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Nem liberal nem social

por Luís Naves, em 01.02.15

Os jovens não encontram trabalho e não descontam para a segurança social. Muitos emigram, aproveitando a liberdade proporcionada pela Europa. Na prática, recusam os trabalhos enfadonhos da geração anterior e as vidas aborrecidas dos pais. Estes, se não forem desempregados de longa duração, pagam impostos tão altos que não lhes sobra poupança para assegurar uma velhice decente. Sabem também que, quando se reformarem, terão direito a pensões mínimas. A sua preocupação aumenta quando olham para os pais. Nos depósitos de velhos morre-se devagar. Não é assim nos mais caros, que custam os olhos da cara, mas onde as reformas dos utentes raramente cobrem a despesa. As famílias da classe média não têm condições para tratar dos seus velhos ou para os colocar nestes lares de qualidade. Não há dinheiro suficiente nem tempo disponível. Assim, uma geração inteira vive na culpa de não estar a fazer o suficiente, enquanto outra geração vai morrendo, meio atarantada pelo abandono.

Era costume haver certezas: as pessoas casavam, por vezes separavam-se, viviam as suas vidas com expectativas de melhorar. Hoje, já não é nem assim: quem quiser casar não tem dinheiro suficiente, pelo menos sem ajuda dos pais, não pode comprar casa e lançar uma família; ter muitos filhos é uma condenação à pobreza; o cidadão médio enfrenta incertezas na educação e na saúde, nas hipotecas, nos horários de trabalho impossíveis, na precariedade, na hipótese iminente de queda e proletarização. Acontece por vezes que as pessoas ficam presas a casamentos infelizes, sem dinheiro sequer para um divórcio. As separações implicam a falência e a pobreza, sobretudo para a mulher e para as crianças. Não falo de sofrimento, de amores desencontrados, mas de algo prosaico, que entra na vida das pessoas como se fosse um vendaval: já não conseguimos financiar a vida antiga.

Não vivíamos acima das posses, aquele mundo é que acabou. A sociedade contemporânea não é liberal nem social, é algo de intermédio sem palavra ajustada. Se fosse liberal, tinha menos impostos; se fosse social, havia serviços públicos, creches e lares; havia locais de trabalho produtivos, em vez de purgatórios repletos de conflitos e que nos roubam todo o tempo livre. A Grande Recessão só acelerou a ruptura, tornando-a mais cruel, com a família em crise e o colapso da classe média. Sim, porque os pobres não mudaram de vida e os ricos nem dão por tudo isto, não fazem a mínima ideia.

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10 comentários

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De Manolo Heredia a 02.02.2015 às 15:34

Oh lucklucky, paradoxalmente concordo com quase tudo o que escreveu. Tenho é que discordar totalmente com a conclusão.

Não me parece que as políticas económicas que o PS adotou despois da entrada de Portugal no euro tenham sido muito diferentes daquelas que teríamos tido se tivesse sido o PSD a governar no mesmo período (2 submarinos em meia dúzia de meses de governo…).

A miragem do crédito fácil com juros baixíssimos não dá para resistir nem a um santo (os santos estão no céu). O que Portugal, Irlanda, Espanha, Itália fizeram foi responder ao chamamento dos Fundos Estruturais, blá blá coesão. Em que os governantes seriam pura e simplesmente despedidos se não aproveitassem esses fundos, que foram uma prenda envenenada, pois implicavam endividamento para quem os usasse.

Um candidato às eleições municipais que prometesse usar esses fundos para fazer uma piscina municipal e outro candidato que disse que não fazia para não se endividar, qual é que julga o Luky que iria ganhar as eleições? Fossem candidatos do PSD, CDS, PS ou PC?

Esta lógica expandiu-se a toda a sociedade, a montante e a jusante dos municípios. Os bancos emprestavam MAIS de 100% sobre os imóveis para habitação própria (as pessoas compravam com juro bonificado a casa, a mobília e o carro, tudo à pala da casa).

As Cofidis e companhia limitada nunca deviam ter sido autorizadas a operar. Os juros que praticam representam a mutualização dos calotes, são usurários, tinham obrigação de não emprestar a quem não tem posses para pagar. Para atrair as pessoas acenam somente com o valor da prestação. Só um santo que deseja imenso ter um BMW renuncia a ele perante uma proposta de 550 euros/mês de mensalidade (só os santos olham para 76 meses a pagar…).

Portanto foram também as más práticas de gestão dos bancos que conduziram os países do Sul ao endividamento excessivo. As “autoestradas paralelas”, os hospitais PPPs são prova que os bancos queriam era emprestar dinheiro para compor os balanços, empurrando com a barriga para a frente os resultados desastrosos que se adivinhavam. O problema é que necessitavam mesmo de ter essa atitude pois as taxas de intermediação tinham baixado muito e tornava-se cada vez mais difícil gerar cash-flow para pagar a estrutura. Se não o tivessem feito seriam engolidos pelos grandes bancos multinacionais.

Os bancos bem viam que se tratava de investimento sem retorno, por isso exigiam que o Estado pagasse grande parte do risco, e surgiram as PPPs.

Julgo que se pode resumir o estado em que nos encontramos como uma consequência da globalização, isto é, da livre circulação de capitais, tão livre que permite usar paraísos fiscais e fugir aos impostos que, a serem cobrados, financiariam o Estado Social, esse monstro que é acusado de ser o culpado de tudo.

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