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Não somos todos 'Charlie'

por Pedro Correia, em 09.01.15

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Percebo e louvo as manifestações espontâneas de mágoa e protesto pelo morticínio em França. Mas recuso o rótulo simplista que agora circula a garantir que "todos somos Charlie [Hebdo]".

Por ser falso.

 

Não é verdade que estejamos todos do mesmo lado: os dramáticos acontecimentos desta semana em Paris comprovam isso. É tempo de encararmos esta evidência. Sem ilusões de qualquer espécie.

Há quem seja inimigo figadal da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa - aliás já hoje ameaçadas por um extenso cardápio de interditos em nome da correcção política, algo que ficou bem simbolizado na recusa sistemática do New York Times e da CNN de reproduzirem, ao menos para efeitos de contextualização da notícia dos assassínios, qualquer dos polémicos cartunes do Charlie Hebdo diabolizados pelos extremistas islâmicos.

Há quem se assuma como adversário declarado das sociedades abertas e das democracias liberais vigentes na esmagadora maioria do continente europeu.

Há quem não hesite em recorrer ao homicídio como "argumento" político e transforme o sangue alheio em troféu de caça ideológica.

 

São pessoas que nasceram neste continente, que em muitos casos beneficiaram do apoio do Estado Social europeu e à primeira vista se parecem com qualquer de nós. Podem cruzar-se connosco na rua ou num centro comercial.

Mas não nos iludamos: é abissal o quadro de valores que nos separa.

Estamos perante indivíduos que não se limitam a combater as liberdades individuais: pretendem implodir a nossa matriz civilizacional e estão dispostos a recorrer a qualquer meio para atingir esse fim. Espalham o pânico com uma facilidade estonteante, fazem do medo um poderoso aliado dos seus desígnios e elegem o terror como senha de identidade.

 

Deixemo-nos de lirismos beatíficos: é inequívoco que vivemos tempos de fracturas essenciais. Temos contra nós - e no meio de nós - quem presta tributo à barbárie aproveitando as debilidades do sistema democrático ocidental, que por vocação é capaz de integrar sem estigmas até aqueles que estão mais determinados em destruí-lo.

Não somos todos "Charlie".  

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42 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 09.01.2015 às 17:42

Já tinha aflorado precisamente essa questão ontem, num comentário a um comentário.
Á sombra das liberdades que lhes ensinámos, chocam muitos ninhos com ovos de serpente, prontas a dilacerar-nos a garganta com presas afiadas, mal saltem da casca.
É o peço a pagar pelo multiculturalismo, que continuo a apoiar incondicionalmente, mesmo sendo Charlie. Porque tenho uma consciência civil. Porque posso pensar. Porque posso dizer. Porque posso escolher.
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De Costa a 09.01.2015 às 19:45

Esse multiculturalismo implica - deveria implicar - a mútua aceitação: da cultura do outro por mim e da minha pelo outro, e deveria essa aceitação (e correspondente imposição) ser balizada pelo bom senso mais elementar.

Se não me passa pela cabeça (nem a ela), independentemente do absurdo disso pelos nossos padrões, e na remotíssima hipótese de que a visitemos, que por exemplo minha mulher conduza na Arábia Saudita ou que aí consumamos álcool à vista de todos, ou exibamos destacadamente símbolos cristãos, andar de cara descoberta é elementar por cá - e uma forma óbvia de identificação e tranquilidade pública -, as vestes femininas acompanham naturalmente a meteorologia, o Natal deverá chamar-se isso mesmo (e nunca por mera alegada correcção política uma tal de "festa da família", ou seja lá o que for) -, o som que ouço e com que me identifico, que faz parte da minha formação (de que me orgulho), seja qual for o grau do meu fervor religiosos, é o dos sinos de igreja, e é objectivo civilizacional de primeira ordem que minha mulher seja minha igual em direitos, deveres e oportunidades.

Em suma, na minha terra como eu; na deles como eles. Desejavelmente com a natural ressalva e defesa das legítimas diferenças que não repugnem à cultura historicamente do local e mereçam esse estatuto de "cultura". E nem tudo o que é uso ou costume merece a elevação a cultura.

Não vale invocar que muitos são tão franceses (franceses, no caso concreto) como os franceses. Essa invocação já revela tudo ou seria desnecessária: não o são de facto, bem no fundo, e o acaso do nascimento pouco releva culturalmente quando essa cultura não só não é abraçada como, sobretudo, é odiada. Quando na verdade se parasita um sistema com o objectivo - já nem particularmente escondido - de o destruir.

O multiculturalismo como ideal é isso mesmo: um ideal. Mas, como tudo na vida, a sua materialização impõe o convívio não só com a imperfeição humana como com o respeito por essa mesma condição e dignidade humana: ou seja, a sua limitação. Idealmente sem imposição externa e resultando da simples boa educação, do tacto, da sã convivência.

Quando uma das partes não se revela sã, quando não há lealdade no relacionamento, no natural confronto de valores que deveria resultar numa síntese benigna, manifestamente há "trabalho sujo" a fazer. Por sujo que pareça, tem que ser feito. Fazê-lo na justa medida, sabendo impedir o regresso a tempos de horror (como se estes ou não fossem já), eis um bem delicado - mas firme - trabalho.

