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Não se aproveita nada

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.10.15

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"[É] meu dever, no âmbito das minhas competências constitucionais, tudo fazer para impedir que sejam transmitidos sinais errados às instituições financeiras, aos investidores e aos mercados"

 

A posição do Presidente da República (PR) de indigitar Passos Coelho para formar um executivo é compreensível. Difícil seria conceber que optasse pela outra solução que lhe foi soprada de nem sequer convidar Passos Coelho e remeter desde logo para António Costa a responsabilidade de apresentar um Governo para a legislatura.

E tem razão quando diz que é da tradição portuguesa que seja convidado a formar Governo o líder do partido ou força política vencedora das eleições. Sobre isto também já aqui manifestei a minha posição.

Mas posto isto, o espectáculo deprimente que o PR encenou ao longo dos últimos dias, embora tenha começado ainda antes das eleições, de que a ausência no Cinco de Outubro fazia parte, a posição agora manifestada, a forma que utilizou para fazê-lo e, em especial, os argumentos a que recorreu para inviabilizar qualquer outra solução que não fosse a por ele desejada e justificar a sua irrelevância política perante o país é do domínio do surreal político.

Ao longo dos seus mandatos Cavaco Silva foi coerente na forma como sempre se esforçou por se mostrar aos olhos dos portugueses como uma personagem politicamente inimputável, o que foi fazendo com o esmero e a diligência naturais de quem sempre demonstrou ter o espírito e a visão de um funcionário, e não o arrojo intelectual e político que seria de esperar de um académico desempoeirado e de vistas largas que foi ministro das Finanças, primeiro-ministro e líder de uma dos partidos estruturantes do regime e do nosso sistema político.

Embora demonstre ser para ele fundamental cumprir com todos os formalismos constitucionais, Cavaco Silva é incapaz nas múltiplas leituras - e pelos vistos insuficientes - que faz do texto constitucional de dele extrair as respectivas consequências e deixa-se trair pelos seus complexos, pela sua visão economicista da vida, da política e dos valores, para se apresentar aos portugueses como se fosse a peça obediente de uma engrenagem primária ao serviço das instituições financeiras, dos investidores e dos mercados.

Recorde-se que quando se apresentou como candidato presidencial, e em ordem a afastar os outros candidatos, Cavaco Silva procurou sempre afirmar-se como um referencial de estabilidade, como um fiel e um garante da confiança dos mercados, o único que estaria em condições de proporcionar condições de governabilidade a Portugal e confiança aos portugueses. Os últimos quatro anos mostraram quão longe estava da realidade.

O discurso que ontem fez aos portugueses para anunciar uma escolha que era mais do que previsível, poderia ter sido um discurso normal de Estado, dando conta das suas diligências, dos factos e da sua decisão. Uma coisa limpa e transparente. Sem mais. Ao invés, tal como em outras ocasiões fizera, só formalmente é que o PR cumpriu. O seu discurso revela a reserva mental com que sempre actuou - para quê a encenação de pedir ao primeiro-ministro cessante e vencedor das eleições que fizesse diligências; para quê perder tempo a ouvir o PS, o BE e o PCP, se já tinha a decisão tomada? -, dando a entender que jamais confiaria numa solução maioritária à esquerda simplesmente porque desconfiava dela desde o início em razão do histórico do BE e do PCP.

Do ponto de vista da legitimidade política, e não obstante a sua reduzida representatividade, o BE e o PCP têm-na tanta como os outros partidos. As posições políticas que defendem não são um crime, mesmo no contexto europeu que é tão querido de Cavaco Silva, e não actuam à margem da lei ou recorrendo a expedientes manhosos para se manterem dentro da legalidade. Não sendo comunista - aliás não gosto deles nem do que o PCP representa - nem tão pouco simpatizante do BE, não posso todavia aceitar a forma como destratou esses dois partidos, como também não aceitaria que um "Presidente de esquerda" tratasse da mesma forma os "fascistas e reaccionários" do CDS/PP só pelo facto de historicamente terem votado contra a Constituição da República em 1976.

Cavaco Silva desconfia de tudo e de todos, tem medo da sua sombra, sente-se perseguido por fantasmas que transformam os seus sonhos em pesadelos e não sabe o que é a divergência em democracia porque o seu pensamento tem dificuldade em acomodar-se a cenários divergentes, não sabe pensar fora da caixa.

E desconheço em que parte da Constituição se apoia Cavaco Silva para dizer que o PR tem nas suas competências constitucionais tudo fazer para impedir que sejam transmitidos "sinais errados às instituições financeiras, aos investidores e aos mercados". Que sinais errados? Ao dizer o que disse, o Presidente da República mostrou que afinal nunca esteve ao serviço de Portugal, dos portugueses e dos princípios e valores ínsitos na Constituição que jurou cumprir e fazer cumprir.

