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Delito de Opinião

Não venhas embora sem passar pela aromaterapia

Rui Rocha, 31.03.14

Sabemos que, tal como o lince ibérico, o lobo, a foca-monge ou o saramugo, a classe média corre risco de extinção. É natural, assim, que cresça o interesse pela observação dos últimos exemplares no seu habitat natural. No caso dos linces, por exemplo, não é assim tão fácil. O aspirante a biólogo ou aquele que já exerce como encartado deve estar disponível para uma expedição à Malcata. Ou lá onde é que eles andam. Já a observação da classe média parece envolver menos perigo. Em princípio, basta ir a um SPA. O SPA é o local onde uma população urbana minimamente desafogada e cada vez mais escassa troca a constância da temperatura regulada do gabinete ou do open-space pelas agruras do stresse térmico. Da sauna a 40 graus para o duche gelado? Bem-vindos à vida selvagem. E dali para o jacuzzi. E assim sucessivamente, arrostando o perigo. Sem um grito. Sem medo. Mas em algum momentos verdadeiramente a tiritar. O SPA está para os adultos como a Disneyland está para as crianças. Na Disney, os adultos divertem-se sob o pretexto de fazerem a vontade às crianças enquanto estas sofrem atrocidades na escuridão da montanha-russa. No SPA, as crianças divertem-se na piscina sob o pretexto de terem de acompanhar os adultos enquanto estes sofrem atrocidades suportando o jorro intenso que empurra a barriga contra as costas como se não tivesse nada lá dentro. Como se ontem não tivessem comido sashimi. Na Disney, o momento alto para as crianças é um abraço do Pateta. No SPA, o momento alto do pateta é meter-se num tanque de água gelada. Note-se que tudo isto é feito em nome de uma ideia de saúde e juventude. O SPA está para a vida eterna como o iogurte bífidus está para o trânsito interno. O SPA é o templo onde os que já não frequentam igrejas se consagram a certos sacramentos com evidente religiosidade e uma certa predisposição para aceitar sacrifícios. Incluindo a hipotermia. Num caso e noutro fala-se de purificar e regenerar. Pela água. Com a vantagem de no SPA, supostamente, se tratarem as necessidades da alma e os anseios do corpo. É no SPA que o Rodrigo, com calções azuis e pequenos golfinhos, comprados antes de a Throttleman se apresentar à insolvência, e a Carlota, pais do Salvador e da Benedita, se deviam reconciliar com a vida. Não por acaso as mensagens promocionais dos SPA parecem ter sido todas escritas pelo Paulo Coelho: entre numa viagem de puro prazer onde só energias positivas o esperam. Bem, bem. As energias serão positivas mas, em algum momento do circuito, as temperaturas aproximam-se de zero. E nem tudo são rosas. Até no SPA é preciso fazer escolhas que geram tensão. Será preferível começar pela piscina dinâmica ou pelo duche sensorial? São decisões estruturais que podem marcar o sentido de uma vida. E acabar com um casamento. Defendo então que o momento experiencial em que mergulhas num SPA tem em si mesmo a marca de uma certa inutilidade? Que a transição sincopada entre cascatas, jatos e duches bitérmicos é uma moda a que falta um propósito maior que um selfie no IPAD? Que, de uma forma ou de outra, as coisas podem não acabar exactamente como foi prometido? Longe disso. Aí temos a aromaterapia. Ah e tal, os seus efeitos benéficos não estão suficientemente comprovados, argumentam alguns. Tudo muito certo. Mas, ninguém duvida, traz a não despicienda vantagem de pôr o mais palerma a cheirar bem.

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