Que decididamente tem que ser feito. Por nós, ocidentais. Sem, sobretudo, essa repugnante limitação castrante de umas quaisquer "culpas ocidentais".

Costa
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De Maria Dulce Fernandes a 10.01.2015 às 11:24

É absolutamente correcto inferir que o multiculturalismo deve implicar uma mútua aceitação.
Se , como diz, fossemos fazer as figuras que refere na Arábia Saudita, estaríamos a transgredir uma lei que conhecíamos, e a expôr-nos a nós ao ridículo, não ao País em si, porque tudo o que a demonstração provaria seria que éramos uns idiotas ignorantes que fomos ao estrangeiro fazer figuras de parvos, conhecedores dos costumes desse país.
O meu marido é de Braga. Vamos lá bastas vezes por ano. Toda a família reza á mesa e se levanta de madrugada para ir à missa. Sabem que eu não sou lá muito católica, não rezo, não vou à missa, conto anedotas de padres. Até agora , passados quase 35 anos, ainda ninguém cavou um buraco para me enterrar e desfazer a cabeça à pedrada. Culturalmente, não podíamos estar mais longe, mas criámos laços de amizade que ultrapassa os dogmas com que nos criaram desde crianças.

E apesar de achar que no Natal não se comemora mais do que o que alguém convencionou, já que Jesus não nasceu em Dezembro, comemoro-o com a família, porque é tradição, porque nos juntamos, porque rimos e choramos e nos sentimos parte de algo que nos une.

Nem todos os muçulmanos são todos iguais.
Quando Maomé desceu do monte Hira, trazia uma mensagem que não foi aceite logo à partida. Foi desprezado, humilhado e perseguido, por defender conceitos monoteístas vigentes no judaísmo e no cristianismo.
Se formos ver bem as coisas, deveriam ainda andar a matar-se uns aos outros por isso, tantos anos volvidos ?

Os que vivem debaixo da capa da liberdade que as sociedades abertas lhes proporciona, deviam respeitá-la, porque SABEM que as leis mudam, que as regras diferem de norte para sul, dentro de um mesmo país. Deviam ter o civismo de entender a nação que os nutre. Deviam saber ser livres, mas não. A liberdade não é para quem acorrenta os ideais a uma época parada no tempo.

Aqui não há culpas ocidentais, a não ser a da permissividade da integração, porque se formos bater no peito três vezes, eles, os fundamentalistas sem fundamento, já ganharam.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 01:30

Chego aqui só para salientar o seguinte:
- O multiculturalismo que alguns elegem como bandeira nunca pode ser uma via de um sentido só.
- É intolerável vermos os mesmos de sempre apostados em transformar vítimas em carrascos e carrascos em vítimas.
- É inaceitável o relativismo moral de algumas sumidades bem-pensantes que tendem a equiparar quem mata a quem é morto em nome da expiação da culpa do "homem branco".
- Não há diálogo possível com quem nos ameaça com kalashnikovs. Não há diálogo possível com quem mata cartunistas, por mais odiosos que fossem os desenhos produzidos pelas pessoas assassinadas.
- O direito à blasfémia nunca pode ser excluído do cardápio de direitos fundamentais, seja qual for a religião que estiver em causa. É um direito inatacável, sem o qual o próprio conceito de sociedade aberta se desfigura por completo. É um direito do qual eu não abdico enquanto cidadão, mesmo que jamais o utilize por opção própria, na condição de crente.
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De Marquês Barão a 09.01.2015 às 21:01

Está tudo burro ou quê? Andei na guerra de guerrilha e este(s) atos terroristas assumem contornos muito semelhantes. É suposto que os perseguidos tenham rádio e oiçam noticiários como também terão meios para comunicar com eventuais cúmplices que se movimentem ainda á solta. Tal como um ouvinte ocasional terão ficado a saber que numa escola bem próxima há miúdos que estão por lá retidos, que num determinado local existe um grande aparato policial, e ainda que se irá realizar uma mega manifestação. Quando altos responsáveis deixam divulgar estas informações e tem o desplante de encher a boca com a palavra prevenção quando na prática estão a colaborar com os criminosos dando-lhes todas as dicas em vez de os manterem em isolamento longe do mundo estão simplesmente a facilitar. Ensinaram-me que no mato para tomar banho, nem pensar em usar sabão macaco e muito menos sabonete dado que esses cheiros deixavam pistas da nossa presença ao inimigo. Durante a noite para fumar um cigarro só debaixo de uma capa para o cacimbo, que o queimar de uma beata podia ser vista de muito longe. Vão-se fecundar mais o conceito de prevenção que tem metido na mona. Não somos todos cobardes.
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De Vento a 09.01.2015 às 21:25

Meu caro Pedro,

o amigo está com uma visão romântica deste acontecimento. O acolhimento de que essas comunidades, e outras, são alvo funciona com contrapartidas. Não acredite nessa de beneficiarem do apoio do estado social europeu sem que haja contrapartidas directas e indirectas.
Olhe que a maioria deles chegam de regiões ricas nas mais diversas matérias primas, incluindo o petróleo, e o que se arrecada dá para tudo isso e mais qualquer coisita.

