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Nasceu um novo oráculo

por Pedro Correia, em 19.02.14

 

Os "analistas políticos" portugueses detestam ministros das Finanças e adoram ex-ministros das Finanças.

No dia em que se demite ou é exonerado do Governo, um ministro das Finanças deixa de ser a pessoa mais incompetente deste país para se tornar um oráculo dos tempos que virão e um poço de sapiência não só a nível financeiro mas também político.

Ganha imediato lugar cativo na televisão e todos procuram beber os seus conselhos.

 

É raro o dia em que não desfilam nas pantalhas ex-ministros das Finanças deste rincão: Silva Lopes, Medina Carreira, João Salgueiro, Miguel Cadilhe, Miguel Beleza, Braga de Macedo, Eduardo Catroga, Pina Moura, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix, Campos e Cunha - e agora até o extraordinário Teixeira dos Santos. Um deles, Cavaco Silva, é Presidente da República. Outro, Guilherme d' Oliveira Martins, preside ao Tribunal de Contas. Outro ainda, Vítor Constâncio, é vice-presidente do Banco Central Europeu.

Este país, como nenhum outro, aprecia "magos das finanças". Desde que já não estejam, na ala nascente do Terreiro do Paço, ao serviço da coisa pública.

 

Num impulso tão fatal como o regresso das andorinhas na Primavera, há já por aí, a pretexto de um livro, um movimento destinado a "regenerar" Vítor Gaspar aos olhos da opinião pública. E a carta de resignação do antecessor de Maria Luís Albuquerque não cessa de ser apresentada como peça de excelência até por alguns que foram seus encarniçados adversários políticos.

 

Lamento, mas não dou para este peditório. Se alguma coisa a carta de Gaspar revela é a sua inaptidão para estar ao leme das finanças em tempos de excepcionais dificuldades e de irrepetíveis exigências aos principais titulares de funções públicas. Governar com estados de alma, sem a noção de que a política em democracia não funciona por diktakt mas exige negociação permanente, e abandonar o barco quando os ventos adversos sopram mais fortes: eis o que Gaspar revelou, a 1 de Julho de 2013, com o seu teatral gesto de renúncia.

Aparentemente, não soube sequer interpretar os sinais de que não estávamos à beira de um segundo resgate nem mergulhados numa "espiral recessiva", como insistiam os seus mais obstinados opositores. Nem soube antecipar o novo estatuto de "herói surpresa da zona euro" que o exigente Financial Times já atribui a Portugal: por ironia, os primeiros sinais de optimismo nas finanças públicas aconteceram já depois da sua saída.

 

Mas não me surpreende minimamente que o vejamos muito em breve como comentador permanente num canal de notícias. Acaba de nascer um novo oráculo. Que merecerá o mesmo interesse que reservamos aos outros ex-ministros das Finanças. E também ao vetusto Frei Tomás: faz sempre o que ele diz, nunca faças o que ele faz.

 Foto Daniel Rocha/Público


30 comentários

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De 1 a 20.02.2014 às 19:49

Não colocava as coisas nesse plano. Limitava-me a dizer que Gaspar é INFINITAMENTE melhor que o ex-Paulinho das Feiras e da defesa ferrenha da baixa de impostos e dos direitos dos pensionistas.
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De Pedro Correia a 20.02.2014 às 22:59

Percebo o seu ponto. Mas repare: a política é a arte do possível, exige portanto negociação permanente. Não com quem pensa como nós mas com quem pensa de maneira muito diferente. Gostemos ou não, em democracia é assim. Sem fazermos depender cada passo de um estado de alma momentâneo.
A verdade é que Portas - concorde-se ou não com ele - foi a votos, recebeu a percentagem que os portugueses se dignaram conceder-lhe nas urnas e utiliza-a em conformidade. Gaspar não recebeu qualquer mandato popular, nunca foi eleito para cargo algum: teve uma tarefa difícil, num momento particularmente delicado, mas a verdade é que abandonou o barco cedo de mais. Quando o dever institucional - já nem falo em dever patriótico, para que algumas almas mais sensíveis não se sintam incomodadas com linguagem tão obsoleta - o mandaria permanecer no posto, não abandoná-lo.
As ocasiões mais difíceis permitem aquilatar o valor dos homens.

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