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Nem como se lê nem como se diz

por Pedro Correia, em 28.08.14

Certos defensores do "acordo ortográfico", inimigos confessos da etimologia, afirmam que uma língua deve ser escrita «como se lê». Isto é puro disparate: se a escrita antecede a leitura, como é que a norma ortográfica pode estar condicionada por algo que lhe sucede em vez de a preceder?
Outros afirmam que uma língua deve ser escrita «como se diz», pretendendo subordinar a ortografia à fonética. «A língua tem factores de carácter histórico que não podem ser desconsiderados», objectou o historiador brasileiro Jaime Pinsky, pronunciando-se sobre o tema num debate ontem realizado em São Paulo, no âmbito da 23ª Bienal Internacional do Livro.

Está cheio de razão: o primado da fonética anula o espírito normativo que deve conformar toda a convenção ortográfica, instituindo uma escrita à la carte. Se em Lisboa, por exemplo, não falta quem diga mêmo em vez de mesmo, tar em vez de estar ou joálho em vez de joelho, escreva-se assim. Se em Braga se diz barrer em vez de varrer, escreva-se assim. Se em Beja se diz pinhêro em vez de pinheiro, escreva-se assim.
É uma lógica que não aguenta dois segundos de análise. Nem dois segundos de discussão.


38 comentários

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De Isabel Mouzinho a 28.08.2014 às 17:26

Completamente de acordo consigo, Pedro!
Este é um assunto da maior importância, relativamente ao qual não nos podemos calar nem, ainda menos, encolher os ombros como faz a maio parte das pessoas.

E agora que o Vasco já cá não está e tanta falta faz, temos que ser nós a continuar a defender a Língua Portuguesa.

Excelente post, pois, como é hábito.
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De Pedro Correia a 29.08.2014 às 00:01

Obrigado, Isabel. Vamos prosseguir nesta justa luta, sem desfalecimentos. Como se vê, também no Brasil não falta quem critique com fundamento este "desacordo".
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De c. a 29.08.2014 às 20:31

A maioria das pessoas não encolhe os ombros.
A maioria das pessoas manifesta-se às centenas e milhares, assinando manifestos atrás de manifesto, respondendo a inquéritos (onde os que se opõem ao acordo continuam consistentemente perto dos 80%), boicotando publicações, mantendo páginas nas redes sociais, protestando diariamente, aqui e ali - uma ato
O que acontece é que a maioria dos políticos não tem qualquer escrúpulo de governar à revelia da vontade do Povo Português - como bem recentemente observou Vasco Pulido Valente.
Portugal não é uma democracia e, muito menos, um estado de direito.
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De Pedro Correia a 30.08.2014 às 00:24

De facto, milhares e milhares e milhares de portugueses resistem todos os dias à aplicação deste "desacordo". E não faltam até ex-apoiantes do AO que se declaram agora opositores. É o caso do Francisco José Viegas, como é também o do deputado socialista Francisco Assis - entre vários outros.
Diariamente vou aqui dando nota de livros que continuam a publicar-se na única grafia da língua portuguesa que todos sabemos utilizar - a grafia pré-AO. Muitos escritores, editores, tradutores, revisores - e uma infinidade de leitores - militam activamente contra o aborto ortográfico através desse insubstituível instrumento de resistência cultural que é o livro.
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De c. a 30.08.2014 às 03:45

O viegas é pró-acordo. O viegas limita-se a ser contra propostas que atrapalham o acordo a que ele há muito aderiu e aproveita para a parecer que não é, já que porque a alta intelectualidade portuguesa não é acordista e ele está em má companhia. Um perfeito colega de governo (embora sem ser ministro) de Miguel Relvas, outra figura relevante do acordismo.
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De Vortex a 28.08.2014 às 18:02

um prof lisboeta tem 2ª casa
na 'Foz do Arálho'
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De Pedro Correia a 29.08.2014 às 00:00

Foxdoarálho.
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De jo a 28.08.2014 às 19:49

