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Natal com o Menino Jesus

por José António Abreu, em 24.12.15

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A fé na qual me educaram foi-se esvaindo na racionalidade (na minha racionalidade) e na indiferença (não acredito mas, acima de tudo, não penso no assunto). Ainda assim, incomoda-me o carácter cada vez mais laico do Natal. Incomodam-me os esforços que se fazem para extrair dele a religião, alegando respeitos para com quem não deveria ter motivos para se sentir desrespeitado: a matriz de um país - feita também da religião que, mal e bem, o foi construindo - não deveria agredir quando celebrada, apenas quando imposta. A substituição progressiva mas inexorável do Menino Jesus pelo Pai Natal (e eu acho piada à figura acolhedora e transbordante de bonomia do Pai Natal), o frenesi consumista, a repetição anual de reportagens televisivas ocas, os actos formais de prazer duvidoso (os presentes que se compram porque tem de ser, os sublimes jantares de empresa), as manifestações de cariz turístico-comercial que se tornam lugar de semi-indiferente peregrinação (quantas vilas-Natal há hoje em dia?), parecem-me tentativas desesperadas para encontrar um sentido para a quadra, fora daquele que ela possui há séculos. Tentativas inglórias, como seria de esperar: cada vez mais as pessoas julgam pueris os seus esforços e se sentem mais isoladas.

Expurgamos a religião do Natal, esquecendo (ou ignorando) que quase todas as nossas celebrações estão ligadas a ela: a Páscoa, os dias de Todos-os-Santos e de Finados, até esse momento de origem pagã, o Carnaval, último excesso antes da Quaresma. E, na verdade, é melhor quando assim ocorre. Os feriados religiosos têm uma densidade, um peso histórico, social, identitário, que nenhum dos restantes consegue atingir, ainda que pretendam celebrar o país (25 de Abril, 10 de Junho, 5 de Outubro, 1 de Dezembro) ou direitos conquistados (1 de Maio). Não é preciso celebrar a religião para aceitar que o Natal deve ser celebrado com ela. Basta saber aceitar a história e os valores que formam uma verdadeira comunidade: desde logo, a «inclusão» e a «tolerância» de que tanto se fala. Permitam-me pois que os votos de um ateu (creio) sejam de um Santo Natal para todos. 

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16 comentários

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De Pedro Correia a 24.12.2015 às 18:31

Excelente texto, José António. Pois então um Santo Natal para ti.
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De José António Abreu a 24.12.2015 às 18:40

Obrigado, Pedro. Para ti também.
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De Jorge Nunes a 24.12.2015 às 20:17

É isto mesmo. Para crentes e não crentes.
Um santo Natal para o autor.
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De José António Abreu a 25.12.2015 às 00:42

Obrigado, Jorge. Para si e para os seus também.
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De Costa a 24.12.2015 às 23:02

Nem uma palavra a mais, nem uma palavra em falta.

Obrigado. Um Santo Natal

Costa
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De José António Abreu a 25.12.2015 às 00:44

Obrigado eu. Um Santo Natal, Costa - para si e para os seus.
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De José da Xã a 25.12.2015 às 03:08

Caríssimo,

como católico assumido creio que este seu texto traduz na perfeição a imperfeição da nossa sociedade.
A igreja também não ajuda no aproximar das pessoas à religião...
Um abraço de Bom Natal.
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De José António Abreu a 27.12.2015 às 18:38

Obrigado, José. E desculpe o atraso na resposta. Espero que tenha tido um óptimo natal.
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De José a 25.12.2015 às 08:33

Ora há muito tempo que o Natal foi sendo lentamente esvaziado de sentido religioso. E não foi por qualquer "tolerância" ou "inclusão" religiosa. Foi apenas porque foi transformado num acontecimento essencialmente comercial em torno do qual gira uma importante actividade económica. A nostalgia do antigo Natal tradicional das nossas aldeias, tal como era vivido até 1960, não é suficiente para contrapôr a um modelo de celebração cada vez mais global, em que o significado económico e comercial suplantou o significado espiritual e religioso, através de modelos de inspiração americana popularizados globalmente através das indústrias da "Cultura Pop" como o cinema, atelevisão e os cantores Pop.
Isto não é motivado por qualquer desejo de "tolerância" embora possa ser justificado com esse discurso. É apenas uma forma de alargar o mercado potencial da "Indústria do Natal" a nível global.
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De José António Abreu a 27.12.2015 às 18:46

Eu não afirmei que ele foi esvaziado por causa da «tolerância» ou da «inclusão». Pelo contrário. O meu texto pretende apelar à tolerância e à inclusão do Natal enquanto momento religioso na sociedade laica, sem que isso seja visto como inadequado ou agressivo.