Na realidade não somos Charlie, eu não sou e não quero ser. Quando falo sobre diferenças de perspectiva religiosa com muçulmanos não lhes aponto o traseiro nu de Maomé e não os ridicularizo e humilho em suas crenças. Limito-me a mostrar as diferenças de conceito. Quando digo a um gay que sou hétero estou simplesmente a dizer que não me incomode. Quando digo a uma testemunha de Geová que também sou cristão, estou simplesmente a dizer que a conversa fica por ali.
Creio que basta a pessoas civilizadas ouvirem que estão a incomodar para que certas atitudes parem. Charlie Hebdo não escutou e não foi capaz de compreender que há limites para a crítica que se faz. Obviamente que ele agiu em perfeita e total liberdade, e os seus carrascos também.
Não é verdade que eles "pretendem fazer implodir a nossa matriz civilizacional". Foi a nossa matriz civilizacional que fez implodir a deles, à conta da ganância. Hoje pagamos por todos esses erros.
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De Costa a 10.01.2015 às 14:30

"Obviamente que ele agiu em perfeita e total liberdade, e os seus carrascos também."

Convinha, arrisco, não toldar o nosso raciocínio com comparações absolutamente insensatas (e modero as palavras). Diga-se o que se disser da CH e dos seus autores, fazer publicar uma revista satírica não mata. Já vazar uns quantos carregadores de balas sobre seres humanos desarmados e ocupados com uma actividade que - horror!, parece - até nem era ilegal (mais até: legalmente enquadrada e protegida, com direitos e deveres definidos), não me parece a mais edificante demonstração de civilidade e recta defesa de perspectivas ofendidas. Mas evidentemente poderei estar errado.

«Não é verdade que eles "pretendem fazer implodir a nossa matriz civilizacional". Foi a nossa matriz civilizacional que fez implodir a deles, à conta da ganância. Hoje pagamos por todos esses erros.»

Uma coisa eu não farei: culpar-me ad eternum pelo que tenham feito os meus antepassados: seja onde tiver sido. Nem tudo terá sido o horror que a historiografia dominante - ela própria tomada por agendas nem sempre plenamente reveladas - insiste em demonstrar, seja porque o ocorrido não tinha ao tempo, de todo, a carga negativa que hoje teria, seja porque o "oprimido", podendo seria (ou foi) tão ou mais opressor (até sobre os seus); e mesmo naquilo que de facto, pela crueldade ou proximidade, de defesa ou atenuante alguma pode beneficiar, recuso-me a pagar e chamar a mim culpas. Até quando, por quantas gerações mais?

Hoje as terras são deles, os recursos naturais também (e que recursos). Que se entretêm tantas vezes a esbulhar, em exemplos absolutamente arrepiantes de ganância - deles! - de nepotismo, de plutocracia, de barbárie. As fronteiras, por exemplo, que o homem branco (esse danado "ocidental") traçou desrespeitaram etnias e formas locais de organização? Pois bem reponham-mas; o que os impede? E demonstrem-nos assim, até decerto com a decorrente cornucópia de bem-estar e venturas, o nosso erro histórico e imperdoável.

O que quer você, Vento: viver no Al-Andaluz, como eles o querem impor? Compreender em infinito masoquismo que tudo o que agora acontece é apenas uma natural, proporcional e merecida, e como tal a aceitar de cabeça baixa e sem resistência, expiação? Homem, se é assim ao menos tenha a coragem de no-lo dizer.

Costa

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De Vento a 10.01.2015 às 22:01

Meu caro Costa,

o conceito de liberdade que subjaz neste meu comentário está relacionado com o livre arbítrio e não com questões meramente formais e/ou de ordem legal. O seu comentário faz-nos reflectir que não é a lei que liberta e/ou impede a barbaridade, mas o sentido de justiça que habita cada um de nós. Aqui chegado reafirmo o meu comentário e o contexto da citação que reproduz.

Na realidade na segunda transcrição também não subjaz o sentido da culpa, mas da responsabilidade. Quando recebemos uma herança aceitamo-la para o bem e para o mal. Neste caso é nossa responsabilidade corrigir os erros passados e assumir o erro presente, onde existiu erro. As heranças que deixaremos não serão, certamente, todas boas, e os que virão no futuro terão de as rectificar. O único tributo que considero válido a meus antepassados é exactamente evitar os erros herdados e corrigi-los, sem os recriminar, e ficar atento para que não só não volte a cometer erros anteriores como também deixar claro que descobri a Verdade, isto é, amar e entregar-me. Só que este amor não é o dos afectos, é antes a consciência que os erros que outros transportam, com todas as realidades e ou hereditariedades, são os meus, ainda que possam ter outras dimensões. Vem isto a propósito que quer CH quer aqueles que perpetraram a vingança possuem estas mesmas dimensões de que, infelizmente, não conseguiram libertar-se. Mas são exemplos para os vivos.

Também é verdade o que diz em seu terceiro parágrafo, bastando-me só acrescentar: com os golpes e ajudas de seus aliados ocidentais. E refiro-me aos déspotas que se encontram nessa situação e a todas as oligarquias que suprimem, com seus aliados, os direitos desses povos.
Na realidade, o "danado" ocidental é aquele que gera desequilíbrios em nome da ganância. Mas também sei que neste ocidente os verdadeiros responsáveis são aqueles que propagaram o engano e a mentira em nome de falsos interesses e ganâncias.