Ma tem de haver uma norma qualquer, a menos que cada um escreva de sua maneira.
Defende então a normalização através de Acordos Ortográficos.
Acordos esses que teriam de ser implementados e formatados pelo conjunto dos cidadãos.
É uma boa defesa do AO.
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De Pedro Correia a 29.08.2014 às 00:00

Um acordo ortográfico digno desse nome (e não esta fraude que nada uniformiza e é rejeitada em todos os países de língua portuguesa) tem de emanar da entidade competente para esse efeito, que é o conjunto da comunidade científica. Não é matéria para leigos: é matéria para especialistas.
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De c. a 29.08.2014 às 20:38

Pedro Correia, não compliquemos o simples: numa democracia a lei apenas pode ser declarativa, não impositiva.
Por isso, o acordo do castelhano - um verdadeiro acordo - é facultativo.

Por outro lado, os brasileiros recusaram o acordo de 1945 (que, ao contrário de 1990 realmente unificava a ortografia) por motivos de nacionalismo:

"Antônio Houaiss, também brasileiro, explicou ao «Folha de S. Paulo», em 11 de Maio de 1986, porque é que os brasileiros rejeitaram o acordo de 1945: «Sentimos que a ortografia de 1945 era lusitanizaste»."

Assim é complicado.
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De Pedro Correia a 30.08.2014 às 00:26

Não haverá - como nunca houve até hoje - nenhum acordo luso-brasileiro a propósito da ortografia, por maiores que sejam as cedências e as genuflexões que por cá se façam. Isto é cada vez mais óbvio.
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De Miguel a 29.08.2014 às 00:32

A norma, bem ou mal, fez-se em 1911. A questão deveria ter ficado terminada aí; não ficou porque o Brazil, com o seu habitual chauvinismo, não gostou de ser excluído de tal questão por um país soberano que estava a legislar sobre assuntos internos. Desde então se tenta fazer o impossível, isto é, unificar a ortografia de dois países que continuarão a mudar a ritmos diferentes e que têm díspares níveis de alfabetismo, com todas as consequências que isso causa na estabilidade da norma - no caso do Brasil, com um vertiginoso nível de analfabetismo funcional, onde se escreve como se ouve, isso significa que a ortografia será sempre mais instável do que num país razoalvemente alfabetizado como Portugal, pelo que nenhuma norma pode servir ambos países ao mesmo tempo.

Todos os acordos desde o de 1911 têm sido inúteis e nocivos; apenas resultam na obsolescência de manuais escolares e livros e em gastos de actualização de milhares de palavras em montras, repartições, estabelecimentos, ministérios, etc., pelo país fora. Quanto se gastará, por exemplo, a converter cada Direcção-Geral numa Direção-Geral? Quem fez estudos sobre isso? Qual será a factura? Alguém quer saber, alguém se interessa por isso?

Melhor teria sido se cada país tivesse aceitado que, estando separados geográfica, política, cultural e economicamente, as suas normas seguirão por sendas diferentes, a ritmos diferentes e ao sabor dos condicionalismos que cada um tem de enfrentar, e que não havia nada a fazer senão respeitar a diferença de cada. Nada mais justo, nada mais tolerante. Mas justiça e tolerância não são virtudes estimadas pelas elites políticas luso-brasileiras.
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De Pedro Correia a 30.08.2014 às 00:27

Vou destacar o seu comentário, Miguel.
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De Miguel a 30.08.2014 às 10:34

Muito obrigado, Pedro.
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De Álvaro Nunes de Sousa a 01.09.2014 às 21:16

Completamente de acordo, Miguel.
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De H a 28.08.2014 às 21:07

Aceitar essa argumentação seria caminhar no sentido da fragmentação da Língua Portuguesa.
Cumprimentos,
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De Pedro Correia a 28.08.2014 às 23:58

