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Não os ouçam...

por Luís Naves, em 11.01.15

Portugal não tem um problema com imigração muçulmana e também não tem uma rebelião populista como a que continua a crescer na Europa, numa reacção em torno da ansiedade económica e cultural de importantes camadas da população, sobretudo as que têm menos acesso aos meios de comunicação e às preocupações dos partidos tradicionais. O politicamente correcto que inunda o discurso das elites e que se instalou em força nas redacções está a fazer grandes estragos: muitos eleitores acham que a sua voz não é ouvida e acham até que a sua identidade é desprezada.

O texto de João André, mais abaixo, sobre o movimento populista Pegida, cita um artigo em The Economist que vale por mil palavras. A certo ponto, é citado um cavalheiro que diz mais ou menos isto: os muçulmanos não são um problema, quem não se integrou na República Federal da Alemanha foram os alemães que protestam em Dresden (na Alemanha de Leste). Esta visão das coisas é extraordinária. As pessoas que vivem em locais da Alemanha de Leste não se podem pronunciar sobre as políticas da Alemanha. Os eleitores que vivam em zonas onde haja baixas proporções de imigrantes não se devem pronunciar sobre a política de imigração da Alemanha. Talvez fosse lógico propor que os votos sejam diferentes, consoante se é alemão do Ocidente ou do Leste, se o tema é fracturante ou não. Talvez fosse lógico fazer um catálogo de temas apropriados a manifestações.

Se os partidos não compreendem que têm de ouvir os eleitores não compreendem nada, mesmo quando discordam ou quando mostram caminhos alternativos ou quando provam que o problema não é tão grave como o pintam estes segmentos da opinião pública. Apagar a luz, fazer contra-manifestações ou grandes discursos em que se acusa as pessoas de serem alemães de segunda só irá lançar estes eleitores para as mãos do primeiro demagogo que mostre alguma disponibilidade para os ouvir. Além disto, demonstra grande medo.

Por causa deste género de alienação do eleitorado, os populistas do Podemos estão à frente nas sondagens em Espanha, o Syriza prepara-se para vencer na Grécia, políticos como Marine Le Pen, Nigel Farage ou Geert Wilders são ameaças concretas aos partidos tradicionais, como são outras formações populistas ou extremistas (praticamente todos os países têm uma, à esquerda ou à direita). O fenómeno está a estender-se a toda a Europa e vai dificultar os habituais entendimentos entre centro-direita e centro-esquerda que dominaram a política europeia nos últimos 30 anos. A rebelião populista não vai desaparecer do mapa e alimenta-se da surdez das elites. Resta saber se Portugal também entra nesta dança.

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14 comentários

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De Depuralino a 11.01.2015 às 16:42

O nosso querido ex-batanete diz que votaria no Syriza se fosse Grego. Ainda não percebi é porque não se fez sócio do BE.
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De Vento a 11.01.2015 às 22:54

Qualquer comentário de minha parte só estragará o excelente texto que nos oferece. Parabéns, Luís.
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De Luís Lavoura a 12.01.2015 às 10:16

os muçulmanos não são um problema, quem não se integrou na República Federal da Alemanha foram os alemães que protestam em Dresden

Eu acho que é precisamente isso. Este ponto de vista está perfeitamente correto.

Naturalmente que quem protesta em Dresden tem todo o direito de o fazer, e de estar representado por partidos políticos, mas o facto é que essas pessoas não estão bem integradas na República Federal da Alemanha.
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De Anónimo a 12.01.2015 às 10:32

Comentário apagado.
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De Luís Lavoura a 12.01.2015 às 10:38

De certa forma, sim. O facto é que em 1989 decidiu-se juntar dois povos que, embora falassem a mesma língua, tinham uma experiência cultural e económica muito diferente. Enquanto que o povo alemão ocidental era cosmopolita e multicultural, o povo alemão oriental era fechado e não conhecia estrangeiros (exceto alguns estudantes moçambicanos e cubanos nas suas universidades). O resultado ainda hoje é sentido.

Não estou a dizer que a unificação (ou a anexação, como talvez fosse mais corretamente descrita) tenha sido um erro - os alemães orientais, tal como os muçulmanos, são seres humanos capazes de aprender e de se integrar. Da mesma forma que a imensa maioria dos muçulmanos está perfeitamente integrada na sociedade alemã ocidental, também os alemães orientais progressivamente se vão integrando.
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De Luís Naves a 12.01.2015 às 10:42

Devia haver uma política de imigração para estes alemães de leste
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De Luís Naves a 12.01.2015 às 10:51

Luis lavoura, o seu comentário anterior não está visível, não sei o motivo. Agradecia que o repetisse...
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De Luís Naves a 12.01.2015 às 10:56

Cometi aqui um erro qualquer e o comentário de Luís Lavoura que reagia a este meu comentário não está visível, embora fosse aprovado. Luís Lavoura dizia o seguinte:

"De certa forma, sim. O facto é que em 1989 decidiu-se juntar dois povos que, embora falassem a mesma língua, tinham uma experiência cultural e económica muito diferente. Enquanto que o povo alemão ocidental era cosmopolita e multicultural, o povo alemão oriental era fechado e não conhecia estrangeiros (exceto alguns estudantes moçambicanos e cubanos nas suas universidades). O resultado ainda hoje é sentido.