Por último, se verifica ser um acto de submissão melhorar tudo isto e propagar o que conheço, então, continuarei a ser submisso, à Verdade.
De tal forma o que digo é uma "arma" que uso nesta batalha que o seu comentário vem a propósito para confirmar. De outra forma não haveria qualquer reacção vinda de si ou de outros.

Como nota de rodapé: Da guerra até lhe conheço o cheiro. Já cheirou a guerra?
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De Costa a 11.01.2015 às 02:18

Uma breve nota, apenas: por formação conheço bem a diferença entre culpa e responsabilidade. Sei também como é fácil confundir uma com a outra, seja por coloquialidade de trato, seja por ignorância conceitual, seja por má-fé. Sei também o que decorre da aceitação de uma herança.

O suficiente para me parecer abusivo recorrer nesta discussão a tal analogia de conceito jurídico. O substrato civilizacional em que nos fundamos não é exactamente de aceitação voluntária, expressa e determinável. Não é algo que, medidos activos e passivos, entendemos objectivamente aceitar ou rejeitar, é antes algo que nos enforma pelos simples - mas nem por isso menores - acasos do nascimento da educação, da tradição, da cultura em que crescemos. Está na nossa essência, é anterior a nós e ainda que o procuremos modelar é sobre os seus valores, deles partindo e por eles limitados, que o faremos. Não por um acto específico de aceitação, como a concreta herança de um familiar, de meros e precisamente quantificáveis direitos e deveres materiais.

A civilização que me trouxe ao que sou hoje não é algo por que me sejam exigíveis reparações por eventuais culpas ou responsabilidades dos que me antecederam. É que convém contextualizar as coisas. Não discutimos aqui o nível familiar de terrenos, casas, contas bancárias, obras de arte; muito menos os termos de um armisticio entre potências beligerantes, ou da simples rendição de uma delas; nem - já agora - dívidas soberanas. Discutimos ódios de morte, a um nível que visa a extinção de uma civilização, de uma forma de vida: as minhas.

Coisa completamente diferente. Nada - nada - me obriga a aceitar a sua legitimidade, a compreender quem os agita e a eles me submeter.

Leio o que escreve e imagino-o há umas décadas atrás: better red than dead, suponho.

Costa

Ps.: não, não conheci directamente a guerra. Suponho que isso me desqualifica irreversivelmente perante si.
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De Vento a 11.01.2015 às 09:02

Abusivo parece-me você pretender limitar de entrada a herança a questões meramente formais e depois fugir-lhe o pé para o que eu abordei. Como exemplo:
" O substrato civilizacional em que nos fundamos não é exactamente de aceitação voluntária, expressa e determinável. Não é algo que, medidos activos e passivos, entendemos objectivamente aceitar ou rejeitar, é antes algo que nos enforma pelos simples - mas nem por isso menores - acasos do nascimento da educação, da tradição, da cultura em que crescemos. Está na nossa essência, é anterior a nós e ainda que o procuremos modelar é sobre os seus valores, deles partindo e por eles limitados, que o faremos".

Seja ou não seja de forma voluntária, é uma herança. Acontece que independentemente do tipo de heranças nascemos com a capacidade para pensar e transformar. E se assim não agirmos limitamo-nos a reproduzir conceitos e atitudes, que é o que sucede, sob uma capa de desculpabilidade que nos faça sentir inocentes, e não o somos.
Por outro, a lei não liberta e não impede actos. Simplesmente julga-os e penaliza-os. O que liberta é a consciência, é a busca de uma Verdade que se deseja possa ser vivida. E quando aqui chegamos a lei tem o valor que tem, porque antes disto eramos ou somos escravos da lei. Se eu me detiver somente à lei sou um zombie, e também sei que nestes embates com a lei a técnica e a manha também contam. Logo, a lei não é um instrumento credível que possa ser chamado à colação nesta matéria.

As suposições são suas.

Quanto ao seu post scriptum: Não o desqualifica a si, responsabiliza-me antes a mim perante si e outros. E se você tivesse em conta que a mão que ofereço é para evitar feridas certamente que ficaria grato. Mas cada um é livre de percorrer os caminhos que entende.
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De Costa a 11.01.2015 às 12:25

Não sei onde vê que me tenha fugido o pé para o que tenha você abordado (no sentido presumo de me alinhar com o seu ponto de vista). O que afirmo é que no caso em apreço a dimensão transcende em muito a mera herança juridicamente regulável; desde logo por se tratar de fazer face a um ódio visceral e com o confesso objectivo de acabar connosco (ou comigo, talvez, não consigo, atendendo ao que escreve).

E por isso, sim, tenho por abusivo pretender a simplificação das coisas a um conjunto de deveres e direitos como se uma mera herança se tratasse. Mais não fosse porque não lido com uma contraparte que se curve por noções de direitos, deveres e princípios sequer remotamente similares aos meus: pelo contrário, não só se afastam terrivelmente dos meus como visam, com carácter de finalidade - veja-se a invocação obsessiva do martírio -, a destruição dos meus.

Se alguma analogia com noções ou princípios de direito puder ser feita, então estaremos no campo do estado de necessidade, da legítima defesa. Meu estado de necessidade e minha legítima defesa. E muito, muito aquém de um eventual excesso de legítima defesa.

Cuidado, meu caro. Veja bem a quem e até onde pretende dar a sua mão. Alguns, igualmente bem intencionados, perderam já - literalmente - a cabeça, às mãe deles e por essas boas intenções.