Pois seria. Felizmente tanto cá como no Brasil e em Angola e em Moçambique há quem esteja frontalmente contra. Cada vez mais contra.
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De Miguel R a 28.08.2014 às 22:50

Pequeno aparte: adoro quando um lisboeta diz que não tem sotaque :D
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De Pedro Correia a 28.08.2014 às 23:57

Tem sotaque. E bem vincado. Os acordistas chamam-lhe "pronúncia culta". Sem se rirem.
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De JRC a 29.08.2014 às 16:44

ah ah ah ou então lol... teve graça! sou alentejano! lol ou então ah ah ah...
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De Miguel a 30.08.2014 às 10:32

Engraçado, estive recentemente a folhear os volumes do Espaço do Invisível, de Vergílio Ferreira, e deparei com o discurso dele da aceitação do Prémio Camões. Ele começa com uma anedota sobre um brasileiro que certa vez lhe disse que falava com "sotaque português." Ferreira começa por achar piada a isso visto que seria mais preciso dizer que existe um sotaque brasileiro, mas depois segue para uma reflexão sobre todos os sotaques dentro de Portugal, na Beira, no Alentejo, e pergunta se não haverá até o sotaque lisboeta. Ou seja, Ferreira, um dos maiores vultos da nossa cultura, não tinha a fé que os acordistas têm na tal "pronúncia culta" de Lisboa, para ele era só mais uma forma de se falar a língua. Por estes gestos se percebe quem pratica a tolerância e quem defende o totalitarismo do pensamento.
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De Pedro Correia a 30.08.2014 às 23:53

Não pode haver, de facto, nada mais acientífico do que considerar "pronúncia culta" a que é falada em Lisboa - e, no Brasil, a de São Paulo - e fazer disso uma das tábuas da nova lei.
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De sampy a 29.08.2014 às 09:39

Ao contrário do que o tom do post faz crer, é bem possível que o seu autor não tenha tirado a nota máxima em Estudos Linguísticos.

Primazia não é o mesmo que anterioridade. Nascemos todos com língua e laringe; contudo, ainda está para vir à luz a criança que traga papel e caneta na mão. Existem sociedades sem escrita, mas não sociedades mudas.

Para que o autor do post perceba a importância do ler e dizer relativamente ao escrever, terá de fazer um esforço para compreender que o mundo não começou no século XVIII. Uma forma concreta de o captar seria assistir a uma missa católica.
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De Miguel a 29.08.2014 às 12:30

Porém, a escrita já está presente em todas as grandes civilizações da antiguidade. A Galáxia de Gutenberg não começou no século XVIII.
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De sampy a 29.08.2014 às 13:44

"Porém, a escrita já está presente em todas as grandes civilizações da antiguidade."
Sem dúvida. E a escrita é razão preponderante do "grandes". Mas há um "antes". O homo sapiens sapiens não nasceu com o cuneiforme.

No século XVIII normalizou-se (entenda-se: vulgarizou-se) a leitura silenciosa.
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De Miguel a 29.08.2014 às 23:18

Bem, eu pessoalmente prefiro a leitura silenciosa, como lhe chama, acho que fez mais pela civilização humana do que sermões a viva voz em igrejas ou lições peripatéticas ao ar livre. É uma forma mais eficiente, segura e fidedigna de se transmitir e conservar informação, e isso implica uma estabilização da ortografia. Os ingleses perceberam isso, é por isso que a ortografia deles quase não mudou desde 1820. Nós, por outro lado, vivemos numa constante ansiedade de mudanças especiosas.
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De sampy a 30.08.2014 às 02:11

Para o caso de não me ter feito perceber: numa igreja, hoje, podemos experimentar a relação de forças entre escrita e oralidade que presidiu à evolução da língua durante séculos. Concretamente, temos um livro e 200 pessoas. Mesmo sendo a escritura o ponto de partida, a comunicação faz-se pela oralidade da leitura/proclamação e da escuta. Aqui, o texto tem de ser dito. O signo submete-se ao filtro do som. O fonema é a estrela.
O grafocentrismo da sociedade contemporânea leva a desvalorizar a importância da oralidade, ou a desejar que o pretenso carácter arbitrário ou aleatório desta possa ser sublimado pela ortografia. Erro e ilusão.
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De Miguel a 30.08.2014 às 22:57