Não estou a dizer que a unificação (ou a anexação, como talvez fosse mais corretamente descrita) tenha sido um erro - os alemães orientais, tal como os muçulmanos, são seres humanos capazes de aprender e de se integrar. Da mesma forma que a imensa maioria dos muçulmanos está perfeitamente integrada na sociedade alemã ocidental, também os alemães orientais progressivamente se vão integrando."
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De Luís Naves a 12.01.2015 às 10:57

Obviamente, peço desculpa ao leitor.
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De Luís Lavoura a 12.01.2015 às 10:20

Aquilo que o Luís Naves está a defender neste post é que os partidos "moderados", para combaterem os partidos "extremistas" e "populistas", adotem parcialmente as políticos que eles sugerem.
Ou seja, está a defender que os partidos "moderados" passem também eles a ser "populistas" e "extremistas". Em vez de tentar vencer os populistas, deveríamos juntar-nos a eles. Deveríamos ouvi-los atenta e veneradamente, dar-lhes razão, fazer-lhes festinhas e implementar aquilo que eles querem.
O tanas.
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De Luís Naves a 12.01.2015 às 10:38

Escrevi uma coisa muito diferente. As sociedades mudam e os partidos ficam na mesma. Os eleitores querem ser ouvidos e a surdez dos partidos ditos moderados implica o seu declínio. Ou representam a sociedade ou isso será feito por outras organizações. A política que parte do princípio de que as pessoas são estúpidas e profundamente estúpida.
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De Luís Lavoura a 12.01.2015 às 11:20

As sociedades mudam e os partidos ficam na mesma. Os eleitores querem ser ouvidos e a surdez dos partidos ditos moderados implica o seu declínio. Ou representam a sociedade ou isso será feito por outras organizações.

Isso está correto. Os partidos devem ficar na mesma. Porque eles representam certas pessoas que pensam de certa forma. Se as sociedades mudam, então a solução é, precisamente, surgirem novos partidos que representem a nova forma de pensar. A solução não é mudar os velhos partidos para eles passarem a ser aquilo que nunca foram.

Por exemplo, a sociedade grega mudou e o Syriza tem hoje muita força. A solução para isso não é a Nova Democracia passar a defender o mesmo que o Syriza. A Nova Democracia deve continuar a ser aquilo que sempre foi; os eleitores, se quiserem, que deixem de votar nela e passem a votar no Syriza.

Da mesma forma, os partidos que são a favor de sociedades abertas, multiculturais, etc devem continuar a sê-lo. Se os eleitores deixarem de estar de acordo com tais teses, que passem a votar nos outros partidos, naqueles que são "populistas" e "extremistas". Os partidos "moderados" não devem deixar de o ser lá porque a população decide converter-se a teses estúpidas e contraproducentes.
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De Luís Naves a 12.01.2015 às 11:34

Não há nenhum partido que não mude com a sociedade, pois as pessoas que integram esses partidos são sempre diferentes e as elites dirigentes renovam-se. Os socialistas não pensam o mesmo que pensavam nos anos 60 e a regra aplica-se aos conservadores, aos liberais, à esquerda e à direita, a toda a gente. Novas gerações produzem novos temas e novas ideias. As sociedades mudam, os partidos adaptam-se e a comunicação social discute essas mudanças.
Ora, isto já não é bem assim. Aparentemente, os partidos políticos tradicionais estão a perder essa capacidade de adaptação ao seu tempo, talvez por causa do recrutamento de novos elementos ou talvez devido à crispação da linguagem politicamente correcta.
Quando a política não se adapta às necessidades da sociedade, não serve o interesse dos eleitores e torna-se apenas um ritual sem conteúdo. É um dos problemas da democracia contemporânea: as pessoas deixaram de escolher e, acima de tudo, deixaram de ser ouvidas.
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De Luís Lavoura a 12.01.2015 às 11:44

os partidos políticos tradicionais estão a perder essa capacidade de adaptação ao seu tempo

Não. Nada disso.

Não há tempos novos, há é uma maior variedade de pessoas com uma maior variedade de ideias, que exigem uma maior variedade de partidos.

Nos anos 1960 todos os alemães eram a favor da imigração. Portanto, todos os partidos eram pró-imigração.

Hoje em dia passou a haver muitos alemães que são anti-imigração. Mas continua a haver muitos outros alemães são pró-imigração. A solução é surgirem novos partidos que sejam anti-imigração. Não é os anteriores partidos pró-imigração deixarem de o ser.

A solução não é os partidos adaptarem-se. A solução é surgirem novos partidos. Depois vai-se a votos e vê-se que vence.

Eu sou de opinião que os partidos da Marine Le Pen e do Geert Wilders devem ter todo o direito de existir e de, caso isso aconteça, ganharem eleições e formarem governo e implementarem as suas políticas. Não vou à bola com esses partidos, mas acho bem que eles existam e que participem no jogo democrático. Não quero é que os outros partidos se convertam às opiniões xenófobas e racistas desses.
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De Luís Lavoura a 12.01.2015 às 11:35

Por exemplo, aquando da reunificação alemã muitos alemães de Leste não se sentiram representados pelos partidos políticos da República Federal e continuaram a votar no antigo partido comunista da Alemanha de Leste (atual Die Linke). Os partidos da República Federal não alteraram as suas posições, os alemães de Leste é que passaram a votar num novo partido.
Da mesma forma, os tipos do PEGIDA podem, se quiserem, formar um partido xenófobo e anti-islâmico. (Objetivo principal desse partido deverá ser expurgar a seleção nacional de futebol de jogadores arraçados como Mesut Oezil, Sami Khedira ou Jerôme Boateng. Prevejo que terão muito sucesso.) E podem votar nesse novo partido. Não devem é pedir que os partidos atuais alterem as suas ideias pró-imigração.

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