As estratégias de appeasment levaram-nos onde nos levaram nos anos 30.

Costa
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De Vento a 11.01.2015 às 22:06

Não, não foi para alinhar com o meu ponto de vista. Foi porque repetiu um conceito por mim abordado e parece-me que agora não compreende que isso mesmo que aponta é também uma realidade na contraparte (já vamos aos ódios viscerais).

Acontece que o mundo de hoje não é mundo dos anos 30. Se pretendemos propagar e levar a aceitar a globalização como um formato irreversível na aproximação dos povos em todos os domínios, presumo que devamos ser suficientemente honestos e abertos para compreender que "mi casa es sua casa". E se "mi casa es su casa" nós devemos arranjar espaço para acomodar as diferenças, onde se inclui o respeito pelas opções da contraparte.
Importa referir que o mundo ocidental, em particular a Europa e EUA, também na pessoa de muitos de seus cidadãos, considerando-se uma preciosidade em matéria civilizacional entendem que nesta aldeia global são eles mesmo os aldeões e os outros os bobos para os divertir. E neste cenário, que é real, é bastante natural que os ódios desabrochem.

Aqui chegados, será também abusivo simplificar as coisas, por exclusão de outrem, a uma mera tradição jurídico-legal que não só não possui esta amplitude como também, no nosso caso, não dá resposta a necessidades dos cidadãos e não se reforma com a rapidez desejável. E nesta constatação aceito sem esforço que é o sentido de justiça individual, isto é, que cada um possui, que por ser comum determina a pacificação social.
E volto a afirmar que não é a lei que liberta, porque esta, tendo em conta o anteriormente exposto existe de maneira formal, mas não de facto.

Mais ainda, no caso francês é conhecido que esta nação faz parte de uma coligação que bombardeia diariamente um grupo e, colateralmente, cidadãos inocentes em determinada área geográfica. Surpreende-me que se banalizem as mortes aí ocorridas, evocando o estado de guerra, e nos indignemos que elas ocorram em "nosso" território.

A mão que estendi foi a si, e continuo a fazê-lo com a partilha destes meus pensamentos. A sua também a receberei de bom grado se me trouxer consistentemente ideias que me façam mudar.
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De Costa a 11.01.2015 às 23:36

Fazê-lo mudar, meu caro, parece-me ambição demasiada para as minhas capacidades.

Quanto ao resto que escreve, a ideia da minha ser a sua casa é louvabilíssima , um princípio relevantíssimo, um ideal a sempre acarinhar.

E sê-lo-á, até que eu me aperceba que você está apostado em ditar as leis em minha casa, fazer das minhas tábua rasa e nela me reduzir à condição de ser inferior, de escravo. Chegados a esse ponto, a minha casa tem que deixar de ser a sua casa. Isto é tão elementar, tão cristalino, que se não foi entendido e aceite, até agora, por pessoas como você, já não vejo como o possa vir a ser.

Alerta-me apenas - aliás não é surpresa - para o facto de poder eu ser alvo de fogo das minhas próprias trincheiras. E desgraçadamente não por acidente. E suscita-me outra questão: estará de facto na minha trincheira quem, aprioristicamente, tudo o que de mau há no mundo reconduz a um pecado original do nefando mundo ocidental? É que eu rejeito a premissa.

Mas você é que andou na guerra, de modo que devo eu ter cuidado com analogias destas...

E se nela, minha casa, você (eles) se sente bobo - ou sustenta que eu faço de si bobo (proporcionando-lhe toda a sorte de garantias e assistência que nem sonhadas são na sua - deles - terra) - pois bem: fique em sua (deles) casa. É simples.

Mais ainda quando ai de mim se eu, em sua casa, ousar comentar criticamente, ou sequer beliscar, ou parecer beliscar, ou parecer-lhe que belisquei, as suas regras.

E, caro Vento, acha você, acha mesmo, que somos nós que banalizamos as mortes de civis nos teatros bélicos da Síria, do Iraque, do Afeganistão, onde seja? Você não os vê a armadilhar crianças - veja-se o recentíssimo caso nigeriano -, a humilhar por humilhar, a raptar e dizimar populações civis pelo simples terror da acção, a matar em série - depois de tratos decerto indescritíveis - os combatentes opostos caídos nas suas mãos e a bombardear cidades até à total destruição? A arrasar por arrasar, a aterrorizar por aterrorizar. A que chama isso, admitindo que você não negará tudo isso, claro? Compreensíveis demonstrações de enfado pela injustiça do mundo ocidental, às quais cumpre dar a outra face e estender o ramo de oliveira?

Mas não se dê ao trabalho de responder, meu caro. É que antecipo a sua resposta e a nossa troca de impressões aproxima-se da total esterilidade.

Uma boa noite.

Costa
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De Vento a 12.01.2015 às 12:26

Meu caro Costa,

para responder a seu comentário teria de citar os meus anteriores comentários. Na realidade não há necessidade de responder-lhe, somente de recordar-lhe minhas anteriores respostas e comentários.
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De Vento a 10.01.2015 às 22:57

Passou-me um comentário a uma das suas afirmações: "uma revista satírica não mata". Sem dúvida, mas a provocação pode originar mortes. Foi o que ocorreu depois de batalhas judiciais levadas a efeito desde antes de 2009.
Se eu tiver um vizinho agressivo e provocar sua agressividade também me torno responsável pelos actos dessa mesma agressividade. Terei sido ou não responsável por ter feito desencadear sua fúria?

