chegaram-me, por esta via, filmes de inúmeros cadáveres dos chamados "insurgentes". A lógica, explícita nas palavras de um soldado audível num desses filmes, é mostrar aos revoltosos, e à população, que eles são abatíveis, que nem as notícias das suas baixas são mera propaganda estatal nem eles são invulneráveis - e mesmo que não tenha ainda ouvido falar da crença entre estes insurgentes da sua invulnerabilidade convém lembrar que essa é uma hipótese, dado que a crença na imortalidade mágica dos combatentes grassou no norte de Moçambique nos últimos anos da guerra civil, há trinta anos. 

Mais uma vez partilhei - via Whatsapp - com alguns amigos que têm ligações a Moçambique (ou nacionais ou portugueses que lá viveram) as notícias que recebera explicitando que não reenviava os filmes por serem excessivos, macabros. Dois desses amigos, mais vividos, pediram-mos e assim lhos reenviei. A resposta de ambos foi imediata e coincidente: "não os partilharei", tamanha a comoção que haviam tido. Mas, de facto, logo encontrei essas imagens no facebook na página Pinnacle News, animada por um conjunto de jornalistas e amadores moçambicanos, vários dos quais estão nas províncias do norte do país.

Em 29 de Janeiro de 2018 eu, já cansado de notícias sobre a eclosão deste movimento, aqui publiquei este postal Guerrilha Islâmica em Moçambique - reproduzindo um filme entretanto desaparecido que continha declarações pró-sharia de guerrilheiros encapuçados. Eu conheço o país, nele vivi, conheço aquele norte. E muito fui resmungando desde a década passada, em privado pois isto é matéria sobre a qual não se especula em espaço público, sobre as possibilidades da eclosão deste tipo de conflito. Mas não tinha, nem tenho, quaisquer fontes privilegiadas. Ou seja, não era preciso ser nem druida nem agente de informações para prever coisas destas, nem o é para acompanhar, desde há dois anos e meio, este processo.

Ontem, numa magnífica noite de verão, jantei com amigos aqui ao ar livre, no retiro bucólico em que venho envelhecendo. No final debatia-se, com veemência, as questões da arte e da (im)pertinência filosófica da chamada "arte contemporânea". Nesse entretanto recebi mais uma mensagem via Whatsapp, enviada por outro amigo de Maputo: uma ligação para um filme colocado naquela página de FB. Para não incomodar os convivas vi-o silencioso. Durante 2 minutos e 53 segundos um (presumível) guerrilheiro é linchado por um grupo de soldados. Aparentemente morre. Eu levantei-me fui ao interior da casa, servi-me de um uísque, liguei o som do telemóvel, comprovei que se tratava de  Moçambique, pelo português falado e seu sotaque. Bebi um seco. Servi-me de um outro, com gelo. E regressei à douta conversa. Ainda que pouco loquaz. Mesmo muito pouco.

Serei eu assim tão igual à "jornalista" que há um mês chorava pela morte de um cidadão norte-americano, esganado por um polícia? Tão igual aos seus colegas que não enchem primeiras páginas e aberturas televisivas com este assunto? Tão igual às turbas de manifestantes que então saíram às ruas clamando que as "vidas dos negros contam"? Tão igual aos pobres opinadores que "contextualizam" este silêncio - que é mediático, político e, acima de tudo, cultural - porque não há imagens das violências enquanto o cidadão Floyd foi assassinado diante de um telemóvel?

Pois se a profusão de notícias, o relevo que lhes é dado, e as "indignações" que causam, dependem das imagens dos morticínios então entenda-se bem: sobre o Cabo Delgado há imensas imagens, imensos filmes, e há mortes em directo. Tudo disponível, em canal aberto. A jornalista "afrodescendente" não se comove com estas imagens? Nem os seus colegas? Nem os indignistas burguesotes? Nenhum cidadão português pergunta "o que fazer"? Para que serve a "relação privilegiada", a extraordinária diplomacia portuguesa - afadigada na preparação da "presidência"? Onde está a tão propalada "costela" moçambicana do PR? O legado anticolonialista oriundo de Moçambique patentado pelo nosso PM? E, já agora, para que serve a CPLP? Pois o silêncio, tonitruante, não é apenas dos "indignistas" profissionais ou dos jornalistas, preguiçando nas redacções. É também das elites políticas. Essas que andam há décadas a papaguearem "lusofonices".

As causas do conflito no Cabo Delgado serão várias e foram sendo caladas. Há três meses ainda se podia ler intelectuais moçambicanos dizerem que se tudo se resumia a actos de "mercenários ocidentais desempregados" ou dos "interesses americanos". O mesmo tipo de intelectuais que insultavam o meu colega moçambicano que, primeiro do que todos, ainda em 2017, aludiu a tensões étnicas na região. Diziam-mo a mim, não o esqueço, para minha contida repulsa. 