Prisioneiro dos seus complexos, da sua amargura por a democracia não corresponder ao que gostaria que fosse, Cavaco Silva esqueceu-se que foi ele o último bastião do azedume, da radicalização do discurso político e do extremar de posições. O europeísmo que agora defende deve ser o mesmo que lhe permite confiar na palavra, receber, apoiar e apertar a mão a Obiang, o ditador da Guiné-Equatorial, cujas promessas feitas para aderir à CPLP continuam por cumprir. Incapaz de sair de si, de se apartar dos seus lábios sibilinos, de se colocar num patamar onde a sua figura institucional não se deixasse enredar pelos seus complexos e que merecesse dos portugueses o respeito que lhe é devido pelas funções que exerce, Cavaco Silva termina o mandato deixando o país entregue a si próprio, virando costas à situação política e remetendo para os deputados da nova Assembleia da República a responsabilidade de encontrarem as soluções de governabilidade que ele próprio se encarregou de escaqueirar e inviabilizar com as posições que foi tomando ao longo do mandato. A imagem que deixa é a de uma total inimputabilidade política. Pode ser que Portugal venha a ter um primeiro-ministro que politicamente entre pela "porta dos fundos", já que constitucionalmente estará sempre respaldado, mas se for o caso ele cruzar-se-á na sua hora de saída com o que entrar. Dessa não se livrará.

Com o discurso de ontem, e não foi pela solução apresentada aos portugueses, que devia desde sempre, e não apenas desde 4 de Outubro pp., ter sido uma evidência para ele, sem necessidade de considerandos adicionais e avisos pré e pós-eleitorais disparatados, Cavaco Silva estampou-se de vez. Desintegrou-se, descavacou-se por completo.


9 comentários

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De Peregrino a Meca a 23.10.2015 às 08:05

Cavaco Silva joga aos aprendizes de feiticeiro, ou melhor, de Maquiavel. A estratégia é relativamente simples, poder-se-ia chamar de estratégia do "virtuoso bombeiro pirómano ". Primeiro de propósito agita o fogo. "Aqui del rei, que se não se faz o que eu digo vai tudo para o maneta". Que o Presidente da Republica diga algo parecido claro que cria confusão e a tal "desconfiança dos mercados" (self-fulfilling prophecy "). Depois como as soluções que apresenta são irrealistas. Sejamos sinceros, um governo do bloco central? mas que raio de democracia é esta sem oposição em condições? governos de bloco central têm razão em democracias não consolidadas ou em perigo. A nossa está em perigo pelos 10% de votos do PC? está tudo doido?

Depois vem dizer que tentou tudo, mas ninguém lhe ligou nenhuma. Ele, coitado , o único impoluto da política, esse exemplo de abnegação e clarividencia.

A sorte é que já levamos 41 anos de democracia e não lhe vamos virar a pagina. A sorte é que o pior presidente da segunda republica venha num momento em que, contrariamente ao que se tenta fazer crer , o jogo político está estabelecido . A sorte é que já não falta muito para se ir embora.
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De Luís Lavoura a 23.10.2015 às 09:31

o arrojo intelectual que seria de esperar de um académico desempoeirado

Segundo já ouvi Francisco Louçã a sugerir publicamente (ou seja, não em privado), Cavaco Silva é um professor universitário mas não faz investigação científica. Não é, de facto, um académico que tenha o arrojo intelectual próprio de quem investiga. Não passa de um professor. A nível universitário, sim, mas apenas professor.
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De lucklucky a 24.10.2015 às 19:59

É um sinal do nível de abjecto do que é a Esquerda como esta ataca e achincalha sempre pessoalmente os indivíduos de que discorda e lhes estraga os arranjos.

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De Jorg a 23.10.2015 às 09:54

Como alguém disse "faltam uma a duas semanas para todos vermos o ex-alcaide Costa com a lista de ministros que inclui figuras de pico do PC e do BE- tudo o resto é ronha, ressabiamento e mitomanias para entreter"
Abençoado Cavaco, que avisado está - e, não se destrata nem PC nem BE - que, sinceramente, quando se trata deste PR, lhe reservam todos os insultos e despeitos de reportóiro que os indigna quando são eles na mira -, pôs foi o Dr. Costa e a sua legião tão recheada de Socretinada orfã de tacho [e eunuca d'oficio] a pedalar os "trabalhos" que andaram simplesmente a "cigarrar" !
No resto, percebe-se que se passa bastanta tempo a cerzir "narrativa" sobre a condição socio-psicológica de Cavaco Silva, com argumentos daquelas 'natas' lusas, quase sempre 'apesas' ao Estado e para-Estado, que acham que um "esquerdismo" 'engagé' as despoja da sua condição pequeno-burguesa remediada assim que se saem (ou corridos são..) das gamelas estatais.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 23.10.2015 às 10:18