Na questão relativa a CH estranho que depois do despedimento de Siné, por ter satirizado em torno do casamento do filho de Sarkozy com uma judia, tenham cessado sátiras a judeus e continuado em torno de cristãos e muçulmanos.
Isto só revela que o sentido da sátira era contra os que se presumia não terem suficiente poder para contrariar a tendência. E eu não respeito este tipo de conduta:
http://economico.sapo.pt/noticias/charlie-hebdo-despediu-cartonista-por-antisemitismo_209597.html

Mas não confunda, eu não desejo ver a CH a provocar quem quer que seja.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 01:39

Caro Vento, deixemo-nos de entretantos e vamos ao fundo da questão: o direito à blasfémia nunca pode ser excluído do cardápio de direitos fundamentais, seja qual for a religião que estiver em causa. É um direito inatacável, sem o qual o próprio conceito de sociedade aberta se desfigura por completo. É um direito conexo à liberdade religiosa e do qual eu não abdico enquanto cidadão, mesmo que jamais o utilize por opção própria, na condição de crente.
Os assassinos do assalto ao 'Charlie Hebdo' procuraram fazer tábua rasa de tudo isto não pelo protesto, não pela denúncia judicial, não pelo insulto ou pela injúria, mas pela violação do mais sagrado dos direitos: o direito à vida. Usando armas de guerra para matar gente desarmada.
É um crime repugnante, cobarde, inaceitável. Devemos respeitar a memória das vítimas procurando, no mínimo, não encontrar justificações para quem as assassinou.
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De Vento a 11.01.2015 às 09:14

Meu caro Pedro,

de uma forma muito simples e directa: os entretantos resumem-se ao facto de em nome de um farisaísmo que pretende circunscrever a liberdade de acção a uns esquecendo que existem outros que também buscam ficar libertos, neste caso deixando de ser alvo de chacotas em torno de suas opções, acabou-se num banho de sangue.

E como assim acabou, tendo em conta os antecedentes, volto a repetir: Colocaram-se a jeito. Ambas as facções agiram com plena e total liberdade. Lamento a morte de todos, mas em particular dos inocentes por terem sido apanhados neste fogo.
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 11:34

A propósito deste seu remate, eu poderia tecer novamente uma série de argumentos. Não vale a pena. Concluo apenas isto: de facto, "não somos todos Charlie". Nada mais falacioso do que esse rótulo pseudo-unificador que mistifica por completo a realidade, ao bom velho estilo das produções Walt Disney, que transformavam as feras sanguinárias em bonecos fofinhos.
O facto é precisamente o oposto. Nunca fomos tão pouco Charlie como hoje. Porque os disparos homicidas de kalashnikov geram medo. E o medo contamina o pensamento. E o pensamento contaminado pelo medo molda as palavras pusilânimes.
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De Vento a 11.01.2015 às 11:52

Pedro,
as pessoas livres vivem libertas do medo, sejam quais forem as consequências que daí advenham. Aqueles homens que perpetraram o banho sanguinário sentiam-se plenamente livres até para morrer. De tal forma assim foi que não se entregaram de espontânea vontade como podiam ter feito. Assim é que eles preferiram continuar livres na sua própria morte. E parece-me que CH, por declarações que li, também estava consciente disto. Logo, volto a repetir, ambos agiram em plena e total liberdade. Não vejo nenhuma postura pusilânime nestes factos

A conclusão dessa constatação, do não sermos todos Charlie, já eu o afirmo desde o início. Ninguém vai ao engano por minhas palavras.
Não há nenhum rótulo pseudo-unificador, há simplesmente a tentativa de fazer respeitar a unidade na diversidade. O farisaísmo desta liberdade que se apregoa é exactamente à semelhança de todos os outros fariseus que provocavam e desafiavam situações que conduziam a extremos.
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De Costa a 11.01.2015 às 15:11

"(...) outros que também buscam ficar libertos, neste caso deixando de ser alvo de chacotas em torno de suas opções, acabou-se num banho de sangue."

Trata-se de uma noção de liberdade que nada tem a ver com a minha - a nossa, Vento, a que nos permite estar aqui a trocar impressões - e que, mais do que isso, visa acabar com essa liberdade tal como eu a defino e vivo. E acabar com ela, na minha terra que eles reclamam como sua (porque, está visto, tudo é deles e universal é a tarefa de submeter ou exterminar o "infiel"; o que nos deixa conversados, desde já, quanto à questão da tolerância religiosa e convivência inter-civilizacional).

As minhas opções podem então ser por eles legitimamente reduzidas às de "infiel" e como tal condenadas (experimente-se construir uma igreja e fazer tocar os seus sinos na terra deles), sendo um sagrado dever combatê-las e se necessário morrer nesse combate - arrastando tantos "infiéis" quanto possível nessa morte, mas é meu inquestionável dever (desde logo auto-imposto, a acreditar em si) tolerar-lhes tudo e culpar-me por tudo. E jamais ousar fazer humor, de bom ou mau gosto - e, bom ou mau, em regra assaz certeiro - com as convicções deles.