Causas várias haverá, internas, externas, no âmbito da consabida "maldição dos recursos naturais". E essa pluralidade das causas impede aquilo que a pobre jornalista chorona e os seus similares gostam: apontar o dedo aos americanos ("yankees", dizia-se), ou, vá lá, aos "ocidentais", e resolver-se o assunto, construir-se a narrativa. Que sirva de catapulta para o protesto "as usual". Não veste bem, esta narrativa? Então nem se enfatizam as notícias nem se protesta. Pois para quê? São só pretos, e coisas entre eles ...

E aqui sim, vejo o tal "racismo estrutural".


20 comentários

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De Anónimo a 06.07.2020 às 14:36

Grande artigo! Adorei.
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De Anónimo a 06.07.2020 às 15:32

Tocante e vero. Muito bom. Vieram-me as lagrimas quando li “nem sequer avisam”; que bem expressam estas palavras a aflicao de um povo tao sofrido...
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De Anónimo a 06.07.2020 às 18:47

A NOM nova ordem mundial determina o que deve ser a ordem do dia, Soros dixit.

BLM=ANTIFA=COMUNISMO é o que está a dar !!

Ocidente Europeu é para liquidar com as hordas de bárbaros muçulmanos transportados por ONG esquerdistas a soldo da NOM vindos de África e da Turquia !!!!!!

A.Vieira

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De Miguel a 06.07.2020 às 19:31

Grande artigo!
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De Anónimo a 06.07.2020 às 20:03


Partilho, com conhecimento de causa, esta dor.
Para um País militar e socialmente débil ter potencialmente petróleo acab por ser um pesadelo.
Os Países, a comunidade internacional -"organizada" via Organização das Nações Unidas- desunida, desorganizada, olham de lado para a potencial riqueza é alheia.
Mas até que ponto não serão as actuais autoridades de Moçambique as más gestores das populações, dos bens e do seu País?.
Será que não podiam governar melhor?.
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De Vento a 06.07.2020 às 20:31

É um caso complicado se tivermos em conta que somente a Área1 na bacia do Rovuma oferece a descoberta de 75 triliões de pés cúbicos (tcf, no inglês) de gás natural. Na Área 4 o valor chega a 85 tcf.

Também se sabe que existe uma espécie de tráfico de armas de pequeno porte de origem pouco identificada e de roubos de armas ao exército moçambicano que cai nas mãos dos ditos "insurgentes".

Por outro lado sabemos que existem bases desses "insurgentes" no Congo e quiçá apoio na Somália.
Paralelamente sabe-se que se vão hasteando umas bandeiras do EI. Mas eu creio que não é por aqui.

Finalmente, e sobre o "racismo estrutural", importa referir que são companhias ocidentais as que detêm acordo com o governo Moçambicano para exploração dessas imensas reservas.
E concluindo: parece-me que seria importante saber a quem incomoda a exploração e comercialização de tais reservas que parecem ser infinitas.

Portanto, a estratégia de usar símbolos do EI e o antagonismo entre tribos vizinhas e etnias diferentes pode estar aí para desviar as atenções. Mas é assim que tudo começa.

Entretanto, seria natural verter lágrimas pelos inocentes caídos.
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De Luis Barreiro a 07.07.2020 às 04:07

Pois eu logo vi que a culpa é do capitalismo e do imperialismo, camarada o muro de Berlim foi construído para impedir que os capitalistas pudessem passar para o paraíso do socialismo, e não como tentam contar como o contrário.

Viva a RDA que exportava veículos para Moçambique que mal chegavam ao terreno avariavam, pois não estavam preparados para África e em troca recebiam semanalmente cargas de peixe moçambicano que tanto fazia falta ao povo que passava fome, ao menos os moçambicanos tinham a terra e a fruta que dava para mitigar a fome já os os comunistas coitados.
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De Vento a 07.07.2020 às 11:14

O meu caro aparenta ter uma reacção pavloviana a certos sinais. Sugiro que leia melhor o comentário.
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De Anónimo a 06.07.2020 às 22:02

Espero que não tenham assassinado nenhum Católico de matriz portuguesa, porque se o fizeram o silêncio de Portugal é cúmplice com Meca!! Os Mohameds já se apoderaram da Guiné-Bissau, ameaçando as comunidades Católicas de matriz portuguesa e Portugal assobia para o lado como se tudo fosse natural... Agora é o norte de Moçambique... Quando mohameds atacam comunidades Católicas de matriz portuguesa em África é um ataque contra Portugal! Andamos nas guerras dos outros e abandonamos os nossos...
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De A a 07.07.2020 às 08:39

Silêncio de Portugal?
Então agora que vão pedir ajuda aos ingleses.
Não pertencem à commonwealth?
Em 95 assinalaram a integração com toda a pompa e circunstância. Até vieram dizer que tinham mais ligações a Inglaterra do que a Portugal, fruto da proximidade com a África do Sul, pois então que lhes peçam ajuda.
Seria de maior lucidez criticar o silêncio dos ingleses.
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De Anónimo a 07.07.2020 às 19:25