Não indigitar um determinado 1º ministro é uma prerrogativa do Presidente da República. Noutras circunstâncias, Jorge Sampaio também recusou uma maioria PSD/CDS nos Açores em 1996. Que de resto permitiu ao actual presidente do PS governar os Açores com um governo minoritário.
O PS não pode exigir tudo e o seu contrário quando se trata ser governo. Cavaco entende e bem, que um governo de gestão da coligação é apesar de tudo menos gravoso para o país do que um governo da frente popular. Um governo super minoritário liderado pelo maior loser da politica portuguesa, permanentemente dabaixo do cutelo do PCP e do BE seria catastrófico para Portugal para os portugueses, ainda mal refeitos das malfeitorias do último governo socialista que nos desgovernou entre 2005 e 2011.
Se o PS governando sózinho deixou o país no estado em que deixou em 2011, podemos imaginar o estado em que ficaria o país depois da passagem de um governo socialista minoritário apoiado pelo PCP e pelo BE. Seria pior que o tsunami que passou por Fukushima
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De Peregrino a Meca a 23.10.2015 às 12:21

Não indigitar um 1o ministro é de facto prerrogativa presidencial que ninguém criticou. O criticável é o presidente sair do seu quadro constitucional para se imiscuir na política parlamentária. Criticável é que o órgão de soberania responsável pela estabilidade politica e governativa se transforme em agit-prop
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De JPT a 23.10.2015 às 10:55

Não votei Cavaco para presidente e achei lamentável a segunda parte do discurso de ontem (não porque discorde do que foi dito, mas do facto de ter sido este PR a dizê-lo, e pior, quando as circunstâncias não o obrigavam a isso) mas parece-me existir um substancial incoerência no seu raciocínio: se "quando se apresentou como candidato presidencial, e em ordem a afastar os outros candidatos, Cavaco Silva procurou sempre afirmar-se como um referencial de estabilidade, como um fiel e um garante da confiança dos mercados", os Portugueses que votaram nele (e ele teve duas maiorias à primeira volta) não devem esperar que ele cumpra o que prometeu, ou seja que actue "como um garante da confiança dos mercados"? Não lhe parece incompreensível tanta excitação e despesa para eleger, democraticamente e após duro confronto ideológico, o Presidente da República e, depois, exigir-lhe (em regra quem perdeu as presidenciais) que se porte com um notário e não como um político. Mude-se, então, a CRP, e passe o Presidente a ser eleito pelo Parlamento. Ou regresse SM o Rei.
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De cristof a 23.10.2015 às 17:48

O Cavaco prolongou o discurso mais do que necessário, Mas o tiro ao cavaco, não lhe deve merecer uma grande consideração, por dirigentes políticos que, como saltapocinhas , passaram os 4 anos a distratar o presidente, mesmo tendo ele sempre respeitado o formalismo da democracia institucional.
Claro que a falta de consideração demonstra a pequenez dos dirigentes e do valor que eles acham que as suas palavras merecem dos cidadãos : banha da cobra.
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De William Wallace a 24.10.2015 às 03:14

Se mais exemplos fossem necessários acerca da actuação tendenciosa do PR eles foram dados nas ultimas duas semanas com o culminar no discurso faccioso e sectário de ontem.
O actual PR começou mal quando faltou ás comemorações do 5 de Outubro, depois nem sequer esteve para ouvir os partidos e delegou em Passos Coelho essa tarefa (responsabilidade) como bem alertou em tempo útil aqui o LML num texto lúcido e até um pouco fora da caixa para o habitual que poderá ser aqui relido:

http:/ delitodeopiniao.blogs.sapo.pt o-disparate-7806625

Obviamente quaisquer dúvidas que alguns deputados do PS pudessem ter em apoiar um governo encabeçado pelo líder a prazo do PS ficou desfeita, ninguém de lá irá arriscar agora ser um pária mesmo que para isso invocasse interesses mais altos - os da Nação.

A Constituição precisa de ser alterada em muitas regras / preceitos e uma delas diz respeito ao facto de o PR não poder cumprir mais que um mandato, a actuação de Cavaco Silva neste segundo mandato é similar á de Jorge Sampaio ou Mário Soares que nos seus segundos mandatos foram fieis ás conveniências partidárias e não se souberam colocar acima das intrigas palacianas que destroem Portugal aos poucos.

O Povo está farto desta gente que põe os interesses pessoais acima dos da Nação e do Bem Comum.

" A Nação não se confunde com um partido, um partido não se identifica com um Estado. "

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