Eles os tais que se podem passear, na minha terra, com a protecção das minhas forças policiais, com cartazes dizendo God bless Hitler e outras pérolas de civismo, de tolerância, de sã convivência entre credos e civilizações. Porque isso, evidentemente, não é fazer chacota - na minha terra, insisto - das minhas convicções.

E se for, lá no fundo, no fundo, a culpa é minha e nunca - nunca - estará expiada. Tudo o que acontecer é pois explicável, desculpável para eles e merecido para mim.

Eis o patamar em que estamos.

Costa
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 15:50

Costa, você coloca a questão no ponto que considero correcto. Porque, como já referi em resposta a outros leitores, a "interculturalidade" (palavrão execrável) só faz sentido quando funciona nas duas direcções. Como refere também, a simples troca de impressões que aqui travamos seria impossível na maioria dos países que incentivam e financiam o terrorismo islâmico. Na Arábia Saudita, desde logo. Tão impossível como ver ali uma mulher a guiar um carro. Ou um grupo de cristãos a orar num templo devotado à sua fé.
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De Vento a 11.01.2015 às 22:35

Costa, eu compreendo o que me diz. Sim, NÓS compreendemo-nos. Mas para nos relacionarmos com os outros, e até mesmo para nos defendermos, precisamos de entrar neles. A única forma para isto ocorrer é libertarmo-nos do EU. Esta libertação do EU que menciono não significa a anulação deste, mas antes a abertura de espaço ao Outro.
Se para isto ocorrer "nós" tivermos de abdicar da chacota só estamos a revelar AMOR pelo outro e a dar uma oportunidade à PAZ.
Eu já não me indigno com as mortes e chacinas, por tão banais elas serem. O que me indigna mais é esta incapacidade de nos aproximarmos.

Nós já não somos nações, somos uma nação global. E é estúpido provocar a (in)segurança dos outros - refiro-me ao que ocorreu na Ucrânia e Crimeia -, não criar pontos de entendimento no médio oriente A PARTIR desta europa, como nós, OS PORTUGUESES, temos feitos com os imigrantes e os líderes religiosos, para poder chegar aos fundamentalistas naquela área e contrariar os que aqui temos (na Europa).

Desta vez não respondi ponto por ponto ao seu comentário. Mantive-me na linha que pretendi seguir desde sempre. O restante encontra-se na resposta a um outro seu comentário.
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De Costa a 11.01.2015 às 23:59

"Chegar aos fundamentalistas"... Meu caro, respondeu-me integralmente. É inútil prosseguir, se você acredita nisso e acha que nisso deveremos fundar a nossa acção. Tivesse eu lido esta sua resposta, antes de responder à sua outra resposta, e não o teria incomodado com ela.

É que eu nada tenho que tentar chegar a quem, neste momento da humanidade(!), entende sagrada a missão de acabar, pura e simplesmente, comigo. Tenho, isso sim, que me defender dessa gente. E dela esperar o pior e só o pior.

Voltando à sua outra resposta, meu caro Vento, eu não sei se a globalização o vai continuar a ser, perante acções como esta que aqui nos trouxe a comentar e o potencial que elas encerram, ou se ainda veremos - talvez já não nós, espero egoisticamente que não nós, mas no tempo de umas duas gerações (se não estiver a deixar-me enredar em optimismos infundados), a humanidade dividida em autarcias em estado de guerra mais ou menos latente, mais ou menos permanente, espécie de Oceania, Euroasia, Lestasia (embora não me pareça necessariamente nessa divisão) da vida real. Não necessariamente de totalitarismo orwelliano, algumas delas pelo menos (que outra ou outras...), mas decerto fechadas sobre si mesmas.

E já o imagino a escrever que, se isso acontecer, a culpa será do mundo ocidental.

Costa
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De Vento a 12.01.2015 às 12:34

A globalização foi aquilo que andaram a apregoar desde a "Nova Ordem Mundial". Talvez tenha razão nas dúvidas que apresenta, isto é, "eu não sei se a globalização vai continuar a ser".

Como as nossas perspectivas se cingiam ao presente eu não vou comentar sobre cenários.

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De Vento a 09.01.2015 às 21:48

Já agora, Pedro, permita mais uma achega:

http://economico.sapo.pt/noticias/charlie-hebdo-despediu-cartonista-por-antisemitismo_209597.html
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 01:20

Coitados dos caricaturistas do 'Charlie Hebdo'. Não lhes basta ter sido assassinados, agora ainda sofrem acusações póstumas de terem sido coniventes com actos censórios.
Uma desgraça nunca vem só.
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De Piu a 09.01.2015 às 23:14

Bico calado.
A ordem dos censores é simples:
- As bocas devem ser fechadas em nome da pureza dos ouvidos dos fiéis.