Mas a oralidade não tem quase poder nenhum hoje em dia, e teve-o em épocas da história onde o conhecimento não progrediu muito. Francamente não se fez perceber, ou sou eu que não estou a perceber aonde quer chegar com esta questão de leituras em igrejas.
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De sampy a 29.08.2014 às 11:07

É bom dar conta de que uma convenção ortográfica é isso mesmo: uma convenção. Mesmo que se acredite que o dedo de Deus escreve nas paredes ou em tábuas.
Por outro lado, querer exaltar o espírito normativo da ortografia não pode ser feitos às custas de insinuar que a fonética é arbitrária. Esta obedece a regras e leis, como o sabe perfeitamente quem faça investigação etimológica.

Segundo o autor do post, será descabido um bracarense escrever "barrer". Mas será que pode escrever "cobarde"? Ou "taberna"? Ou "febra"? Estará o autor convencido que o betacismo é apenas questão de sotaque?

Percebe-se a posição do autor: pugna pela unidade da língua, teme a fragmentação. Quase como um latinista horrorizado perante as actuais línguas românicas. Foi a morte do latim o fim do mundo? De um mundo, certamente; mas outros nasceram. Perdeu-se; e ganhou-se. Considerar que isto não vale dois segundos de discussão é simples boutade.
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De Miguel a 29.08.2014 às 12:34

Parece-me mais que são os defensores do acordo que pugnam pela unidade da língua e temem a sua fragmentação. Há um novo mundo, para usar o seu termo, que poderia nascer, chamado língua brasileira, mas está-se a tentar impedi-lo através da imposição de acordos impopulares.
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De sampy a 29.08.2014 às 12:48

Tal seria verdade, não fosse a recorrente evocação da etimologia.
No fim de contas, todos são defensores do acordo: uns, do antigo; outros, do novo.
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De Miguel a 29.08.2014 às 23:11

Eu gosto das marcas etimológicas, conferem mais informação à palavra e eu gosto igualmente de informação, quanta mais melhor. Mas não me bato por ela; quanto aos outros não sei, mas eu bato-me pela estabilidade da ortografia de uma vez por todas. Se em 1911 tivessem decidido escrever objeto e agora quisessem passar a objecto, eu estaria contra. Para mim o importante é que, em 1911, por boas razões, criou-se uma norma quando ela não existia, foi um mal necessário, mas agora deve-se deixar que a língua evolua e mude sem mais intervenções artificiais. No tocante à língua sou bastante liberal, acredito que o estado não tem nada que meter o nariz no assunto.
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De sampy a 30.08.2014 às 02:33

Incongruência.
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De Miguel a 30.08.2014 às 22:55

Em que sentido?
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De c. a 29.08.2014 às 20:22

O que os brasileiros falam e escrevem não é crismado como língua brasileira apenas porque tal língua não teria qualquer estatuto internacional - a que os brasileiros aspiram.
Ao contrário, o português é, desde desde já, uma língua internacional e intercontinental. Foi quando se aperceberam que iriam ficar sós que os brasileiros deixaram de reivindicar o "brasileiro" tão comum nos anos 70/80 e resolveram impor a sua ortografia (que é profundamente ideológica e tem motivações porto-fascistas) aos outros países
Não devem ter sonhado como era fácil essa tarefa sem paralelo. Os brasileiros são corruptos mas não são subservientes, ao contrário da politicagem daqui, que acumula.
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De c. a 30.08.2014 às 03:23

proto-fascistas e não porto-fascistas, é claro.
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De Pedro Correia a 02.09.2014 às 15:43

Sim, claro. "Porto-fascistas" levar-nos-ia para outro tema, muito diferente.

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