Mas você acha que os ingleses se importam com a expansão dos mohameds em África!!!??? Quanto mais se estes andarem a cortar cabeças a membros da comunidade católica na região..
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De Antonio Vaz a 06.07.2020 às 22:53

Todos nós sabemos que os bons cristãos, Hoje, assumiram definitivamente que aquela cena de dar a outra face, que o seu Cristo pregou, é apenas mais uma das suas muitas tretas “hippies”! Se o gaijo, para além do “freak” alucinado que era, era também o filho bastardo do seu deus, eles, só o seu deus sabe, de facto, quem são os seus pais!

Um facto indesmentível é que o jpt é um bom cristão: ele não quer dar a outra face, como parece querer fazer o bispo de Pemba, que resolveu alinhar com o “pró-sharia” Abdul Rashid Ismail, na cena até lógica mas falsa para o jpt, de que a coisa não tem a ver com uma tal Guerrilha islâmica»… porque, a vasta maioria da população afectada, por mero acaso, até é islâmica.

Claro, lá depois surge a jogada do costume: porque é que a « jornalista "afrodescendente"» (refere-se à Maria Dulce Fernandes) em vez de incomodar os “brancos” não vai chatear antes os “pretos”? Porque raio é que ela se incomoda com um “preto” nos EUA e não com os muitos outros em Moçambique?

A mensagem é simples e tão antiga: a «jornalista "afrodescendente"», mesmo que até viva entre “brancos” deve apenas preocupar-se com o seu ambiente natural, África. Já qualquer “branco”, como o autor do “post”, tem o direito de opinar sobre o que se passa nos EUA, em Moçambique ou onde ele desejar porque o Universo é “branco”… «Eu conheço o país, nele vivi, conheço aquele norte», logo tenho direito a opinar.

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De Anónimo a 07.07.2020 às 02:02

- Para o JPT, uma imperial. E para o senhor?

- Um curso intensivo de hermeneutica e semiótica sff!
J M
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De Antonio Vaz a 07.07.2020 às 19:45

"J M", o "JPT" é um, o "jpt" é outro... mas lá está, não há curso que lhe ensine isso!
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De Anónimo a 08.07.2020 às 17:25

Não leio todos os comentários deste blogue. Mas como o senhor percebeu perfeitamente a quem eu me referia, ao autor do postal (jpt), não me ocorre acrescentar ou corrigir absolutamente nada ao/do que escrevi.
Chamar-me à atenção para esse facto, dizendo que não há curso que me ensine isso, é típico dum intelecto minorca e duma pessoa mesquinha! Como aquelas que conhecem muita gente mas têm poucos conhecimentos, leia-se pouca ciência.

" O sol quando nasce é para todos! Menos para aqueles que estão no lado oposto da terra."

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De Vento a 07.07.2020 às 11:33

Diante de uma estalada no lado esquerdo uma punhada com a mão direita. E depois o perdão. Portanto, o bom cristão perdoa depois de corrigir. Os gentios devem ser ajudados a crescer na fé. E a fé também se constrói com sinais inequívocos.

Pretende-se criar um mundo com discromatopsia para não respeitar os semáforos.
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De Antonio Vaz a 07.07.2020 às 19:59

Confesso que até fui ver ao dicionário o que era essa coisa de "discromatopsia"... afinal é apenas, daltonismo!

O «bom cristão» não se deve é admirar quando outros, seja "mau cristão" ou "não cristão" (sim, os tais «gentios»), passam à «bofetada» e à «punhada»...

PS. Se era para confirmar o que escrevi, escusava de florear a coisa...
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De Vento a 08.07.2020 às 10:15

O bom cristão sabe isso da bofetada e punhada. E também sabe que um bom gentio converte-se sempre com umas punhadas em resposta. Não foi para florear, foi para reforçar uma constatação. Também creio que é um método eficaz para a meditação dos gentios que pensavam que andariam em roda livre ad aeternum.
E pelo andar da carruagem vamos assistir a muitas punhadas.


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De Luís Lavoura a 07.07.2020 às 11:11

Nenhum cidadão português pergunta "o que fazer"?

Mas a questão é precisamente essa: não há nada que possamos fazer. E, nada havendo que possamos fazer, mais vale preocuparmo-nos com George Floyd, já que aí, pelo menos, podemos fazer algo.

Trata-se de um princípio da moral: devemos preocuparmo-nos e angustiarmo-nos com as questões que podemos, de alguma forma, influenciar. Não vale a pena e é, aliás, hipócrita arrancarmos os cabelos por causa de questões que estão fora do nosso campo de influência.
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De Anónimo a 07.07.2020 às 19:29

Mas essa do americano não nos diz nada, diz mais o que acontece na África que tem comunidades Católicas de matriz portuguesa

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