O consumismo adapta-se perfeitamente a qualquer tipo de Natal, não precisa de o expurgar da religião.
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De Anónimo a 25.12.2015 às 14:44

Se queremos celebrar um Natal verdadeiramente genuíno e católico é estarmos em Roma, se possível for e ouvirmos o PAPA FRANCISCO que nos emociona com as suas mensagens. Na cidade em vez de pais natais são os Presépios que predominam.
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De José António Abreu a 27.12.2015 às 18:50

Para um crente, acredito perfeitamente que seja uma forma inexcedível de passar o Natal. E mesmo um não crente não é - ou não devia ser - imune àquilo que emociona tantas outras pessoas.
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De isa a 25.12.2015 às 18:56

Não acreditar é o primeiro passo, não pensar no assunto é comodismo, porque a coisa mais importante que deveríamos fazer durante toda a nossa vida, seria nunca parar de nos questionar e, não me estou a referir unicamente ao Natal, refiro-me a Tudo o que nos quiserem servir, como factos ou verdades absolutas.

No mundo animal, temos a qualidade única de sermos seres racionais que conseguem ver para além do presente, fazer raciocínios que nos podem levar a viajar no espaço, no entanto, a grande maioria opta por, não pensar por si próprio, nem tentar descobrir as respostas às suas dúvidas, parecem ser do tipo vasilhas vazias, onde lhes despejam ideias e pensamentos.

Num mundo tão avançado em tecnologia e ciência, sentimos o ser humano a regredir como, ser individual e pensante, basta ver o esforço que tantos gastam, só para serem aceites num grupo, seja ele qual for... a energia gasta para levar com "likes" virtuais, para terem muitos "amigos" que, nem sequer conhecem, ter os produtos da marca que os outros têm... até programar a vida para atingir o sucesso que, se reparar, já parece estar pré escrito. Vamos perdendo o controle da nossa própria vida porque "os que não pensam por si próprios, outros pensarão por eles" esta parte, não é uma frase minha mas, há anos que faço o possível para nunca a esquecer.

Este meu comentário, só o fiz porque, tal como o José, há muitos que sentem que há algo de muito errado, no caminho que segue este nosso mundo, no entanto, a solução não é seguir ninguém nem as suas ideias, será apenas, ir procurando, ouvir muitos mas, as respostas, têm de ser encontradas individualmente... no entanto, aí sim, sabemos que, outros, até podem pensar como nós, chegar às mesmas conclusões mas, só assim, se pode chegar a consensos de ideias ou tentar melhorar o mundo porque, só nessa fase, podemos ter a certeza que não há ninguém a querer convencer-nos ou a manipular as nossas próprias ideias, chegamos lá por nós próprios... aqui fico na dúvida se me consegui explicar.

Tem muito a ver com treino e, há daquelas coisas na vida que, na altura, não damos valor e, posso acrescentar que até podem ser vistas como uma grande chatice. Um exemplo que lhe posso dar, foi de um professor que eu tive, há mais de 30 anos, um terror a dar notas e, que nos dava uns trabalhos que nos faziam "suar". Apresentava um Tema, fazia-nos ler 3 ou 4 autores, com opiniões divergentes sobre esse assunto e, a seguir, tínhamos que defender o nosso ponto de vista, sem concordar com nenhum deles... só, anos depois, consegui reconhecer o mérito desse treino porque, podemos ouvir ou ler, muitas opiniões, cada uma, saída de uma reconhecida sumidade mas, nós temos de saber encontrar a nossa porque, copiar uma alheia, até pode ser cómodo mas... é batota ;) e não nos leva a lado nenhum.
Hoje, dia 25 de Dezembro, desejo-lhe um feliz dia, exatamente, o mesmo que lhe posso desejar para os restantes dias do ano :)

Quanto às origens do Natal, posso dar-lhe um link para uma versão curta:
YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=PHNm4h6DfB4

Where Did Christmas Come From? Well, Not Jesus For A Start - The David Icke Videocast
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De José António Abreu a 27.12.2015 às 19:41

Isa:

O seu comentário dava pano para mangas. Vou ficar por um ou dois pontos.

Excepto enquanto cultura geral, a questão da origem do Natal não me parece muito importante. Por exemplo, toda a gente sabe que a Páscoa não é verdadeiramente o período exacto em que Cristo terá morrido - quanto mais não seja, por calhar em dias diferentes todos os anos - mas isso não muda nada: celebra o evento. O mesmo se passa com o Natal. Independentemente da data do nascimento de Cristo e das origens da celebração, representa o que representa para os cristãos e as sociedades ocidentais criaram-se no sistema de valores do Cristianismo, adoptando alguns princípios, lutando contra outros, até se obter um equilíbrio que - na minha opinião (e é apenas essa a intenção do post - deve passar pela integração da celebração religiosa numa comunidade essencialmente laica, em vez de procurar impor significados não religiosos (dá-me ideia que os professores quase já nem podem falar em Jesus Cristo).

Depois há a questão da «indiferença». A minha indiferença às questões puramente teológicas decorre em grande medida de, na sequência de uma análise que julgo racional, eu não acreditar em religiões. Estas interessam-me acima de tudo enquanto manifestações do Humano. E a essas não sou indiferente.
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De Luís Lavoura a 28.12.2015 às 09:57

A religião é o ópio do povo, dizia Karl Marx e o José António concorda e aplaude. O ópio deve continuar a ser servido ao povo, recomenda o José António, que é imune aos efeitos do ópio mas gosta de ver os outros drogados.
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De José António Abreu a 28.12.2015 às 18:17

Lavoura, você é mesmo bom a interpretar textos.

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