Se alguém julga que resolve alguma coisa em se conter, deve notar que:
- Quanto mais silêncio há, mais apurados os ouvidos sensíveis ficam.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 13:10

E se não for a bem vai à bala.
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De Vortex a 10.01.2015 às 00:00

à morte dos cartoonista judeus do maio 68
respondeu o estado socialista com igual
selvajaria, ou seja
o terrorismo de estado que vem do caso Baader-Meinhof,
passou pelos gringos da maratona
e terminou com a bófia francesa a matar

nunca saberemos a verdade dos factos
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 13:09

Não admira. Ainda hoje ignoramos para que planeta levaram o Elvis Presley quando o raptaram naquela nave espacial.
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De Hugo a 10.01.2015 às 00:16

Depois de ouvir o Boaventura Sousa Santos no telejornal, tenho a certeza que o Boaventura Sousa Santos e um deles
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 13:07

Também já ouvi. E já escrevi sobre o assunto.
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De Eduardo Saraiva a 10.01.2015 às 00:20

Tenho escrito:
"Je suis ami de Charlie", porque sou, e serei, o Eduardo Saraiva mas "amigo" dos que merecem o meu respeito e amizade.
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 13:07

Parece-me muito bem, caro Eduardo. Grande abraço.
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De sampy a 10.01.2015 às 12:54

Portanto: a liberdade de imprensa significa liberdade de publicar os cartoons, mas já não permite a liberdade de não os publicar. É esta a tese?...
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De Pedro Correia a 10.01.2015 às 13:06

A liberdade de imprensa tem vindo a sofrer sérios recuos em nome da correcção política, do multiculturalismo, do respeitinho por mil e umas entidades políticas, sociais, culturais, deportivas, religiosas e financeiras.
Na imprensa de hoje grande parte das caricaturas de Bordalo, do século XIX, não seriam publicadas. Recuámos século e meio.
O atentado mortal ao 'Charlie Hebdon' é mais um sério recuo na liberdade de imprensa. E terá reflexos nos conteúdos editoriais, não tenho a menor dúvida. E muitos dos que hoje batem no peito dizendo que são 'Charlie' amanhã serão os primeiros a advogar o silêncio. Para não ferir a sensibilidade da comunidade X ou do grupo Y ou da associação W ou do governo K.
Claro que, no limite, resta sempre a liberdade de não publicar. De recuo em recuo, terminaremos na folha em branco. E proclamaremos então em uníssono, fazendo nosso o lema orwelliano: «Liberdade é opressão.»
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De sampy a 10.01.2015 às 15:05

Pois. A não-publicação é cedência a pressões e interesses. Já a publicação é livre de qualquer agenda ou interesse. De um lado temos o respeitinho, mas do outro, nem sombra de desrespeito. O desejo de não ferir sensibilidades é nocivo, é anti-libertário.

Grande parte das caricaturas de Bordalo não seria publicada hoje. Significa isso que o tempo de Bordalo foi o tempo áureo da liberdade de expressão e de imprensa em Portugal? A imprensa que publicou Bordalo, publicava também a voz oposta a Bordalo? E se Bordalo vivesse hoje, expressar-se-ia pela caricatura na imprensa?

Em nome da liberdade, há blogs que se recusam a moderar ou censurar comentários.
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De sampy a 10.01.2015 às 15:42

Coisa curiosa: os media gauleses recusaram-se a transmitir o vídeo do assassinato de Ahmed Berabet (de onde foi retirada a imagem que encima o post). Mais um recuo na liberdade de imprensa? Mais uma claudicação feita de respeitinhos absurdos? Censure-se a censura?...
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De sampy a 10.01.2015 às 22:35

Corrijo: parece que Le Point se atreveu a publicar a imagem patente no post acima, tendo gerado reacções indignadas por parte das autoridades, que classificam a publicação de atentado à memória do polícia vitimado.
Já o director do periódico defende a decisão em nome da liberdade de expressão. Acrescentando ele que o NYT também a publicou, e em tamanho maior.

É complicado...
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De Pedro Correia a 11.01.2015 às 01:46

Complicado é tomar decisões editoriais com uma kalashnikov apontada à nuca ou ao peito. Complicado é alguém escrever seja o que for sob a ameaça iminente de ser decapitado.
A auto-censura resulta de muitos factores. Mas nenhum é tão poderoso e tão eficaz e tão destrutivo como o medo. Inútil negar que o medo existe. Passado este frenesim esporádico das manifestações em que todos dizem ser "Charlie", verificaremos que houve mais um recuo em matéria de liberdades. Ninguém é herói todos os dias. Ninguém é herói armado com canetas contra armas automáticas empunhadas por legiões de fanáticos.
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De lucklucky a 10.01.2015 às 16:11

Assim se mostra a confusão que vai na cabeça de Sampy de uma penada.

Não percebe que a Liberdade é precisamente o direito a criticar.

Não percebe a diferença entre critica e agressão.

O autor do texto não está com uma arma apontada à cabeça do NYT e da CNN.
O autor está no seu livre direito de criticar. Com palavras.

E critica a contradição entre as palavras e os actos do NYT e CNN.


PS: O sampy, ou o boaventura talvez me saibam responder, a CNN designou o atacante que fez reféns na loja Judaica como Africano-Americano.
Será Racismo ou não?
E os assassinos dos cartoonistas como Activistas.
Será Anti-Activismo ou não - aka tipos que usam violência mas de Esquerda por isso bons?



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De sampy a 10.01.2015 às 22:08

Ó pá, lá estás tu com a mania de disparar às sombras.

Desde quando neguei ao autor do post o direito de criticar?

E desde quando o livre exercício da crítica torna ipso facto essa crítica justa, correcta ou verdadeira?

O autor do post pode questionar as razões da não publicação dos cartoons. O que não pode é deixar no ar que aqueles media estão a atentar à liberdade quando exercem a liberdade de não os publicar.
Ou melhor: poder, pode. Mas não está certo.

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