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Não perguntes

por Bandeira, em 31.01.17

Passo algum tempo no Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social. Algumas caras de assunto perfunctório, outras que podiam ser cavadas num vaso grego. Um homem põe a senha dele a dez centímetros da minha cara. Se faço o favor de lhe dizer em que número vai a senha “C”. O monitor está a dois metros de nós; infiro que não veja os números por estar sem óculos. “Vai no 64”. É o número dele. Observo-o enquanto se atira contra a pesada porta de vidro. Vai aflito. Espero que não perca a casa, o carro, os filhos. Senta-se, a funcionária corresponde aos bons dias. Consigo imaginar o diálogo que se segue. “Enviámos-lhe vários avisos por carta”. “Não duvido, minha senhora, mas vocês ficaram com os meus óculos e eu, sem eles, não sou capaz de ler”.

Não perguntes por quem dobram os sinos.

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5 comentários

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De Einstürzende Neubauten a 31.01.2017 às 15:37

Bandeira, hoje por motivos profissionais estive numa "casa", em que o quarto ficava nas traseiras de uma cozinha de café de bairro, forrado a chapa. Enquanto houver disto nunca me convencerão que estamos melhor.

No outro dia, igual situação, um quarto barraco, mas neste "habitava" uma mulher vitima de violência doméstica. "Vivia" nas traseiras de uma frutaria, num dispensário ou coisa que o valha.

Nos primeiros tempos a amargura e o ódio tomam conta de nós, por termos de ouvir que o país está melhor e etc - a pimenta no cú dos outros é refresco.
Depois ganhamos uma capa de férrea indiferença - um mecanismo de sobrevivência. Ou desejamos que o mundo se afogue num vómito.

Abraço
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De Bandeira a 31.01.2017 às 15:57

Sei de casos parecidos. Conheci até quem morresse de frio numa praia. Quis escrever sobre isso, não fui capaz. Ainda não.
Um abraço
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De ML a 31.01.2017 às 17:00

Vou surpreender-me quando algum jornalista investigar e relatar situações de vivências devastadoras. E não precisará de escarafunchar muito... talvez encontre logo ali ao lado!
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De Bandeira a 31.01.2017 às 20:59

Já o têm feito, ML, uns pelas melhores, outros pelas piores razões, mas as coisas perdem-se na espuma dos dias e este é o tipo de assunto sobre o qual, por vários motivos, as pessoas não gostam de falar. Abraço
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De Einzeturzende Neubaten a 31.01.2017 às 18:56

E o que é mais revoltante é fazer - se da miséria humana meio de aumentar as audiências. É obrigarem as pessoas a uma exposição desesperada. É obrigá-las a perderem a réstia de vergonha e orgulho a que se agarravam. E falo em obrigá - las pois não raras vezes a televisão substitui uma função do Estado que deveria ser efectuada anonimamente e sem aquela exposição. Dizem que o mercado livre da comunicação social beneficiaria o mesmo. Não vejo nada disso. Honra seja feita à RTP que é o canal que menos faz da miséria um espetáculo. Agora os mais maldosos poderiam perguntar: e tu o que fazes!? Bom, não cobro honorários. É a ajuda que para já está ao meu imediato alcance. Abraço

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